Ave, Uberaba, em seus duzentos anos!

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A cidade se renova, se expande. Ostenta orgulhosa o que é visível de seu passado e enfrenta o presente com galhardia, com a tranquilidade dos sábios que guardam verdades simples e imutáveis: vamos rumo ao futuro. A despeito de qualquer situação, segue-se em frente. Ave, Uberaba, em seus duzentos anos!.

Os limites da cidade são outros, longe daqueles que percorri quando criança e adolescente. Entendo melhor a expressão “no meu tempo”. Uberaba é outra cidade, diferente e igual àquela em que nasci. Transformada e modificada espacialmente, guarda prédios ainda com a mesma função e permanece altiva sobre suas sete colinas. Sinto falta de muita gente e saúdo os novos habitantes, esses que farão a cidade permanecer e, ao mesmo tempo, continuar.

Ave, Uberaba! Resolva seus problemas, corrija seus passos! Orgulhe-se de sua trajetória, de suas contribuições para com o Estado e o País. Comemore seus duzentos anos! Viva milhares de outros!

Feliz aniversário!

(Trechos de “O Tempo e o Espaço”, um dos textos integrantes do livro “O Vai e Vem da Memória”, coletânea de contos e crônicas dedicados a Uberaba que será lançado por Valdo Resende em abril de 2020)

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Obs: Embora haja um aparente imbróglio quanto a ser março ou maio o aniversário de Uberaba, pretendo deixar essa questão para os historiadores. Meu desejo é comemorar o ano inteiro. A cidade merece.

Show Fogueira das Rosas

 

Neste show, as tradições musicais nas mãos percussivas de Angélica Leutwiller e Valéria Zeidan se juntam ao acordeom experiente e sensível de Gabriel Levy e à dança multicultural de Paula Lena em show no Estúdio Mawaca, amanhã,  dia 28/02/2020, às 20h30. Ingressos a R$ 30,00. Local: Estúdio Mawaca – End. Rua Inácio Borba, 483 –Chácara Santo Antônio – São Paulo.

O duo Fogueira das Rosas vem sendo reconhecido, tanto por sua sofisticação vocal quanto pela pesquisa de percussão. A escolha instrumental da dupla baseia-se principalmente na sonoridade dos frame drums – pandeiros orientais, mediterrâneos e brasileiros – além de outras percussões que buscam acompanhar um repertório multicultural formado por canções de trabalho, cantos devocionais, cantigas de ninar, trovas de amor e amizade, antigas e contemporâneas.

Ouça abaixo, “El Dezembre Gongelat” e conheça o som da dupla:

 

 

 

 

Mangueira, teu samba é uma reza

Um samba que já está na galeria dos melhores de todos os tempos! Clique e cante com a Estação Primeira de Mangueira. Um grito contra a intolerância!

O convalescente

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Prédio branco entre jardim verde. Degraus brancos de mármore. A enorme porta de ferro também branca, como os corredores, os quartos, as cortinas, e todas as outras dependências. Silêncio no ambiente calmo. Prédio branco entre jardim verde. Paz e esperança ante a dualidade. O início e o fim. A vida e a morte. O hospital. Dualismo na mente e no espaço. Tão grande! Tanto quanto a duplicidade de sua existência paradoxal. Ocaso no interior dos silenciosos. E o convalescente, em seu silêncio que não é ocaso, vislumbra a certeza do amanhã. 

Está ali há tanto tempo! Esquece que existe a esperança em torno da paz, de tanto branco à sua volta. Mas, se lembra dos primórdios; as manhãs de matiz colossal; o pôr de sol ametista… Tudo distante, irreal. Os primórdios ficaram no jogo de bola no campo, junto aos demais meninos. No galho da mangueira, que tanto gostava, que talvez já esteja seca. Ficaram os primórdios no gládio do florão da sala… Nem se lembra mais de quem, com quem! Sim, ficaram longe; estão distantes. Os primórdios…

Lembra-se do idealismo da adolescência; das escolhas e renúncias; as incertezas diárias; a onisciência; as contemporizações frustrantes; a escolha única e decisiva; o assumir do caminho, a maturidade. A Universidade foi-lhe a melhor época, sem dúvida! As discussões filosóficas, a literatura fascinante. Lord Byron, Victor Hugo; os romancistas. O realismo na vida de Bentinho e Capitu. Ah! Machado de Assis, de Dom Casmurro e Esaú e Jacó.

O diploma universitário, o magistério. Vinte anos ensinando que a arte de compor trabalhos em prosa e verso, chama-se literatura; que Shakespeare é grande dramaturgo da Inglaterra, e que Dante Alighieri é o maior, entre os maiores italianos. Os jovens preferem os mais atuais. Ele não se lembra bem há quanto tempo se encontra no hospital. Os jovens, seus alunos tinham uma tendência para as reformas literárias de autores como Mário de Andrade, Hemingway… não gostava, como não simpatiza ainda com a literatura moderna. Infelizmente, a literatura de Arcádia e de Parnaso não são mais criadas; frequentemente esquecidas, guardadas nas estantes. 

Não se recorda da última visita que lhe fez a esposa. Faz tempo que ela não entra por aquela porta, agora somente aberta pelas enfermeiras; mas, ele se lembra de como ela entrou em sua vida. Gide; ele se deliciava ante a perspectiva à renúncia dos noventa e nove. “Professor, quando se opta por amor, não existe nostalgia; escolhe-se e pronto”. O ginásio estadual, muitas alunas… ela tinha no olhar o azul celeste. Era diferente porque conhecia o amor. Foi com a aluna que ele aprendeu a lição do dom de si. Amar é dar-se por inteiro.

E o amor saiu das páginas líricas de Dirceu, para fazer morada no coração dele. Como se modificou a partir da consciência de amar! Ela pertencia à Ação Católica. Ele já se esquecera das práticas religiosas domingueiras, o que tanto preocupava sua mãe. Então, passou a ver o cristianismo sob outro ângulo. E, entre o Realismo e o Romantismo, abriu-se-lhe um novo campo de estudo que não pertence à nenhuma escola literária. A Teologia deu-lhe maior gosto pela vida. Tomás de Aquino e Santo Agostinho mostraram-lhe Deus nos passos vivos do cotidiano.

A alegria sem igual, com a chegada do primeiro filho, que se repetiu por mais duas vezes. Era doce a espera ante a certeza da chegada. A véspera era linda devido ao oval na forma esguia do corpo amado. Forma de pôr de sol. Espera de nascente. Ele viveu novamente através da vida dos filhos. Viu seus primórdios nas algazarras infantis. A Universidade que voltou pelos assuntos dos filhos. A estrada andou na roda da vida, e o tempo caminhou com a estrada. A velhice chegada, e novamente os primórdios na presença dos netos.

Sua filha… sim, sua filha! Amou tanto a vida, a música de Beethoven! Não deveria ter tido morte tão estúpida. O susto, tal qual os que levara na infância com a ilusão dos fantasmas, assombrações. O susto. O enfarte.

Às vezes, falta-lhe a memória, mas há momentos em que revê tudo e todos em sua mente. Em outros, o vazio é tão imenso que ele sente vislumbrar o eterno. Sua esposa que não vem; a infância que ficou; a ausência da filha e a lucidez, que começa a se fazer ausente também.

Prédio branco entre jardim verde. Degraus brancos… Entra um homem de negro. Um negro diferente, no qual está contido silêncio, branco de paz. O homem chega bem próximo do leito do convalescente que se desfaz, olhando intensamente o velho professor, sussurrando: “Por esta unção e Sua mercê suavíssima, que o Senhor te perdoe todo e qualquer pecado que tenhas cometido pela vista, pelo ouvido, pela boca… “

Os primórdios ficaram na lembrança de quem com ele viveu.

 

Valdo Resende / Santo André-SP , Verão de 1982.

 

Notas do autor: 

 

Quando cheguei por aqui, no finalzinho da década de 1970 tinha dois objetivos: fazer teatro e literatura. Em 1982 tive a publicação de “A mulher que eu amo”, um conto, em revista de circulação nacional. No mesmo ano fui premiado com “O convalescente”, no VIII Concurso de Contos do DEPEC – Departamento de Educação e Cultura, da Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul, São Paulo. Neste 2020 tenho como projeto a dedicação “quase” irrestrita à literatura. O “quase” fica por conta do meu amor ao teatro e ao desejo de divulgar neste blog, os trabalhos de amigos e de profissionais a quem admiro. 

 

A reprodução de partes ou de todo o texto deve obrigatoriamente mencionar a fonte e o autor.

 

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A roteirista de Buriticupu

Neste blog quero começar 2020 com notícia boa. Após a apresentação da peça “Quem Prospera Sempre Alcança”, no final de dezembro, a produtora Sonia Kavantan recebeu e me transmitiu a seguinte mensagem: “- Pra alegrar o seu dia. Este é um comentário no Insta da Kavantan”:

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A mensagem refere-se ao Projeto Arte na Comunidade em sua primeira edição, quando percorremos dezenas de cidades dos estados do Pará e Maranhão. Entre as cidades, Buriticupu, no Maranhão. Produção da Kavantan, Projetos e Eventos Culturais, “Vai que é bom, O Casamento do Pará com o Maranhão” foi o texto que escrevi, dirigido por Emanoel Freitas e interpretado por atores paraenses. Visando resgate e valorização da cultura local, o Arte na Comunidade percorreu as cidades da Amazônia com uma tenda com capacidade para 400 pessoas sentadas e muitas centenas de outras que viam a montagem pelas laterais, abertas para minimizar o calor.

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O Casamento do Pará com o Maranhão

Receber essa mensagem tantos anos depois é um grande alento. É bom demais saber que uma menina que não conheço, e por isso optei por não divulgar o nome, teve nossa peça como start para a profissão de roteirista. Temos mantido contato com algumas pessoas que conhecemos por lá, durante a temporada que durou dois anos. Volta e meia recebemos esse tipo de retorno mostrando aspecto afetivo e, simultaneamente, consequências das nossas andanças por diferentes regiões do país. Ficamos felizes e agradecemos aos céus a oportunidade de realizar tal trabalho.

O Projeto Arte na Comunidade continuou, após o Pará e o Maranhão, com a segunda edição no Pontal do Triângulo, onde percorremos quatro cidades. A terceira foi na Baixada Santista, contemplando cinco cidades e a quarta, mais recente, no Vale do Paraíba, onde o projeto passou por quatro cidades. Estamos trabalhando e, embora com toda a realidade que não ignoramos, vamos insistindo e logo, se Deus quiser, teremos a quinta edição, em alguma região desse nosso imenso país.

 

Feliz ano novo!
Até mais.

Leonardo da Vinci: conhecimento sem limites

da vinci projeção

A exposição “LEONARDO DA VINCI 500 anos de um gênio” está em São Paulo e aqui permanece até 1 de março de 2020. Ótimo programa para as férias, é bom reservar tempo razoável para permanecer no local. Por exemplo, a projeção em múltiplos e diversos tamanhos de telas dura cerca de 40 minutos; por si, justifica plenamente a experiência prometida ao visitante. Mas, não fica nisso. Outros espaços demandam tempo para uma observação digna do trabalho do artista italiano.

Tendo sido bastante discreto, pouco se sabe concretamente sobre a vida de Leonardo da Vinci, exceto aquilo que diz respeito aos trabalhos e as diversas mudanças de cidades. Certamente foi vaidoso; relatam que era bonito, usava roupas vistosas e gostava de festas. Com certeza foi dono de uma curiosidade insaciável, o que é comprovado por trabalhos em arquitetura, biologia, música, escultura, pintura. Visionário, inventou objetos incríveis e na pintura foi o precursor do claro/escuro legando ainda, em sua Monalisa, a paisagem de fundo que alteraria os retratos por todo o sempre.  Foi o homem renascentista por excelência, o cientista para o qual não há limites para o saber.

O universo da arte adora mitos e adjetivar Da Vinci como gênio é parte desse costume. Entrando na exposição no MIS EXPERIENCE quem pode negar a genialidade do artista? Estão lá, por exemplo diversos exemplos da escrita especular, ou espelho, e ainda é difícil especificar os motivos, embora não faltem conjecturas para essa atitude do artista. Canhoto, foi ambidestro, e em tempos de gente imbecil (como esses que vivemos) dificultar a leitura seria útil, embora baste um espelho para decifrá-la.

da vinci escrita

A escrita de Da Vinci ilumina os desenhos, dignos dos melhores livros de medicina, e bem em frente aos mesmos há diversas pinturas. Em todas as salas estão objetos tridimensionais, reprodução dos inventos que servem para a guerra tanto quanto para a arte e a ciência. Uma sala dedicada à Monalisa soma conhecimento ao senso comum que permanece interessado na identidade da moça e em possíveis “fofocas” que alimentam a curiosidade vulgar. Aquela mesma que levou milhares de leitores às livrarias via fantasias de Dan Brown.

Seja pelo Homem Vitruviano, ou pelos esboços da escultura de cavalo para a família Sforza, ou ainda pela extraordinária beleza e teatralidade d’A Santa Ceia, tudo leva a afirmar e a reconhecer um grande e imenso amor pelo conhecimento. Penso que seria esse o aspecto a enfatizar: Quanto mais conhecemos, mais há por conhecer e de tudo quanto é possível conhecer nada é bastante para nos limitar, fazer parar. E é essa característica que apaixona no Renascimento, nos renascentistas. O ilimitado amor pelo estudo, pela pesquisa, pela aquisição de práticas e técnicas, pela elaboração de teorias, pelo exercício da sensibilidade via arte em diferentes expressões.

Há brinquedos na exposição “LEONARDO DA VINCI 500 anos de um gênio”. E há ciladas oportunistas, como venda de canecas ordinárias estampadas com obras do artista por 59,00 reais! Livros, cartões postais e outros objetos por preços acintosos. Isto num evento que tem patrocinadores poderosos que deveriam bancar até os ingressos para a população (Não é mesmo, d. Vale?) da qual tiram tanto. E baratear objetos e livros garantiriam não só maior escoamento, mas colaboraria efetivamente nos objetivos de facilitar conhecimento e entretenimento para a população.

Vamos lá brincar e conhecer. E deixar para comprar livros onde estão em conta. Sugiro conter a ansiedade por cacarecos e seus preços abusivos e, desejo, sobretudo, que possamos aprender a amar o conhecimento tanto quanto Leonardo da Vinci.

 

Até mais!

 

Em tempo:

da vinci onibus

“LEONARDO DA VINCI 500 anos de um gênio” está no MIS EXPERIENCE. Rua Vladimir Herzog, 75. Água Branca. São Paulo. São Paulo.

No te entregues corazón libre

bolivia

Há que se ter um lado. Vejo a trajetória de Evo Morales, o dirigente boliviano que acaba de sofrer um golpe. À história ouso ressaltar o tom da pele, a espessura do cabelo desse URU-AIMARÁ e de vários outros componentes de seu governo que colocou cultivadores de coca no poder; e penso na gente da América do Sul. Nos raros verdadeiros sul-americanos que chegaram a dirigir sua própria terra. A voz de Mercedes Sosa invade a memória e o coração. Versos que norteiam meu destino. (clique nos primeiros versos para ouvir as canções).

Salgo a caminar

Por la cintura cósmica del sur

Piso en la región

Más vegetal del viento y de la luz

Siento al caminar

Toda la piel de América en mi piel

Y anda en mi sangre un río

Que libera en mi voz

Su caudal.

A caminhada, linda, é cheia de dor e sofrimento. Sobretudo é trilha de luta, guerra, resistência. Fomos e somos celeiro da Europa. Produzimos prata, ouro, borracha, madeira, todos os minérios de Minas para a ganância de europeus e, agora, de seus comparsas norte americanos. E por isso morremos. E por muito mais precisamos lutar.

Sólo le pido a Dios

que la guerra no me sea indiferente

es un monstruo grande y pisa fuerte

toda la pobre inocencia de la gente

Por aqui estávamos comemorando as reviravoltas jurídicas revalidando a Constituição. Vozes de vingança esqueceram o Direito enquanto outras enalteceram a justiça. A saída de Lula da prisão é só um capítulo de uma luta que vai longe. Pouco após a fala do ex-presidente enaltecer a Bolívia veio a notícia infelizmente já esperada. 

Cambia, todo cambia

Cambia, todo cambia

Pero no cambia mi amor

por mas lejos que me encuentre

ni el recuerdo ni el dolor

de mi pueblo y de mi gente

Há que se ter um lado. O meu é dos que precisam de escola, hospital, justos salários, aposentadoria com dignidade. O meu lado é dos que dividem, não o daqueles que acumulam em cima da exploração alheia. O meu lado é o mesmo daqueles de onde vim: dos que lutam por uma casa, sonham com dentes saudáveis e, além daquilo que é direito humano, o meu lado é daqueles que ousam ser quem são, que exigem e exercem o dom sagrado de falar, amar e lutar.

Dale tu mano al indio

Dale que te hara bien

Y encontraras el camino

Como ayer yo lo encontre

Es el tiempo del cobre,

Mestizo, grito y fusil

Si no se abren las puertas

El pueblo las ha de abrir

Dias difíceis os que vivemos. Não são diferentes de outros, quando nos calaram à força, nos torturaram, nos mataram. E resistimos. E voltamos a lutar, a caminhar. Seguir em frente. 

Quanto a mim, deixo-me guiar pela voz de Mercedes Sosa, pelos desejos da minha gente. Sou romântico, sou poeta e, sempre, um batalhador. Não me calarão!

No te entregues corazón libre, no te entregues.

No te entregues corazón libre, no te entregues.

Y recuerda corazón, la infancia sin fronteras,

el tacto de la vida corazón, carne de primaveras.

Se equivocan corazón, con frágiles cadenas,

más viento que raíces corazón, destrózalas y vuela.

 

Até mais!

 

Notas:

As canções e seus respectivos autores:

1 – Canción com todos – Armando Tejada Gómez (letra) y César Isella (música).

2 – Solo le pido a Dios – Leon Gieco

3 – Todo cambia – Julio Numhauser

4 – Canción para mi América – Daniel Viglietti

5 – Corazón libre – Rafael Amor