Companheiro de viagem

Valdo Resende companheiro de viagem

O instante vai e a paisagem torna-se turva

Lembrança desfocada como a foto tirada pela janela do carro em movimento.

O vazio vence a excitação, já que o velho cotidiano toma conta;

Antes que vença, ainda recorremos a fotografias, retendo o recente vivido.

Brinco com o garoto que, cúmplice do tempo, já ostenta 13 anos e diz que é rapaz.

Falo com o afilhado que, na minha mente, será sempre o menino:

– Olha o Pão Doce, que lindo!

Ele sorri, olhando-me como se olha ao parvo. Pão Doce…

Antes que eu repita a expressão noto novo brilho, do menino que é rapaz.

Um acordo tácito é estabelecido sem documentos ou registros:

O Pão Doce é muito bonito!

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Férias são sonhos plenos de imagens fugidias, múltiplas, logo esmaecidas

Ingressos, recibos, cartões e fotos, um ou mais cacarecos são lembranças

E a roupa suja para a lavanderia é realidade, golpe fatal do fim da viagem.

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Desse recente momento ficará o límpido olhar de Antônio

Indiferente à ostentação do Barroco; ignorando teorias artísticas no MAR

Mantendo a paciência com as portas fechadas da Daros e do Museu do Índio

Tudo aparentemente esquecido atrás do sorvete no final do dia.

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SP/Inverno de 2013

Julho sem adrenalina no Museu de Arte Sacra

Museu de Arte Sacra foto by Valdo Resende

Férias começando, a adrenalina ainda pegando forte, eu procuro retomar a paz e o sossego no Mosteiro da luz, especificamente no Museu de Arte Sacra; nada como um lugar tranqüilo, onde o passado se faz presente e, de quebra, faz-me lembrar um pequeno pedaço de Minas Gerais, na querida São Paulo.

Abdias e Ezequiel, lembrando Minas Gerais.
Abdias e Ezequiel, lembrando Minas Gerais.

Fundado em 1970, o Museu de Arte Sacra de São Paulo abriga milhares de obras em seu acervo, priorizando imagens religiosas do século XVI ao século XX.  Está na ala mais antiga do Mosteiro da Luz, construído em 1774 e abriga uma clausura, da Ordem das Irmãs Concepcionistas (Mais um item  para lembrar Uberaba, onde as Irmãs residem na clausura da Igreja da Medalha Milagrosa).

Nos jardins estão quatro réplicas dos profetas criados por Aleijadinho (Antonio Francisco Lisboa) para o santuário de Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas do Campo, também Minas Gerais. Foram cedidas ao Museu de Arte Sacra pela Justiça Federal; pertenceram originalmente a Edemar Cid Ferreira, mas foram confiscadas quando do processo do indivíduo por lavagem de valores.

Os quatro profetas cedidos pela Justiça Federal
Os quatro profetas cedidos pela Justiça Federal

O local tem uma importante coleção de lampadários além de outros objetos sacros, objetos e mobiliário laicos. Tenho especial interesse nos oratórios barrocos, guardando imagens coloniais de rara beleza. Entre as obras do acervo, a escultura da imagem de Nossa Senhora das Dores, também de Aleijadinho, é de um requinte formal extraordinário e deixa evidente a capacidade do artista em expressar-se e captar expressões.

Museu de Arte Sacra foto by Valdo Resende

Visitar museu não é ação tipo caminha por corredores de shopping. É bom descansar o olhar, refletir, interiorizar o que está sendo visto ou, simplesmente curtir o silêncio que, no Mosteiro da Luz, é secular e continua absolutamente aconchegante. No pátio interno é possível ver, e ouvir, pássaros, isso sob o murmúrio da delicada fonte central.

Pátio do Mosteiro da Luz foto by valdo resende

O local é muito visitado também pelos fiéis de Frei Galvão, que está entre os fundadores do antigo Mosteiro. Após as orações na capela dedicada ao Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, como foi canonizado, é possível conseguir as pílulas que, para os crentes, são um santo remédio. O museu também abriga um importante acervo de presépios de diferentes regiões do mundo. Para quem não é de São Paulo, o endereço é Avenida Tiradentes, 676, bem próximo da Estação do Metrô Tiradentes e está aberto de terça a domingo.

Mosteiro da Luz foto by valdo resende

O Museu de Arte Sacra está em uma das regiões mais movimentadas da cidade. O barulho da avenida é intenso, todavia esquecido logo que se adentra ao velho prédio, como se uma viagem no tempo fosse iniciada observando as paredes seculares, o mobiliário antigo, as imagens e objetos que permearam a vida de nossos antepassados. É recomendável para todos nós, que vivemos nesse mundo acelerado; a gente sai de lá calminho, introspectivo, pronto para continuar a viver.

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Até mais!

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Quinhentos anos da Capela Sistina

Vale refletir sobre a visão do artista. Michelangelo sabia como veríamos o teto da capela papal.

A Igreja Católica comemora os quinhentos anos da Capela Sistina, que foi aberta ao público no dia 1 de Novembro de 1512. O trabalho de Michelangelo foi encomendado pelo Papa Júlio II. Entre as histórias que envolvem esse momento histórico, consta que Michelangelo não queria pintar a capela, pois preferia a escultura à pintura. Mas o Papa Júlio II não era do tipo de sujeito para ser contrariado. Dois indivíduos de gênio forte; com certeza foi um relacionamento tenso.

Seria fantástico visitar a Capela Sistina no meio da madrugada, ou nas primeiras horas da manhã, antes da entrada dos visitantes. É um local para ser contemplado, demoradamente contemplado, o que é muito difícil pela grande quantidade de turistas; afirma-se cerca de 10 mil diariamente, dobrando para 20 mil em dias de pico.

Estivemos lá, minha irmã e eu, e sinto-me bastante privilegiado por isso. Foi durante um curso de arte e chegamos à Capela Sistina após conhecer a escultura de Moisés, do próprio Michelangelo, que seria parte do conjunto escultórico para o túmulo do Papa Júlio II; também já havíamos passado pelo Capitólio e, na Basílica de São Pedro, havíamos parado para observar atentamente a Pietá. A Capela Sistina é um “golpe de misericórdia” em alguém que tente não sucumbir ao gênio de Michelangelo.

Pensada originalmente como capela papal privada, a Capela Sistina tem a função primordial de sediar os conclaves onde são eleitos os Papas.

No Museu do Vaticano recordo uma aula extensa, com uma professora que havia trabalhado na restauração do altar mor. Arte e história com uma riqueza de detalhes minuciosos, impressionantes. Tivemos como ilustração da aula dois imensos painéis reproduzindo o teto e o altar, e ainda outro, com as paredes laterais com cenas da vida de Moisés de um lado e, do outro, cenas da vida de Jesus Cristo. A aula foi concluída com a visita e ainda uma conclusão, para dúvidas finais.

Antes de entrar na Capela, passamos pelos quartos, pintados por Rafael Sanzio. Conta-se que os quartos papais foram destinados ao trabalho de Rafael, já que a Capela Sistina, originalmente criada para as orações privadas do Papa, havia sido destinada ao rival Michelangelo.  Não vimos parte desses quartos, pois estavam em restauração, assim como parte da parede esquerda da Capela Sistina, que também estava sendo restaurada. Todavia, foi possível admirar a Escola de Atenas, na Stanza della Segnatura.

Nada é muito calmo e tranquilo durante a visita, apesar do clima respeitoso dentro da Capela. Padres com suas batinas negras, pesadas, organizam o ambiente, apressando todo mundo para que mais pessoas possam ter o prazer de conhecer o local. Pedem silêncio e “tocam a boiada” com eficiência e é por isso que os milhares de turistas que passam por Roma têm a oportunidade de contemplar o local.  O tempo é escasso para observar os 1.100 metros quadrados do teto. Sem contar que ainda há as paredes laterais e o altar mor que merecem igual observação.

Neste momento o foco está no teto, com a comemoração dos quinhentos anos; logo será a vez de comemorar o aniversário do altar mor. Este foi pintado entre os anos de 1536 e 1541, duas décadas após a pintura do teto. O altar mor é estilisticamente muito diferente do teto e já anuncia as características iniciais do Barroco. Assim, o teto da Capela Sistina é o ápice do Renascimento e o altar mor, com a obra denominada “O Juízo Final”, com sua intensa expressividade, abre o espaço terreno tanto para o céu quanto para o inferno. Michelangelo é o grande mestre.

O Juízo Final, o imenso trabalho que recobre o altar mor, exemplo concreto da maturidade criativa de Michelangelo.

A Capela Sistina é apenas um detalhe do imenso complexo que é o Museu do Vaticano. Há roteiros diferenciados para visitar o local que, além das obras nos espaços internos, conta com um maravilhoso jardim também cheio de obras de arte. Todo esse imenso patrimônio foi amealhado durante dois milênios, contribuindo para as especulações e críticas sobre os tesouros da igreja católica.

Eu sou grato a quem soube preservar tão valioso patrimônio histórico e artístico. As obras de arte estão lá, para conhecimento e deleite de todos, independendo de religião. Por uma longa trajetória histórica estão sob a guarda da Igreja. Na França e Inglaterra, por exemplo, estão em instituições mantidas por governantes laicos. Tanto a Igreja quanto o Estado são eficientes na manutenção do patrimônio histórico e artístico universal. Ainda mais, souberam transformar esse patrimônio em fonte de divisas, atraindo turistas de todo do planeta.

Henrique VIII, ao romper com a Igreja Católica, favoreceu rumos muito diferentes para a arte na Inglaterra renascentista  (lá, tivemos Shakespeare!). Da mesma forma, a posterior ação de Napoleão III, na França, ao criar o “Salão dos Excluídos” contribuiu para que o público parisiense tivesse conhecimento da primeira geração do Impressionismo.  Religiosos ou leigos, os seres humanos garantem a sobrevivência de grandes trabalhos artísticos e essa é uma atitude para ser respeitada e imitada.

Creio ser esta a imagem mais popular da Capela. A “Criação de Adão” ocupa o espaço central do imenso teto. É um afresco de 280 cm x 570 cm.

Espero que, nos próximos dias, ocorram muitas reportagens sobre a Capela Sistina por todas as emissoras de televisão, em jornais, revistas, internet. Minha singela contribuição é esta que, espero, desperte um pouquinho da curiosidade das pessoas para essa maravilha da criação de Michelangelo.

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Bom final de semana!

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Caravaggio chegou!

Estão em Roma alguns dos principais trabalhos de Caravaggio. Na penumbra de igrejas, sob uma irritante vigilância de padres que não ficam contentes com apreciadores de arte. Então, a melhor maneira para observar “A conversão de São Paulo” ou “A crucificação de São Pedro”, por exemplo, é fingir-se de fervoroso católico visitando a Igreja de Santa Maria Del Popolo. Todo mundo representa; o teatrinho compensa. Caravaggio é um dos maiores artistas do Barroco italiano.

A conversão de São Paulo, sob estrita vigilância dos padres da Igreja de Santa Maria del Popolo, em Roma. De lá, não sai fácil.

Em São Paulo, na exposição que começa hoje no MASP e que irá até setembro, ninguém precisará rezar. E não será por falta de obras sacras, já que estarão expostas obras como o “São Francisco em meditação” e o “São Jerônimo que escreve”, dois bons exemplos da técnica, da perícia e da capacidade expressiva do pintor italiano. Além de trabalhos do artista há outros, cuja autoria não é comprovada, e ainda uma terceira categoria de obras, feitas por admiradores do artista e por isso denominados “caravaggescos”. O nome da exposição: “Caravaggio e seus seguidores”.

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) viveu pouco, mas intensamente. A vida conturbada é motivo de curiosidade para muitos e é comum perceber o interesse de jovens, encantados com as transgressões do pintor. Entre as ações rebeldes de Caravaggio há o fato de ter usado como modelo, para pintar a Virgem Maria, uma prostituta chamada Lena, amante do pintor. Não só dissoluto, Caravaggio também foi violento e teve sua carreira comprometida por lutas, ferimentos e fugas. A última levou-o para longe de Roma e o pintor passou seus últimos dias tentando o perdão papal, morrendo em Porto Ércole, antes de conseguir retornar para Roma, o principal mercado de arte do período.

A Medusa Murtola é, deste post, a única obra exposta no MASP.

A pintura de Caravaggio – o nome do artista vem do lugarejo onde nasceu – é de um brutal e emocionado realismo. São composições dramáticas, violentas, buscando a emoção do receptor. O Barroco é um período em que a Igreja Católica busca responder aos avanços da Reforma Protestante. As construções e a arte barroca visam reforçar a fé católica, direcionar as sensações dos fiéis para o alto; prato cheio para figuras espiritualizadas, devotas, nobres. Caravaggio rebela-se contra o que foi denominado Maneirismo e escolhe seus modelos entre o povo e cria cenas religiosas com perturbadora realidade.

O domínio técnico do claro-escuro é absolutamente notório na obra de Caravaggio. As obras do pintor emergem da escuridão e cabem perfeitamente na penumbra de locais sacros como a Capela Contarelli, onde estão pinturas sobre a vida de São Mateus, ou as citadas acima, da Igreja de Santa Maria Del Popolo, que estão na capela Cerasi.

A Ceia em Emaús, exemplo da grande obra do artista, está na Galeria Nacional, em Londres.

O trabalho do artista está no Museu do Louvre, em Paris; no Palácio Barberini, em Roma; na Galeria Nacional, em Londres e, além das Igrejas e do museu do Vaticano, nas maiores galerias italianas tais como a Galeria Degli Uffizi e a Galeria Borghese. Se é difícil para o cidadão comum visitar todos esses lugares, visitar uma exposição dedicada ao artista é fundamental. Daí a relevância desse evento para os habitantes de São Paulo e para todos os que possam visitar a cidade.

Detalhes sobre horários, dias e preços estão em www.masp.art.br/masp2010

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Até mais!

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