Chico Buarque, o terceiro

Tendo como medida minha amiga Fafá, devo afirmar que Chico Buarque é um caso sério. Não faz tanto tempo; estive com Fafá em uma entrevista coletiva com Chico (Só Chico; faz de conta que somos íntimos!), Edu Lobo e Lenine. Acho que ela não viu quase nada além dos olhos do Chico, a roupa, os movimentos, as palavras ditas pelo cantor e compositor. Lá pelas tantas, sem se agüentar, soltava pérolas do tipo: – Chico! Olha eu aqui! Chico!

Venha ouvir sem mais demora

A nossa música

Que estou roubando de outro compositor

E já retoco os versos com maior talento

Dou um polimento e exponho na televisão

O nosso amor…

(Rubato – Jorge Helder e Chico Buarque) 

Hoje, certamente, Fafá está choramingando pelos cantos. Não conseguiu ingressos para ver o Chico. Ela e milhões de outras mulheres. Mais fieis que Penélope. Passa o tempo, Chico longe, escrevendo livros ou jogando futebol, envolvido em múltiplas tarefas e relegando shows para planos secundários. Não importa. Ele anuncia a volta e os ingressos se esgotam com uma rapidez que deixa a colorida Restart em preto e branco de inveja.

O caso sério Chico faz poucos shows. Esse é o problema para a mulherada. Os empresários… Bom, como a casa fica lotada, vendem até uma cadeira com visão parcial por 120,00 reais! (Só se vê metade do Chico? O perfil direito ou o esquerdo? O cara vai ficar paradinho, como sempre, mas se resolver andar pelo palco, a visão é zero?). Desconheço qualquer reclamação quanto a esse tipo de venda de cadeira “torta”. As moças que conseguiram ingressos não reclamam; o cara abre a boca e, para elas, ele é sempre o “terceiro”:

…O terceiro me chegou

Como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada

Também nada perguntou

Mal sei como ele se chama

Mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama…

(Terezinha – Chico Buarque)

Se esse Chico conseguisse atingir metade das camas das moçoilas interessadas, teríamos mais “Buarques” que “Silvas” na lista telefônica. E o que sobraria para os outros? Para todos os outros caras, restaria e resta difamar o cidadão: ele está cheio de rugas, só joga futebol porque é dono do time e não escreve tão bem quanto compõe. Ah, e o Caetano é melhor cantor que ele. E enquanto ficamos com os cotovelos em carne viva, o carioca entra no palco ganhando paulistas, mineiras, baianas, paranaenses…

 Pensou que eu não vinha mais, pensou

Cansou de esperar por mim

Acenda o refletor

Apure o tamborim

Aqui é o meu lugar

Eu vim

(De volta ao samba – Chico Buarque)

O cidadão sabe das coisas de tal forma que, afirmam, conhece e traduz em versos a alma feminina. Melhor que discutir a relação, o cara fala por elas! Por isso coleciona namoradas; na praia, em bares, shows. Discreto, cavalheiro, faz pouco alarde e muito de vez em quando é flagrado; quando ocorre é com super gatas. Rival desse porte a gente chama para perto. Melhor aliar-se que lutar contra o dito cujo.

Quem tiver o ingresso, ou saco e tempo para ir ver a entrada do povo, verá quantos marmanjos presentes. Entre os vários motivos, a maioria vai porque Chico é mesmo bom. O melhor do Brasil. Chico Buarque faz cair por terra a história de música preferida. Só da lista divulgada para o show em cartaz, tenho pelo menos oito. E que ninguém venha me chamar de indeciso.  A única coisa que posso afirmar é que, entre minhas preferidas há “todo o sentimento”

Depois de te perder

Te encontro com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantado

Ao lado teu

(Todo o sentimento – Cristóvão Bastos e Chico Buarque)

Encantado é uma boa palavra para definir o compositor Chico Buarque. Comecei o texto na hora em que anunciaram a passagem de som. Agora, noite alta, vejo a primeira matéria e o Uol informa que a apresentação do cara rola sob gritos da platéia: “Lindo! Lindo! Lindo!”. E fica aquela sensação de que o cara leva todas!

Fazer o que! Minha geração cresceu e amadureceu sabendo que cada namorada, amiga, mãe, parente e conhecida, todas elas, estão ali, doidinhas e prontinhas para uma entrega total e irrestrita ao compositor. Depois de cada show, elas voltam parcialmente satisfeitas, se é que me entendem… E resta-nos utilizar versos do próprio Chico para receber nossas queridas:

Se você crê em Deus

Encaminhe pros céus

Uma prece

E agradeça ao Senhor

Você tem o amor

Que merece.

(Sob Medida – Chico Buarque)

 

Até!

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Nota: As canções citadas acima estão no repertório do show.

Um Oscar para a música do Brasil

Vou torcer descaradamente para que Carlinhos Brown e Sergio Mendes tragam o primeiro Oscar para nosso país. Será neste domingo e espero sinceramente comemorar esse momento. Os dois compositores, mais a letrista americana Siedah Garret criaram “Real in Rio”, a música principal do filme “Rio”, animação de Carlos Saldanha, e terão como única concorrente, a canção “Man or Muppet”, de “Os Muppets”, música e letra de Bret McKenzie.

Um verdadeiro e grandioso embate entre a tradicional música das Américas. De um lado, a canção norte-americana, com refrão fácil, daqueles que grudam na mente da gente, com notas que permitem interpretações suaves, com momentos acalorados; embora tudo muito melancólico o final é feliz: tipo o amor vence! De quebra, há a força dos bonecos que conhecemos desde há muito; acompanharam a infância de algumas gerações e retornaram, conquistando as atuais. No prêmio deste ano, as imagens terão sua força, alavancando preferências para as canções.

O Brasil é a América que não usa o próprio nome. Somos do sul e quase sempre não nos denominamos americanos. Há gente por aqui descendente de europeu; há os afro-brasileiros; os asiáticos – esses criaram expressões próprias identificando as diferentes gerações – e, há os índios. Todos se dizem brasileiros e penso que, diante da supremacia econômica e bélica norte-americana, no máximo, assumimos algo tipo o primo pobre, quando nos dizemos sul-americanos.

Deste lado de baixo, o sul, temos o sol, as cores, a natureza inigualável e uma alegria ímpar. Essas características são facilmente detectadas no samba-exaltação, a expressão correta para definir a música de Carlinhos Brown, Sérgio Mendes e Siedah Garret. O ritmo é contagiante, a melodia é vibrante, arrebatadora. “Real in Rio” é para, literalmente, fazer todo mundo dançar. Se não consegue que todos “tirem o pé do chão” faz, no mínimo, com que mexam dedos marcando compassadamente a canção.

Outros trunfos para “Rio”: a música, enquanto linguagem universal está mais próxima de se fazer entender por Raimundo e todo mundo. A letra, da americana, amplia o entendimento para os que não dominam nosso idioma, nossos hábitos. Ainda tem a presença de Will.i.am, dando um toque de rap, evidenciando as possibilidades de sempre do nosso samba: somar passado e presente com total eficácia.

Os dois brasileiros – Brown e Mendes – somam talentos e sintetizam a vocação internacional da música brasileira. Sergio Mendes estourou nos EUA em 1964 com a música “Mais que nada” de Jorge Ben Jor e por lá ficou. Gravou dezenas de discos e recebeu o Grammy de 1993 na categoria World Music.

Sergio Mendes e Carlinhos Brown

O carioca Sergio Mendes faz dupla com o baiano Carlinhos Brown. Conhecemos nacionalmente o músico desde “Meia lua inteira”, composição marcante do disco “Estrangeiro”, de Caetano Veloso. Depois nos habituamos com o percussionista extraordinário conduzindo o “Timbalada”, tornando-se referência brasileira para o mundo. Outro tanto, não menos importante, é o trabalho de Brown com Marisa Monte e Arnaldo Antunes; os “Tribalistas” fizeram a cabeça de milhões. O compositor não é novidade lá fora, tem uma carreira consistente no exterior e, especificamente nos EUA, fez o melhor momento musical, ele próprio cantando, em “Velocidade Máxima 2”.

Se o Brasil e o samba começaram na Bahia, nada melhor que um samba e um baiano recebam o Oscar, prêmio ainda inédito para o país. Consagrando a célebre mistura brasileira, baiano e carioca unem-se à americana e – tomara – conquistem o prêmio. Será uma justa lembrança aos grandes sambas de Ary Barroso, Dorival Caymmi que avançaram sobre os norte-americanos em desenhos de Walt Disney e na voz de Carmen Miranda. Será um belo exemplo de união de raças e povos distintos, via música, essa expressão humana que desconhece fronteiras. Esse momento merecia uma campanha maior. Os de lá fazem um enorme estardalhaço, tentando emplacar cada concorrente, nas diferentes categorias. Aqui, humildemente, faço o marketing da nossa canção. Vamos lá, com o trio de compositores, buscar o Oscar para “Rio”.

Bom final de semana!

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“E se de repente” a gente fosse brincar?

O melhor carnaval é a festa do “e se de repente”.  Sim, em algum momento, num “repente”, o indivíduo resolve ser rei, ou sapo, banana, ou sabe-se lá até onde vai a piração humana. Lá em Uberaba, como em tantas outras cidades do Brasil, um monte de marmanjos resolvem brincar de ser mulher. A fantasia é a mais barata já que basta emprestar roupas de mães, namoradas, irmãs ou amigas e, vestindo toda a composição, exagerar na dose, caricaturar. A diversão é garantida, desde que o mundo é mundo. Todo mundo gosta.

São Luiz do Paraitinga, marchinhas em ambiente aconchegante.

“E se de repente” a gente acordasse a cidade, fizesse com que ela voltasse aos tempos de sempre, alegre e vibrante? E é assim que vejo o carnaval de Olinda, com suas orquestras de frevo, ou as tardes de São Luiz do Paraitinga com suas marchinhas eternizando as ruas da velha cidade. Aliás, as velhas cidades são propícias para o carnaval, pois suas ruelas estreitas convidam ao aconchego. Até os discretos mineiros tornam Ouro Preto barulhenta. É carnaval!

Toda brincadeira, por mais simples, supõe regras. Em Veneza, a regra é usar máscaras.  Em Santos, São Paulo, há décadas passadas, uma regra era a fantasia de papel, para fazê-la desmanchar-se no mar, destino de todos os foliões daquela festa. Há regras licenciosas, tipo “ninguém é de ninguém”, com muitos beijos e, hoje em dia, pouco arrependimento. Há regras comerciais, tipo “só brinca dentro da corda quem tem abada”. Todavia, é carnaval, e o brasileiro inventou a pipoca, para burlar o dono da grana e brincar ao som das baianas maravilhosas e seus caminhões sonoros iluminados.

“E se de repente” a gente levasse o carnaval a sério. Foi assim, penso eu, que surgiram as escolas de samba. Não há brincadeira mais séria do que brincar de ser sambista. Carnavalesco pode fazer as loucuras que quiser desde que mantenha a Comissão de frente, a ala das baianas, o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e outras coisas mais. Para que tudo ficasse o mais certinho possível, criaram os tais sambódromos, onde tudo foi projetado e pensado para brincar seriamente o carnaval.

As máscaras: mistério e romance em Veneza

Tem gente que não gosta. Respeito, mas confesso que tenho dificuldade em entender. Fico pensando: como é que esse sujeito brinca de “faz de conta”? Será que ele não se encanta com a elegância e leveza da porta-bandeira? Não se apaixona pela malemolência da passista? Pelo menos não marca o ritmo com a bateria? E quando Ivete pede “tira o pé no chão”, o cara fica plantado, tipo “to esperando  a condução”? Confesso, tenho dificuldade em entender.

Já quis ser pierrô, mestre-sala, cantor de marchinhas. Gostei, uma vez, de vestir-me de frade franciscano. Fiz das tripas coração para equilibrar um imenso papagaio no ombro, brincando de ser o Santo de Assis. De todos os carnavais, nada supera uma ação pós-baile, na minha juventude: dia seguinte, voltamos ao salão, sujo de tudo quanto é coisa mais montanhas de confetes e serpentinas, para procurar… Uma lente de contato! Tenho testemunhas! ENCONTRAMOS.

“E se de repente” eu me tornasse um mega-star? Aprendi essa com Mafalda Pequenino, uma atriz adorável e querida amiga. Foi ela quem me disse: – “O sambódromo é a minha maior platéia! Todos vão ali pra me ver. E é assim que entro na passarela! Olhem-me, estou aqui, cantando e dançando pra vocês!” Já experimentei a brincadeira. É bom demais. Faço de conta que sou o máximo e entro na onda. Parece que todo mundo me aplaude. Sou o maior destaque da escola.

Finalmente, há também aquela situação: “E se de repente” os planos fossem outros? O carnaval é legal porque preparamos o inesperado para surpreender o outro. A vida é legal porque nos coloca o inesperado. Senhores, não mais serei abacaxi neste carnaval; de repente, os planos mudaram e  parafraseando Chico Buarque,  vou “na galeria” assistindo tudo “na mais fina companhia”.  Com muita honra estarei entre os jurados do jornal Diário de São Paulo, para escolher os melhores do carnaval paulistano que receberão o Troféu Nota 10.

E se de repente… Boa diversão para todos!

Jorge Amado ou Luiz Gonzaga?

Imaginem Jorge Amado e Luiz Gonzaga no sambódromo carioca. Junto com eles um imenso show de morenas vindas das praias de Salvador, ou dos belos recantos de Ilhéus, embaladas na avenida pela lembrança do baião pernambucano, misturando forró e samba. Eita! Pernambuco e Bahia, romance e forró! Grandes demais para virem juntos, Jorge Amado e Luiz Gonzaga serão homenageados pelos sambistas cariocas, em escolas distintas.

Luiz Gonzaga nasceu em Exu, Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912. Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 10 de agosto de 1912. Este será um ano de grandes festas e homenagens no centenário desses dois homens, que são motivo de orgulho para todos nós. A escola de samba Unidos da Tijuca virá com “O dia em que toda a realeza desembarcou na avenida para coroar o rei Luiz do Sertão”. Já a Imperatriz Leopoldinense apresentará o enredo “Jorge, Amado Jorge”. Páreo duro para qualquer coração. Como escolher?

Quando criança, muito criança, mamãe cantava enquanto cuidava de mim:

Tava na peneira, eu tava peneirando

Eu tava no namoro, eu tava namorando… 

Lá nos rincões de Minas fui embalado com canções de Luiz Gonzaga. Depois, já adolescente, a literatura entrou definitivamente em minha vida com “Os Capitães da Areia”. Fiquei, desde então, apaixonado pela Bahia, com seus orixás poderosos e sua gente morena. Através da literatura de Jorge Amado sonhei ser escritor.

No próximo desfile das escolas de samba teremos a história desses dois ídolos contadas pelo carnaval do Rio de Janeiro.  Os compositores do samba da Unidos da Tijuca são: Vadinho, Josemar Manfredine, Jorge Callado e Silas Augusto. Certamente terão o samba de enredo comparado com as inesquecíveis criações de Luiz Gonzaga. Já os compositores da Imperatriz Leopoldinense, Jeferson Lima, Ribamar, Alexandre D’Mendes, Cristovão Luiz e Tuninho Professor serão julgados pela capacidade em sintetizar a magia de Jorge Amado nos versos do samba da escola. Um páreo duro, difícil.

O pavilhão da Unidos da Tijuca

O samba, a bateria, as alegorias, as baianas, as passistas; muitos e variados elementos para narrar a trajetória vitoriosa de Jorge Amado e Luiz Gonzaga. Provavelmente serão décimos que decidirão a escola vencedora. E se a dificuldade fosse escolher apenas entre Jorge Amado e Luiz Gonzaga… O carnaval carioca ainda terá Portinari, pela Mocidade Independente de Padre Miguel, e Romero Brito será lembrado pelo G.R.E.S. Renascer de Jacarepaguá, só para ficar nas personalidades que serão homenageadas pelas escolas. Tem mais, muito mais… Vamos torcer para que este seja um grande e inesquecível carnaval.

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Até!

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Abacaxis e bananas! Porque é carnaval

Santo Deus! Vou me tornar um abacaxi! sexta-feira, cinco da manhã, entrarei no sambódromo paulistano, todinho de abacaxi!

Nas vésperas de me tornar um senhor abacaxi, vem à memória uns versos de música da Rita Lee:

Pois as pernas que um dia abalaram Paris

Hoje são dois abacaxis… 

Pois bem, minhas pernas não abalaram ninguém e sempre fui do grupo denominado “perna de pau”, aquele que não joga nada de futebol. E agora, não só as pernas, todo eu serei um abacaxi.

Vamos ao como tudo começou!

O lero-lero: To cansado, o ano mal começando e já estou querendo pendurar as chuteiras. Não agüento mais, a mega-sena não vem, blá, blá, blá…

O carnaval: to cansado; assim mesmo, gostaria de ir pro sambódromo, ninguém quer sair na escola comigo, preciso me enturmar com gente que curte; poxa, nem comprei ingressos ainda; deixa pro ano que vem, blá, blá, blá…

Quarta-feira chega a menina: – Professor, o senhor quer desfilar no carnaval? E eu que sou um cara ocupadíssimo, com mil compromissos, que precisa ponderar e pensar muito para tomar uma decisão, respondo: – Aceito! E, ainda ocupadíssimo, pedi desculpas: amanhã nos falamos! E fui para a sala de aula.

Tamborim batucando não sai da cabeça, vem a lembrança do bumbo marcando feito batida de coração, e o corpo começa a querer mexer, os pés já ameaçam sair no compasso do samba. Vou sair na Sociedade Rosas de Ouro!

O vento sopra magia

Vem viajar na imaginação

Era uma vez, um reino abençoado

Onde imperava a igualdade

Justiça e liberdade…

“Caraca – pensei – desse reino vou ser um nobre!” Nos meus delírios que começaram logo após ter nascido,  se é pra ser da nobreza, meu lance é ser duque. Nem rei, nem príncipe e, marquês só o nome da avenida onde está o meu outro local de trabalho. Meu lance é ser duque. E ser anunciado com pompa e circunstância: – Senhores, está presente no recinto, o ilustríssimo Valdo Resende, Duque de Uberaba!

A maionese acaba, o delírio passa e volto a ser “minerim, que tá bom demais, sô!”. Acontece, que a Rosas de Ouro “no ano do seu aniversário de 40 anos, se inspira na história da Hungria, uma lendária terra de reis, guerreiros e justos para contar a saga de bravos homens que acreditaram em seus sonhos…”

O autor de enredo, Darlan Carneiro e o carnavalesco Jorge Freitas, mandaram bem na sinopse: “Contaremos a saga de um fictício Rei húngaro (Janos ) que viu seu reino ser invadido pelas forças do mal, obrigando-o a partir e a deixar para trás o solo que por justiça era seu, o solo sagrado de seus ancestrais. Em busca de uma nova terra onde pudessem viver seu sonho de justiça e paz, chegam ao Brasil, esta pátria mãe gentil, que lhes acolhe e oferece um pedaço deste chão.”

Baixou aqui no “minerim” a personagem de Guimarães Rosa e repeti a famosa frase de Augusto Matraga; “- Todo homem tem sua hora e sua vez, a minha há de chegar.” E a minha vez de ser nobre chegou!

É mais que um caso de amor

Rosas de Ouro, razão do meu viver!

Trazendo a Hungria no coração

E o sonho de ser campeão! 

Voltei dia seguinte na faculdade para saber um pouco mais. Tentando abrir brechas na agenda para ensaios na quadra, ensaio no sambódromo, sonhando com a nobreza mineira defendendo a “Roseira”. Vi todos os detalhes do enredo, em homenagem ao povo húngaro na figura de seu representante mais famoso no Brasil, Roberto Justus. E com o pensamento elevado na mais alta aristocracia européia fui ao encontro de Lucielen, ansioso, perguntando de cara: – E então, em qual ala vamos desfilar? Qual é a minha fantasia?

– Abacaxi!

Tive uma idéia do que foi a guilhotina para a nobreza francesa.

– Abacaxi?

– Abacaxi, ela confirmou.

Comecei a rir e – lógico – que um ser delirante, olhando o site, não tinha prestado atenção na fantasia de abacaxi! Fiquei imaginando, lembrando de carnavais anteriores e antecipadamente, já estou muito feliz. Vou brincar na avenida; vou sambar e cantar com todo o povo da Rosas de Ouro:

…Vou coroar essa conquista

Honrando as cores do meu pavilhão 

É mais que um caso de amor

Rosas de Ouro, razão do meu viver!

Trazendo a Hungria no coração

E o sonho de ser campeão!

Acordo após mais uma noite de calor infernal, feliz em ser um abacaxi na avenida e, ao abrir o Facebook , dou de cara com uma foto do meu querido Fernando Brengel vestido de banana. O distinto sairá na Ala das Bananas da Pérola Negra. Outras risadas e uma primeira conclusão sobre o carnaval 2012. Neste ano, vai dar fruta na avenida!

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Bom final de semana!

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Fundamental: O enredo da escola é “O Reino de Justus”. Os compositores do samba de enredo, dos versos citados acima, são: Léo do Cavaco, Rogério Morgado, Leonardo Lima, Eric Lisboa, Luciano Godoi e Cleverson Japa. Fico feliz e honrado em poder defender as cores da Rosas de Ouro neste carnaval. Meu especial agradecimento para Lucielen, pelo convite.

Desenredo

A vida é o fio do tempo

No momento em que aguardamos a grande festa, quando enredos e mais enredos estão sendo sonhados, chega o inesperado, o incerto, o incômodo. O mundo ameaçado em desenredo. Edifícios caem, a polícia baiana em greve, o cantor está morto…

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso… 

Era pra ser volta às aulas, carnaval. Motivos para alegria, contentamento. E para ficar bem claro que o mundo não é aquele visto pelo “jogo do contente”, de Pollyana, que se somam outras mazelas como a greve dos bombeiros no Rio de Janeiro, a Argentina volta a reivindicar as Malvinas, que ingleses teimam em chamar Falklands e, para garantir a soberania, chamam a atenção da imprensa enviando para as ilhas geladas um príncipe desocupado.

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo… 

Quando bem criança, pensava nas soluções de tudo a partir do poder de meus pais. Lá, em Minas, um desenredo desceu pesado sobre minha adolescência e, praticamente, não tive escolha:

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe… 

Como matuto, creia no que escrevo: – To triste não! To ensimesmado. Triste pela morte e pelo enterro para mais tarde. Apreensivo com o carnaval dos baianos, dos cariocas e, empoleirado neste apartamento, sem vocação para ave, teimo em recear – mesmo que de bobeira – que essa coisa caia sobre minha cabeça. Já pensou? Eu, perdido em escombros feito a enfermeira lá em São Bernardo do Campo?

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo… 

Agora que não tem Minas pra voltar – Tenho Minas dentro de mim! – resta outro desenredo para o enredo turvo desses dias. E é com os versos de desenredo da canção de Dory Caymmi e Paulo César Pinheiro que me defendo de tanta coisa ruim. Sim, tem muita coisa incomodando, muita coisa ruim…

Mas quando eu chego
Eu me enredo
Nas tranças do teu desejo 

Sei que não consigo solucionar o mundo; tramas e tramóias estão muito além de minha parca compreensão. Sou só um simples mineiro perplexo nesse mundão de labirintos de interesses, de motivos turvos.

Mas quando eu chego
Eu me perco 
Nas tramas do teu segredo 

Se a sorte desanda com calor acima, frio abaixo, com greves, mortes, desabamentos impensáveis, resta a vontade de amar o mundo, de solucionar a vida. Tudo fica simples, tudo é fácil, e penso sempre que a humanidade seria outra se todos os  indivíduos pudessem cantarolar assim:

Mas quando eu chego
Eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo 

Se você chegou até aqui, ouça a canção. O nome é esse mesmo, Desenredo. O Edu Lobo canta; o Boca Livre também. Preferi o registro feito pela Nana Caymmi. Ouçam! Essa canção sempre me lembra que os problemas passam e se verdadeiramente amo – algo ou alguém – a vida está garantida. É um amor, ou uma vida assim, que sonho pra todo mundo.

Ê, Minas

Ê, Minas
É hora de partir 
Eu vou
Vou-me embora…

Para Wando

Com uma notícia  assim, posso afirmar que o dia não começou bem: “O cantor Wando morreu nesta quarta-feira, aos 66 anos, em decorrência de infarto seguido de uma parada cardíaca, confirmou a assessoria do hospital Biocor. Ele estava internado desde o dia 27 de janeiro no hospital Biocor, em Nova Lima (MG)”.

Escrevi uma história, publicada originalmente no Papolog. Uma ficção para justificar o hábito de fãs em jogar calcinhas para o cantor e compositor. Republico abaixo a história. Uma sincera homenagem ao mineiro Wando. 

CALCINHAS PARA WANDO 

Quem já deu uma olhada nos comentários desses posts conhece Meri Aparecida, irmã da Maria Aparecida, a moça dos croquetes. É, a família é assim: Maria, Meri e o irmão, Mário Aparecido. Os pais, mineiros devotos, atendem por Marta e Mauro e continuaram a sina dos “Ms”; hoje vivem amuados, pois reservaram Márcia Aparecida, Mauro Aparecido e outros “Ms Aparecidos” para os netos, mas os filhos continuam sem dar-lhes a sonhada continuidade familiar.

Meri vive sob tranqüilizantes, trabalhando em Uberaba, de onde sai apenas para assistir aos shows do WANDO. Trabalha continuamente, nos horários de folga, realizando uma tarefa que considera sagrada. –“É tudo para o meu grande amor” revela, entre uma peça e outra.

“Um amor quando se vai, deixa a marca da paixão feito cio de uma loba

Feito uivo de um cão, é feitiço que não sai, dilacera o coração

É um nó que não desmancha, é viver sem ter razão

Chora, coração, chora coração, passarinho na gaiola, feito gente na prisão.”

Vanilda sempre diz: – “A Meri não tinha estrutura pra nos acompanhar, “tadinha”; surtou! Fica lá, no meio de todas aquelas calcinhas.” Então; Meri cria calcinhas constantemente. Calcinhas de lantejoulas, de seda, de tricô, de jeans; calcinhas minúsculas como biquíni, grandes, calçolas que mais parecem ceroulas. Termina de fazer e já corre pro tanque. Lava, seca, perfuma e guarda, em uma arca que mandou fazer, com o formato de um grande coração.

Moça, eu sei que já não é pura,

teu passado é tão forte

pode até machucar

Moça, dobre as mangas do tempo

Jogue o teu sentimento

Todo em minhas mãos

Meri, Vanilda e Maria costumavam sair juntas, em São Paulo; iam a shows, teatro, festas juvenis. Separaram-se para fazer Universidade. Vanilda e Maria Aparecida foram para Assis, no interior do estado e Meri foi fazer corte e costura, em famosa escola de freiras, aqui de Sampa. Foi durante esse curso que Meri tomou-se de amores por WANDO, o mineiro de Cajuri.

Em férias ou feriados prolongados as três voltavam a sair e Vanilda, já começara a curtir uma vodka, enquanto Maria Aparecida passou a consumir rabo de galo e Meri, água pura. É bom frisar que as duas primeiras nunca foram alcoólatras. Chegadas em um copo! Ser bêbado é outra coisa. Mas as duas contam que notaram, desde uma primeira vez: quando Meri, por delicadeza, tomava um gole de qualquer bebida alcoólica, entrava em delírios, imaginando-se com WANDO.

Eu te quero assim,

fazendo uma cama

Na nossa banheira

Fazendo por cima

De lado, ou de beira

Pedindo me espere

Que eu quero mais…

Quando nesse estado, Meri agarrava o rapaz mais próximo; WANDO foi… vários: um alemão parrudo e gay, que fugiu assustado com as investidas de Meri; um cearense que perseguiu-a por semanas, peixeira às vistas, inconformado por ter sido deixado de lado quando o delírio de Meri passou e mais; um japonês, um garçom gago, que imitava FRANK SINATRA, e, é claro, o barman, entre muitos outros.

Não tinha jeito. A noite começava serena e calma, até que Meri, longe da vigilância das amigas, aceitava o gole de muitos que, interessados nos belos seios da moça, ofereciam bebida na esperança que, no surto, ela caísse nos braços do dono do copo. Era Meri beber e o WANDO baixar. Pra acelerar, muitas vezes, o próprio interessado em Meri cantarolava:

Deixa eu te amar

Faz de conta que sou o primeiro

Na beleza desse teu olhar

Eu quero estar o tempo inteiro…

Até que um dia Meri foi assistir seu ídolo, em uma grande casa de shows de São Paulo. Foram dias intensos de preparativos. Meri sonhava o tempo todo em ver seu ídolo de perto. As outras duas, Vanilda e Maria Aparecida, foram juntas, mais para impedir Meri de beber o primeiro gole que, propriamente, interessadas no show.

Chegado o grande dia, as três, produzidas e entusiasmadas, felizes por terem conseguido lugares bem em frente ao palco. O show corria tranqüilo, com o romantismo de WANDO derramando-se pela platéia. Maria Aparecida tinha conseguido entrar no recinto com uma bandeja de croquetes para presentear o cantor e compositor. Meri, só permitiu tal ato após Maria prometer que diria ter sido Meri a fazer o mimo para o ídolo. Em um dado momento, WANDO cantou:

Vem cá gostosa, sensual e saborosa

Delicada, carinhosa, vem que eu sei o que fazer

Não me provoque com seu jeito de fogosa

Que eu me encaixo nessas coxas, faço tudo com você

Levante a saia e me guarde bem de baixo

Vem por cima, vem por baixo, que eu te dou o meu querer

Maria Aparecida, que passara todo o tempo enxugando os copos próximos de Meri, para evitar que esta surtasse, estava pra lá de bêbada. Não pensou duas vezes ao ouvir WANDO chamando ( – Era a mim que ele chamava! Juro, Vavá!); levantou a saia, tirou a calcinha e jogou sobre o palco. Ato contínuo, dezenas de outras calcinhas foram atiradas sobre o cantor.

Foi Vanilda quem notou o desespero de Meri. Esta tinha ido ao show de “fusô” justíssimo, de malha vermelha e, para evitar marcas, estava sem calcinha. Todo o final da música e depois, durante o resto do show, ocorreu uma luta entre Vanilda e Meri, a primeira impedindo que a outra tirasse e jogasse o “fuso” sobre o palco. WANDO continuou:

Senhorita, senhorita

Meu amor, minha razão

Minha honra, meu orgulho

Tens agora em tuas mãos…

Maria Aparecida debruçada sobre o palco, Meri insistindo em tirar o “fuso” e Vanilda tentando impedí-la. As duas acabaram se atracando, puxões de cabelo, beliscões, chutes, gritos, muitos gritos e Vanilda, todo mundo sabe, liberou seu vocabulário de palavrões, palavrões, palavrões… Não deu outra; as duas foram tiradas do recinto, pelos seguranças, enquanto Meri gritava: – “Me larga! Eu quero dar pra ele! Eu quero dar pra ele!”

Final do show. Vanilda, segurando Meri na porta do local, querendo dar umas bifas em Maria Aparecida, que fingiu não conhecer as duas, quando essas se atracaram e ainda foi, ao final do show, tentar entregar seus croquetes para WANDO. Meri, chorando desesperada, só fazia cantar a música de seu ídolo.

Vê, coração bandido

O que fez comigo

Você maltratou

Acreditei, eu ouvi promessas…

Meri nunca mais foi a mesma. Ficou meses sem falar com as outras duas. Com Maria Aparecida, por sentir-se traída, quando a irmã jogou a peça íntima para o “seu amor”; com Vanilda, pelas razões óbvias. Voltando para casa pegou uma tesoura e cortou o “fuso” em pedaços e, desses, fez suas primeiras calcinhas para WANDO. Jurou, sob lágrimas, que jamais ficaria sem calcinhas para jogar sobre seu ídolo. Costurava e cantarolava…

Você é luz

É raio estrela e luar

Manhã de sol

Meu iaiá, meu ioiô…

É assim, desde então. Refugiada em Uberaba, onde trabalha como fotógrafa especializada em imagens de gado zebu. Em todas as horas de folga tece, corta, monta e guarda as calcinhas na arca em forma de coração. Quando acontece show de WANDO, em qualquer parte do Brasil, de carro, ônibus ou avião, Meri parte, calcinhas na bagagem, para serem jogadas sobre seu ídolo. Terminado o show, ela volta para fazer outras, sempre com a esperança de um dia WANDO tirar a que estiver usando.

Ela só liberou a história, na esperança de que o artista, conhecendo o caso, atenda seus desejos. O que é que eu não faço pelas minhas amigas?

Até!

Notas musicais:

Chora coração (1985), Moça (1975), Safada (1996), Deixa eu te amar (1997), Gostosa (1997), Senhorita, Senhorita (1977), Vê, Coração bandido (1976) Fogo e Paixão (1985), todas do repertório de WANDO.

Publicado originalmente em blog, no Papolog.