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Quem viu as matérias na televisão sobre os desabamentos dos edifícios, no Rio de Janeiro, soube que rolou um “puxadinho”, uns acréscimos na construção. E ficamos todos horrorizados, embora a prática aconteça desde os primórdios do surgimento de edifícios no país. Não é exagero: o Prédio Martinelli, o edifício histórico de São Paulo, foi projetado para quatorze andares, inaugurado com doze e depois foi crescendo, crescendo, até chegar aos atuais trinta andares.

Sem receios. A construção é sólida. Quem puder conhecer o Prédio Martinelli deve torcer para que a visita ocorra em um dia ensolarado. De lá avista-se uma São Paulo maravilhosa. Os guias, muito amáveis, mostram e identificam diferentes pontos da cidade. E vão, enquanto isso, contando a história do Martinelli.

A idéia de luxo ainda está presente, em lustres magníficos pelos corredores, nas três entradas do edifício. Pela Rua São Bento é mais convencional, parece um edifício comum. Pela Avenida São João é tipo entrada de visitas – é por esta que os turistas são recebidos – e a mais elegante, com uma sobriedade delicada, é pela Rua Líbero Badaró.

Atual sede de secretarias, e outras instituições do município, o Prédio Martinelli não faz parte do roteiro turístico oficial da prefeitura. Isso implicaria em “incomodar” secretários e outras autoridades, contratar pessoal especializado. De qualquer forma, quem vence a burocracia e procura o local é bem recebido.

No topo há a mansão do Comendador Martinelli. Este mandou que fosse construída para que os paulistanos de então tivessem a certeza de que a construção não ruiria. E essa não foi a única confusão envolvendo o Martinelli.  Sem grana para concluir o prédio, o Comendador  Giuseppe Martinelli vendeu parte do conjunto ao governo italiano. Após a Segunda Grande Guerra o governo brasileiro tomou o prédio para si.

Os tempos de glória do Martinelli influenciaram o entorno. O charmoso edifício valorizou a redondeza e só veio a conhecer o declínio nas décadas de 1960 e 1970. Contou-me o guia que o Martinelli foi invadido por indigentes, tornando-se um imenso cortiço. O vão central, para respiro, virou depósito de lixo e, pior, serviu de cemitério clandestino para um tarado que seviciava crianças, assassinando-as e jogando os corpos no grande lixão em que o edifício foi transformado.

Retomado e reformado no final dos anos de 1970 o Prédio Martinelli guarda muitas histórias. De si, dos vizinhos famosos como o Banespa, a Bolsa de Valores. O guia mostrou-me estes e vários outros. Do prédio incendiado ao espaço deixado pelo outro, tornado favela vertical. Como tive a sorte de estar lá em uma manhã de sol, céu límpido, pude ver até a Serra da Cantareira e o quanto ela está sendo invadida, destruída pelas mãos humanas.

Poderia escrever um pouco mais sobre o Martinelli. Prefiro deixar o convite para que façam uma visita ao local, bastando agendar com antecedência (011 3104 2477). História inteira de um edifício e de seus moradores quem contou foi meu amigo Octavio Cariello. Está em livro, chama-se Tueris e será lançado no próximo dia 11. Então, deixo aqui dois convites: um para que visitem o Prédio Martinelli e outro para que conheçam o livro de Cariello. Esses locais são pequenos mundos, com vida própria, parte da grande galáxia que é a cidade de São Paulo.

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Bom final de semana!

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Nota:

O lançamento de Tueris será no dia 11 de Fevereiro. E o melhor é deixar visível o convite para todos vocês.

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