Dois e dois são cinco

Outro dia sonhei com um elefante que, sendo irritado por um macaco, deixa este subir em sua tromba para depois esmagá-lo em um “abraço” mortal. Minha irmã sentenciou: 

– Traição. Vai dar cobra.

E lá se foi ela, botando fé e grana no jogo do bicho.  Em Uberaba, em São Paulo, nas demais cidades de todo o país, todo mundo sabe onde arriscar um palpite.

Incontáveis bares paulistanos têm uma mesinha, ou um pequeno balcão, com um cidadão munido de uma maquininha fazendo jogo do bicho. Na real, quase todo brasileiro tem relações com bicheiros. O Senador Demóstenes Torres perdeu o mandato. Provavelmente porque ganhou dinheiro sem jogar; mas ficou uma dúvida: O senador joga no bicho?

O Brasil é assim mesmo: tudo certo como dois e dois são cinco. A música de Caetano Veloso na voz de Roberto Carlos ou de Gal Costa nos cabe como luva. O nosso país é tão democrático que todo mundo pode jogar o jogo proibido. Eu não sei por qual motivo proíbem o jogo do bicho e, creio, a razão principal é proteger a Caixa Econômica Federal, que oferece mais jogos que cassino. A CEF tem dez tipos de loteria e, legalmente, é a dona desse mercado.

Longe estou de defender o Sr. Demóstenes. Bom saber que o país vai, aos poucos, botando ordem na casa. Mas também não dá para esquecer que, nesse nosso país, tem político procurado pela polícia internacional, o que não impede o dito cujo de trocar carícias com ex-presidente. Como ambos não são bicheiros, tudo bem! Quem sabe a justiça possa chegar para o senhor Maluf se ele jogar no jogo do bicho. Dois e dois, são cinco!

Estão dizendo que o senador cassado está inelegível até 2027. Ele já anunciou que vai recorrer. E a gente fica sem saber que bicho vai dar. Quem quiser que arrisque um palpite. Eu é que não jogarei em bicho nenhum, porque se há uma coisa certa nesse país é pobre ir parar na cadeia. De qualquer forma, 2 e2, igual a 22 que é tigre, 5 é cachorro, 25 é vaca e, pra garantir, vamos inverter, ou seja, 52 que é galo…

Quer saber; com licença! Vou fazer minha fezinha.

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Até mais!

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Opções para noites frias

O feriado acabando, o frio pegando pesado e ao dependermos da televisão as opções são, no máximo, morninhas. Teremos os filmes “B” na Globo, o humor baseado nas situações de sempre do CQC, as “profundas situações vivenciais” em A Fazenda e por aí vai. Não dói nada desligar a televisão e, mesmo em casa, há sempre a possibilidade de ver e fazer coisas interessantes. As sugestões abaixo também entram na categoria “férias”; se não for hoje, há possibilidade de programar uma terça-feira melhor.

Sugestão 1

Calvin e Haroldo para boas gargalhadas.

Ganhei dois livros do Calvin no meu recente natalício. Um veio do Cadu Blanco; o outro, do casal Olszenski (que nome chic esse!) Claudia e Victor. É lamentável saber que há pessoas que desconhecem Calvin e seu urso Haroldo (Calvin and Hobbes), criação do genial Bill Watterson. Para evitar lamentações, vamos apresentar a dupla:

Calvin tem seis anos de idade. É um garoto inteligente e solitário, que brinca com um urso de pelúcia. Para Calvin, o urso Haroldo tem vida e com ele o menino trava diálogos engraçados, apronta brincadeiras e peraltices enlouquecendo os pais, a professora, a vizinha. Para toda e qualquer situação Calvin tem tiradas ácidas, críticas, com um humor inteligente e sagaz.

Bill Watterson criou Calvin e Haroldo em 1985 e durante exatos dez anos publicou tirinhas em mais de 2000 jornais de todo o mundo com as aventuras do menino com seu brinquedo. Vencedor de prêmios pela qualidade de seu trabalho, Watterson tem uma visão de mundo bem clara e definida, exposta através das relações entre Calvin e os pais, a escola, os amigos e o mundo. As posições do autor aparecem nas ações das personagens; ele não permite a comercialização da imagem de Calvin, impedindo o lançamento de produtos que tenham relação com a personagem. Nem mesmo em vídeo Calvin será visto (como ocorreu com Mafalda, por exemplo). Os últimos lançamentos originais sobre Calvin ocorreram em dezembro de 1995.

Sugestão 2

Noites românticas ao som da voz quente de Maysa

Nem todo mundo tem um grande amor, mas há sempre algo para lembrar, algo para reviver. Quem está com o seu “benzinho” aí ao lado, cheio de calor para trocar, nessas noites de inverno, deve aproveitar o momento e embalar muitos carinhos com a voz e a beleza da inesquecível Maysa.

“Intensa Emoção” é o nome dado ao DVD da cantora, falecida prematuramente em 1977. Maysa deixou uma obra repleta de romance, amores profundos, relações pungentes em músicas inesquecíveis. Ouvir Maysa já é muito bom; melhor ainda rever os olhos belíssimos, o sorriso encantador, a bela e fina estampa de uma das maiores cantoras e compositoras brasileiras.

O DVD é registro de um programa exibido pela TV Cultura em 1975. Maysa fala e canta, na gravação que está nos moldes do programa Ensaio. Há os grandes êxitos da compositora, as interpretações inesquecíveis (só por Ne Me Quitte Pas, de Jacques Brel vale comprar o DVD), cobrindo todas as fases da carreira da cantora.

Sugestão 3

“Shame” Um filme denso para adultos

“Shame” (Vergonha) é um filme perturbador. Um homem vive em função de sexo. Todos os momentos da vida do cidadão são comandados por ações ou interesses sexuais. Ele é bonitão, profissional bem sucedido e o que poderia ser visto como “a vida que pedi a Deus” é, na realidade, um grande drama. Insatisfeito, sem amar ninguém, sem conseguir estabelecer uma relação saudável, o rapaz é refém de seus desejos, suas vontades. Sexo é algo além do ato físico e quando este algo mais não ocorre, o jeito é sair atrás de outra relação para complementar o que não se teve na primeira. E assim inicia-se uma onda que gera vício.

Michael Fassbender interpreta o publicitário obcecado por sexo. Com ele vive a irmã, com uma interpretação impecável de Carey Mulligan. Carente, a moça é aquele tipo que denominamos pegajosa, o que se traduz em atitudes possessivas. Os telefonemas que a moça, uma cantora noturna, dão são constantes, insistentes e de tão desesperadores chegam ao engraçado.

“Shame” foi dirigido por Steve McQueen e é opção para ver as consequências da vida nesse nosso mundo moderno.  O título foi mantido no Brasil. As personagens de Shame parecem condenadas a não encontrarem saída, solução. São centradas em si, em suas necessidades e não enxergam o outro. O embate entre os dois irmãos é explosivo. Um momento imperdível e que entra para a galeria de cenas inesquecíveis é quando Carey Mulligan canta New York, New York. A atriz reduz a grandiosidade da canção através da emissão de um fio de voz, tênue, tímido, sonhador, possibilitando outra visão da canção famosa e manjada.

As aventuras de Calvin, o som de Maysa, a reflexão e diversão profunda em “Shame”. Há sempre algo acessível, bem melhor que telas quentes e afins.

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Até mais!

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Luiz Gonzaga é retorno garantido

O mercado musical costuma arriscar pouco. A lei que rege o setor é o lucro. Os diferentes lançamentos que envolvem o nome de Luiz Gonzaga são sinais evidentes da força do velho Lua. O mote vem pelo centenário de nascimento do sanfoneiro, cantor e compositor pernambucano. As gravadoras prepararam uma série de lançamentos com discos inteiros dedicados à obra de Gonzaga; há coletâneas e gravações especiais como o CD do grupo Fala Mansa (sobre este escrevi aqui).

Há que se tomar cuidado com alguns lançamentos, como a coletânea “Gilberto Gil Canta Luiz Gonzaga”. Por exemplo, das 14 músicas do disco de Gil, 6 estão no disco “As canções de eu, tu, eles”, lançado em 2000. Pura repetição que nada vai acrescentar para os fãs de Gil; todavia, vale para quem gosta de Luiz Gonzaga e quer ver as canções do mestre na voz do cantor e compositor baiano. Outro disco de Gil, “Fé na festa, ao vivo” (2010), contém várias das músicas do lançamento atual. Tome mais repetição.

Já o produtor Thiago Marques Luiz apostou em 50 gravações inéditas para homenagear Luiz Gonzaga. Nos três CDs do projeto, denominado “100 Anos de Gonzagão” tem gente tão distinta quanto Eliana Pitman e Gaby Amarantos, Ednardo e Filipe Catto. Artistas nordestinos são previsíveis e estão no projeto: Amelinha, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Elba Ramalho; além desses há velhos parceiros de Gonzaga, como Dominguinhos, Anastácia e o neto do Rei do Baião, Daniel Gonzaga.

Thiago Marques foi fundo na idéia da universalidade de Gonzaga. Os meninos do Vanguart, por exemplo, estão entre Amelinha e Cida Moreira, duas intérpretes consagradas. Angela Ro Ro precede Jussara Silveira e Wanderléa abre o terceiro CD que é fechado pelo Nation Beat.  Há resgates de gente como Maria Creusa e Elke Maravilha (? Pois é…) e ótimas surpresas nas vozes de Rolando Boldrin (Ele canta Açucena Cheirosa) e Zezé Motta ( ela canta A vida do Viajante – veja relação completa de músicas e seus intérpretes abaixo).

Outro cd, ainda sem data para lançamento, é projeto da cantora Marina Elali. Ela é neta de Zé Dantas, um dos principais parceiros de Luiz Gonzaga. Um disco só com canções de Dantas e Gonzaga trará a interpretação de Marina Elali para “Riacho do Navio”, “O Xote das Meninas”, “Cintura Fina” e outras. Dominguinhos e Elba Ramalho estão nos planos da cantora para a concretização do disco.

O mais importante de tudo: A Sony Music pretende reeditar toda a discografia de Luiz Gonzaga. Tomara que não fique só na proposta. Mais que registros de ocasião, carecemos de preservar a obra desse extraordinário compositor. Conforme noticiado, estão previstos 60 CDs, incluindo canções originalmente gravadas em 78 rotações. Vários discos de Luiz Gonzaga, falecido em 1989, nunca saíram em CD, o que justifica e amplia a importância desse projeto.

Bom saber que ha interesse mercadológico na música brasileira. Que grandes empresas, artistas e produtores investem na obra de um artista do porte de Luiz Gonzaga. Não é difícil imaginar o quanto de dinheiro já foi investido e o quanto poderá render para todos os envolvidos. Muito bom. Mas que o essencial não fique de fora: toda a obra de Gonzaga reeditada.

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Até mais!

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Conheça as músicas dos CDs da Lua Music:

CD 1 – SERTÃO
Asa Branca – Dominguinhos, Amelinha, Geraldo Azevedo, Ednardo e Anastácia; A Volta da Asa Branca – Fafá de Belém; A Morte do Vaqueiro – Zé Ramalho; No Meu Pé de Serra – Elba Ramalho; Estrada de Canindé – Geraldo Azevedo; Légua Tirana – Amelinha; Assum Preto – Vanguart; Acauã Cida Moreira;  Juazeiro – Daniel Gonzaga; Riacho do Navio – Ayrton Montarroyos; A Vida do Viajante – Zezé Motta; A Feira de Caruaru – Anastácia e Osvaldinho do Acordeon;  Vozes da Seca – Cátia de França; Baião da Garoa – Passoca; Pau de arara – Chico César; Ave Maria Sertaneja – Guadalupe e Liv Moraes; Boiadeiro – André Rio (com participação especial de Mestre Genaro); Noites Brasileiras – Gonzaga Leal

CD 2 – XAMÊGO
A Sorte É Cega – Filipe Catto; Orélia – Ylana Queiroga; Xamêgo – Maria Alcina; O Cheiro da Carolina – Forró in the Dark; Xanduzinha – Karina Buhr; Balance Eu – Thaís Gulin;  Vem Morena – Ednardo; Cintura Fina – Gaby Amarantos; Qui Nem Jiló – Angela Ro Ro; Sabiá – Jussara Silveira; A letra I – Verônica Ferriani e Chorando as Pitangas; Açucena Cheirosa – Rolando Boldrin e Regional Imperial; O Xote das Meninas / Capim Novo – Elke Maravilha e Trio Dona Zefa; Roendo a Unha – Célia; Dúvida – Maria Creuza; Olha pro Céu – Vânia Bastos

CD 3 – BAIÃO
Baião – Wanderléa; Respeita Januário – Zeca Baleiro; Daquele Jeito – Dominguinhos; Imbalança – Paulo Neto; Paraíba – Márcia Castro; Dezessete Légua e Meia – Milena; Forró de Mané Vito – Eliana Pittman; ABC do Sertão – Virgínia Rosa; Forró no Escuro – Simoninha; Baião de Dois – Claudette Soares e B3 Orgão Trio; Dezessete e Setecentos /Calango da Lacraia / O Torrado – Edy Star e Banda Monomotor; Deixa a Tanga Voar – Ela; Lorota Boa – Silvia Machete; Siri Jogando Bola – China; Derramaro o Gai – 5 a Seco;  Mangaratiba – Silvia Maria e Dalua; Madame Baião – Nation Beat

André Rieu contra os guardiões eruditos

O maestro popstar

Amigos de Uberaba virão a São Paulo para um show que André Rieu fará na cidade. Fiquei intrigado em saber quem estava com “essa bola toda” para trazer minhas amigas para uma noite no ginásio do Ibirapuera.  Sim, não conhecia nada sobre o cidadão. Conversando com um e outro, recordei que já vi uma cantora, parte do elenco, no programa do Jô Soares. Ainda achando estranho, soube que o maestro fará 18 shows (DEZOITO!) no Ginásio do Ibirapuera; o tamanho deste local é bem conhecido de quem assiste aos shows do programa Criança Esperança.

Descobri que André Rieu é holandês, nascido em 1949. Dirige uma orquestra com cerca de 60 integrantes – denominada Johann Strauss – criada em 1989. O primeiro CD foi lançado em 1994 (Strauss & Co.), alcançando sucesso mundial. Olhando para aspectos da biografia do artista – filho de maestro, começou estudando violino aos cinco anos – parece algo comum; e o grande sucesso de público, dizem, deve-se aos concertos com cenários luxuosos, figurinos de época e muita descontração do maestro juntamente com seus músicos. O repertório – basicamente assentado nas populares valsas de Johann Strauss e de outros compositores vienenses.

Outras descobertas: o maestro é bastante odiado por alguns críticos e o adjetivo mais suave que dão ao holandês é “picareta”. Não vou citar nominalmente esses críticos, principalmente porque em textos muito nervosos deixam transparecer um fato perturbador: André Rieu não faz o que eles querem que o maestro faça. Simples assim.

Pessoas do universo da chamada “música erudita”, ou “música clássica”, costumam ser muito rígidos. Tomam a música quase que como religião e com frequência – já tive várias oportunidades de presenciar – vão a concertos não para apreciar, mas para ver se o músico está “fazendo direito”. Isso implica em seguir as partituras originais com maior seriedade do que religiosos seguem a Bíblia. Concertos, como certos atos religiosos, acontecem no mais absoluto silêncio, em atitude reverente de ambas as partes, artistas e platéia.

Carmen Monarcha, de Belém do Pará, é solista na orquestra de Rieu

É bom que saibam que aprecio concertos. Gosto de ouvir instrumentos sendo afinados; aprecio profundamente o respeito com que se reverencia o maestro, os solistas e estou entre aqueles que não toleram ruídos desagradáveis durante uma apresentação de música erudita. Nem tudo precisa ser “na palma da mão” e algumas árias merecem absoluto silêncio até o último acorde. Aliás, também tenho a mesma postura ao ouvir certos intérpretes como Milton Nascimento, por exemplo. Não quero ouvir quem quer que seja berrando na mesa ao lado; quero a voz límpida e emocionante do grande cantor e compositor.

Gente como André Rieu dispensa a sisudez do músico erudito para deitar e rolar no universo pop. O maestro se diz popstar, gosta da idéia e alimenta seu público com atitudes simpáticas; por exemplo, sempre canta uma canção do país onde se apresenta e a grande dúvida de alguns amigos, ingresso garantido para as apresentações brasileiras é se ele irá cantar Villa-Lobos ou Tom Jobim. Pode ser Carlos Gomes, afirma animada uma grande amiga.

O maestro é irreverente, brinca com seu público e, este, dança e canta com emocionada e esfuziante participação. André Rieu diz que “O importante é você deixar falar seu coração”; isso, a gente sabe, é um risco danado, porque coração exagera, derrama, exaspera; tomadas pelo coração as pessoas desatinam. Para desespero dos críticos eruditos, essas apaixonadas platéias desafinam, perdem compasso, atravessam, erram tudo e… são felizes! E quem pode impedir alguém de ser feliz?

As pessoas são felizes e alguns críticos estão falando mal delas, do público de André Rieu, com cada adjetivo! Aí, não dá! O pior crítico é aquele que determina o que o artista deve fazer. Se os artistas seguissem tais críticos, teríamos ido além das pinturas rupestres? Artista faz o quer; se o crítico ainda não aprendeu isso, vai ficar rosnando sozinho no canto, no máximo com o apoio de “artistas” que não vão além de um concerto, quanto mais de dezoito! E até onde os registros permitem confirmação, esses críticos não são guardiões da obra de compositores que não criaram para deuses, mas para seres humanos. Todavia, irão chiar muito; enquanto isso, amigos de Uberaba, de Santo André, de Goiânia e milhares de outras pessoas que não conheço lotarão o Ibirapuera. Que tenham um bom espetáculo!

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Bom final de semana.

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Um jeca quando canta

Escrevi sobre Tinoco em fevereiro de 2009. Os últimos anos do cantor foram melancólicos, difíceis e isso ficou claro lá, quando a imprensa noticiou os problemas enfrentados pelo artista. Hoje lamentamos a morte do cantor. Optei por editar o texto anterior e reproduzi-lo aqui. É mais uma constatação de que, infelizmente, as coisas mudam muito pouco. É, também, homenagem sincera ao artista e ao trabalho da dupla Tonico e Tinoco. Aprendi com meu pai a admirar, gostar e a respeitar esses grandes artistas.

TINOCO PRECISA DE TRABALHO?

O Brasil tem cada coisa! Há horas que penso que exagero no nacionalismo deste blog. Quem vem por aqui com frequência já percebeu que raramente abordo estrangeiros. Nada contra; é questão de opção e, em certos aspectos, de resistência. Pura e teimosa resistência.

Há tanto espaço na mídia destinado aos músicos estrangeiros, compositores, bandas e intérpretes, e tanta gente de quem se fala muito pouco. Ou não se fala tanto quanto deveria. E acaba sendo diferencial atentar sobre certos aspectos da nossa música, de nossos artistas e, fundamentalmente, o quanto estão ligados ao nosso cotidiano, nossas vidas.

Reafirmo não ter nada contra, por exemplo, LILY ALLEN; fala-se dela toda hora. Nada contra CHRIS BROWN, nem contra OZZY OSBOURNE, JESSICA SIMPSON, BRUCE SPRINGSTEEN, PETER MURPHY, ou a juventude da banda FRANZ FERDINAND (Esses em 2009. Os “da hora” são outros)

Aliás, já temos, aqui na terrinha, a banda HOLGER com letras em inglês e STEPHANIE TOTH, a paulistana que canta folk.  Não; definitivamente nada tenho contra essa gente toda. A urgência é outra. Preciso falar de um brasileiro chamado TINOCO.

“Moreninha linda

Do meu bem querer

É triste a saudade

Longe de você…”

TONICO e TINOCO, mesmo para aqueles que não conhecem a dupla profundamente, ou que não identificam suas vozes, lembram-se dos nomes ao exemplificar música caipira. Isto porque, se alguém tiver vontade em pesquisar, descobrirá que essa dupla paulista emplacou mais de 100 sucessos ao longo de várias décadas. Desde 1946 que o Brasil canta o “Chico Mineiro”.

“Fizemo a úrtima viagem

Foi lá pro sertão de Goiás

Foi eu e o Chico Mineiro

Também foi o capataz…”

A “Dupla Coração do Brasil”, assim chamada pelas gravações de todos os chamados ritmos regionais, terminou em1994, com a morte de TONICO. E o jornal Agora São Paulo, edição do dia 15, conta a atual situação de TINOCO, em matéria assinada por ALBERTO PEREIRA JR. Com uma agenda restrita, um salário ínfimo de aposentadoria e enfrentando problemas familiares, o cantor vive momentos difíceis. Eu fiquei indignado com o que li, triste pelo que este homem está passando. O Brasil precisa cuidar do Brasil, dos brasileiros! Sejam esses simples cidadãos ou grandes artistas.

“Neste mundo choro a dor

Por uma paixão sem fim

Ninguém conhece a razão

Por que eu choro no mundo, assim…”

PraçaTonico e Tinoco, em São Manuel – SP

A dupla TONICO E TINOCO já é nome de praça e tem museu dedicado ao trabalho que realizaram, em Pratânia, interior de São Paulo. Já receberam inúmeras homenagens. Aos 88 anos TINOCO deveria estar colhendo louros da gloriosa carreira, mas “gostaria mesmo é de trabalhar”.Pior, porque estamos no Brasil e temos um sistema de saúde precário, esse senhor “precisa” trabalhar para garantir tratamento para a esposa.

A ganância dos grandes laboratórios farmacêuticos, em colocar o preço dos remédios na estratosfera, leva famílias inteiras à falência e ao desespero, pelo receio constante em não ter como bancar o tratamento dos entes queridos. Contra os 600,00 reais pagos em ingressos para ver MADONNA temos R$ 2,00 cobrados no salão da igreja onde TINOCO se apresentou, buscando garantir os remédios de que a família necessita… É a pior das ironias.

“Ó que saudade do luar da minha terra

Lá na serra branqueando folhas secas pelo chão

Esse luar cá da cidade tão escuro

Não tem aquela saudade do luar lá do sertão…”

Artistas não param nunca. Diferente do operário, louco pra aposentar e abandonar o trabalho árduo, o artista vive e respira através da forma de expressão que lhe é própria. Eu espero que TINOCO não pare de cantar. O ideal seria que ele não precisasse cantar nas atuais condições. Mas, esse é o meu Brasil. Nosso país!

Já citei a dupla em posts anteriores. Gostaria muito de não ter escrito este, com esses assuntos. No entanto, a realidade é esta. Deixo aqui minha solidariedade a TINOCO. Sobretudo, presto minha homenagem ao homem simples, batalhador, que veio da terra para os palcos e mostra, com sua atitude perante a adversidade momentânea, a força, a fé e a raça do caipira brasileiro.

“Vou parar com minha viola

Já não posso mais cantar

Pois um jeca quando canta

Tem vontade de chorar

O choro que vai caindo

Devagar vai se sumindo

Como as águas vão pro mar.”

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Até!

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Notas Musicais:

Moreninha  – Tonico, Priminho e Maninho

Chico Mineiro – Tonico e Francisco Ribeiro

Saudade de Matão – Raul Torres e Jorge Gallati

Luar do Sertão – Catulo da Paixão Cearense e Laura Okumura

Tristeza do Jeca – Angelino de Oliveira

Outras:

Para os interessados em ler toda a matéria sobre as dificuldades de TINOCO, em 2009, o link:

http://www.agora.uol.com.br/show/ult10111u504352.shtml

Postado originalmente no Papolog

Quem canta, canta João Bosco!

“-Topas encarar esse concurso?” Cantar as canções de João Bosco. É isso! Só que há que ser no mínimo ótimo para cantar composições solo ou aquelas feitas, por exemplo, em parceria com gente do naipe de Aldir Blanc.

Se fosse só uma pergunta – Quem é o melhor intérprete de João Bosco? – em uma brincadeira dessas que a gente faz em tardes chuvosas, ainda sim seria um páreo duro. Eu sugiro um empate triplo: Elis Regina, Zizi Possi e o próprio João Bosco, que canta como ninguém suas próprias criações.

João Bosco é o grande homenageado da 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Criado por José Maurício Machline, ao longo de todos esses anos o evento já homenageou a nata da música brasileira:  o ano  passado foi Noel Rosa. Antes dele, gente como Vinicius de Moraes. Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento e muitos outros.

Entre as homenagens para João Bosco foi preparado um concurso para intérpretes das canções do grande mestre. Não pense que são próprias apenas as vozes tipo Elis e Zizi. Se você tem um vozeirão à Clementina de Jesus, Maria Alcina ou Ângela Maria, pode encarar. E é claro que se o próprio João Bosco está entre os grandes intérpretes de suas canções, todos os rapazes podem soltar a voz.

Está no site do evento: “Grave sua interpretação em vídeo de uma das canções deste grande ícone da Música Brasileira, publique no Youtube e envie o link para nós, não aceitamos videoclip, o candidato deve estar cantando a canção no momento da gravação. Se você gosta da obra de João Bosco e não tem discos gravados pode participar. O grande vencedor receberá um prêmio em dinheiro e um troféu no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao lado dos grandes nomes da música brasileira!”

Olha que chance! Você cantando “Corsário” no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e, de repente, vai que a Zizi Possi resolve subir e cantar junto? E já pensou, você cantando “Memória da Pele” perante Maria Bethânia? Pensando bem, não é uma boa idéia. Nessas, elas superam até o próprio João Bosco. E também, não vá cair na besteira de se achar “a bala que matou Kennedy” tentando levar a grana com “O Bêbado e o Equilibrista”! Essa, malandro, só mesmo a Elis Regina.  Agora, vamos à outras possibilidades…

Se você canta, mas canta mesmo, ataque de “Bala com bala”, “Cobra criada”, ”Linha de passe”… Essas são para quem tem excelente domínio da arte de interpretar. Outra possibilidade para grandes intérpretes é a de dar a própria versão de canções, diria eu, inusitadas, que só autores da categoria de João Bosco são capazes de criar; são músicas para quem tem verve humorística, como “A nível de…”, “Abigail caiu do Céu” e por aí vai.

João Bosco é muito bom, ótimo. Dentro das próprias possibilidades vocais, tornou-se um intérprete impar para canções como “Jade” ou “Papel Machê”. Agora há uma boa chance para os cantores que estão em início de carreira, ou aguardando uma boa oportunidade. Portanto, entre no site, cumpra o regulamento, grave a canção e saia divulgando para todo mundo. Pode ser que, por essas tramas da sorte, você não ganhe o prêmio; todavia, ser capaz de cantar bem as canções de João Bosco já é um feito e tanto. Boa sorte!

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Bom final de semana para todos.

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As canções citadas:

Corsário – João Bosco – Aldir Blanc

Memória da pele – João Bosco – Waly Salomão

O Bêbado e o equilibrista – João Bosco – Aldir Blanc

Bala com bala – João Bosco – Aldir Blanc

Cobra criada – João Bosco – Paulo Emílio

Linha de Passe – João Bosco, Paulo Emilio – Aldir Blanc

A nível de… – João Bosco – Aldir Blanc

Abigail caiu do céu – João Bosco – Aldir Blanc

Jade – João Bosco

Papel Machê – João Bosco – Capinan

Xote, maracatu e… histórias no matolão

Trouxe tudo esse Luiz Gonzaga. O nordeste inteiro; de tão completo foi além do regional, tornando brasileiro o forró. Veio dentro do “matolão”. A “malota” era um saco e ele diz ter vindo de Bodocó!

Só trazia a coragem e a cara
Viajando num pau-de-arara
Eu penei, mas aqui cheguei…

Essa canção, Pau de Arara, Luiz Gonzaga compôs com Guio de Moraes, em 1952. Já era o Lua, apelido que ganhou pela cara redonda e simpática, e já havia criado um dos maiores clássicos brasileiros, “Asa Branca”, em 1947, em parceria com Humberto Teixeira. Também já era fato ter nascido em Exu, Pernambuco. Bodocó deve ser terra do letrista, Guio de Moraes.

São muitas peripécias até Luiz Gonzaga atingir a fama e ser respeitado como o Rei do Baião. Alguns aspectos, por exemplo, confirmam a existência de gente burra desde sempre: durante muito tempo Gonzaga foi impedido de cantar e só gravou discos instrumentais. Foram 30 discos pela Victor e, já sendo citado como maior sanfoneiro brasileiro, não conseguia colocar a própria voz em suas canções.

Outra história na mesma linha: Luiz Gonzaga tem passagem por Minas Gerais. Para ser mais preciso foi na cidade de Ouro Fino. Alguém do exército reprovou Lua em um concurso para músico, pois o candidato não conhecia a escala musical. Minha mãe, que não desculpa fácil, dirá ao ler isto: “- Um mineiro besta!”. Sem querer justificar o conterrâneo devo reiterar que há um monte de metido a sabichão que impede gente talentosa com alguma picuinha. Temos instrumentistas maravilhosos por aí e um monte de idiotas que torcem o nariz porque esses instrumentistas não sabem o que é um pentagrama, uma clave disso ou daquilo (O tal sabichão costuma não tocar nadica de nada!).

Tem o lado melhorzinho… O Exército, em Minas Gerais, pode orgulhar-se de ter tido um soldado-corneteiro, chamado Luiz Gonzaga, depois criador do Baião. Também lá em Minas aprende a tocar sanfona de 120 baixos, toca em festas nas horas vagas e, certamente, apreende o espírito da toada mineira. Sem querer forçar a barra pra minha terra, mas “Asa Branca” é uma toada. Assim que foi gravada: uma toada interpretada por um músico pernambucano, que passou a apresentar-se com chapéu de couro, lembrando o cangaceiro Lampião.

Muitas histórias de Gonzaga. Sempre que possível serão lembradas por aqui. Principalmente neste ano do centenário do nosso Rei do Baião, nascido em 13 de dezembro de 1912. Por enquanto, vamos lembrando fatos e divulgando lançamentos que prestam homenagem a Gonzaga, como o disco do Falamansa, “As Sanfonas do Rei”.

O CD em homenagem a Gonzaga

Oitavo disco do Falamansa, o CD “As Sanfonas do Rei” reúne grandes sucessos, além de lembrar outras canções, não menos belas, mas de fases mais obscuras do compositor, nas décadas de 1970 e de 1980, quando a música brasileira já enfrentava as leis mercadológicas de multinacionais que tomaram conta dos programadores musicais em nossas emissoras.

O Falamansa resgata, por exemplo, Xote Ecológico, onde Luiz Gonzaga mostra-se antenado com questões atuais, ao cantar as mazelas provocadas pela poluição. A música é dada como de 1989, ano em que Gonzaga faleceu. Além do repertório, o álbum conta com participações destacadas de Dominguinhos, Elba Ramalho e Janaína Pereira. Vale conhecer, lembrar e, com a banda, reverenciar o mestre Luiz Gonzaga.

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Bom final de semana!

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