Helena, Beatriz, Desdêmona. Júlia Lemmertz é uma atriz!

julia Lemmertz / divulgação

Os “guardiões das novelas brasileiras” resolveram direcionar suas atenções para a idade real dos atores e atrizes da novela “Em Família”, de Manoel Carlos. A grosseria e a deselegância correm soltas para com a talentosa Júlia Lemmertz; as críticas à emissora, por uma suposta escalação errada, escancaram o preconceito contra pessoas mais velhas e, em especial, às mulheres.

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Seria bom que os “guardiões das novelas brasileiras” apontassem alguma falha no trabalho da atriz Júlia Lemmertz, da atriz Natália do Vale, da atriz Ana Beatriz Nogueira. Vou insistir: qual é a falha dessas atrizes? Elas dizem o texto com inegável competência; transmitem as emoções das personagens e não nos deixam dúvidas quanto ao que a cena deve passar. Então?

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Atores, quando talentosos, devem fazer com que acreditemos no que estão nos dizendo. Vejo as cenas de Júlia e acredito no que ela diz, compactuo as mesmas emoções. Tenho certeza que Fernanda Montenegro faria uma Julieta impecável e sonho rever Bibi Ferreira fazendo a Joana de Gota D´água. Quando assisto Fernanda Montenegro aprontando como velhinha sapeca em “Doce de Mãe” cresce a certeza absoluta de que não há idade para uma atriz.

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Tive o prazer de conhecer Júlia Lemmertz em uma coletiva de imprensa. Ela, em 1983, aos 20 anos fazia uma Desdêmona para ninguém botar defeito. Bom lembrar aos “guardiões da novela brasileira” que Desdêmona é personagem de Otelo, de Shakespeare. Anos depois, vi uma Júlia excepcional na peça “Eu sei que vou te amar”, ao lado de Alexandre Borges. Estou citando dois trabalhos, e poderia citar outros dez. Todavia, esses dois me são suficientes para respeitar essa atriz.

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida.

Eu gostaria de solicitar um pouco mais de delicadeza para com Júlia Lemmertz. Delicadeza, educação, elegância e menos preconceito. Esqueçam a carteira de identidade da atriz e olhem para a qualidade da interpretação. Tenho certeza que ela será uma Helena tão notável quantas todas as outras grandes atrizes que deram vida ao texto de Manoel Carlos.

Até!

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Nota: Beatriz, a canção dos belíssimos versos acima, é música de Edu Lobo e Chico Buarque de Hollanda

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Sem celular ou os cacarecos da modernidade

Um momento em Olinda, Pernambuco, exercitando o sonho de viver sem amarras e  em harmonia com a natureza.
Em Olinda, Pernambuco, sonhando viver sem amarras e em harmonia com a natureza.

Meu celular, acompanhando as tendências atuais, resolveu esquentar de tal forma que me provocou o receio de um acidente desagradável; já li que baterias explodem e o melhor é não arriscar. Antes que eu tomasse a decisão de desligar o aparelho ele… “morreu”.  Tive alguns minutos de pânico, algumas horas de incômodo e já estou quase feliz sem o dito cujo.

Nada como a ausência de algo supostamente importante para que percebamos o quão presos estamos aos cacarecos da modernidade. Na real, a primeira sensação ante uma falha de um objeto caro, que não tem nem um ano de uso, é de profunda irritação. Algumas vontades: jogar a porcaria na parede; difamar a empresa – neste caso específico a SAMSUNG – para toda a humanidade e, em momentos de delírio, imaginar absurdos tipo questionar os céus a razão do castigo; ou ainda indignar-se perante o descaso do cacareco para conosco.  – Que atrevido!

Após a inicial irritação, vem o terror da falta de comunicação; na cabeça da pessoa importantíssima que pensamos ser bate um brutal desespero: E se Barack Obama quiser discutir a privacidade mundial comigo? E se Maria Bethânia pretender minha companhia para um sorvete na praia? E se… A pior consequência de todas é a fatal “como conseguirei viver sem isso”…

– Muito bem, obrigado! Não há nada tremendo no meu bolso e nem corro o risco do barulho indiscreto de uma chamada durante as várias reuniões que ando fazendo. Também começo a perceber que o imediatismo em saber, resolver, responder ou comunicar pode ser substituído pelo controle da ansiedade, pela reflexão para uma melhor solução e, entre outras coisas pela liberdade de caminhar sem precisar dizer para quem quer que seja – Obama, Bethânia, ou um querido familiar – onde estou.

Bom, após mais de 48 horas sem o cacareco moderno, algumas ponderações, mesmo que embaraçosas… Ninguém me chamou pelo telefone fixo! Ninguém questionou via e-mail ou a rede social do momento – Facebook – o motivo de eu não atender chamadas. O mundo continua bem sem mim; a temperatura mantém-se quentíssima por toda a região e eu, bom, deixarei para consertar ou procurar outro cacareco lá pra semana que vem. Vou aproveitar mais alguns momentos para exercer o delicado exercício de conviver comigo mesmo.

De quantos cacarecos realmente precisamos? Sou um indivíduo que pretende viver com o mundo, no mundo, portanto longe estou de pregar contra celulares. Todavia, esse fato serviu para recordar que já vivi sem esse objeto e que, vez em quando, posso caminhar pela cidade “sem lenço, sem documento” e sem celular. Apenas vivendo a alegria de passear pela avenida. Já senti em tempos passados o mesmo em relação à TV, ao computador, e realizo periódicos exercícios de desligamento de aparelhos. Somarei o celular, com muito gosto, no conjunto de coisas que devo desligar por algumas horas para poder fazer coisas tipo refletir, pensar, sonhar, devanear… Enfim, viver.

Até mais!

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Notícias interessantíssimas!

cinza

Uma pesquisa necessária nesta manhã, e navegando por aqui e por ali, vi algumas notícias interessantíssimas da terra de Macunaíma. Vejam que notável:

 “O Itaú Unibanco anunciou nesta terça-feira (4) que encerrou 2013 com lucro líquido contábil de R$ 15,696 bilhões.”

“Este ano, a cada 35 dias, um brasileiro deve comprar uma Ferrari. Não é, necessariamente, o mesmo consumidor que visitará as lojas DVF de Diane Von Furstenberg, Burberry, CH Carolina Herrera e Aston Martin, que serão inauguradas ainda no primeiro semestre, ou as novas butiques da Louis Vuitton e da Cartier.”

“O tempo para usar um par de sapatos de salto alto vermelho da coleção Simple Pump, de Christian Louboutin, vendido na única loja da empresa no Brasil, em São Paulo, pode chegar a quatro meses. Já para desfilar pelas ruas no volante de alguns utilitários da Land Rover, são necessários três meses de espera.”

“A TV Globo fechou 2013 com um faturamento recorde de R$ 11,5 bilhões, já descontadas as comissões e bonificações de agências de publicidade.”

Passei um bom tempo pensando, pensando, e resolvi apenas compartilhar o que mais me perturbou. Se levar alguém a pensar, a refletir sobre esse estranho país em que vivemos já está de bom tamanho…

Até!

O prazer de voltar

Valdo Resende foto campus marquês

As aulas estão de volta. Um conflito que se repete entre a suposta liberdade das férias e as obrigações de professores e estudantes. É um período para ficar distante daquelas pessoas que, mesmo sem querer, materializam o mito do eterno retorno descrito assim por Nietzsche:

“Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência” (A gaia ciência)

Longe de pretender filosofar! Agora, refletir nunca é demais. Mais que refletir, parece ser necessário rezar! Pedir aos céus distância de quem perdeu a capacidade de ver o novo. De perceber as pequenas transformações que tornam diferente cada dia, cada momento.

O trabalho é uma grande benção e feliz aquele que pode construir algo, colaborar com alguém; mesmo nas ações mais simples, nas tarefas mais singelas, cada operário realiza uma pequena e essencial partícula da ação que resulta no todo que é esse mundão.

No trabalho escolar há momentos de propiciar e de receber conhecimento. Corre sério risco de vivenciar o “eterno retorno” aquele professor que não percebe nada por aprender. Já o aluno que não entende a escola como passagem viverá a escola nessa perspectiva do “eterno retorno” e aprenderá pouco; quase nada.

Trabalhei bastante nesse mês de janeiro, graças a Deus. Ainda não chegou o momento de tornar público o que andamos fazendo. Posso afirmar que estive em excelente companhia, ao lado de parceiros recentes e de outros, com os quais estou na estrada há mais de vinte anos. Conheci alguns lugares e muitas pessoas. Também tive a oportunidade de conviver por alguns dias com uma garotinha que, fazendo-me refletir muito, levou-me a escrever este post.

Registro de um "ataque"

Cinco dias de viagem passando por várias cidades e dezenas de reuniões. Trabalho estafante, encarado com serenidade por nossa pequena companheira que, em férias, brincava tranquilamente ou dedicava-se a fazer amigos enquanto apresentávamos projetos, discutíamos possibilidades. Dentro do carro, viajando de um lugar para o outro, ela continuava brincando, exceto quando se mostrava ansiosa com o que estava por vir: Na semana seguinte ela voltaria para a escola.

Foram cinco dias em que a menina retornava ao tema, com diferentes perspectivas. Os colegas, o uniforme, os professores… Ela mostrou-se preocupada até com a condução que a levaria para a escola. E repetiu várias vezes a mesma pergunta: – Quando é mesmo que começam as aulas, mamãe? A mãe respondia e, invariavelmente, ela prosseguia: – E falta quanto tempo? Quantos dias? Que dia mesmo? Já é na próxima segunda-feira?

Espero que minha querida amiguinha tenha encontrado professores e colegas livres da síndrome do “eterno retorno”. Que dividam com ela o prazer de voltar, a alegria de continuar. Tenho pensado constantemente se serei capaz de perceber gente como essa menina entre meus colegas professores e alunos, mesmo estando todos já calejados da vida escolar. Não temos mais nove, dez anos de idade; todavia, que possamos recuperar o olhar e a vontade primeira daquele dia em que nossa mãe nos acordou para que fossemos estudar.

Até!

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Nota: As fotos são de uma turma do Campus Marquês que concluiu o curso em 2013.

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A volta de “Florilégio Musical II, Nas Ondas do Rádio”

Florilégio II

Eu gosto de rádio. De um rádio que é difícil encontrar. Rádio com música brasileira de qualidade, sem imposição de gravadoras para artistas de ocasião. Incomoda-me, bastante, alguns locutores e locutoras da atualidade que falam como se estivessem narrando uma corrida de cavalos, confundindo ritmo com velocidade. Um programa de rádio “ao vivo”, daquele dos bons, volta aos palcos, agora no Teatro Eva Herz.

Carlos Moreno, Mira Haar e Patrícia Gasppar são estrelas de um show que poderia estar na Rádio Nacional, na Mairink Veiga, na Rádio Record ou em outra qualquer, entre tantas emissoras que reinaram nos anos de 1930, 1940 e 1950. Os atores-cantores brincam com um repertório vasto, passando pela nata dos nossos compositores (Pixinguinha, Noel Rosa, Joubert de Carvalho, Ary Barroso), com ênfase em intérpretes como Marlene, Emilinha Borba, Nelson Gonçalves e muitos outros.

Vi este trabalho em dezembro, quando em cartaz no Museu da Casa Brasileira. O espetáculo é envolvente não só para quem gosta e conhece um pouco da história do período, mas para quem aprecia a música brasileira, boa o suficiente para atravessar qualquer barreira temporal.

Há formas de ver e maneiras de perceber esse Florilégio Musical. Parece saudosista com o vestuário que remete aos reis e rainhas do rádio; pode ser visto como um espetáculo conservador, somando-se as boas interpretações aos arranjos e direção musical de Jonatan Harold. O diretor geral, Elias Andreato, realizou um espetáculo com leveza que, em dado momento, brinca com o momento em que vivemos. E é aqui que percebo outro espetáculo: aquele que deixa evidente o quanto estamos distantes – nas emissoras de rádio e TV – dos bons musicais que tornaram populares nossos grandes cantores e compositores e fizeram da música brasileira uma das mais importantes no mundo.

Vejam! Vale a pena.

Florilégio Musical II: Nas Ondas do Rádio, está no Teatro Eva Herz, começa nesta sexta-feira, 31 de janeiro, às 21h. Fica em cartaz até 30 de março. Informações sobre horários e valores dos ingressos pela bilheteria do teatro: 3170 4059.

Até!

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Brasil 2014

salvador_dali_a_persistencia_da_memoria

Depois do carnaval

Depois do verão

Depois da copa do mundo

Depois das eleições

Depois… Depois…

Antes.

O que há pra antes?

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Até!

O Samba do Crioulo Doido

A obra e o autor
A obra e o autor

Contam que JAMELÃO era ranzinza. Não escondia o humor ácido em diversas circunstâncias. Todavia, quando o samba era ruim, o velho e eterno puxador de samba da Mangueira soltava todos os cachorros e aí sim, mostrava-se irritado. JAMELÃO não gostava de “sambas de crioulo doido”. Entenda-se aqui esse tipo de samba como samba ruim. Certamente, apenas um “Samba do Crioulo Doido” mereceu a admiração de Jamelão:

Foi em Diamantina,

Onde nasceu JK

Que a Princesa Leopoldina

“Arresolveu” se casar

Mas Chica da Silva,

Tinha outros pretendentes

E obrigou a princesa

A se casar com Tiradentes…

A expressão “samba do crioulo doido” é do memorável SERGIO PORTO, também conhecido como STANISLAW PONTE PRETA. Homem de diversas profissões (jornalista, escritor, compositor, radialista), morreu cedo, com apenas 45 anos.

Deixou-nos uma obra precisa, contendo uma crítica hilária e corrosiva do período em que viveu. As histórias de Tia Zulmira ou do Primo Altamirando estão registradas em livro, assim como os FEBEAPÁS (Festival de Besteira que Assola o País) em três volumes de puro humor nonsense, deitando e rolando sobre a tresloucada realidade brasileira.

Joaquim José, que também é da Silva Xavier

Queria ser dono do mundo

E se elegeu Pedro II…

Em um país onde os colunistas sociais elegiam, anualmente, as mulheres mais bem vestidas, STANISLAW PONTE PRETA lançou as “mais despidas”, criando as CERTINHAS DO LALAU. Grandes vedetes, mulheres lindíssimas, ficaram na mente dos brasileiros, símbolos de uma época. Um exemplo, CARMEM VERÔNICA, ainda hoje atuando na TV.

Na história dos sambas-enredo sabemos que, no início do século passado, as Escolas de Samba escolhiam um tema, um refrão que seria cantado na avenida, cabendo a improvisação, posteriormente proibida. Vieram os enredos propriamente ditos, uma “história” para ser contada na avenida. A frágil educação formal dos compositores e as regras impostas pelos organizadores de desfiles seriam, na visão de SERGIO PORTO, o STANISLAW, responsáveis pelas confusões nos versos musicais.

Das estradas de Minas

Seguiu pra São Paulo

E falou com Anchieta

O vigário dos índios

Aliou-se a D. Pedro

E acabou com a falseta…

Em 1968, ano fatídico para a história política brasileira, com os mandos e desmandos dos militares no poder, STANISLAW PONTE PRETA lançou, em livro, “NA TERRA DO CRIOULO DOIDO – FEBEAPÁ 3 –A MÁQUINA DE FAZER DOIDO”. Em disco, o QUARTETO EM CY lançava “O Samba do Crioulo Doido”, sucesso imediato e absoluto em todo o território nacional. Foram seus últimos trabalhos, pois SERGIO PORTO faleceu em setembro do mesmo ano.

Tantos anos depois, a safra de sambas-enredo para o carnaval continua impregnada de “sambas do crioulo doido”.  Há que se matricular em cursinho, fazer pesquisa, estudar a fundo para entender o que algumas escolas estão querendo contar na avenida. Versos maiores que a frase melódica, frase soltas e desconexas garantindo a existência de uma ala e por aí vai. Daí a atualidade de SERGIO PORTO que através de seu pseudônimo, STANISLAW PONTE PRETA, estaria escrevendo mais um FEBEAPÁ!

E assim se conta essa história

Que é dos dois a maior glória

A Leopoldina virou trem

E D. Pedro, é uma estação também…

Para lembrar a música vejam o vídeo com o registro do “Samba do Crioulo Doido”, na deliciosa interpretação das meninas do QUARTETO EM CY. E vamos todos começar a semana com bom humor.

Até!

Notas:

 Samba do Crioulo Doido – Stanislaw Ponte Preta.

 Sérgio Porto adotou este nome,Stanislaw Ponte Preta, tirando-o do livro Serafim Ponte Grande, de Oswald deAndrade.