E NO MUNDO DIZEM QUE SÃO TANTOS…

Saltimbancos como somos nós!

Aos 17 anos descobri que parcelas de um povo assumem as características de quem os governa. Há uma parcela de oportunistas que aguardam o momento certo para entrar na onda ou sair dela. Há uma parte da população que se mantém apática, outra que ignora o entorno, outra ainda que “está em Nárnia” e, entre outras posturas, há os que não se contentam e batem de frente com seus governos.

A aula que recebi, aos 17 anos, foi de gente fascista, autoritária, que por absoluta estupidez se achava superior aos demais. Como os governos vigentes. Eram tempos de ditadura e conheci a metodologia de então quando fui sequestrado para que me obrigassem a dar a informação que queriam. Simples assim! Sem diálogo, sem debate, sem discussão. Um adolescente se nega a dizer o que sabe e é sequestrado em um bar de esquina, diante de seis testemunhas, levado a força, aterrorizado sob ameaças absurdas, sendo espancado e tendo como “herança” três anos de colete ortopédico e uma coluna que sinaliza problemas ainda hoje.

Eram tempos de ditadura militar! De um lado o meu pai, homem simples e trabalhador. Do outro, uma “família de gente de bem”. Dinheiro e posição social. Um sistema judiciário complicado, advogados subornados pela outra parte e, 10 anos após – DEZ ANOS! – o processo foi arquivado por insuficiência de provas. Seis testemunhas oculares, um exame de corpo de delito que comprovou o descolamento de cartilagem de uma vértebra e, entre outras, um bilhete que me obrigaram a escrever, apresentado como documento de que eu tivesse ido por vontade própria não constituíram provas. A justiça é cega…

Anos depois, já no ABC paulista, entrei pela primeira vez em uma favela. O cheiro de esgoto a céu aberto era esquecido quando servido o café fresquinho feito por senhoras asseadas. Mães, como a minha! Nunca me esqueci do chão varrido, dos móveis velhos e quebrados, mas limpos e enfeitados com toalhinhas bordadas, pintadas! Nas paredes, reproduzi depois em uma peça de teatro, uma página dupla de revista com um time de futebol – invariavelmente o Corinthians! – e uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida. Desde então soube que nas favelas, que hoje chamamos comunidades, vivem seres humanos como eu, como todos nós.

Foi no ABC, especificamente em Santo André, que descobri a luta de pessoas por um pedaço de terra para morar. E foi lá também que após uma tempestade, em um mês de janeiro que me traumatizou, estive envolvido em uma ação de crianças soterradas sob dois metros cúbicos de barro, após o barraco ter caído morro abaixo com as fortes chuvas. Por outro lado, os moradores do bairro enfrentavam ações de despejo de gente inescrupulosa, interessada em lucro, mesmo que este fosse a custo da morte de outros.

Final dos anos de 1970, já se fazia fundamental novas atitudes perante o fracasso dos governos militares. Os trabalhadores reconheciam sua força que, grande descoberta, crescia com braços parados. As greves voltavam ao cenário após anos de ditadura feroz e Lula era o norteador de quem desejava lutar por uma vida melhor para si, os seus e o próximo. Os patrões só nos ouvem quando tomamos atitudes como a greve. O movimento culminou no surgimento de um partido político e tenho orgulho em ter participado de ações que arrecadaram assinaturas para o reconhecimento do PT, o Partido dos Trabalhadores.

Esse é o meu lado. O de quem trabalha. Nunca tive dúvidas de que além das batalhas externas ao PT haveria outras, talvez piores, internas. Decepções, desânimo, desalento fizeram parte de um universo onde trabalhadores também são oportunistas, apáticos, autoritários, corruptos. Mas acima de tudo são lutadores, batalhadores, sonhadores. Sobreviventes!

Mais tempo na roda e vi um estádio lotado de torcedores mandando Dilma Rousseff “tomar no cu”. Não me surpreendeu o absurdo silêncio de quem, antes, já havia se calado perante ofensas públicas à Luiza Erundina. O país misógino exteriorizava apenas uma de suas faces, acrescidas de outras na onda que levou Lula para a prisão e, em seguida, a eleição do sujeito que a partir de ontem está prestes a deixar Brasília.

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo […]

Eso es lo que siento yo en este instante fecundo

Negros, Nordestinos, Artistas, Cientistas, Médicos, Religiosos, Juízes do Supremo! Todos estiveram – e ainda estão – sob a mira de fascistas para quem nada vale exceto a palavra de alguns obtusos. Voltei aos meus 17 anos, percebendo agora a verdadeira dimensão das ações de gente tenebrosa. A diferença é que não me senti só. Estive em Fortaleza há poucos dias e tanto em um casamento quanto em uma festa de aniversário estiveram presentes os sinais de mudança. Notícias de todos os lados davam conta de união contra o fascismo vigente. Nunca estivemos sós. Apenas acuados por uma pandemia aguardando o momento certo de agir.

Só um dia depois e a euforia está passando. Que ninguém se engane! Há um país para ser reconstruído. E se o outro lado não percebeu, o lado que se apossou de cores e símbolos nacionais como seus, o país também é nosso! De quem não aceita 100 anos de sigilo, de quem reconhece a importância tanto da ciência quanto da religião. De quem nutre imenso amor pela liberdade, pelo direito de ir e vir! O Brasil é feito de gente de todas as raças. Nesta eleição mostramos ao mundo que podemos nos unir frente ao perigo do autoritarismo e da tirania.

Seria bom que o tema da canção que escolhi como título e abertura deste texto fosse pleno. Todos juntos! Não estamos. E, dentre todos os projetos políticos e sociais necessários, talvez o mais urgente e importante seja este: reunir o maior número possível de brasileiros sob o abrigo da democracia, a segurança do conhecimento científico, o conforto da religião, a confiança na lei. Uma tarefa dificílima, mas, isso é certo, vale a pena. Todas as penas!

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Notas:

A foto acima, com Chico Buarque e Lula, foi copiada da página do Facebook do Presidente eleito.

O título e o verso que abre este texto é da música TODOS JUNTOS, da peça Os Saltimbancos, de Chico Buarque, Sergio Bardotti e Luis Enriquez Bacalov. Ouça a belíssima interpretação de Mônica Salmaso

“Volver a los 17” é canção de Violeta Parra, que admiro nas vozes de Mercedes Sosa e Milton Nascimento.

Meninas do Ceará

Verônica e Cristiane

Em períodos tão intensos há que se ter tempo para o amor. E a gente foi celebrar a capacidade humana de amar e estar um com o outro no Ceará, especificamente em Fortaleza. Um casamento! Sair de casa, percorrer mais de três mil quilômetros para um breve encontro em família. Não aquela de sangue, mas a que nos foi colocada e a quem assumimos com alegria nessa vida.

Faz tempo que não vou a casamentos. Estou aqui tentando recordar o mais recente, anterior a este que nos levou ao Ceará e, na lembrança, vem um de 2011… Depois que a gente passa de uma certa idade os casamentos são raros e assim, quando casa uma pessoa querida – minha amiga Cristiane Buco –, o jeito é arrumar a fatiota de casamento e rumar para a festa.

Passagem de avião é aquela coisa: você procura o voo mais em conta e parcela em 13 vezes (Lula!). Resta arrumar um cantinho para repousar. É aqui que entra Maria Cecília Calaça. De origem mineira, quando questionada se poderia nos hospedar, a resposta foi música para os ouvidos: “Venha quando quiser! Se eu não estiver em casa deixo a chave com o Caio, mora no quarto andar, e vocês se ajeitam. A casa é de vocês!” No meu círculo de relações é só gente de Minas que faz essas coisas.

Cecília foi nos pegar no aeroporto, e aí já ocorre algo com o que identificamos o nordeste: deixa-se a bagagem em casa e toma a direção de uma festa. Um aniversário! E eu, mineiro tímido, me pergunto nos primeiros minutos enquanto encontro “novos amigos de infância”: o que é que estou fazendo aqui? Zakira, o aniversariante, tratou de colocar a mim e ao Flávio à vontade entre os seus e, em pouco, concretizou-se a amizade que parece não ter tempo. Foi no aniversário que ouvi a observação: deve ser esse um casamento muito especial para o qual vocês vieram!

Conheci Cristiane no Instituto de Artes da Unesp, no século passado! E depois de tantos anos recebo o convite: “Vou me casar! Gostaria que você viesse”. Fui. E conheci Verônica, a doce companheira, agora esposa, da Cris. Um casamento especial por ter sido o primeiro em que estive: duas meninas! Os tempos tem sido melhores para todos que estão no grupo LGBTQIA+ e agora a gente pode festejar com as duas famílias essa união que vem de longe, já se concretiza estável, e todo mundo torcendo para que vá muito além.

Cecília Calaça, nossa anfitriã.

Cecília de vermelho, as noivas de branco, três meninas do Ceará. Aqui e ali, no imenso salão, novos amigos, velhos conhecidos. Beth, Rosa, Cris, Tati, Lilian, Jacó… Amigos. Um casamento. As famílias juntas e misturadas, tornando-se uma. Sem esquecer o momento para além da festa, volta e meia acontece gritos de “Lula!”. Todos que transitam por esse universo sabem os perigos do fascismo. Puxam cantoria e coreografias com a bandeira multicolorida, que as noivas fizeram questão de compartilhar com os convidados. Uma cantora local, Beth Rodrigues, alegrou a noite cantando tudo o que o pessoal gosta. Convidados deram palhinha e até a noiva Cris mostrou porque é grande musicista, cantando suave e lindamente.

Podemos ser felizes! Cecília com Zakira, Cristiane com Verônica. O amor, a gente sabe, é lindo! Escreverei sobre Fortaleza em outra oportunidade. Aqui, agora, é desejar toda a felicidade do mundo para as novas esposas e anunciar que, caso a sorte e a superstição se concretize, pode ocorrer um novo casamento por aí: Adivinhem quem pegou o buquê?

Felicidades, Cris! Felicidades, Verônica!

Quero rever-te, pátria minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

Professor, 25 anos!

Chegou a minha vez! Após 25 anos de trabalho na universidade, precisamente de 1995 a 2020, recebi um vídeo de presente com imagens organizadas por Regina Cavalieri e carinhosamente editadas e finalizadas por Luís Antônio Francisco, o Luisinho. Creio ser, nesse dia do professor, o momento de dividir esse trabalho com meus colegas parabenizando-os . Vejam! Quero compartilhar minha emoção com os envolvidos.

Todos os alunos da UNIP que concluíram o curso de Propaganda e Marketing no Campus Marquês, sob coordenação da Professora Regina Cavalieri recordam um ritual emocionante: Antes de anunciar os resultados finais do trabalho de conclusão do curso era apresentado um vídeo, síntese da passagem da turma pelo curso. Fotografias e vídeos registravam do primeiro ao oitavo semestres. Um momento em que, invariavelmente, os mais duros têm dificuldade em conter lágrimas. Pura emoção!

O vídeo aqui publicado é uma síntese! Assim, spoiler evidente é o não registro de todos os alunos com os quais trabalhei. Milhares! Seria maravilhoso caso fosse possível. Todavia, dedico esse trabalho aos que foram meus alunos nos Campi Alphaville, Paz, Pinheiros, Bacelar, Chácara Santo Antônio, Norte, Vergueiro e, em especial, aos alunos do Campus Marquês. Se tive passagens pontuais pelas unidades citadas, foi no Marquês que permaneci ao longo de 25 anos no curso de Propaganda e Marketing, além de ministrar aulas para Letras e Jornalismo.

Para Regina Cavalieri meu especial agradecimento. Ela nunca mediu esforços para registrar cada trabalho ou evento de seus alunos, pois sabe da importância da memória na construção do conhecimento. Também ao Luís Antônio Francisco, autor de, no mínimo 95% das imagens registradas. O Luisinho permanece na lembrança de todos os nossos alunos como o funcionário gentil, prestativo, carinhoso e, sobretudo, competente.

Durante 25 anos realizei um trabalho que me levou a conhecer milhares de jovens, trabalhar ao lado de centenas de professores e demais funcionários da instituição. Muito obrigado! Esse registro é uma prova contundente de que foi vívido e intenso. Valeu!

Valdo Resende

Tempo de brincar ou de matar?

De Uberaba chega a notícia de um evento promovido pela prefeita para celebrar o Dia das Crianças. Uma exposição onde foi ensinado a usar explosivos e sobre cada tipo de revólver e rifles. Meus pêsames!

O nome do evento é curioso: “Tempo de Brincar – 2ª Edição”. Tenho medo de saber o que foi ensinado na primeira edição, mas nesta, segundo foi noticiado, a Polícia Militar e a Polícia Penal foram os professores do dia. Explicaram que o armamento exposto pode atingir de 10 a 15 pessoas. Ou seja, penso eu que dá para matar a família, a vizinhança mais próxima e sobra tiro para algum abelhudo que resolver questionar sobre o motivo da matança!

Fui atrás dos objetivos da prefeitura! A prefeita tira o dela do rumo e informa que foi solicitação das forças de segurança pública, visando “afastar o medo, culturalmente imposto nas crianças sobre as forças de segurança e promover uma aproximação destas com a comunidade”.  Amigos meus não andam armados! Nem me ensinam a usar granadas ou bombas de gás lacrimogêneo. Me oferecem, conforme o evento, pipoca, picanha, pernil, pizza… só para ficar na língua do P, caro Policial! Vou ficar amigo de quem porta um fuzil e ou uma metralhadora, que pode ser apontada em minha direção, ou de quem me convida para degustar um panetone, um pudim?

A prefeita de Uberaba, Elisa Gonçalves de Araújo, do Partido Solidariedade, em entrevista ao Estado de Minas afirmou que pretende “humanizar a educação” na cidade. O jornal não diz o que significa para a prefeita “humanizar” e “educação”. Provavelmente a distinta deve ter mudado de opinião, já que tal fala se deu em janeiro do ano passado. No entanto é valido notar que seguindo o governador mineiro, a prefeita é apoiadora do presidente candidato à reeleição, notório incentivador do uso de armas e do comércio armamentista no país.

Dotar a polícia de armamento atual e qualificado é uma questão de planejamento de especialistas do setor, e de uma formação adequada de cada policial para que a população não se torne vítima de quem existe para defendê-la. Armar a população é outra história. Em recente debate, a candidata Soraya Thronicke disse que as armas devem ser liberadas desde que usadas com “critério e responsabilidade”. Seria o critério principal de uso estourar os miolos e mandar para o inferno o inimigo do momento? Tudo com a responsabilidade de saber que a direção do tiro está direcionada à pessoa certa? Foi isso que a senhora quis dizer, Dona Soraya?

Volta e meia temos lido no noticiário a morte de alguém por uma criança, manuseando curiosamente a arma de um adulto encontrada em algum canto da casa. As crianças participantes do evento de Uberaba já têm uma noção preliminar de como usar. Essa é a real dimensão do fato. A notícia de jornal, a cena do filme, da novela, toma outra forma quando tenho em mãos uma granada e descubro exatamente como ativá-la. Também é distinto brincar com uma arma de plástico e sentir em minhas próprias mãos o peso, a potência e as possibilidades de uma metralhadora ou fuzil. O que é que isso tem a ver com amizade?

Dá próxima vez, cara Prefeita, caros responsáveis pela segurança de Uberaba, promovam um encontro entre a Banda de Música do IV Batalhão da Cidade. Mostrem os instrumentos, como funcionam, como cuidar dos mesmos. E ensinem uma canção! Toquem e cantem Saudades de Uberaba, do Alberto Calçada. É melhor lembrar um passado imperfeito que forjar um futuro de sangue ao ensinar uma criança a usar uma arma.

A mulher, mãe do Filho

Dia de Nossa Senhora Aparecida chegando e imagino Maria ensinando o filho a falar. As mulheres, cuja paciência é infinita, repetem, repetem, interpretam grunhidos, insistem na repetição e aos poucos as crianças vão emitindo sons, articulando sílabas, pronunciando palavras. Mães! Essas também levam os filhos a identificar coisas, pessoas, animais. Ensinam a usar as mãos em palmas e preces. Sustentam a criança em seus primeiros passos até que caminhem sozinhas. Maria certamente fez tudo isso. Certamente foi ela a ensinar o Cristo a chamar Deus de Pai.

À despeito de todas as pinimbas dogmáticas sobre Maria, razão de muitas diferenças e contendas entre cristãos, o que não se pode negar é a presença da mãe ao lado da criança, da mulher caminhando ao lado do filho. É a mãe que gera, dá à luz, apresenta Jesus no templo. Também está presente nas Bodas de Caná, quando ele realiza o primeiro milagre. Segue-o até o fim, estando presente na Paixão e, continua ao lado dos apóstolos, após a ascensão. Essas situações estão descritas nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos.

Penso ser inato o respeito e carinho para com a mãe. É delicadamente emocionante ver alguém maduro, homem ou mulher, amparando e conduzindo a própria mãe. Há algo que não se rompe; simbólica ou psicologicamente, parece que o cordão umbilical não é cortado. Tal relação ultrapassa o humano e, não raro, pensamos mães como deusas. Não é à toa que a maioria das religiões reverenciam a maternidade.

As aparições de Maria ao longo da história são inquietantes. Guadalupe, Medalha Milagrosa, Lourdes e Fátima são sinônimos de fé, conforto, levando milhões de fiéis para o México, a França e Portugal, lugares onde registraram-se as aparições. Além dos testemunhos da mulher celestial conversando com pessoas, há outras formas de presença pelo planeta através das imagens como a de Aparecida que, por conta de fenômenos alçados à condição de milagres, acrescentam fatos à história de Maria.

Entre a ternura das atitudes da mãe de Jesus e a beleza das narrativas dos que a viram em suas aparições está a mulher. Ela é a Senhora, Cheia de Graça, Mãe de Deus, Rainha do Céu e quantos mais títulos lhe possam ser atribuídos, não é bom esquecer o fato de que aquela que veneramos é uma mulher.

Somos filhos de Deus, somos irmãos e é necessário equilíbrio colocar uma Deusa ou uma Mãe nesse meio. Isto se faz necessário num mundo onde o respeito à mulher carece de imposição legal. Simples e terrível: precisamos de leis para respeitarmos as mulheres! Criminoso e contraditório. E após cotidianas cenas de desrespeito presenciamos o sujeito reverenciando as santas e deusas de cada religião.

São imensas as implicações político-sociais da recente morte de uma mulher muçulmana por, embora usando um véu, ter fios de cabelo à mostra. Nada justifica a morte da jovem, assim como não se justifica o desrespeito para com toda e qualquer mulher. Fé, a gente respeita. Hábitos, a gente muda.  A Mãe de Deus é reverenciada por Islâmicos e Cristãos. Já passou da hora das duas religiões frisarem a seus fiéis a humanidade dessa mãe, mulher, como as que estão lado a lado convivendo conosco. Tudo bem iniciarmos nossas orações com o sinal da cruz simultâneo ao “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, entretanto, frisar se faz necessário: esse filho aí, da prece, tem uma mãe. Mulher, Maria!

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Nota: A imagem de Nossa Aparecida que está na foto foi um presente de minha avó. Eu estava com cinco anos, mais ou menos. Trago-a deste então, associando a mãe do céu à minha mãe, Laura, foto do fundo.

Tá certo, Seo Leôncio?

Quando o personagem principal da novela Pantanal se recusa a falar em política, dá o que pensar. O mais óbvio, e espero que não passe desapercebido aos noveleiros de plantão, é a omissão em colocar todos os pingos nos “is” da questão já que, entre os principais anunciantes da Globo, está o famigerado “agro é pop”. Marcos Palmeira, brilhante ator, faz até que a gente concorde que, ao invés de uma morte comum, a personagem José Leôncio vire espírito de luz, um encantado. Ele e Osmar Prado (Velho do rio) são destaques na novela em que Isabel Teixeira (Bruaca) roubou a cena tornando-se o principal destaque feminino.

Novela, a gente sabe, não é território de educação, exceto para o que não compromete. Para ficar no reino do faz de conta e bancar a legalzinha, certinha, tudo o que é ruim está longe da fazenda, para fazendeiros que não tem nome e endereço. A família Leôncio faz tudo certinho no que se refere ao meio ambiente, à criação de gado. Se bobear, vira tudo santo… E toca o berrante, e toca a boiada! E Maria Bethânia nos faz acreditar que somos todos filhos do Pantanal. Segunda-feira começa outra novela e o Maranhão entrará em cena.

A população distraída com as eleições, alguns só com a novela, nem percebeu o bloqueio de R$ 2,4 bilhões na educação. DOIS DIAS ANTES DAS ELEIÇÕES! Bora entender e lembrar fatos: Quinta-feira aconteceu um debate que foi até de madrugada. Sexta-feira os candidatos correram para ultimar tentativas de voto e, como é hábito desse governo, aproveitando a distração, “passou boi, passou boiada” e fez o corte no orçamento. O segundo! Em junho o governo federal já havia feito outro corte.

Quem sai perdendo? Prioritariamente o pobre! Alunos de baixa renda, usuários dos restaurantes das instituições e, no geral, nos Campi faltará água, luz e verba para pesquisas (para novas vacinas, por exemplo).

Pobre país! Na novela de maior audiência, onde não se vê dinheiro circulando, os jovens personagens são seres absolutamente geniais. Sem estudo especializado, os filhos de ambas as fazendas cuidam de tudo. Tudo! Sabem de tudo, como se cuidar de gado não demandasse, no mínimo, prática. Aliás, quem tem prática e a partir dela um conhecimento extraordinário é chamado de peão. Os outros, pilotam aviões, instalam internet e tocam berrante. Olha como é fácil! O filho mais velho chegou de carona, dizendo-se Zé Ninguém para, em seguida, tornar-se político, pronunciar falas sobre direito melhor que advogado, enfim… basta ter dinheiro para saber das coisas.

Para a maioria da população o estudo é fundamental! Nem todo mundo pode seguir os rumos do pai e virar o que quiser. Muito porque os pais, pretendendo vida melhor para a prole, prefere que os filhos progridam, façam outra coisa. Vi, na minha carreira como professor universitário, a mudança de “clientela” das universidades privadas. Se no princípio tive como alunos os filhos de famílias abastadas, com a abertura de unidades em diferentes bairros e cidades mais o surgimento de programas sociais vi, só na universidade onde trabalhei mais tempo – 26 anos –, o número de alunos ultrapassar os 200 mil.

Por mais delicado que uma educação massiva possa ser, pois com ela ocorrem problemas diversos. Dois exemplos: profissionais qualificados – Professores. Não basta abrir escola, há que se ter gente habilitada – e para exemplificar nas duas pontas da situação, a absorção dos alunos formados pelo mercado. É preciso que abram frentes de trabalho para todos, principalmente os que não tem pais políticos, donos de fazenda, de casas comerciais ou polos industriais.

A chance de uma pessoa progredir sem ser alfabetizada é mínima. Há que, no mínimo, aprender a redigir mensagens e ou formular essas em gravações de WhatsApp. E para ficar nos prestadores de serviço, ter no celular mapas para orientar destino sem saber lê-los não resolve muito. Rola por aí notícias de empreendedorismo e ideias de meritocracia! A matemática é o que nos faz realizar contas mínimas sobre quanto teremos para chegar ao final do mês, quantos anos teremos que trabalhar para adquirir casa própria. E por aí vai…

Cortar verbas na educação é, fundamentalmente, manter o pobre no lugar onde está. Vai afetar pouco a população de classe média, essa que paga convênio médico absurdo. Corta o convênio para pagar o colégio. Deixa-se para depois colocar o aparelho para alinhar dentes tortos e, para depois, também fica a plástica para cortar aqui, aumentar ali… Classe média faz dívidas e pensa que tem casa e carro, quando na real passa metade da vida pagando prestações da casa e a vida inteira pagando prestações do carro. Esnoba a escola pública e paga fortunas para escolas particulares, brigando todo início de ano por conta do preço do material escolar e do aumento das mensalidades.

Quando professor e indo para o trabalho de trem, descendo na Estação Água Branca, em São Paulo, o que mais me incomodava era perceber a quantidade imensa de jovens voltando do trabalho PARA CASA. Poucos iam para uma escola, colégio ou faculdade. Quantos mais por aí? Milhares, milhões? A falta de escola nos leva a ter um número incalculável de pessoas com dificuldades de interpretação de texto, de percepção de contexto, dos pretextos e intertextos dentro de uma determinada mensagem. Está nessa situação uma razão contundente dos efeitos de fake news absurdas. Está na falta de uma educação apurada a dificuldade em entender que em cena como a “última viagem do pai com os filhos, o que Marcos Palmeira fez foi uma ode a princípios básicos da famigerada Tradição, Família e Propriedade. Quantos fãs da novela se perguntam o real significado da personagem terminar falas e cenas com um “tá certo”?

Próxima semana começa nova novela. A educação continuará com seus problemas… E se a gente não fizer algo, terminaremos nossos problemas da mesma forma que o Seo Leôncio. Só que, a gente sabe, “NÃO TÁ CERTO!”