A mulher que eu amo

Trabalhar nos idos de 1981 na Rua Abdo SChain, paralela à Rua 25 de Março, deu-me nova visão de São Paulo. Eu dividia atividades entre um grupo de teatro em Santo André, no ABC Paulista, e durante o dia era auxiliar de auditoria em uma companhia têxtil. Gostava das lojas de decoração infantil, com vitrines que lembravam grandes cenários, seguia minha vida obedecendo aos sons do relógio do Mosteiro de São Bento e já então ficava meio aturdido com tanto cacareco oferecido para consumidores ávidos para vender para seus clientes.

Na calçada da Ladeira Porto Geral vi inúmeras pessoas escorregando e se estabacando na calçada. Além da descida, íngreme, os escorregões ocorriam na porta de uma lanchonete de pasteis duvidosos (um ano antes houve um surto de pasteis com recheio de comida para cachorro… uma outra história.). Todos os dias o piso da lanchonete era lavado e a água escorrida ladeira abaixo. Sabão e óleo, os vilões de transeuntes incautos.

Da Rua Constituição, uma ladeira similar à Porto Geral, guardo a imagem de alguns assaltantes descendo a passos brutalmente largos – tentem descer a ladeira fugindo de perseguidores e entenderão a expressão – enquanto lojistas gritavam um inevitável “- Pega ladrão!”. Da vizinha Rua Barão de Duprat vi relógios voadores, saindo de algum dos andares da galeria Pagé. Certamente um lojista preferiu jogar boa parte de seu estoque janela abaixo evitando o flagrante da fiscalização. O mais hilário foi ver o dono do carro sobre o qual caíram os relógios agir com a rapidez dos espertos: primeiro desceu do veículo com visível ódio; ao olhar para a mercadoria, pegou tudo o que pode, jogou dentro do carro e saiu em alta velocidade.

Uma colega de trabalho, Neusa, era leitora assídua da Revista Sétimo Céu, da extinta editora Bloch. A garota sabia que eu escrevia para teatro e, na cabeça dela, achava que escrever um conto para a tal revista seria a mesma coisa. Mostrou-me o anúncio da seção Conto Premiado que informava: “Escreva um conto usando, no máximo, cinco páginas com vinte e cinco linhas datilografadas. Se ele for premiado, você receberá Cr$ 2.000,00…”. Uma quantia legal quando me lembro das dificuldades de então.

revista setimo ceu

“A mulher que eu amo” surgiu em pensamento e o conto transcrito e reelaborado em horários de almoço. Com alguma noção de público-alvo e já com a mania de escrever na primeira pessoa, narro aventuras triviais com uma moça urbana, socióloga, em contraste com o eu do discurso, um rapaz vindo do interior de São Paulo.

Voltando de Uberaba logo após as festas de final de ano retomei meu trabalho, sem muito tempo para lembrar do concurso. Era ainda principiante na vida de cuidar de casa, ganhar salário como funcionário e, nas noites e finais de semana, batalhar no teatro, sonho que me trouxera para a capital. A moça que assinava a revista prolongou férias e quando voltou, recordo bem que ainda estávamos perplexos com a morte de Elis Regina. Minha colega deixou a revista sobre minha mesa, como quem não quer nada e só na hora do almoço soube que tinha meu primeiro conto publicado. Da praia, como era comum referir-se à Baixada Santista, dias depois recebi uma mensagem de Maria Elza Sigrist, a quem considero minha primeira leitora. Alguém que, sem que eu pedisse, dedicou alguns minutos de suas férias para ler o tal conto.

a mulher que eu amo

A sucursal da Bloch, em São Paulo, ficava em uma mansão, denominada Casa Manchete, construída pelo industrial Horácio Lafer, foi moradia da família proprietária da Bloch. Segundo consta por aí, atualmente a tal casa está avaliada em R$ 96 milhões.  Isto importa, pois na época o local era tão valorizado quanto hoje. Cheguei alegrinho ao local, ressabiado com toda a riqueza da Avenida Europa, mas cheio de planos para o dinheirinho que… ironia, veio com um considerável desconto destinado ao imposto de renda!

Irritado com o desfalque, não tenho a menor lembrança do destino do tal dinheiro. Guardei a revista que depois desapareceu em uma enchente. Dona Laura, minha querida mãe, guardou um exemplar e é este, aqui registrado, documento da primeira publicação de uma carreira que, sonho ainda, venha a ser exclusivamente literária.

Até mais!

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Um olhar sobre a “Democracia em Vertigem”

foto Ricardo Stuckert divulgação
Foto divulgação/Ricardo Stuckert

Há documentários que são perfeitos para momentos de relaxamento, viagem tranquila ao universo escolhido pelos idealizadores do filme. Democracia em Vertigem, de Petra Costa, é o inverso do que se pensa do cinema enquanto entretenimento, diversão, passatempo. É puro e forte estímulo à indignação, revolta, tristeza e dúvida, muita dúvida. Para onde vamos?

Democracia em Vertigem pode ser a história de uma geração. Os fatos inerentes àqueles que, um dia, sonharam com um mundo possível, onde o destino do país pudesse ser conduzido por operários, por gente de origem humilde, distante das tradicionais e ricas famílias que tradicionalmente dominaram o país.

A ditadura militar colocou outro tipo de gente no poder, e a industrialização estimulada a partir do anterior governo de Juscelino Kubistchek possibilitou novos sonhos para funcionários que um dia descobriram a força dos braços parados, também chamada de greve.

Petra Costa, criadora e diretora do documentário, optou pelo viés pessoal quando, nascida junto com o processo de mudanças no país, com os militares voltando à caserna, olha para a história dos pais, a própria história, e desenha o Brasil de esquerda resultando num país dividido após o golpe que derrubou Dilma Rousseff e, na sequência, colocou o Presidente Lula na cadeia.

A narrativa privilegiada da diretora, que transita pelos espaços de poder com invejável proximidade, permite um olhar raro facilitando aos simpatizantes algo tipo apropriação pessoal do que é narrado, antes conhecido apenas por fartos relatos via fontes duvidosas – a mídia de massa – ou esparsos relatos de fontes digitais feitas à esquerda e à direita, essas também transitando entre o falso e o verdadeiro. O documentário Democracia em Vertigem conta a minha história, aquela que sonhei para o meu país e para que o sonho se tornasse possível dediquei tempo e trabalho.

Um pensamento passou a dominar minha percepção já enquanto via o documentário, segurando a raiva, contendo a indignação e a revolta:  o olhar de Petra Costa, de tão particular, beira ao universal e o outro lado, daqueles que festejaram a derrubada de Dilma ou a prisão de Lula, carece de fantasia, pura ficção engendrada na ânsia de poder e nenhuma, mas nenhuma poesia. O outro lado também carece de estripulias que, inúteis, não convence quanto aos motivos do golpe contra Dilma. Ainda precisa de retórica torta para convencer sobre uma prisão, a de Lula, que até aqui não apresenta provas concretas quanto à propriedade do triplex e do sítio.

Espero que “Democracia em Vertigem” ganhe as salas de cinema do planeta. Acredito mesmo que os atuais fatos, do que estamos conhecendo como “#vazajato”, contribuam para o êxito do documentário. Poderão criticar, poderão notar a falta deste ou daquele fato, daquela personagem. Todavia, a diretora não faz história, faz cinema. E conta, como se fosse uma brasileira sonhadora, os rumos que o Brasil tomou. Pelo mundo afora, quando as pessoas se perguntarem os motivos que norteiam as ações de um certo juiz, poderão ter uma série de respostas nos acontecimentos documentados pelo olhar de Petra Costa. Um olhar sincero. Não é sonho, é possibilidade.

Veja o trailer:

Até mais!

Placas e parafusos

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Sem bolo, vela, música… Um ambulatório ao lado do consultório, um médico que já virou amigo, enfermeiras e atendentes simpáticas e é o que basta. Alguém aí já comemorou o aniversário retirando pontos de uma cirurgia? É o que está programado neste 18 de junho.

Entre todas as 64 (Eita!) comemorações do meu natalício, guardo algumas inusitadas. Por exemplo, houve aquela, em um bar, onde alguns convidados gastaram os tubos e caíram fora, deixando-me de presente uma conta volumosa; foram os amigos, daqueles que ficam para sempre, que me livraram do vexame com uma “vaquinha” pra saldar a conta. Ah, os caloteiros não eram petistas! O partido nem existia.

Outro 18 de Junho comemorei na Som de Cristal, a melhor gafieira de São Paulo. Duas orquestras que se revezavam no palco, músicas para dançar junto, agarradinho, sem necessitar bater cabeça, mas carecendo de muito gingado para não passar vergonha frente aos melhores casais de bailarinos de samba, especificamente o samba de breque do qual Germano Mathias era grande intérprete. Foi uma festa e tanto!

Da infância guardo imagens de minha avó, Maria, e minha mãe, Laura, fazendo sequilhos! Elas faziam um monte de coisas, mas eu guardei os sequilhos na memória olfativa, gustativa e, obviamente afetiva. Ah, sem essa dessas coisas industrializadas! A emoção só rola quando sinto o cheiro de forno aberto e deste saindo uma forma cheia desse biscoito.

Justificando o título deste cabe reportar alguns atropelamentos… Aos quinze, sem maiores consequências; já os 39 anos comemorei sobre uma cama, convalescendo de um atropelamento que me legou dois grandes presentes: o primeiro, uma placa e quatro parafusos no tornozelo direito e, o segundo, minha especialização em artes visuais. Pude andar, como o faço ainda hoje e me tornei mestre, ou seja, sem dramas!

Drama mesmo foi quebrar o cotovelo do braço direito. Foi no dia 10 de janeiro deste 2019. Uma longa cirurgia somou três placas e 10 parafusos ao corpo do velhinho aqui! Depressão nesse caso é normal quando você, ainda por cima, ouve da médica da previdência que deveria considerar a aposentadoria ou, no mínimo, mudança de função. Quase acreditei nela ao receber, no resultado da perícia, um longo período de licença.

Só gente canhota discorda que o braço direito é tudo de bom. Andei, inclusive, cogitando que na infância todos devem ser treinados com ambas as mãos. Assim podemos fazer tudo, mas tudo mesmo, se é que estou sendo claro, mesmo ficando engessado por quarenta dias.

Devo destacar, entre os que não acreditaram no crepúsculo do meu braço direito, o doutor Fernando de Melo e a fisioterapeuta Claudia Collado. Ele, muito sorridente, sempre afirmou que tudo ficaria bem e adorando contar que pegou meus ossinhos, colocou sobre uma mesa e remontou meu cotovelo. Ela, só parando os exercícios quando eu beirava ao desespero, insistia: – Vamos, Valdo. Tem que fazer! Ambos assessorados pela equipe de enfermeiras e atendentes do CAP – Convênio Médico, aos quais devo eterna gratidão.

Não bastasse a cirurgia de janeiro foi marcada outra, agora no comecinho do mês, para tirar duas placas e oito parafusos. É dessa que tirarei os pontos no dia do meu aniversário. Ficaram dois parafusos no cotovelo e ainda tenho os primeiros, lá no tornozelo.

Espero que tenha cumprido minha cota de metais cirúrgicos nesta encarnação! E, por isso mesmo, devo comemorar com alegria. Sem festa! Mas, cheio de esperança, fé e gratidão ao Flávio, aos meus familiares, amigos e a todos os profissionais pelos quais fui atendido. Muito obrigado!

Sigo em frente para cumprir as etapas finais visando voltar ao meu cotidiano. Agora com 64 anos. Na bagagem levo muitas coisas, mas muitas coisas mesmo desses últimos meses, materializadas simbolicamente nessas duas placas e oito parafusos que tenho por insistência do Dr. Fernando. “– Vai no hospital! Pega! Faça um chaveiro! São seus. Significam o quanto você está melhor”. Acredito que ele sabe o que diz.

Até mais!

Problema Central, o documentário de Guilherme Augusto

O desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida é o tema para o documentário de Guilherme Augusto. Fiquei honrado com o convite para participar do mesmo e o resultado é notável.

Guilherme constrói a narrativa dessa tragédia a partir de fragmentos de diferentes depoimentos, obtendo unidade, coesão e clareza. Amplia o assunto e trata o mesmo no contexto das grandes metrópoles que apresentam problemas similares.

Todo professor fica feliz quando lembrado por ex-aluno, no contexto de algo iniciado em sala de aula, e orgulhoso com o resultado atingido por esse jovem profissional. Registro aqui meu agradecimento e minha admiração por esse trabalho que, espero, tenha a repercussão merecida e possa dar muitas alegrias ao meu aluno, Guilherme Augusto.

Até mais!

“Vaga Luz”, suscitando memórias


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Vaga Luz – Lídia Engelberg e Edgar Campos (divulgação)

Um casal de atores descalços usa roupas confortáveis que remetem a trajes de trabalho, roupa de ensaio. Uma banqueta e uma cadeira pontuam e compõem o espaço que revela-se múltiplo conforme ações ocorrem em tempos distintos. A iluminação, desenhada por Thiago Zanotta, acompanha o minimalismo da montagem e os atores, sem maquiagem ou qualquer outro adereço, usam corpo e voz em lampejos de momentos humanos onde a memória é o mote para, em “vaga luz” recriar momentos, fatos, pessoas.

Edgar Campos e Lídia Engelberg são os atores criadores de “Vaga Luz”, a peça em que dividem texto e concepção com o diretor, Antônio Januzelli, apresentada neste último sábado, dia 25 de maio, na Sala Multiúso do Instituto Cultural Itaú, em São Paulo. Ao final da apresentação houve um bate-papo com os presentes.

Após buscarem metaforicamente acontecimentos esparsos mantidos inteiros ou fragmentados, os atores apresentam esses em solos distintos, mantendo-se como dupla em olhares cúmplices, ações, sons e movimentos complementares. Vasculham tempos distintos, diferentes fases e situações humanas, investigadas cenicamente ao serem simultaneamente narradas e interpretadas. “Vaga Luz” vai se desvelando e complementando-se no que suscita do público, memórias similares que complementam cada momento vivido, construído com precisão artesanal pelos atores. Na medida em que o espetáculo se desenvolve a dupla contracena e cresce em profundidade, levando a plateia para dentro de situações e lembranças próprias.

O bate-papo após a peça demorou para engatar. O público em silêncio, lentamente digerindo o que havia sido apresentado. No ar, mais que a dúvida entre o que era texto criado para a cena e o que era lembrança, estava a sensação de passado presente também através de outras vizinhas, avós, irmãos, resgatados no exercício da memória apresentados em cena. Memória suscitando memórias, o irmão é aquele que dividiu a infância conosco e a vizinha é aquela amiga da mãe da gente.

Edgar Campos e Lídia Engelberg desenvolveram a peça ao longo dos últimos anos, em pesquisa paciente que, somada ao trabalho com a direção e à preparação vocal de Andrea Kaiser, resultou no momento atual, onde o público passa a refletir, discutir e acrescentar a própria percepção à montagem. O casal tem uma vida comum e trajetórias profissionais distintas e é esse caminhar que fica evidente no domínio do corpo, da voz, matéria fundamental da criação do espaço, situando o tempo de cada ação, dosando a emoção para manter um ritmo e uma tensão que permeiam todo o espetáculo, prendendo e levando junto a plateia.

Em tempos bicudos, quando o país vive crises constantes, “Vaga Luz”, produzido pela “Café Produções Culturais” é teatro em essência, valorizando sobretudo a função do ator, criador e dono de sua obra. Ambos se bastam e dispensam elementos que seriam supérfluos quando o que se busca é o que está, o que permaneceu dentro de cada um. Que faça uma longa e bela carreira, digna do trabalho empreendido até agora.

Até mais!

Quem me quer sem memória

(A força de um poema de Lêdo Ido: arma nesses tempos de luta pela educação.)

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Quem tapa minha boca
Não perde por esperar:
o silêncio de agora
amanhã é voz rouca
de tanto gritar.

Quem tapa meus olhos
nada esconde de mim.
Sei seu nome e seu rosto,
o lugar em que estou,
sua noite sem fim.

Quem tapa meus ouvidos
me faz escutar mais.
Igualei-me às muralhas
e o silêncio mais fundo
guarda o rumor do mundo.

Quem me quer sem memória
erra redondamente.
Lembro-me de tudo
e, cego, surdo e mudo,
até do esquecimento.

E quem me quer defunto
confunde verão e inverno.
Morto, sou insepulto.
Homem, sou sempre vivo.
Povo, sou eterno.

Lêdo Ido, ‘Precauções Inúteis’ in “Melhores Poemas”.

 

O Bilac que não conheci na escola

(Um poeta bem-humorado, divertido; outra face do Príncipe dos Poetas que relembro abaixo).

bilac

Velho conto

Rita, mocinha, faceira,

Passeia com o namorado

E, descendo uma ladeira,

Dá um tombo desastrado.

Que tombo! Quase desmaia…

E o noivo, que o tombo aterra,

Vê coisas por sob a saia

Mais do céu do que da terra.

Nem acode a levantá-la:

Contempla, mira, remira,

Fica tonto, perde a fala,

Bate palmas e suspira.

Levanta-se ela sozinha…

Vendo do moço a surpresa,

Murmura rindo a Ritinha:

“Viu a minha ligeireza?”

E ele, logo: “Sim, senhora!

Vi, mas sem que suspeitasse

Que aquilo que vi de fora

Também assim se chamasse…”

Olavo Bilac, Velho Conto, em Os Melhores Poemas