Mocidade Alegre é a campeã

Salve Jorge Amado! Parabéns, Mocidade Alegre

É fundamental não esquecer que carnaval é uma brincadeira. Perdendo esse caráter o carnaval torna-se algo, no mínimo, chato. Gostaria de refletir, começando por esclarecer que o concurso do Diário de São Paulo não tem nenhuma relação com o outro, promovido pela Liga Independente das Escolas de Samba. Na manhã de terça, muito antes da apuração do concurso oficial, o prêmio dado pelo jornal já apontava como campeã a Mocidade Alegre.

Sobre os fatos ocorridos na tarde dessa terça-feira, no Sambódromo, desejo que os culpados pela baderna e pela desordem sejam processados e que a justiça determine o que fazer com eles. Mas, acima de tudo, desejo que a Liga Independente das Escolas de Samba reveja seus métodos e critérios. E que cada sambista faça uma profunda e honesta reflexão sobre a própria postura dentro do carnaval.

Um aspecto: O que significa nota mínima oito? Todo estudante passa anos estudando para prestar um vestibular e nem por isso chega ao concurso com a nota mínima oito. Não seria justo que todo abnegado trabalhador brasileiro chegasse aos concursos municipais, estaduais ou federais com esse mesmo patamar? Oitenta por cento! Que psicólogos e estudiosos do ser humano esclareçam o que me parece ser incapacidade de submeter-se a julgamento público.

Como professor, verifico com frequência aquele comportamento paternalista que não aceita a nota baixa do filho, espelho e reflexo do próprio umbigo. Normalmente, o sambista – “pai” da comunidade – vem com o discurso de que o povo sofre e dá um duro danado para fazer o carnaval, que o esforço merece ser recompensado, como se as comunidades não entrassem no carnaval por vontade própria. Reconhecer esforço é uma coisa, dar nota para resultado insatisfatório é outra.

Há sempre alguém pronto para discutir a nota baixa, e nenhuma escola – até onde eu saiba – questionou algum dez recebido. Seria interessante ver alguém de dedo em riste, com toda a raiva do mundo, indagando: – Dê-me um motivo para esta nota dez, seu filho da mãe? A razão passa distante desses emocionados questionadores.

Muitas pessoas ficam irritadas quando contrariadas. Outras ficam violentas. A maioria é levada por uma emoção irracional. Todos nós temos justificativas para os próprios erros, mas nem por isso deixamos de sofrer as consequências das nossas ações, das nossas escolhas. Com uma ação coletiva – o trabalho de uma escola de samba – não é diferente. Vi todas as escolas e lamentei tudo o que me levou a excluir uma por uma. Com uma escola foi diferente. Justifiquei minha escolha, assinei e assim está publicado no Diário de São Paulo:

“A Mocidade Alegre apresentou um conjunto de alegorias que ilustram, complementam, esclarecem e enriquecem o enredo. O acabamento foi impecável e a utilização de materiais diversos transformou os carros em pequenas obras de arte. A coerência com o afro e a Bahia é o principal trunfo da escola, fazendo-a merecer o prêmio”.

A Mocidade Alegre avança para levar o campeonato

Meu afeto daria prêmios para as escolas onde amigos desfilaram. Adoro a Bela Vista, mas, sobretudo adoro o samba, adoro o carnaval, e reafirmando meu respeito e admiração por todas as agremiações que desfilaram no sambódromo, neste ano, as melhores alegorias estiveram na Mocidade Alegre. Junto com essas, toda uma série de outros fatores que me deram a certeza de ter tido o prazer de presenciar o desfile da melhor escola deste ano.

Mocidade Alegre, a melhor do carnaval de 2012!

Até mais.

O carnaval paulistano é animal

De pinguim a pelicano, tem quase de tudo no sambódromo. Tem animais fofinhos, tipo os ursinhos e também os mitológicos dragões. Vi muitas andorinhas, que os “teóricos” me matarão ao escrever isso, que é imagem sacra que lembra as festas do Divino Pai Eterno. Cobra, pavão, cavalo, boi… Eu não acho, tenho certeza que não vi um gatinho; nem mesmo o cachorro, reconhecido melhor amigo do homem. Há ferozes tigres e pássaros, muitos pássaros, para contrabalancear a festa.

Impressionaram os tigres da escola Império da Casa Verde; tinham movimento, mas não foram além do que já tenha sido mostrado no sambódromo. Gostei mais dos peixes da Pérola Negra. Embora “fora d’água”, mostraram o trabalho primoroso do artesão da escola.

Há imagens completamente inusitadas. Isso é bom, surpreende. Quando os ratinhos de laboratório, engaiolados, passaram por nós, fiquei admirando a ousadia do carnavalesco e o incrível domínio técnico do artesão que esculpe com precisão todo tipo de pássaro, mamíferos e outros animais, tornados mitológicos, como o cavalo de São Jorge matando o dragão; esta foi uma das melhores esculturas que passaram no sambódromo neste ano; a casinha, no topo do carro, identifica o Império da Casa Verde.

Uma escola deu um show à parte: a Águia de Ouro surpreendeu e consegui, não com a qualidade que gostaria, montar uma “fotonovela” com o show que a escola nos proporcionou na avenida:

.

.

O sambódromo é um local onde o público paga o ingresso inteiro e vê o show pela metade, já que as escolas fazem uma coisa em cada setor da avenida. Nós, que estávamos no começo, vimos quando a águia raptou o integrante da passarela. O que a ave fez com o cidadão, saberemos depois, em casa, rezando para que a televisão mostre alguma coisa; se é que irão reprisar as apresentações das escolas de samba paulistanas.

Finalmente, terminando o “mundo animal do carnaval 2012”, o carro alegórico sobre o dorso da tartaruga; ou seria cágado? Brincadeiras à parte, a Mocidade Alegre fez um grande carnaval neste ano. Uma apresentação digna da obra e do homenageado Jorge Amado e, por isso, minhas homenagens aos integrantes da escola.

É ou não é animal o nosso delicioso carnaval paulistano?

Boa terça para todos!

.

Gente que trabalha… no carnaval

A festa é linda, emocionante. Vamos agradecer e lembrar algumas categorias de profissionais fundamentais para que todos sejamos felizes:

O pessoal que chega primeiro, limpando, pintando, iluminando. Há o pessoal da segurança, técnicos, câmeras, que fazem tudo direitinho para que tenhamos uma festa legal.

Os integrantes de cada escola que somam forças, em verde, branco, preto, amarelo, azul, em todas as cores, com um despojamento invejável e com a alegria de levar a beleza da própria escola para que todos vejam.

Muita força física, muita atenção, muito esforço mental, de pessoas apaixonadas pelo samba, pela escola…

…como esse cidadão, que não mede esforço físico ao longo de toda a passarela do samba. Um esforço extraordinário, uma entrega sem limites. Como será o nome desse incrível integrante da Vai-Vai

sambódromo, carnaval, 2012

Há os cinegrafistas, os excelentes fotógrafos que levam seus equipamentos complexos . Sobretudo, esses profissionais nos propiciam ótimas imagens. A moça aí parecia menor que a máquina, e subia em tudo quanto é grade buscando o melhor momento, o melhor ângulo. As fotos deste post foram feitas por mim, que não sou fotógrafo e que não tenho uma “maquinona desse tamanhão”!

Finalmente, pedindo desculpas aos cozinheiros, garçons, recepcionistas, porteiros, todo um monte de profissionais que não consegui fotografar, concluo lembrando o pessoal que será esquecido pelas melhores notas (O júri, acima em momento relax, com o cantor e ator Tiago Abravanel) e lembrados pelos décimos que impedirão uma agremiação de ganhar um campeonato…

e deixo registrado aqui meu agradecimento carinhoso para Priscila Cirino, que me possibilitou este trabalho delicioso.

Até!

“E se de repente” a gente fosse brincar?

O melhor carnaval é a festa do “e se de repente”.  Sim, em algum momento, num “repente”, o indivíduo resolve ser rei, ou sapo, banana, ou sabe-se lá até onde vai a piração humana. Lá em Uberaba, como em tantas outras cidades do Brasil, um monte de marmanjos resolvem brincar de ser mulher. A fantasia é a mais barata já que basta emprestar roupas de mães, namoradas, irmãs ou amigas e, vestindo toda a composição, exagerar na dose, caricaturar. A diversão é garantida, desde que o mundo é mundo. Todo mundo gosta.

São Luiz do Paraitinga, marchinhas em ambiente aconchegante.

“E se de repente” a gente acordasse a cidade, fizesse com que ela voltasse aos tempos de sempre, alegre e vibrante? E é assim que vejo o carnaval de Olinda, com suas orquestras de frevo, ou as tardes de São Luiz do Paraitinga com suas marchinhas eternizando as ruas da velha cidade. Aliás, as velhas cidades são propícias para o carnaval, pois suas ruelas estreitas convidam ao aconchego. Até os discretos mineiros tornam Ouro Preto barulhenta. É carnaval!

Toda brincadeira, por mais simples, supõe regras. Em Veneza, a regra é usar máscaras.  Em Santos, São Paulo, há décadas passadas, uma regra era a fantasia de papel, para fazê-la desmanchar-se no mar, destino de todos os foliões daquela festa. Há regras licenciosas, tipo “ninguém é de ninguém”, com muitos beijos e, hoje em dia, pouco arrependimento. Há regras comerciais, tipo “só brinca dentro da corda quem tem abada”. Todavia, é carnaval, e o brasileiro inventou a pipoca, para burlar o dono da grana e brincar ao som das baianas maravilhosas e seus caminhões sonoros iluminados.

“E se de repente” a gente levasse o carnaval a sério. Foi assim, penso eu, que surgiram as escolas de samba. Não há brincadeira mais séria do que brincar de ser sambista. Carnavalesco pode fazer as loucuras que quiser desde que mantenha a Comissão de frente, a ala das baianas, o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e outras coisas mais. Para que tudo ficasse o mais certinho possível, criaram os tais sambódromos, onde tudo foi projetado e pensado para brincar seriamente o carnaval.

As máscaras: mistério e romance em Veneza

Tem gente que não gosta. Respeito, mas confesso que tenho dificuldade em entender. Fico pensando: como é que esse sujeito brinca de “faz de conta”? Será que ele não se encanta com a elegância e leveza da porta-bandeira? Não se apaixona pela malemolência da passista? Pelo menos não marca o ritmo com a bateria? E quando Ivete pede “tira o pé no chão”, o cara fica plantado, tipo “to esperando  a condução”? Confesso, tenho dificuldade em entender.

Já quis ser pierrô, mestre-sala, cantor de marchinhas. Gostei, uma vez, de vestir-me de frade franciscano. Fiz das tripas coração para equilibrar um imenso papagaio no ombro, brincando de ser o Santo de Assis. De todos os carnavais, nada supera uma ação pós-baile, na minha juventude: dia seguinte, voltamos ao salão, sujo de tudo quanto é coisa mais montanhas de confetes e serpentinas, para procurar… Uma lente de contato! Tenho testemunhas! ENCONTRAMOS.

“E se de repente” eu me tornasse um mega-star? Aprendi essa com Mafalda Pequenino, uma atriz adorável e querida amiga. Foi ela quem me disse: – “O sambódromo é a minha maior platéia! Todos vão ali pra me ver. E é assim que entro na passarela! Olhem-me, estou aqui, cantando e dançando pra vocês!” Já experimentei a brincadeira. É bom demais. Faço de conta que sou o máximo e entro na onda. Parece que todo mundo me aplaude. Sou o maior destaque da escola.

Finalmente, há também aquela situação: “E se de repente” os planos fossem outros? O carnaval é legal porque preparamos o inesperado para surpreender o outro. A vida é legal porque nos coloca o inesperado. Senhores, não mais serei abacaxi neste carnaval; de repente, os planos mudaram e  parafraseando Chico Buarque,  vou “na galeria” assistindo tudo “na mais fina companhia”.  Com muita honra estarei entre os jurados do jornal Diário de São Paulo, para escolher os melhores do carnaval paulistano que receberão o Troféu Nota 10.

E se de repente… Boa diversão para todos!

Jorge Amado ou Luiz Gonzaga?

Imaginem Jorge Amado e Luiz Gonzaga no sambódromo carioca. Junto com eles um imenso show de morenas vindas das praias de Salvador, ou dos belos recantos de Ilhéus, embaladas na avenida pela lembrança do baião pernambucano, misturando forró e samba. Eita! Pernambuco e Bahia, romance e forró! Grandes demais para virem juntos, Jorge Amado e Luiz Gonzaga serão homenageados pelos sambistas cariocas, em escolas distintas.

Luiz Gonzaga nasceu em Exu, Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912. Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 10 de agosto de 1912. Este será um ano de grandes festas e homenagens no centenário desses dois homens, que são motivo de orgulho para todos nós. A escola de samba Unidos da Tijuca virá com “O dia em que toda a realeza desembarcou na avenida para coroar o rei Luiz do Sertão”. Já a Imperatriz Leopoldinense apresentará o enredo “Jorge, Amado Jorge”. Páreo duro para qualquer coração. Como escolher?

Quando criança, muito criança, mamãe cantava enquanto cuidava de mim:

Tava na peneira, eu tava peneirando

Eu tava no namoro, eu tava namorando… 

Lá nos rincões de Minas fui embalado com canções de Luiz Gonzaga. Depois, já adolescente, a literatura entrou definitivamente em minha vida com “Os Capitães da Areia”. Fiquei, desde então, apaixonado pela Bahia, com seus orixás poderosos e sua gente morena. Através da literatura de Jorge Amado sonhei ser escritor.

No próximo desfile das escolas de samba teremos a história desses dois ídolos contadas pelo carnaval do Rio de Janeiro.  Os compositores do samba da Unidos da Tijuca são: Vadinho, Josemar Manfredine, Jorge Callado e Silas Augusto. Certamente terão o samba de enredo comparado com as inesquecíveis criações de Luiz Gonzaga. Já os compositores da Imperatriz Leopoldinense, Jeferson Lima, Ribamar, Alexandre D’Mendes, Cristovão Luiz e Tuninho Professor serão julgados pela capacidade em sintetizar a magia de Jorge Amado nos versos do samba da escola. Um páreo duro, difícil.

O pavilhão da Unidos da Tijuca

O samba, a bateria, as alegorias, as baianas, as passistas; muitos e variados elementos para narrar a trajetória vitoriosa de Jorge Amado e Luiz Gonzaga. Provavelmente serão décimos que decidirão a escola vencedora. E se a dificuldade fosse escolher apenas entre Jorge Amado e Luiz Gonzaga… O carnaval carioca ainda terá Portinari, pela Mocidade Independente de Padre Miguel, e Romero Brito será lembrado pelo G.R.E.S. Renascer de Jacarepaguá, só para ficar nas personalidades que serão homenageadas pelas escolas. Tem mais, muito mais… Vamos torcer para que este seja um grande e inesquecível carnaval.

.

Até!

.

Abacaxis e bananas! Porque é carnaval

Santo Deus! Vou me tornar um abacaxi! sexta-feira, cinco da manhã, entrarei no sambódromo paulistano, todinho de abacaxi!

Nas vésperas de me tornar um senhor abacaxi, vem à memória uns versos de música da Rita Lee:

Pois as pernas que um dia abalaram Paris

Hoje são dois abacaxis… 

Pois bem, minhas pernas não abalaram ninguém e sempre fui do grupo denominado “perna de pau”, aquele que não joga nada de futebol. E agora, não só as pernas, todo eu serei um abacaxi.

Vamos ao como tudo começou!

O lero-lero: To cansado, o ano mal começando e já estou querendo pendurar as chuteiras. Não agüento mais, a mega-sena não vem, blá, blá, blá…

O carnaval: to cansado; assim mesmo, gostaria de ir pro sambódromo, ninguém quer sair na escola comigo, preciso me enturmar com gente que curte; poxa, nem comprei ingressos ainda; deixa pro ano que vem, blá, blá, blá…

Quarta-feira chega a menina: – Professor, o senhor quer desfilar no carnaval? E eu que sou um cara ocupadíssimo, com mil compromissos, que precisa ponderar e pensar muito para tomar uma decisão, respondo: – Aceito! E, ainda ocupadíssimo, pedi desculpas: amanhã nos falamos! E fui para a sala de aula.

Tamborim batucando não sai da cabeça, vem a lembrança do bumbo marcando feito batida de coração, e o corpo começa a querer mexer, os pés já ameaçam sair no compasso do samba. Vou sair na Sociedade Rosas de Ouro!

O vento sopra magia

Vem viajar na imaginação

Era uma vez, um reino abençoado

Onde imperava a igualdade

Justiça e liberdade…

“Caraca – pensei – desse reino vou ser um nobre!” Nos meus delírios que começaram logo após ter nascido,  se é pra ser da nobreza, meu lance é ser duque. Nem rei, nem príncipe e, marquês só o nome da avenida onde está o meu outro local de trabalho. Meu lance é ser duque. E ser anunciado com pompa e circunstância: – Senhores, está presente no recinto, o ilustríssimo Valdo Resende, Duque de Uberaba!

A maionese acaba, o delírio passa e volto a ser “minerim, que tá bom demais, sô!”. Acontece, que a Rosas de Ouro “no ano do seu aniversário de 40 anos, se inspira na história da Hungria, uma lendária terra de reis, guerreiros e justos para contar a saga de bravos homens que acreditaram em seus sonhos…”

O autor de enredo, Darlan Carneiro e o carnavalesco Jorge Freitas, mandaram bem na sinopse: “Contaremos a saga de um fictício Rei húngaro (Janos ) que viu seu reino ser invadido pelas forças do mal, obrigando-o a partir e a deixar para trás o solo que por justiça era seu, o solo sagrado de seus ancestrais. Em busca de uma nova terra onde pudessem viver seu sonho de justiça e paz, chegam ao Brasil, esta pátria mãe gentil, que lhes acolhe e oferece um pedaço deste chão.”

Baixou aqui no “minerim” a personagem de Guimarães Rosa e repeti a famosa frase de Augusto Matraga; “- Todo homem tem sua hora e sua vez, a minha há de chegar.” E a minha vez de ser nobre chegou!

É mais que um caso de amor

Rosas de Ouro, razão do meu viver!

Trazendo a Hungria no coração

E o sonho de ser campeão! 

Voltei dia seguinte na faculdade para saber um pouco mais. Tentando abrir brechas na agenda para ensaios na quadra, ensaio no sambódromo, sonhando com a nobreza mineira defendendo a “Roseira”. Vi todos os detalhes do enredo, em homenagem ao povo húngaro na figura de seu representante mais famoso no Brasil, Roberto Justus. E com o pensamento elevado na mais alta aristocracia européia fui ao encontro de Lucielen, ansioso, perguntando de cara: – E então, em qual ala vamos desfilar? Qual é a minha fantasia?

– Abacaxi!

Tive uma idéia do que foi a guilhotina para a nobreza francesa.

– Abacaxi?

– Abacaxi, ela confirmou.

Comecei a rir e – lógico – que um ser delirante, olhando o site, não tinha prestado atenção na fantasia de abacaxi! Fiquei imaginando, lembrando de carnavais anteriores e antecipadamente, já estou muito feliz. Vou brincar na avenida; vou sambar e cantar com todo o povo da Rosas de Ouro:

…Vou coroar essa conquista

Honrando as cores do meu pavilhão 

É mais que um caso de amor

Rosas de Ouro, razão do meu viver!

Trazendo a Hungria no coração

E o sonho de ser campeão!

Acordo após mais uma noite de calor infernal, feliz em ser um abacaxi na avenida e, ao abrir o Facebook , dou de cara com uma foto do meu querido Fernando Brengel vestido de banana. O distinto sairá na Ala das Bananas da Pérola Negra. Outras risadas e uma primeira conclusão sobre o carnaval 2012. Neste ano, vai dar fruta na avenida!

.

Bom final de semana!

.

.

Fundamental: O enredo da escola é “O Reino de Justus”. Os compositores do samba de enredo, dos versos citados acima, são: Léo do Cavaco, Rogério Morgado, Leonardo Lima, Eric Lisboa, Luciano Godoi e Cleverson Japa. Fico feliz e honrado em poder defender as cores da Rosas de Ouro neste carnaval. Meu especial agradecimento para Lucielen, pelo convite.

Maria Dalmácia e Tueris Fustado, flores paulistanas

Morar na Avenida Paulista, no começo da década de 1980, tinha certo charme. Mesmo que este tal charme (segundo uma definição de quando eu era adolescente, charme é aquilo que tem as mulheres de seios grandes!) seja indefinível ou algo que esteja, ainda que tardiamente, no inconsciente coletivo.  Para quem era novo na cidade e não distinguia bairros, subúrbio, cidades satélites, a possibilidade de residir na Avenida Paulista era o máximo!

O Baronesa de Arari, as árvores do Trianon, em frente ao MASP

Pelas tramas do destino iríamos morar no Edifício Baronesa de Arari. Tudo de bom! O prédio fica na Avenida Paulista, esquina com a Rua Peixoto Gomide, com todo um lado voltado para o Parque Trianon e, de quebra, do outro lado da avenida está o MASP, o Museu de Arte de São Paulo. E isso é só um pequeno aspecto da geografia da região.

No Baronesa de Arari morou a lendária atriz Cacilda Becker com o marido, o também ator Walmor Chagas. Consta que lá foi o lar de Sérgio Cardoso, outro ator que entrou para a história do teatro nacional. Não bastasse essa trindade de semideuses do teatro, estão no histórico do edifício o pianista Pedrinho Mattar e Elke Maravilha; esta dando um toque pop ao ambiente.

Lógico que não tínhamos idéia dessas coisas. Assim como não sabíamos que o Baronesa de Arari foi o primeiro edifício residencial da avenida, e que herdou o nome de distinta nobre, D. Maria Dalmácia, da estirpe de indivíduos raros, os  ditos “paulistanos quatrocentões”. Pepê, minha amiga, conseguira alugar um apartamento com três quartos; com ela e outros dois amigos, dividiríamos a moradia na “ala nobre” do edifício, já que a outra, com quitinetes, era o “lado popular” do local.

Lados e cores distintas. Na parte clara, os apartamentos menores.

Quatro amigos somando forças; algo tipo “a força do proletariado” unida para morar bem na capital paulista. Nossa origem modesta ficou bem definida na chegada. Embora com destino à “ala nobre” subimos a Rua Augusta com um monte de cacarecos sobre um caminhão, onde Giba e eu ríamos muito, misturados a caixas, sacos e móveis. Na cabine, ao lado do motorista, as distintas damas. A Rua Augusta ainda era, para este que vos escreve, aquela das lojas para ricos e dos boys daquele rock tupiniquim de Hervé Cordovil:

Subi a Rua Augusta a 120 por hora

Botei a turma toda do passeio pra fora

Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina

Parei a quatro dedos da vitrine

Hi, hi, Johnny…

Subimos lentamente com o velho caminhão. Mais pau de arara impossível! Não posso afirmar pelos outros, mas eu estava feliz. Já conhecia a avenida (quem passa por aqui sabe que a Paulista foi meu primeiro endereço na cidade) e voltar era muito bom. E não para uma pensão, mas para um apartamento enorme, espaçoso e, dito Baronesa, definitivamente um local nobre.

A decadência da aristocracia é uma coisa tão antiga que só eu não havia percebido que o fim já havia chegado inclusive naquele endereço da Avenida Paulista. Foi só descarregar a mobília, e levar para o elevador de serviço, para ouvir de uma moradora: – “Se eu fosse vocês não subiria por aí não; esse elevador caiu na semana passada!”.

Pronto. O edifício visto segundos antes como um castelo, virou cortiço. O grande cortiço, um “joga-chave”, pardieiro, uma favela vertical… Com muitos problemas exteriores e, interiormente, embora confortável, havia um problema tenebroso no apartamento. Um vazamento do banheiro do andar superior obrigava-nos a usar guarda-chuva em toda e qualquer utilização do vaso sanitário. Sem direito a reclamações, já que um processo em andamento ameaçava a interdição do prédio, o que ocorreu posteriormente.

Ficamos lá por um bom tempo, com várias configurações de moradores, permanecendo sempre juntos Beth, Pepe e Eu. No final do contrato já tínhamos a companhia de Claudio e fomos morar na Vila Mariana onde um monte de outras coisas foi acrescentado às nossas vidas.

Poderia contar outras histórias do Baronesa de Arari. Deixa para outra oportunidade. Há um livro sobre o edifício (José Venâncio de Resende, Baronesa de Arary: nobres, pobres, artistas e oportunistas) e, neste momento, outros amigos moram por lá. Por enquanto, termino com uma dúvida: teria D. Maria Dalmácia, a Baronesa de Arari, conhecido Tueris Fustado, a menina que “desabrochou como uma flor selvagem, deslumbrante e caprichosa”?

Tueris Fustado é personagem que dá titulo ao romance de Octavio Cariello, Tueris, que será lançado no próximo dia 11, sábado, das 17h30 às 21h30 no Espaço Terracota. Avenida Lins de Vasconcelos, 1886. Reitero convite para o lançamento. Como o Martinelli, o Sampaio Moreira ou o Baronesa de Arari, o Tueris também é local de grandes histórias.

 .

Até mais!

.

Em tempo, o Baronesa de Arari está firme e forte, longe de ser o local ruim que um dia foi. Os nomes de amigos, aqui citados com certa sutileza só serão revelados pelos próprios, caso queiram, nos comentários (o que me deixaria muito feliz).