Tá certo, Seo Leôncio?

Quando o personagem principal da novela Pantanal se recusa a falar em política, dá o que pensar. O mais óbvio, e espero que não passe desapercebido aos noveleiros de plantão, é a omissão em colocar todos os pingos nos “is” da questão já que, entre os principais anunciantes da Globo, está o famigerado “agro é pop”. Marcos Palmeira, brilhante ator, faz até que a gente concorde que, ao invés de uma morte comum, a personagem José Leôncio vire espírito de luz, um encantado. Ele e Osmar Prado (Velho do rio) são destaques na novela em que Isabel Teixeira (Bruaca) roubou a cena tornando-se o principal destaque feminino.

Novela, a gente sabe, não é território de educação, exceto para o que não compromete. Para ficar no reino do faz de conta e bancar a legalzinha, certinha, tudo o que é ruim está longe da fazenda, para fazendeiros que não tem nome e endereço. A família Leôncio faz tudo certinho no que se refere ao meio ambiente, à criação de gado. Se bobear, vira tudo santo… E toca o berrante, e toca a boiada! E Maria Bethânia nos faz acreditar que somos todos filhos do Pantanal. Segunda-feira começa outra novela e o Maranhão entrará em cena.

A população distraída com as eleições, alguns só com a novela, nem percebeu o bloqueio de R$ 2,4 bilhões na educação. DOIS DIAS ANTES DAS ELEIÇÕES! Bora entender e lembrar fatos: Quinta-feira aconteceu um debate que foi até de madrugada. Sexta-feira os candidatos correram para ultimar tentativas de voto e, como é hábito desse governo, aproveitando a distração, “passou boi, passou boiada” e fez o corte no orçamento. O segundo! Em junho o governo federal já havia feito outro corte.

Quem sai perdendo? Prioritariamente o pobre! Alunos de baixa renda, usuários dos restaurantes das instituições e, no geral, nos Campi faltará água, luz e verba para pesquisas (para novas vacinas, por exemplo).

Pobre país! Na novela de maior audiência, onde não se vê dinheiro circulando, os jovens personagens são seres absolutamente geniais. Sem estudo especializado, os filhos de ambas as fazendas cuidam de tudo. Tudo! Sabem de tudo, como se cuidar de gado não demandasse, no mínimo, prática. Aliás, quem tem prática e a partir dela um conhecimento extraordinário é chamado de peão. Os outros, pilotam aviões, instalam internet e tocam berrante. Olha como é fácil! O filho mais velho chegou de carona, dizendo-se Zé Ninguém para, em seguida, tornar-se político, pronunciar falas sobre direito melhor que advogado, enfim… basta ter dinheiro para saber das coisas.

Para a maioria da população o estudo é fundamental! Nem todo mundo pode seguir os rumos do pai e virar o que quiser. Muito porque os pais, pretendendo vida melhor para a prole, prefere que os filhos progridam, façam outra coisa. Vi, na minha carreira como professor universitário, a mudança de “clientela” das universidades privadas. Se no princípio tive como alunos os filhos de famílias abastadas, com a abertura de unidades em diferentes bairros e cidades mais o surgimento de programas sociais vi, só na universidade onde trabalhei mais tempo – 26 anos –, o número de alunos ultrapassar os 200 mil.

Por mais delicado que uma educação massiva possa ser, pois com ela ocorrem problemas diversos. Dois exemplos: profissionais qualificados – Professores. Não basta abrir escola, há que se ter gente habilitada – e para exemplificar nas duas pontas da situação, a absorção dos alunos formados pelo mercado. É preciso que abram frentes de trabalho para todos, principalmente os que não tem pais políticos, donos de fazenda, de casas comerciais ou polos industriais.

A chance de uma pessoa progredir sem ser alfabetizada é mínima. Há que, no mínimo, aprender a redigir mensagens e ou formular essas em gravações de WhatsApp. E para ficar nos prestadores de serviço, ter no celular mapas para orientar destino sem saber lê-los não resolve muito. Rola por aí notícias de empreendedorismo e ideias de meritocracia! A matemática é o que nos faz realizar contas mínimas sobre quanto teremos para chegar ao final do mês, quantos anos teremos que trabalhar para adquirir casa própria. E por aí vai…

Cortar verbas na educação é, fundamentalmente, manter o pobre no lugar onde está. Vai afetar pouco a população de classe média, essa que paga convênio médico absurdo. Corta o convênio para pagar o colégio. Deixa-se para depois colocar o aparelho para alinhar dentes tortos e, para depois, também fica a plástica para cortar aqui, aumentar ali… Classe média faz dívidas e pensa que tem casa e carro, quando na real passa metade da vida pagando prestações da casa e a vida inteira pagando prestações do carro. Esnoba a escola pública e paga fortunas para escolas particulares, brigando todo início de ano por conta do preço do material escolar e do aumento das mensalidades.

Quando professor e indo para o trabalho de trem, descendo na Estação Água Branca, em São Paulo, o que mais me incomodava era perceber a quantidade imensa de jovens voltando do trabalho PARA CASA. Poucos iam para uma escola, colégio ou faculdade. Quantos mais por aí? Milhares, milhões? A falta de escola nos leva a ter um número incalculável de pessoas com dificuldades de interpretação de texto, de percepção de contexto, dos pretextos e intertextos dentro de uma determinada mensagem. Está nessa situação uma razão contundente dos efeitos de fake news absurdas. Está na falta de uma educação apurada a dificuldade em entender que em cena como a “última viagem do pai com os filhos, o que Marcos Palmeira fez foi uma ode a princípios básicos da famigerada Tradição, Família e Propriedade. Quantos fãs da novela se perguntam o real significado da personagem terminar falas e cenas com um “tá certo”?

Próxima semana começa nova novela. A educação continuará com seus problemas… E se a gente não fizer algo, terminaremos nossos problemas da mesma forma que o Seo Leôncio. Só que, a gente sabe, “NÃO TÁ CERTO!”

Pequenos lembretes para corações inquietos

“Espinho que pinica, de pequeno já traz ponta” diz Macunaíma via Mário de Andrade. É assim: daqui há alguns séculos, aposto, alguma fã irá encontrar Roberto Carlos e implorar: Cante “Emoções”! E o artista, com vontade de fulminar a cidadã informará sacanamente dividindo o fardo: a Wanderléa está logo ali! E a fã chata correrá para a Ternurinha gritando: “Prova de Fogo”! Cante “Prova de Fogo”!

Ora, caríssimos leitores, diante desse quadro como é que a gente pode pensar em renovação? A gente bem que gostaria de mudanças, mas nem mesmo o Fausto Silva pode deixar de afirmar que “quem sabe faz ao vivo”. Se o fizer, é provável que algumas pessoas terão uma síncope, seguida de desinteria e depressão.

Parece brincadeira, mas tenho cá com meus botões que a coisa é séria. Nós, brasileiros adoramos fixar situações, acontecimentos, tendo notória lerdeza em aceitar transformações e mudanças. Há até os que preferem acreditar na Bíblia com seu Adão e Eva a aceitar a Teoria da Evolução. A monarquia, por exemplo, acabou por aqui em 1889! E a gente não perdeu tempo em compensar o trauma elegendo reis e rainhas do rádio, do maracatu, do carnaval, da bateria, da primavera, sem esquecer as majestades máximas: O Rei Pelé e, of course, o Rei Roberto Carlos!

A mais recente coroa foi para a querida cantora Teresa Cristina, a Rainha das Lives. Tetê, pois temos essa intimidade com a soberana, certamente tem aversão aos escravagistas monarcas brasileiros. O maior problema da monarquia hoje, no Brasil, se reflete no comum “você sabe com quem está falando?”, pergunta algum nobre de araque que, ao encontrar um igual costuma ouvir como resposta um nada original “com um grande merda”. Estabelecida a crise na nobreza a contenda costuma enunciar, de ambas as partes, atributos familiares da mais baixa categoria. Uma beleza!

Uma inverdade, como dizem os políticos com medo de levar umas bifas ao chamar o rival de mentiroso, ou como prefiro, um folclore nacional é que brasileiro não tem memória. Basta um meliante qualquer se vestir de padre e os fiéis filhos de Deus já saem beijando mão, pedindo a benção e acreditando em tudo o que o safado diz. É verdade que o povo religioso tem dificuldade em distinguir a Igreja Católica da concorrência, principalmente quando essa utiliza denominação similar. Também não muda o simulacro de cristão que deseja a morte do próximo, que manda pobres e doentes para longe de si, em seguida entrando no templo e rezando feito anjinho (será que anjos rezam?).

Ao que parece, memória mesmo não existe é em relação à política. Ou, vai ver, o brasileiro não dá a menor importância para os fulanos representantes que mudam de opinião com a mesma rapidez daquele torcedor que muda o humor conforme o andamento do jogo. Fortes indícios confirmam que o eleitor não se importa hoje com as alianças de seus candidatos com os inimigos de ontem. Também nosso eleitor esquece promessas, compromissos, acordos… Político pode trafegar na mais absoluta falta de honestidade que brasileiro pouco se importa, é o que mostram as eleições. Ok, estou exagerando, afinal a lista dos não reeleitos é bem grandinha, mas…

Há gente bem intencionada em nosso país que discute esquerda, direita, centro, progressistas, conservadores, mas o que não muda, de jeito nenhum na geral, na arquibancada ou perante a tv é o deixar tudo isso de lado perante um jogo de futebol. Ou o capítulo final da novela (alguém vai perder Pantanal?). Eleições com grandes quantidades de abstenções e votos em branco é fato permanente e, para não aumentar a lista quero registrar o hábito de que considerável parcela da população não consegue nem mesmo cumprir horários. O relógio foi inventado no ano 725 DC e ao mineiro Santos Dumont atribui-se a invenção do relógio de pulso, mas brasileiro acho que o outro tem a obrigação de esperá-lo! Coisa de gentalha, diria Dona Florinda, o Kiko, do Chaves e eu.

A querida e finada Elke Maravilha dizia que levaríamos uns quatrocentos anos para nos tornarmos civilizados. Tenho comigo que Elke tinha razão. Coisa que os “europeus brasileiros” odeiam é o fato de que a imensa maioria de pessoas que migraram para cá vieram porque a vida em seus locais de origem era uma merda! Mas, se acham europeus! Superiores! Esses devem odiar a cena de Bacurau, o filme em que a forasteira interpretada por Karine Teles leva um tiro na cara após afirmar ser superior aos nordestinos, pois vem do sul, é “europeia”. (Qualquer semelhança com a reação da região sul sobre os votos recebidos por Lula…).

Outra forma de superioridade é o comum “Gente de bem”. Essa categoria, nesse país, costuma roubar, assassinar, mentir, enganar, iludir… O que interessa é aparentar e usar subterfúgios para seguir em frente, mantendo essas coisas na clandestinidade. Gente de bem adora parecer, ao invés de ser. Homens pintam cabelo, mulheres fazem plástica, homens colocam prótese peniana, mulheres fazem ninfoplastia e assim, a relação de coisas que brasileiro faz para enganar o tempo só muda conforme o progresso da ciência. No mais, há pessoas que escondem a idade (isso não muda nunca?), embora estejam há cinco décadas, ou mais, presentes na mídia. O velho e imutável preconceito em relação aos velhos!

Estamos vivendo um período turbulento com o tal segundo turno das eleições presidenciais. E como as atitudes de políticos e eleitores não tem sido as esperadas ou desejadas, a tendência é chegarmos próximos do desespero. A luta está caótica! Bobagem! Acalmemos nossos corações inquietos. O que parece fim do mundo vai virar festa com o primeiro jogo da Copa do Mundo. É certo que irá rolar medo enorme de um novo 7 x 1! Mas, somos brasileiros, melhor futebol do mundo, vencer mais um campeonato vai contribuir para mudar os ânimos e manter as coisas como são. E isso sim, é triste.

No post passado assinalei algumas pequenas, mas consideráveis mudanças. Há outras e se alguém quiser comentar e dizer quais são eu agradeço. Afinal, o que não muda em mim, sertanejo desnutrido, é uma postura Macunaíma. Sou chegado ao vidão marupiara! Por isso vou parar por aqui. Ai, que preguiça!

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Notas:

As duas imagens deste post são do filme Macunaíma (1969) de Joaquim Pedro de Andrade: Paulo José e Grande Otelo são os intérpretes da personagem de Mário de Andrade.

Tá melhorando, é prestar atenção

Sonia, Célia, Luiza e Benedita, em fotos das páginas do Instagram.

“Progredir, progredimos um tiquinho”, escreveu o poeta. Só por aqui, na terra de Mário de Andrade, mais de 156 mil pessoas fizeram de Sonia Guajajara a mulher indígena mais votada do Brasil! Lá pelas terras de Minas elegeram Célia Xacriabá. A Bancada do Cocar nasce timidamente com essas duas cidadãs, o que é histórico início de uma mudança. O povo indígena no poder!

Há mais tiquinho de progresso nessa imensidão de Brasil. Contra todo o etarismo vigente reelegemos duas octogenárias para o Congresso: Dona Luiza Erundina, com 87, e Dona Benedita da Silva, com 80 aninhos recém completos. Percebam, por gentileza, a sutileza da língua pátria: Reelegemos! Essas senhoras nos dão a maior segurança de que farão um excelente trabalho. Lá em Pernambuco, uma novidade: Marília Arraes e Raquel Lyra disputam o segundo turno para o governo estadual. Ou seja, esse cadinho evolutivo tende a aumentar e, se Deus quiser, há de crescer.

Citar Deus é complicado. Nesse aspecto, há uma grande dúvida se houve retrocesso ou se apenas veio à tona o verdadeiro caráter do brasileiro. Cristãos, por aqui, não costumam seguir Cristo. Matam-se uns aos outros, amaldiçoam o Papa e seus representantes… Há um tal de Júlio Lancellotti, muito combatido por fazer uma coisa tornada popular por São Francisco de Assis, por volta do ano de 1200: o Pe. Júlio cuida de pobres, o que deve ter saído fora de moda para os cristãos.

Dona Erundina é católica, lembra bem as tais “carolas” da minha infância: tementes a Deus, honestas e a serviço da comunidade. Não sei se há “carolas” entre as evangélicas, mas me parece ser parecida com Dona Benedita, que tem uma trajetória de serviços aos seus.

Seria um progresso imenso ter cristãos como essas duas senhoras entre nossos representantes – em todas as esferas! Elas se importam com as manifestações religiosas de matriz africana, respeitam os diferentes credos presentes no país e também se importam com o destino dos povos originários, o que as tornará próximas da Bancada do Cocar.

“Progredir, progredimos um tiquinho”, escreveu Mário de Andrade. Tenho cá comigo que quanto mais mulheres no poder, melhor e maior progresso teremos. É bem verdade que elas sofrerão golpes terríveis – como Dilma Rousseff – o que, espero, fiquem atentas para que não ocorra mais. Todavia elas resistem. E persistem! E todos nós vamos ganhando ânimo com essas pequenas, mas fundamentais mudanças em nosso país.

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Obs. O verso “Progredir, progredimos um tiquinho” é de “O poeta come amendoim”, poema que Mário de Andrade dedicou a Carlos Drummond de Andrade em 1924.

A barata, uma fábula

Uma noite tenebrosa, infindável. Nojenta cascuda, saída de conhecido esgoto e, por encantar quem a confundiu com sabe-se lá que coisa, uma barata entrou casas adentro, alojando-se na sala de muitos. Não veio só. Junto com ela toda uma praga de baratas e outros insetos peçonhentos. O acontecimento abriu portas para taturanas, formigas, vespas, além de parasitas da pior espécie.

A barata saíra de um suposto esgoto, foto mostrada anos a fio em telejornal, por onde saia dinheiro pelo ralo em volta de abundantes crimes de toda espécie. Foram tantos e tão bem engendradas histórias de corrupção, unindo diferentes setores e grupos de habitantes do lugar, que permitir a entrada de uma barata e dar a ela o poder pareceu o ideal para muitos.

Parecia brincadeira! Barata, a ciência sabe, contamina tudo por onde passa e transmite doenças cujos nomes assustam humanos: hepatite, lepra, pneumonia e um monte de outros males. A barata era cascuda, mas não burra, sabendo exatamente como encantar mais e mais parcelas da população, valendo-se de velhos preconceitos, ignorância e, sobretudo, boa-fé!

O primeiro encanto do inseto é que, embora com notória dificuldade, conseguia falar publicamente. Tratando por ladrões e corruptos aos rivais, defendia Deus, a família, a propriedade. Quem ousaria ir contra tais propostas? Mesmo sem saber direito o que seja, todo mundo tem um Deus; família, por pior que seja, a gente tende a lutar e a defender a nossa; e, propriedade, quem não tem, sonha com uma.

A outra parcela da população e boa parte do mundo assistiu a ascensão da barata. Ela recebeu grande ajuda quando aliados tiraram de campo o principal opositor. Os meios dessa batalha ficaram absolutamente claros terem sido absolutamente criminosos, mas, até aí a barata já estava no poder. Saíra da sala e tomou o palácio.

Já na meia idade, a barata não estava só. Andara colocando ovos em baratas que geraram filhos para a barata palaciana. Acostumada ao esgoto, a família confundiu o palácio com o regime e vivia na República como se fosse uma monarquia. Não usaram títulos, porque sendo iguais, baratas são mais bem identificadas por números. Barata um, barata dois, barata…

O país com as baratas no poder virou um lugar estranho! De repente começou a ser válida a ideia de que a terra era plana e que baratas sabiam mais que cientistas. Negar eficácia de remédios foi, entre todas, a pior ação das baratas: Mais de setecentas mil mortes – entre essas de algumas baratas e até seguidores delas. A barata valeu-se da vaidade do ignorante – sim, todo ignorante é vaidoso! – para proclamar absurdos de toda ordem, contar mentiras deslavadas e colocar-se acima de toda e qualquer outra autoridade que não a própria barata.

Pesquisadores descobriram que baratas, mesmo estúpidas, têm necessidades de companhia. Nada mais do que alguém com quem dividir bobagens – pode ser em um cercadinho qualquer – ou também em passeios de moto, sempre com uma barata roçando a bunda da condutora, o que é notório momento de felicidade. Desfilam sorriso escancarado, sem destino ou finalidade exceto de mostrarem o que são: nocivas baratas.

As baratas estão aí e não será fácil livrarmo-nos delas. São pragas! Estão se reproduzindo e mesmo que fosse possível realizar um envenenamento em massa teríamos que poluir todo o planeta! Incontáveis ovos estão por aí, além de filhotes, parentes e encantados por baratas que – somando a vaidade ao orgulho da ignorância – armarão formas de continuidade, alimentarão sentimento de vingança. Um velho e eficaz remédio raramente tem sido usado em plenitude, mas é consenso: apenas ele será capaz de resolver a questão.

Há muitos séculos a grande matriz da civilização criou a melhor forma de devolver baratas ao esgoto, um remédio chamado voto. Por tal circunstância escolhia-se quem ficaria no palácio governando os demais: Baratas, Abutres, Lobos, Carneiros, enfim, todo o espectro da fauna assumida por um ser humano poderia pleitear o poder. Cabia ao cidadão escolher o que e quem queria para si.

Reconhecidamente eficaz, essa forma de excluir baratas – mesmo que temporariamente – teve longa e difícil trajetória para ser implementada, alguns problemas presentes ainda em nossos dias. Lá atrás, só cidadãos homens podiam usar tal solução. Mulheres, estrangeiros, escravos ficavam de fora. Uma luta de séculos para que todos tivessem direito a escolher pelo voto. Algo que deveria ser a meta de todo e qualquer indivíduo, mas ainda hoje há os que se abstém, os que anulam… difícil!

Estamos em fase de limpeza. Fora, baratas! E sem lero-lero, quem quiser vestir carapuças que fique à vontade. Eu tenho a ombridade de afirmar que fiz a carapuça sob medida tendo nome e sobrenome da barata que me afeta. Talvez meu voto não seja suficiente para excluir a peçonhenta, mas ele é fundamental. Logo mais estarei lá, com maior prazer do mundo, cumprindo com meu dever de tirar a cascuda peçonhenta e seus pares que, temporariamente, tive de suportar.

Das conveniências dos correntes dias

Quando fiz faculdade, perto de onde supostamente D. Pedro deu o grito, corria um boato de que ao comer um único pastel de feira equivaleria ao sujeito o mesmo que consumir 400 cigarros. Não sei de qual marca. Para tal afirmativa utilizava-se um argumento de autoridade: havia sido um estudo da USP.

Pastel de feira é uma delícia! Popular, barato e temperado com insondáveis iguarias. Na feira que mais frequentei, a barraca do pastel fica às margens da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, ao lado de um corredor por onde trafegam incontáveis ônibus. Estes sobem e nas demais pistas descem caminhões, peruas, carros, motos, alguns veículos expelindo resultados da queima de óleo, gasolina, aditivos, deixando o ar bastante peculiar. O mesmo ar sobre os tachos onde são fritos os pasteis, em óleo trocado diariamente. Só aposta ser verdade essa troca a Velhinha de Taubaté, crédula personagem de Luís Fernando Veríssimo.

Pessoal que frequenta feira livre costuma falar alto, para ser ouvido pelos feirantes que, sem mais nem menos, costumam berrar ofertas. Do outro lado e sem muito recato costuma-se gritar o sabor do pastel desejado. As falas às vezes em conflito com o motor de algum veículo, mais problemas de dicção, desvios dentários, questões de emissão e sei lá mais o que, lançam perdigotos. A gente finge não perceber, mas alguns irão parar no óleo fervente. Um alívio, posto que acreditamos ser o óleo fervente capaz de matar minúsculos e indesejáveis seres.

Quando o alimento do dia é pastel, Euzinho, confiante nos cuidados divinos ataco logo dois. Já tive dias melhores, com dois e meio, três. Depende do tamanho. Feliz com meu pastel de queijo e meu copo com caldo de cana, nada me perturba. Quer dizer, exceto quando tenho que dividir companhia no balcão da barraca com qualquer político que seja. Outro dia fingimos não conhecer uma senhora loira, cheia de assessores, candidata a deputada. Não é porque o ser aparece atrás de votos, invadindo minha serenidade pasteleira que lhe darei atenção.

Pior que político comendo pastel de feira é o que traz a avó para a propaganda eleitoral. Que filho da puta! Não é segredo estar nos meus 67 anos. E convivo com iguais. Tenho me encontrado cotidianamente com uma senhorinha que, braço recém quebrado, ainda na tipoia, está sempre sozinha. Casais de idosos passeiam pela praia, outros pelos jardins. Sempre sós. A questão primordial é que, fora da campanha, durante os quatro ou oito anos de mandato, onde estão os avós dos candidatos?

É conveniente mostrar empatia, devem ensinar os “coachs” dos nossos candidatos: Finja que sente prazer em caminhar por ruas lotadas, abraçando e cumprimentando desconhecidos. Coma pastel, ou qualquer gororoba que ofereçam! Entre em uma igreja, fale de Deus, de um time de futebol, fale da família. E no quesito família, valor máximo, apresente sua vovozinha ao mundo!

Não me incomodam as alianças entre antigos rivais. Afinal, quantos namorados, temporariamente tornados inimigos, não reataram? Também, não me afeta saber que inimigos caminham juntos, pois a gente sabe quantos desafetos convivem na sagrada família. É conveniente conviver com os parentes da esposa, do marido. Mesmo quando insuportáveis! Conviver com a diferença, mais que conveniência, é necessidade.  Como tudo tem limite, os meus estão expostos. Quer meu voto? Deixe tua avó em paz. E vá comer pastel em outra freguesia! Ah! E não me cumprimente se me encontrar na rua. Não falo com estranhos.

Maçã matutina ao desvario: Uma receita

Esta maçã já era!

Linda, suculenta, desejável, cheirosa, apetitosa… e por aí vai. E dá-lhe dentadas. Várias. E toca a mastigar uma, duas, trinta vezes para que a casca seja triturada. O pensamento voa para a primeira vez que vi a Branca de Neve. Não é bom aceitar coisas de estranhos, ensina a história infantil. Maçãs podem estar envenenadas. Com os tais agrotóxicos, quase todas estão envenenadas! Saudade do quintal da minha tia Isaura. Havia uma macieira e ela não usava nada além de água para nos garantir frutas deliciosas.

Branca de Neve vivia com 7 anões (danada!) e após comer a maçã ganhou um príncipe de brinde. Abriram-se as portas do prazer para a mocinha, que seguiu os caminhos de Eva. Dá para imaginar o planeta sem a mordida dada por Eva? Recordo uma cena muda no cinema. Imagens belíssimas, casal bonito andando entre folhas escondendo as partes e, de repente, aparece a serpente. Eva aceita, dá – a maçã – para o Adão e… Vento, calor, frio, dor e prazer. O filme não mostra o casal descobrindo o como se faz indo direto para os filhos. Seriam esses o real castigo divino? “Não diga isso, meu filho”, diria minha mãe, “filhos são bençãos”.

Tenho preguiça de comer maçã. Demora muito e tem um quê de enganar trouxa. A gente para na fruta, não comendo mais nada, cansado de mastigar. Pensa estar saciado, mas não dura muito para que a fome venha, feroz, exigindo “arroz com feijão e um torresmo à milanesa”, para lembrar Adoniran Barbosa e sua música que, certeira e atual, informa a realidade de muitos: “Trouxe ovo frito, trouxe ovo frito” diz o Dito do samba. Certamente não há maçãs de sobremesa nas marmitas desses operários. Também, demorando tanto para mastigar… melhor algo que se coma mais rápido, para logo “puxar a paia” após o almoço.

Os Stollens, cuja receita não vai maçã, e Rita, que faz apfestrudell e outras delícias.

Maçã é fruta cheia de coisas. Quer dizer, uma maçã é só uma maçã. O que estou pensando após o almoço do parágrafo anterior é que torta de laranja é torta de laranja. Já a torta de maçã é apfelstrudell e, segundo consta, a receita vem da Áustria. Rita Della Rocca, minha amiga, faz essas coisas austríacas tipo stollen, que é um panetone austríaco e, segundo o deus google, a receita vem de Dresden. Vou deixar aqui um link para a página do Instagram da Rita que é artista plástica, cenógrafa, professora trabalhando com eco design e cozinha de família.

Último naco da minha maçã que, agora, só existe na foto, na lembrança e temporariamente no meu estômago…

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais…

Adoro essa canção. É do Raul Seixas em parceria com o Paulo Coelho e, embora duvide da igualdade das maçãs e acreditar firmemente “que além de dois existem mais” espero ainda nesta encarnação poder viver, na real, os versos:

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar…

Maçã é uma fruta demorada para se comer. Não é bom para cafés da manhã de quem está em cima da hora para ir ao trabalho. Maçã é bom para Branca de Neve fazer apfelstrudell para a felicidade dos anões mineiros, antes de saírem buscando seus diamantes. Também é uma fruta boa para despertar Adões distraídos. “Venha cá, Adão! Experimente minha maçã!” sem esquecer de um bom preservativo ou outro anticoncepcional… Enfim, maçã é boa para Euzinho, cheio das manhãs preguiçosas, podendo degustar vagarosamente enquanto vou pensando e matutando sobre esse texto que, para finalizar, deseja boas maçãs para todos e envia um beijo especial para Rita, a Della Rocca.

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Notas:

– Torresmo à milanesa, primeira canção citada acima, é de Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro. Os autores fizeram uma gravação inesquecível, com participação mais que especial de Clementina de Jesus.

– A maçã, de Raul Seixas e Paulo Coelho foi gravada algumas vezes. Em enquete totalmente pessoal e com participação exclusiva do autor deste blog, a melhor interpretação é a de Ney Matogrosso.

– Visitem o link da Rita Della Rocca e entrem em contato com a artista para encomendas. Super recomendo!

Travessia

Temos vivido feito equilibristas em corda bamba. Tivemos de atravessar um imenso precipício durante a pandemia, o que não foi conseguido por milhares de brasileiros, milhões no mundo todo. E se falta o trecho final dessa travessia até o controle e extinção do vírus, outra corda já exposta, outra caminhada bamba sob o espaço atual, que pode nos levar a precipícios tão ruins quanto.

Um imenso picadeiro, nosso país povoado de malabaristas buscando sobreviver, um outro tanto de ilusionistas com previsíveis intenções, alguns domadores que não perceberam que os tempos são outros, mágicos de ocasião que prometem soluções precárias, alguns bobos da corte (Para ser palhaço é preciso muito talento!), o mundo inteiro como plateia e nós, pobres brasileiros, equilibristas na vida, caminhando em corda bamba movimentada por imensos interesses, mas com rumo preciso: o resultado da nossa escolha.

Obrigatoriamente em frente, somos bombardeados por informações e seguimos, atônitos, tentando discernir, entre outras mumunhas contemporâneas o real do falso, batizado de fake, a mentira batizada de inverdade. E sabemos que fakes e inverdades são subterfúgios para evitar enfrentamentos violentos pois, disso não há dúvidas, são muitos os criminosos. Há gente que está fora dessa caminhada e aqueles que, pendurados na indecisão flutuam sobre muitas incertezas. Que cada um siga sua corda, seu rumo.

Caminhando sei de minhas necessidades e, por isso, posso ficar sem remédios, já não tenho médicos suficientes nem leitos nos hospitais, muito menos a quantia necessária para garantir o convênio. Sigo caminhando até onde conseguir pagar o preço da gasolina, até onde consiga pagar pela minha cesta básica, até onde consigo garantir o pagamento do aluguel. Não desisto, embora vá deixando a maior parte do pouco que recebo para impostos, e juros pesados do que precisei para sobreviver até aqui.

Entre o início e o fim dessa atual travessia, tropeçando e saltando sobre os obstáculos cotidianos, tornados “naturais”, enfrento um dado aparentemente novo chamado polarização. E percebo, com minha precária formação, que é esta formação a arma principal do opressor sobre meu semelhante. Informação, análise, interpretação, produtos da escola, da faculdade. Livros certamente facilitariam a trajetória, favoreceriam a percepção do vento, a direção da tempestade, a forma de equilíbrio nessa situação para que nos mantenhamos vivos.

Movimentos aflitivos dessa caminhada pela corda chamada Brasil. O outro está armado e anda cheio de cúmplices, protegido por gente que detém meios de comunicação e por outros, piores, que pouco se importam com os rumos que nossas vidas irão tomar. Banqueiros continuarão flutuando sobre juros extorsivos, especuladores vendo tudo de longe, atentos ao movimento de ações, aquelas que “valem” e que não estão entre as nossas tentativas de chegar ao destino!

Gostaria de estar calmo e tranquilo. Todavia a ansiedade é alimentada cotidianamente, a agonia cresce ao ver jornais, telejornais, internet e a angústia vem junto às oscilações dos resultados das pesquisas. Essas sensações todas que nos colocam em estado de aflição e, teimosamente, de esperança.

Caminhando sobre minha corda, vou junto contra as queimadas, contra a destruição das florestas, o desarmamento, os juros extorsivos, a falta de emprego. Caminho rumo a mais hospitais, mais escolas, mais universidades. Vacinado, quero mais vacinas! Mais ciência! Sobretudo, quero DEMOCRACIA. E por tudo isso, principalmente pela liberdade de poder escrever e seguir a vida como penso, que minha corda aflitiva, bamba, sôfrega e paradoxalmente firme tem nome, número e destino. E se você chegou até aqui já sabe: meu voto é Lula 13. O destino? Novas travessias sobre cordas bambas, pois, sabemos, não será fácil.