Alguns fatos sobre o Martinelli

Quem viu as matérias na televisão sobre os desabamentos dos edifícios, no Rio de Janeiro, soube que rolou um “puxadinho”, uns acréscimos na construção. E ficamos todos horrorizados, embora a prática aconteça desde os primórdios do surgimento de edifícios no país. Não é exagero: o Prédio Martinelli, o edifício histórico de São Paulo, foi projetado para quatorze andares, inaugurado com doze e depois foi crescendo, crescendo, até chegar aos atuais trinta andares.

Sem receios. A construção é sólida. Quem puder conhecer o Prédio Martinelli deve torcer para que a visita ocorra em um dia ensolarado. De lá avista-se uma São Paulo maravilhosa. Os guias, muito amáveis, mostram e identificam diferentes pontos da cidade. E vão, enquanto isso, contando a história do Martinelli.

A idéia de luxo ainda está presente, em lustres magníficos pelos corredores, nas três entradas do edifício. Pela Rua São Bento é mais convencional, parece um edifício comum. Pela Avenida São João é tipo entrada de visitas – é por esta que os turistas são recebidos – e a mais elegante, com uma sobriedade delicada, é pela Rua Líbero Badaró.

Atual sede de secretarias, e outras instituições do município, o Prédio Martinelli não faz parte do roteiro turístico oficial da prefeitura. Isso implicaria em “incomodar” secretários e outras autoridades, contratar pessoal especializado. De qualquer forma, quem vence a burocracia e procura o local é bem recebido.

No topo há a mansão do Comendador Martinelli. Este mandou que fosse construída para que os paulistanos de então tivessem a certeza de que a construção não ruiria. E essa não foi a única confusão envolvendo o Martinelli.  Sem grana para concluir o prédio, o Comendador  Giuseppe Martinelli vendeu parte do conjunto ao governo italiano. Após a Segunda Grande Guerra o governo brasileiro tomou o prédio para si.

Os tempos de glória do Martinelli influenciaram o entorno. O charmoso edifício valorizou a redondeza e só veio a conhecer o declínio nas décadas de 1960 e 1970. Contou-me o guia que o Martinelli foi invadido por indigentes, tornando-se um imenso cortiço. O vão central, para respiro, virou depósito de lixo e, pior, serviu de cemitério clandestino para um tarado que seviciava crianças, assassinando-as e jogando os corpos no grande lixão em que o edifício foi transformado.

Retomado e reformado no final dos anos de 1970 o Prédio Martinelli guarda muitas histórias. De si, dos vizinhos famosos como o Banespa, a Bolsa de Valores. O guia mostrou-me estes e vários outros. Do prédio incendiado ao espaço deixado pelo outro, tornado favela vertical. Como tive a sorte de estar lá em uma manhã de sol, céu límpido, pude ver até a Serra da Cantareira e o quanto ela está sendo invadida, destruída pelas mãos humanas.

Poderia escrever um pouco mais sobre o Martinelli. Prefiro deixar o convite para que façam uma visita ao local, bastando agendar com antecedência (011 3104 2477). História inteira de um edifício e de seus moradores quem contou foi meu amigo Octavio Cariello. Está em livro, chama-se Tueris e será lançado no próximo dia 11. Então, deixo aqui dois convites: um para que visitem o Prédio Martinelli e outro para que conheçam o livro de Cariello. Esses locais são pequenos mundos, com vida própria, parte da grande galáxia que é a cidade de São Paulo.

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Bom final de semana!

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Nota:

O lançamento de Tueris será no dia 11 de Fevereiro. E o melhor é deixar visível o convite para todos vocês.

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Diplomatas em cordel

No final do ano fui presenteado por Cadu Blanco com alguns folhetos de literatura de cordel. Quando um professor ganha um presente desse tipo – algo genuinamente representativo da cultura brasileira – pensa: “- nem tudo está perdido!”. Muito bom saber que um jovem universitário paulistano tem interesse por essas manifestações e, entre nós, fico feliz quando sou identificado como apreciador dessas formas artísticas.

Folheto de Cordel
Diplomatas brasileiros como tema para a poesia de cordel

Quem já visitou uma feira nordestina, dessas bem típicas, pode ter tido a sorte de ver, bem de perto a ação de um poeta de cordel. O sujeito apregoa loas sobre seu homenageado da hora, declama partes do texto, estimulando o público a comprar o folheto de cordel.

Um registro dessa ação, em outra forma artística, pode ser vista na peça teatral “O Pagador de Promessas”, também levada ao cinema e, portanto, disponível em vídeo. Na peça, Dedé Cospe-Rima é um personagem, criado por Dias Gomes, que transita pelos arredores da Igreja. Como bom poeta-comerciante, expressão do teatrólogo, Dedé vende o “ABC da Mulata Esmeralda” e outro folheto, notadamente bem humorado: “O que o cego Jeremias viu na Lua”.

Fui presenteado com cinco biografias. Uma do cordelista Chico de Assis, “Augusto Frederico Shmidt – um autêntico brasileiro”. As quatro restantes de Crispiniano Neto: “Rui Barbosa”, “Alexandre de Gusmão, Gênio e Herói Brasileiro”, “Barão do Rio Branco” e “Gilberto Amado”. Para quem conhece um pouquinho sobre essas personalidades históricas brasileiras, sabe que elas estão ligadas ao universo da diplomacia nacional. Daí não estranhar que esses folhetos tenham sido publicados pela Fundação Alexandre de Gusmão que é ligada ao Ministério das Relações Exteriores.

Dois exemplos da poesia de cordel

Impossível não pensar que seria óbvio que os folhetos fossem publicados pelo Ministério da Cultura ou da Educação? Bom, o Ministério das Relações Exteriores está envolvido com, por exemplo, dois grandes e próximos eventos: A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Eu espero, sinceramente, que seja para os eventos esportivos, seja para outros, como a Feira Internacional do Livro de Frankfurt (em outubro deste ano), o Ministério das Relações Exteriores inclua entre os brindes, os mimos que fará aos nossos convidados, ou àqueles que nos receberão na Alemanha, um kit com os folhetos de cordel.

Na América do Norte não sei, mas tenho certeza que os europeus reencontrarão uma velha fórmula, já que o cordel tem origem lá, no Renascimento, tendo se popularizado a partir do surgimento da impressão por tipos móveis. As histórias contadas e cantadas em versos populares sempre encantaram o mundo e, quem sabe, esta não seja uma ótima oportunidade para a popularização do cordel brasileiro?

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Boa semana para todos!

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Versos de Mário de Andrade para comemorar São Paulo

Cidade completa, cheia de passado e presente...

Fazendo o caminho contrário dos Bandeirantes, pela via de mesmo nome ou pela Anhanguera, sempre me senti em São Paulo quando o ônibus ou o carro corria paralelo ao Rio Tietê. Sei, por anos de estrada, que a paisagem urbana é vista a partir do quilômetro 31 da Rodovia dos Bandeirantes. Cidades periféricas, os primeiros bairros e a cidade mesmo era o encontro com o rio parado, lamacento, escuro e denso.

Meu rio, meu Tietê, onde me levas?

Sarcástico rio que contradizes o curso das águas

E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens

Onde me queres levar? (1)

Como qualquer migrante, temeroso ante o desconhecido, ávido para alcançar o futuro almejado, pouco sabia da cidade. O Pico do Jaraguá não era a cidade. A Editora Abril, a igreja de Nossa Senhora do Ó, o Estadão, o Play Center… aí sim, tinha a certeza de haver chegado na cidade que escolhera para viver.

Sou o compasso que une todos os compassos...

Sonho ser poeta e sinto-me distante ainda da poesia que São Paulo merece. Daí recorrer a Mário de Andrade para, nestes 2012, comemorar dignamente os 458 anos da cidade. Não sou poeta; sou antropófago tal qual Oswald de Andrade sugeriu. Por isso, aproprio-me dos versos do poeta da cidade, e tal e qual Macunaíma, faço-me parte do Clã do Jabuti e defino-me nestes versos:

Sou o compasso que une todos os compassos

E com a magia dos meus versos

Criando ambientes longínquos e piedosos

Transporto em realidades superiores

A mesquinhez da realidade. (2)

São Paulo tem a dimensão do mundo, e a síntese humana é reconhecida, visível, habita na cidade. A cidade é “Europa, França e Bahia”. Tudo e todos são bem recebidos e a capital paulista é a verdadeira síntese da miscigenação brasileira, indo além do português, do índio e do africano. Aqui, a japonesa namora o árabe, o grego namora a chilena e assim, tudo junto e misturado, vive o dia-a-dia da cidade.

Ninguém ignora a inquietação do clima paulistano…

Desta cidade histórica, desta cidade completa,

Cheia de passado e presente, berço nobre onde nasci. (3)

Nasci em Minas e nasci em São Paulo. Se lá foi onde tudo começou, aqui fui me completando. E como eu, milhões. Lar, amigos, trabalho, escola, enfim, tudo somado ao que trouxe de Uberaba. Refiro-me a esta como minha cidade, e refiro-me a São Paulo como minha cidade. Geminianamente dividido retorno aos versos de Mário de Andrade:

Quando eu morrer quero ficar

Não contem aos meus inimigos

Sepultado em minha cidade

Saudade(4)

Sem mortes, sem tristezas. Hoje é aniversário da cidade de São Paulo. Que muitos possam, como eu, agradecer e comemorar com propriedade mais um ano da nossa cidade. Quem souber que faça versos; quem for capaz que componha canções. Todavia, que a cidade que acolhe tanta gente, receba o afeto, merecido, de todos que aqui vivem.

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Parabéns, São Paulo!

Quando eu morrer quero ficar...

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Até!

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Referências:

(1) Meditação sobre o Tietê – Mário de Andrade

(2) Clã do Jabuti – Carnaval Carioca – Mário de Andrade

(3) Marco da Viração – Momento – Mário de Andrade

(4) Lira Paulistana – Quando eu morrer – Mário de Andrade

divulgação sbt

Rivalidade entre cantores! Quem ganha com isso?

Ontem, lembramos a morte de Elis. Em post anterior recordei Nara Leão – que faz aniversário no dia em que Elis morreu – e também Maysa. Três cantoras que namoraram, em épocas distintas, o mesmo homem. Li uma matéria publicada no UOL chamando a atenção para a “rivalidade” entre Elis e Nara. Incomodou bastante a agressão ao integrante da banda Restart. Daí a reflexão!

divulgação sbt
As "rivais" que vendem discos e lotam shows

Tudo indica que é condição do ser humano querer ser o melhor. Alguns confundem melhor com “os mais bonitos”, os “mais gostosos” e por aí vai. Se a coisa caminha pelas tramas do gosto – pessoal, autônomo, ou mediante a adoção de patamares acordados por um grupo – o indivíduo precisa ter a clareza da relatividade da situação que elege o mais bonito, a mais gostosa, os mais “tudo”.

Há que se ficar alerta e não confundir o melhor com resultados circunstanciais, como a audiência de um programa de TV ou a vendagem de discos, livros ou revistas; o melhor pode ser medido, aferido, comparado, estabelecido a partir de regras precisas. Mesmo gostando de alguém – a querida Nara Leão, por exemplo – são padrões reconhecidos em todo o planeta que determinam Elis Regina como melhor cantora. Afinação, extensão vocal com domínio de graves e agudos e além de uma incapacidade incrível de, ritmicamente, dividir uma música, ou seja, colocar a frase verbal de forma peculiar dentro da melodia estão entre os itens que caracterizam Elis Regina.

Com a Bossa Nova, João Gilberto acabou com a tirania do “dó de peito”, das vozes volumosas. Um caminho onde Nara Leão reinou com absoluta tranqüilidade. E aqui cabe citar uma qualidade de Nara: a capacidade de interpretar uma canção com total suavidade e leveza. As trajetórias musicais de Elis Regina e Nara Leão são parecidas, mas distintas, pois ambas são dotadas de personalidade e caráter ímpar.

A rivalidade é uma coisa forte, intrincada, na vida de todos nós. Vamos lembrar algumas?

Começa geralmente na escola um certo Meninos X Meninas que na vida adulta resulta em Homem X mulher; passa pela rivalidade de cidades como Rio de Janeiro x São Paulo ou lá, na terrinha, Uberaba x Uberlândia. Chega aos grandes inimigos do futebol Corinthians X Palmeiras, bem local, e às eternas disputas entre Brasil X Argentina, Uruguai, Franceses, Ingleses, Italianos… Continuando em quase todos os aspectos da atividade humana.

Martinha e Wanderléa. As "rivais" da Jovem Guarda.

No campo da música há rivalidades históricas! São facilmente lembradas: Marlene X Emilinha Borba, nos tempos áureos do rádio; Nara Leão X Elis Regina na época da Bossa Nova; Wanderléa X Martinha durante a Jovem Guarda; Maria Bethânia X Elis Regina nos anos 70; Maria Bethânia (de novo!) X Simone nos anos 80…Recentemente, Sandy X Wanessa e atualmente, Ivete Sangalo X Claudia Leitte.

Psicólogos afirmam que a rivalidade entre mulheres é uma coisa velada e que entre homens é escancarada. Dois bons exemplos: Roberto Carlos e Paulo Sérgio, na Jovem Guarda, levando RC a gravar um disco, “O Inimitável”, em franca guerra contra o “rival”. Outro exemplo, em outra área, as farpas constantes no embate Pelé x Maradona.

É bom notar – fácil obter isso em pesquisa – que são revistas, jornais e similares que criam essas rivalidades e vendem absurdo com elas. Estão quentes na memória as insinuações quanto à pinimbas entre Ivete Sangalo e Claudia Leitte; as duas correm para desmentir desafetos. Ou seja, vende-se a “briga” e fatura-se um pouco mais, com a “reconciliação”.

Há, por outro lado, rivalidades verdadeiras, advindas de choque entre indivíduos de um mesmo grupo buscando impor sua maneira de ser, de criar. O mundo do Rock é rico em histórias, algumas irreconciliáveis. Pessoas que iniciaram um trabalho e que, com o conflito estabelecido, deram outro rumo às próprias carreiras. O mais clássico dos exemplos, John Lennon X McCartney e, no Brasil, Rita Lee X Arnaldo Batista. A lista poderia crescer bastante!

Lamentamos o fim dos Beatles, o rompimento entre os primeiros integrantes de Os Mutantes. Mas, é bom ressaltar que nesse tipo de conflito continuamos ganhando. Cada indivíduo, no caminho escolhido, deixou ou tem deixado um trabalho digno dos grupos onde tudo começou. Com esse tipo de rivalidade, ganhamos. Com pinimbas criadas pela imprensa, ganha o dono do jornal! Embora seja fato certa cumplicidade entre a imprensa e alguns “rivais”.

Há artistas que só aparecem quando brigam com alguém, enquanto outros artistas passam ao largo dessa história de rivalidades. Gal Costa, por exemplo, foi amiga de Elis Regina e é amiga de Maria Bethânia. Ninguém conseguiu estabelecer uma briga entre Gal e quem quer que seja. É constatável historicamente que Bethânia espetava Elis afirmando ser “Gal é a melhor cantora do Brasil”. Gal, tranquila desde sempre, canta. Longe das encrencas das colegas.

Gal Costa soube neutralizar fofoqueiros sendo amiga de Elis e de Bethânia, assim como Ivete Sangalo soube neutralizar uma possível rivalidade com Daniela Mercury, declarando-se sempre fã da colega. Uma tática infalível, que não vingou em relação à Claudia Leitte.

Hoje é reconhecida a falsa rivalidade entre Marlene e Emilinha Borba nos tempos da Rádio Nacional

Verdadeiras ou falsas, as rivalidades resultam em sofrimento para aqueles que estão vivendo a situação, os próprios rivais. Gera frustração, tristeza, ciúme, inveja. No futebol, por exemplo, gera violência e morte; mas, como ficariam os programas esportivos sem esse aspecto? Complicado… Principalmente quando certos fãs confundem as coisas e resolvem jogar pedras em cantores e músicos.

É necessário que o indivíduo reconheça no artista, ou no time de futebol, as qualidades que tornam esses os melhores. Sem confundir com afeto, simpatia. Se não gostamos de um artista, basta evitá-lo. Agora, atirar pedra – Literalmente! – em um artista é, além de um crime, uma demonstração absurda de baixa auto-estima. Se for necessária violência para que reconheçam o “seu” artista como melhor, que raio de artista é esse? E que público é esse!

Um artista é bom ou ruim. Outra coisa é afeto. O que não pode é alimentar a rivalidade baixando o nível e chegando à violência. No futebol esta, em grande parte, é fruto de uma “guerra” alimentada em programas esportivos de rádio e televisão. Há que se rever os “jogos de vida e morte” para que estes não cheguem aos shows de música. Se vaias são desagradáveis; pedradas são inaceitáveis.

Bom final de semana!

Nossas escolhas culturais ou meus dias de Michael Jackson

Sem querer colocar dedo em alguma ferida; também não quero oferecer carapuças sem que me peçam. A intenção é refletir e, sem receio, mostrar experiências recentes.

Visitei alguns lugares na semana passada; o objetivo primeiro era escrever sobre os mesmos aqui no blog. Estamos em férias, vamos aproveitar! Estranhamente, os locais estavam vazios. Muito vazios. Postei uma única foto do espaço atual do Museu do Theatro Municipal e registrei a presença de um único rapaz, que chegou lá com um casal. Aqui outra foto, novo ângulo, do espaço pouco visitado.

Um imprevisto impediu-me de visitar Jennifer Monteiro (e faço questão de registrar aqui meu pedido de desculpas!) e resolvi voltar e refazer o itinerário anterior, em plena tarde de sábado, com um amigo. Foi por estar em agradável companhia que posso postar a próxima foto. De caso pensado, pedi uma imagem que deixasse evidente minha “solidão”. Ficou assim:

Brincamos e lembrei-me de Michael Jackson que fechava grandes lojas para não ser perturbado enquanto fazia suas escolhas. Em momentos ranzinzas já sonhei ser o Rei do Pop e fechar alguns museus para não ser perturbado pelo excesso de visitantes.

E não é que eu estava tendo um belo dia de Michael Jackson! Vejam! Imensos e belos espaços culturais a minha disposição. Guardadas as devidas proporções, não sou superstar, nem preciso de seguranças para caminhar pela cidade. Apenas de um “assessor” para fotos.

Fomos almoçar no shopping mais próximo e este sim, estava lotado. Filas para tudo. Caixas das lojas, escadas rolantes, praças de alimentação. Filas de consumidores vorazes.

As pessoas consomem aquilo que querem; aquilo com o qual se identificam. É um direito. Outro direito é esculhambar as escolhas alheias. E quando criticam algo publicamente, abrem a possibilidade de debate, mesmo quando a crítica é avassaladora, quase condenando ao extermínio aquele que não compartilha do mesmo gosto.

Há um imenso espaço nas redes sociais usado pelos críticos do cantor de sucesso da hora, do reality show do momento, só para ficar nos exemplos atuais que recebem opiniões contundentes. Ok! Repito que as pessoas têm o direito de criticar, penso que devem exercitar esse direito. A questão é que visitei um terceiro lugar… Também vazio.

É lamentável que em dois dias distintos, em pleno mês de férias, em dias ensolarados, belos espaços culturais da maior cidade da América do Sul estejam vazios. Em todos os lugares aqui evidenciados a entrada é gratuita!

Sinceramente, pouco ouvi a música de sucesso da hora. E só vi cenas do atual reality show enquanto aguardava o programa sobre Dercy Gonçalves. Longe de bancar o esnobe! Sigo “Mulheres de Areia” religiosamente e reitero minha paixão pela “Viúva Porcina”, na reprise de “Roque Santeiro” na madrugada (Férias!). E gosto de ver os comentários do Fernando Brengel enquanto rola “Fina Estampa”. Agora, fico bastante incomodado ao visitar espaços vazios, na cidade de milhões de habitantes.

Nossa São Paulo tem lugares estimulantes! Para todos os gostos, para todos os bolsos. Jennifer Monteiro e Fernando Brengel, os amigos citados neste post, aproveitaram as férias para uma visita ao incrível Museu do Futebol. Espero que tenham encontrado muitas pessoas por lá. Estudantes, crianças, pessoas de todas as idades, pois eu, decididamente, tendo dois dias de espaços culturais “exclusivos” não gostei da idéia de ser  solitário como foi o querido Michael Jackson.

Boa semana!

Ops! Não coloquei legenda dos outros lugares visitados, não é! Aguardem. Escreverei sobre os mesmos.

O “Sampaio Moreira” já foi rei

O Sampaio Moreira visto do Vale do Anhangabaú

Olhe bem para esses prédios acima. Esqueça a aparente superioridade das duas construções contemporâneas e preste atenção no “velhinho”, que está no centro. Pois bem, um dia, este que agora passa despercebido pela maioria dos paulistanos foi o primeiro grande edifício de São Paulo. Seu nome de “batismo” é Prédio Sampaio Moreira.

Agora tente imaginar a capital paulista em 1924 e, de repente, a paisagem da Rua Líbero Badaró é transformada por uma construção com doze pavimentos e cinqüenta metros de altura. O mais alto edifício de São Paulo. A construção é primorosa, detalhada, a fachada modificando-se nos diferentes andares.

Arquitetura primorosa, criada na São Paulo de 1924

Sampaio Correia, o edifício, recebeu o nome do proprietário e sabe-se que a família foi dona de muitos terrenos no Tatuapé. O prédio foi desapropriado e já foi noticiada a restauração e até o funcionamento de uma Secretaria Municipal para ocupar o espaço. Por enquanto, o prédio está fechado e nada é perceptível em termos de reformas ou restaurações.

O projeto arquitetônico, atribuído ao escritório Stockler das Neves, é visivelmente requintado. E se a prefeitura cumprir seu papel de manter esse local histórico, a cidade vai poder usufruir daquele que perdeu o posto de edifício mais alto para o Prédio Martinelli.

As rápidas transformações do início do século XX coincidiram com o extraordinário crescimento da cidade de São Paulo. A arquitetura européia, em 1924, já era outra e logo chegaria à cidade exemplos das novas referências. O “Sampaio Moreira” perdeu o título, mas o prédio aí está, encantador e, mesmo em estado precário enquanto aguarda cuidados, não perde o charme, quase romântico, garantindo a simpatia dos paulistanos.

Prevista para 2012, a restauração será feita em 18 meses

Passando pela Líbero Badaró, preste atenção. O Prédio Sampaio Moreira merece um olhar mais detalhado. É ele o primeiro “Espigão”, o que deu origem à São Paulo vertical, nossa “Selva de Pedra” tão amada.

Até mais!

valdoresende@wordpress.com

“O Livro de Boni” é para ser estudado

valdoresende@wordpress.com

A primeira boa surpresa de “O Livro de Boni” é o prefácio do sociólogo Domenico de Masi. Com reconhecida competência, o  escritor italiano sintetiza o motivo essencial para a leitura da autobiografia de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o todo poderoso e lendário Boni, para quem se credita o mega sucesso da Rede Globo de Televisão. “A autobiografia de Boni é um verdadeiro tesouro de informações acerca de como nasce e se consolida a sociedade midiática em um país como o Brasil”, escreveu De Masi.

Logo em seguida, De Masi, coerentemente com seus estudos sobre Criatividade, aponta uma característica individual – capacidade de estabelecer parcerias – determinante para o sucesso de um grupo criativo, apontando o grande parceiro de Boni, vital para o empreendimento que veio a fazer da TV Globo uma rede reconhecida mundialmente: o próprio Roberto Marinho.

“O Livro de Boni” revela muito sobre o comportamento criativo, estudado por De Masi. E seria interessante uma análise abrangente da autobiografia  de Boni, sob essa perspectiva teórica. Por exemplo, Boni reúne em si vários fatores individuais determinantes para o trabalho criativo: forte motivação; preparação caprichosa, correção profissional, forte senso de integração, espírito de iniciativa, força de vontade, dedicação total, flexibilidade, solidariedade e por aí vai.

A motivação de Boni começa na infância, apaixonado pelo rádio e, em seguida, pela TV. A preparação inclui encontros e trabalhos conjuntos com gente especial como Manoel de Nóbrega e o então diretor-geral da Rádio Clube do Brasil, Dias Gomes. Em sua autobiografia, Boni revela na própria forma de apresentar sua história um senso de integração extraordinário assim como um espírito de iniciativa e força de vontade incomuns.

Como leciono para publicitários, coloco desde já este livro como fundamental para os futuros profissionais da área. O publicitário Boni está no imaginário de milhões de brasileiros com o “Varig, Varig, Varig” tão forte quanto o posterior “Plim-Plim”. Criou o inesquecível comercial dos Cobertores Parahyba e acumulou prêmios na publicidade. Força de vontade e dedicação total são características evidenciadas pelos estudos de De Masi, facilmente verificáveis no trabalho de Boni.

Outro fator que determina a criatividade individual, a flexibilidade, é um capítulo à parte na vida de Boni: Escreveu para humor e deu atendimento em funerária, foi ator, redator, compositor, locutor, apresentador e, além das atividades amplamente conhecidas, trabalhou como auxiliar de protético além de atuar ao lado de cenógrafos, sonoplastas e todos os demais técnicos que compõem o universo da criação publicitária e televisiva.

Falta apontar, entre as principais características individuais que detectei lendo o livro, a solidariedade. Nesse aspecto, Boni revela um lado humano bem distante da imagem pública de mando e desmando de vice-presidente da Rede Globo. Tudo começa na família e nos primeiros capítulos do livro Boni caracteriza o pai, a mãe, os avós, as tias – muitas tias! – e uma infindável galeria de amigos. Se um momento, por exemplo, ele aprende com Dias Gomes, muito depois, já poderoso, garante a possibilidade de trabalho com liberdade para o grande autor. Se as tias ajudam o menino, o diretor retribui e revela profunda gratidão.

A principal contribuição de  “O Livro de Boni” é fazer com que percebamos o quanto a televisão brasileira, na primeira metade do século XX – ou seja, da sua criação até à  criação e consolidação das grandes redes – foi fruto do trabalho de um grande grupo criativo. Este grupo esteve presente nas diferentes emissoras atuando em musicais, humorísticos, teleteatros, novelas. Pioneiros, inovadores, apaixonados pelas novas possibilidades, abertos a estímulos diferenciados e sem discriminações. Uma amizade facilmente percebida e fartamente documentada, a televisão brasileira é uma história de cumplicidade entre amigos, quase uma grande família.

A TV brasileira se faz e Boni é parte fundamental da formação e afirmação da mesma. Agora, ao colocar sua experiência em livro facilita o conhecimento para todos nós. Vale conhecer e estudar os mecanismos de construção de uma grande rede televisiva, as diferentes formas de atuação em televisão e publicidade, enfim, essa questão humana primordial denominada comunicação.

Boa leitura!

Nota: “O Livro de Boni” é uma publicação da editora Casa da Palavra.