Fotos menores, Arte 1, no Pará. Sonia Kavantan produzindo e eu, conhecendo o tacacá. Na foto maior, em Prata, Minas Gerais, no Arte na Comunidade 2. O Arte na Comunidade 3 está quase pronto.
Estou fazendo teatro na Baixada Santista. A terceira edição do Arte na Comunidade. Um orgulho e um privilégio em contar com uma produção extremamente cuidadosa (Obrigado, Sonia Kavantan!) e em atuar com atores da maior qualidade, todos das cidades da região. Com Bruno Fracchia, Ernani Sequinel, Fabíola Moraes, Gigi Fernandes e Rogério Barsan faremos seis trabalhos, cada um com tema e título distintos, em cada uma das cidades contempladas. Todas as montagens estão reunidas sob o nome BRINCANDO ENTRE A SERRA E O MAR.
Escrevo menos aqui porque estou redigindo o blog do projeto, onde esboçamos um diário da montagem. Quem puder, agradeço a leitura (basta clicar aqui); lá estamos contando o dia a dia do nosso trabalho, ao mesmo tempo em que informamos todos os eventos que ofereceremos nas próximas semanas.
De repente dei-me conta de que a vida me propiciou, com o Arte na Comunidade 3, uma belíssima oportunidade para festejar um momento especial, ocorrido lá em Uberaba, em 1975. Sim, neste ano de 2015, especificamente no mês de dezembro, comemoro quarenta anos de teatro. A festa, pelo visto, será no litoral.
Sempre fico indeciso quando penso em comemorações. Há muita coisa para considerar e renasce, por experiências passadas, o receio de que algo impeça o evento. Assim resolvi deixar que as coisas acontecessem por si e… Tem dado certo. A grandiosidade de uma comemoração não está no tamanho da festa, mas na intensidade do que é feito para festejar cada momento da vida.
Com as seis montagens que realizaremos na Baixada Santista, especificamente nas cidades de Cubatão, Guarujá, Praia Grande, Santos e São Vicente, lembrarei que comecei a fazer teatro há 40 anos. Foi no distante dezembro de 1975, em um dos salões da sede da pastoral de Uberaba, juntamos várias mesas em um palco improvisado e estreamos nosso “Auto da Esperança” (escrevi sobre esse momento aqui). Sem pensar em grande festa particular, tenho este próximo momento como dádiva divina por todo o caminho percorrido.
Estamos em fase final de montagem. Para os leitores que me dão a honra lendo este blog peço que fiquem atentos. Aqui e no https://blogartenacomunidade.wordpress.com/ teremos todos os detalhes das nossas atividades litorâneas.
Penso sobre a expressão “delação premiada”, recordo Cecília Meireles e tenho receios. Um bandido, tornado delator é melhor que o outro, o delatado? Nesses tempos difíceis, cheios de acusações, interrogatórios… O que pode dizer alguém para livrar a própria sorte do fim tenebroso? Do que alguém é capaz, já descoberto em seus crimes, na tentativa de ganhar menor tempo na prisão?
O Romanceiro da Inconfidência é uma das obras geniais da literatura brasileira. Todos os fatos ganham conotações riquíssimas na profunda poesia de Cecília Meireles. Gosto de todo o livro. Admiro cada poema, cada romance.
Vivemos tempos difíceis e temo, sobretudo, pela saúde do meu país, pela paz, pela garantia dos direitos constitucionais. Quero lembrar, neste momento, o “Romance XLIV ou da testemunha falsa”. Vale a pena ler e, sobretudo, refletir dentro da atual perspectiva.
Romance XLIV ou da testemunha falsa
Cecília Meireles
Que importa quanto se diga?
Para livrar-me de algemas,
da sombra do calabouço,
dos escrivães e das penas,
do baraço e do pregão,
a meu pai acusaria.
Como vou pensar nos outros?
Não me aflijo por ninguém.
Que o remorso me persiga!
Suas tenazes secretas
não se comparam à roda,
à brasa, às cordas, aos ferros,
aos repuxões dos cavalos
que, mais do que as Majestades,
ordenarão seus Ministros,
com tanto poder que têm.
Não creio que a alma padeça
tanto quanto o corpo aberto,
com chumbo e enxofre a correrem
pelas chagas, nem consiga
o inferno inventar mais dores
do que os terrenos decretos
que o trono augusto sustêm.
Não sei bem de que se trata:
mas sei como se castiga.
Se querem que fale, falo;
e, mesmo sem ser preciso,
minto, suponho, asseguro…
É só saber que palavras
desejam de mim. – Se alguém
padecer, com tanta intriga,
que Deus desmanche os enredos
e o salve das consequências,
se for possível: mas, antes,
salvando-me a mim, também.
Talvez um dia se saibam
as verdades todas, puras.
Mas já serão coisas velhas,
muito do tempo passado…
Que me importa o que se diga
o que se diga, e de quem?
Por escrúpulos futuros,
não vou sofrer desde agora:
Quais são torpes? Quais, honrados?
As mentiras viram lenda.
E não é sempre a pureza
que se faz celebridade…
Há mais prêmios neste mundo
para o Mal que para o Bem.
Direi quanto me ordenarem:
o que soube e o que não soube…
Depois, de joelhos suplico
perdão para os meus pecados,
fecho meus olhos, esqueço..
– cai tudo em sombras, além…
Talvez Deus não me conforme.
Mas o Inferno ainda está longe,
– e a Morte já chega à praça,
já range, na Ouvidoria,
nas letras dos depoimentos,
e em cartas do Reino vem…
Vede como corre a tinta!
Assim correrá meu sangue…
Que os heróis chegam à glória
só depois de degolados.
Antes, recebem apenas
ou compaixão ou desdém.
Direi quanto for preciso,
tudo quanto me inocente…
Que alma tenho? Tenho corpo!
E o medo agarrou-me o peito…
E o medo me envolve e obriga…
– Todo coberto de medo,
juro, minto, afirmo, assino.
Condeno. (Mas estou salvo!)
Para mim, só é verdade
aquilo que me convém.
Nota:
O Romanceiro da Inconfidência foi lançado em 1953. Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.
Principal romance de Fernando Sabino (1923-2004), “O Encontro Marcado” foi, durante muito tempo um dos meus livros de cabeceira. Tomei como determinação de vida uma frase contida no texto que encerra a primeira parte do livro:
“Não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei”
Perguntas do tipo “o que é que os outros vão pensar?” sempre me deixaram irritado e pautar minha vida pela vontade alheia nunca foi o ideal. Revoltado com os desatinos capitalistas tomava como norte as palavras de Eduardo Marciano, a personagem de Sabino:
Também tenho o meu preço, mas ninguém conseguirá me comprar, todo o dinheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedos da Coisa que me aprisionar entre os dedos — hei de fluir como um rio, dia e noite, nem que tenha de dormir de pé porque esta é a cama estreita que conduz ao reino dos céus.
… meu Deus, livrai-me do pijama, quero ser reto, quero ser puro, quero servir, pois vai trabalhar, moço, deixa de vaidade, tu és muito pretensioso, uma missão a cumprir, ora vejam, perdulário que tu és, a vida é breve…
Eu era jovem demais para recear partir e quando saí de casa tinha prazer e alegria em vir embora, achando que tudo podia ser suave e sem cobranças.
…ai, Minas Gerais, já ter saído de lá, tuas sombras, teus noturnos, teus bêbados pelas ruas, Eduardo Marciano, minha mágoa, minha pena, minha pluma, merecias morrer afogado, o barco te leva para longe, a praia está perdida, mas voltarás nem que tenhas de andar sobre as águas…
Descobri, ao longo da vida e de muitas perdas, o real peso da frase que encerra a primeira parte do romance. Agora, que o tempo cobra cada segundo, penso em Fernando Sabino, n’O Encontro Marcado, e no que ainda pode ocorrer, mesmo sabendo que:
De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.
Até mais!
Nota:
O Encontro Marcado foi lançado em 1956. Ao longo do mês de março publicarei alguns textos ou parte de textos de poetas, escritores e dramaturgos que foram essenciais na minha formação. Quero dividir com os leitores deste blog trechos preciosos que, bom enfatizar, nunca é demais divulgar.
Ronan Vaz, Lilia Pitta, Marcelo Ribas e José Luiz Filho em foto de Thaneressa Lima (Divulgação)
“A Menina Que Queria Ser Bandeirante” é a quinta história do projeto “Arte na Comunidade 2” e foi apresentada nas escolas, individualmente, por cada um dos atores do projeto. Para encerrar o projeto, nas quatro cidades, ocorreu uma mostra teatral com montagens feitas por artistas locais, grupos regionais e da capital, Belo Horizonte. Como anfitriões, os contadores do “Arte na Comunidade 2” subiram ao palco e, juntos, contaram para toda a comunidade as HISTÓRIAS DO PONTAL DE MINAS. Nesta, reviveram as histórias contadas por cada um, mas com a participação dos quatro atores. As imagens que ilustram este post são deste momento, quando nossos contadores apresentam a quinta história, d’A Menina Que Queria Ser Bandeirante.
Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, pedimos a gentileza da citação da origem. Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 foi patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e contou com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata.
Vamos à história:
A Menina Que Queria Ser Bandeirante
Original de Valdo Resende
(VOLTA A MÚSICA INICAL AO TERMINAR A PRIMEIRA HISTÓRIA. O CONTADOR MEXE NOS LIVROS, POR ALGUNS SEGUNDOS E, EM SEGUIDA, RETIRA E ORDENA OS QUATRO OBJETOS IDENTIFICADORES DE CADA CIDADE SOBRE A MALA/BIBLIOTECA. NOMINA O OBJETO E REFERE A CIDADE, SEMPRE EM ORDEM ALFABÉTICA).
A mala-biblioteca e os demais adereços utilizados em cena.
Canápolis! O abacaxi é, para milhares de pessoas, um delicioso símbolo da simpática cidade. Ituiutaba! Cidade tão pródiga, tão rica, que poderia ser lembrada por produzir arroz, cana de açúcar, leite. Escolhemos o leite, porque toda cidade tem um pouco de nossa mãe. Monte Alegre! Há farinha de mandioca em diferentes regiões, outros países… Em Monte Alegre de Minas ela é mais gostosa. Feita com o requinte dos quitutes que colocam Minas em destaque na culinária brasileira. Prata! A mais antiga cidade do pontal de Minas. Mãe de outros dezesseis municípios e, ainda assim, com a maior extensão territorial na região. A gente olha para esses achados arqueológicos e pensa em Minas, lembra o Triangulo Mineiro muito antes de o Brasil nascer.
Claudia, uma menina que nasceu por aqui há muitos anos, gostava de imaginar como eram as coisas, antes que os portugueses viessem para a região, antes que o progresso chegasse modificando e melhorando quase tudo. Com tanta cidade bonita por aqui, fica difícil imaginar o Triangulo como uma grande floresta habitada por índios caiapós, bororós. Mas era assim! Uma imensa floresta dominando o serrado e escondendo ouro, pedras preciosas e muitas outras riquezas.
A menina Claudia, loirinha, olhos claros, não tinha nenhum aspecto aventureiro. Era mais para mocinha de contos de fadas. Todavia, desde que ouviu falar sobre os bandeirantes, soube que seria um entre eles. A professora contou que as Entradas e Bandeiras eram como grandes cidades em movimento. Homens, mulheres, crianças, escravos e índios amigos, caminhando juntos com a missão de desbravar a terra e encontrar riquezas. A menina ficou imaginando como seria estar na comitiva de Fernão Dias Paes Leme, buscando esmeraldas. O bandeirante Fernão Dias saiu de São Paulo, rumo a Guaratinguetá e rumou para o centro de Minas Gerais. Achou turmalinas e pensou que fossem esmeraldas. “- Um grande herói!” Claudia disse em alto e bom som que seria uma bandeirante!
Os colegas da menina começaram a rir, a debochar. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Ela ignorou, pensando no ato que fez de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. Bartolomeu Bueno da Silva passou por aqui, pelo Triangulo Mineiro, que na época já era conhecido como Sertão da Farinha Podre. Ele foi para Goiás, buscando ouro. Lá encontrou os bravos guerreiros Caiapós, que não entregariam seu território e suas riquezas sem luta. Foi então que ele ateou fogo em um pouco de aguardente, dizendo que era água, e que atearia fogo em todas as águas do território dos Caiapós. Os índios foram ludibriados e, crédulos, chamaram Bueno da Silva de diabo velho, na língua deles, o Anhanguera. A loirinha Claudia delirava com as histórias. Os amigos debochavam. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Ela dava de ombros, interessada em saber da história de sua terra, do nosso querido pontal de Minas.
Os primeiros habitantes de Minas Gerais foram os índios. Depois vieram os portugueses, mas antes desses, muito antes de chegarem com suas entradas e bandeiras, foram os africanos que habitaram várias regiões do estado. É! Escravos africanos que lutando por liberdade fugiram do homem branco e organizaram-se em quilombos. Um dos mais resistentes quilombos que a história guarda é a do Quilombo do Ambrósio, que existiu onde hoje é a cidade de Ibiá, próxima de Araxá.
Aliás, Araxá está entre os primeiros arraiais surgidos no Triangulo Mineiro. Depois veio Uberaba. Depois, o Prata. Antigo, antigo mesmo, é o Desemboque, que hoje é distrito de Sacramento. Desemboque era o nome que se dava ao Triangulo Mineiro, o grande espaço de terra entre o Rio Grande e o Rio Paranaíba. Depois é que chamaram essa região de Sertão da Farinha Podre. Claudia guardava cada detalhe dessa bela história na sua cabecinha de menina.
Desemboque era um centro por onde passavam as bandeiras, rumo ao chapadão mineiro e às terras de Goiás. Outra picada se fez por São Paulo, mas isso foi depois. Nessa primeiras bandeiras que alguns homens, rumando para o interior desconhecido, deixaram pendurados em árvores no mesmo município de Sacramento, alguns sacos de farinha para que, ao retornarem, houvesse alimento para todos. Quando voltaram, a farinha estava estragada. Começaram a chamar o território de Sertão da Farinha Podre e… Como se diz hoje em dia… Pegou!
A menina começou a esparramar para as amigas, para a família, que seria bandeirante. Que iria desbravar o Triangulo, Minas, o Brasil. O pai da menina não gostava daquilo. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! E as lutas, as guerras, ela tinha noção de como havia sido? Que os caiapós, dóceis em um momento, entraram em guerra logo depois, defendendo com garra seu território? Que outro bandeirante, aliando-se aos índios Bororós, arregimentou 500 guerreiros e só assim conseguiram derrotar os Caiapós, em triste carnificina? Ser bandeirante. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Isso não é coisa de menina!
Claudia pesquisou muito. Como nessa história não havia mulheres? Foi estudando (PEGA UM LIVRO, COMO SE LESSE) que ela descobriu algumas grandes mulheres. Uma tal Ana de Oliveira, natural de Vila Nova, atualmente Sergipe, participou da formação de duas bandeiras. Duas! E foi perto do Pontal, no interior de Goiás, que uma mulher bandeirante é lembrada como heroína: Maria Diaz Ferraz do Amaral é chamada de Heroína de Capivari, por lutar ao lado dos homens num confronto com os Caiapós. A menina Claudia delirava entusiasmada: “-Veja, papai! Só aqui temos duas grandes mulheres bandeirantes!” Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!
O pai foi pedir ajuda na escola. Mesmo sabendo que as bandeiras são coisa do passado não gostava nada da ideia de ter uma filha bandeirante. Pediu ajuda e ambos, pai e orientadora educacional, resolveram falar com a menina, para fazê-la mudar de rumo. (COMO SE FOSSE O PAI, O CONTADOR MOSTRA-SE IRRITADO) Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!
A menina passou uns dias estudando, mergulhada nos livros. Quando parecia que havia esquecido os bandeirantes, a história da região, ela vinha com novidade: “- Papai, você sabia que foi um médico francês, Dr. Raymond Enric des Gennetes, residente em Uberaba, sabendo que a região estava entre dois imensos rios, o Rio Grande e o Rio Paranaíba e que esses sugeriam um triangulo agudo, propôs o triangulo para denominar a região?” O pai, já amuado por ter certeza que ela não mudaria de assunto, resmungou: “-Melhor Triangulo Mineiro que Sertão da Farinha Podre”. E ele voltou a falar com a orientadora. Tinham que fazer alguma coisa. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!
Acontece que foi a menina Claudia quem marcou uma reunião com o pai, a orientadora, a professora, e todos os colegas. Ela já estava cansada de ser chamada de doida! Eles então acharam que ela havia pirado de vez. Marcar reunião? Que ideia! Que doida!
No dia marcado, a sala de aula toda lá, querendo saber. O pai querendo entender o que iria acontecer. E a menina Claudia, pedindo a palavra, começou a falar: “- Vocês todos sabem que entradas foram expedições mandadas pelo governo português e que bandeiras foram iniciativas privadas, certo? Entradas e bandeiras tinham objetivos similares.” A criançada começou a murmurar. Que ideia! Que doida! Agora virou professora. A menina Claudia respondeu; enérgica: “-Professora não, bandeirante!”. O pai colocou a mão na cabeça. Pobre menina! Ela continuou: “-Muitas bandeiras surgiram para aprisionar índios ou escravos africanos que haviam fugido de seus donos, não é mesmo? Outras surgiram movidas pelo desejo de encontrar metais e pedras preciosas. Em todas elas, havia sempre alguém com o desejo de encontrar remédios, plantas medicinais. Eu chamo essa pessoa de herborista! Eu vou ser bandeirante herborista!”
A classe calou-se. Os adultos também emudeceram enquanto a menina explicou que sabia que havia passado o tempo das bandeiras que formaram nossa região. Tinha também certeza que não há, por ali, índios e ou escravos em luta, mas um povo que precisa viver junto e em harmonia. Não só na região; em toda Minas Gerais, em todo o Brasil, há muito por descobrir sobre ervas medicinais. Nossas florestas grandiosas carecem de exploradores, de heróis bandeirantes que busquem alternativas de alimentos, de remédios em meio ao cerrado, ao chapadão, enfim, em todo o território brasileiro.
(O CONTADOR MUDA DE TOM, SOLENE, PARA ENCERRAR A HISTÓRIA) O tempo passou; a doutora Claudia tornou-se bandeirante respeitada, herborista de fama! Foi com ela que aprendi que os índios tupi-guarani chamavam pitanga de pyrang. E que essa frutinha colabora na prevenção do câncer. Ela também ensinou que os escravos africanos trouxeram a carqueja, bom para a digestão, para o fígado. Na escola, a doutora Claudia aprendeu a curar com agrião, guaco, alecrim, eucalipto, erva-cidreira, arnica… e continua, por aí, pesquisando nossa mata, na beira dos rios, buscando aprender a ajudar os outros através das nossas plantas. Uma bandeirante moderna! (CONCLUI COM ORGULHO E SATISFAÇÃO:) Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!
Quarto dos cinco textos do projeto Arte na Comunidade 2 publicados neste blog, “O ataque dos Titanossauros” faz referências aos sítios arqueológicos do município do Prata, em Minas Gerais. A intérprete da história foi Lilia Pitta e as imagens são de THANERESSA LIMA e de arquivo pessoal. Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, peço a gentileza da citação da origem.
Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 foi patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e contou com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata.
O Ataque dos Titanossauros
Original de Valdo Resende
(O CONTADOR ENTRA EMPURRANDO SUA MALA-BIBLIOTECA. ENQUANTO PREPARA O AMBIENTE PARA CONTAR SUAS HISTÓRIAS, ABRE A MALA PARA SI, PROCURANDO OCULTAR O INTERIOR DA MESMA. RETIRA UM BANQUINHO ANTES DE COMEÇAR A FALAR)
Lilia Pitta em foto de Thaneressa Lima (Divulgação)
– Um banco! Tenham sempre um banquinho na bagagem. Eu que já andei por meio mundo já sei que o mundo não vai terminar em barranco. É… Já ouviram essa? Que todo preguiçoso gostaria que o mundo acabasse em barranco para poder viver sentado? Eu não sou preguiçoso. Acontece que eu fico cansado. Como o mundo não vai acabar em barranco eu optei por carregar um banco! (RETIRA DEMAIS OBJETOS DA MALA, APRESENTANDO-OS AO PÚBLICO)
Senhoras e senhores, meninas e meninos do Prata! Meu nome é Adélia Drummond Sabino De Andrade! Muito Prazer! Estou encantada e feliz com a presença de todos. Tenho orgulho em apresentar a todos vocês o meu maior tesouro: Minha biblioteca! (PEGA UM LIVRO) Não sou dona das riquezas do Egito, mas conheço todos os faraós, sei a função de cada pintura, cada pirâmide, cada templo! (PEGA OUTRO LIVRO) Também domino as vidas de gênios, de reis, de príncipes e rainhas das mil e uma noites. Domino a capacidade de imaginar e por isso vi passando, diante dos meus olhos, um por um dos quarenta ladrões de Ali Babá e sei reconhecer, de longe, um cavaleiro da corte do Rei Artur! (PEGA MAIS UM LIVRO)… Neste livro aqui é que aprendi sobre este simpático bichinho (FOLHEIA O LIVRO, ANTES DE PROSSEGUIR)…
Para todos os presentes nesta linda praça isto é um dinossauro. Simples assim. Mas, não é! Não é mesmo! Não é de jeito nenhum! Saibam que este bichinho, se encontrado por ai, vai medir até 15 metros de comprimento e pode pesar até 20 toneladas. Guardem esse nome: Titanossauro. Meu amigo, Benedito, nunca esqueceu o nome desse grande quadrúpede herbívoro. E eu vou contar a vocês porque meu caro Benedito, o Ditinho, nunca mais esqueceu tudo isso.
No topo da Serra Seio de Moça, o Morrinho, está a imagem de Nossa Senhora do Carmo (foto arquivo pessoal)
Benedito, o Ditinho, era um garoto que gostava de brincar ali na Praça Juscelino Kubitschek; aqui, no Prata. Um menino levado; como todo menino! Havia horas em que era bonzinho e desde sempre acreditou que Nossa Senhora do Carmo velava por ele. Foi a mãe do Ditinho que ensinou o menino a olhar ali, para o Morrinho, onde está a imagem da santa tomando conta de todo cidadão pratense. Ditinho habituou-se a olhar sempre na direção do Morrinho para… Contatar a santa! Pedia para a aula acabar logo, já que tinha papagaio pra soltar e o vento tava bom. Ditinho não pedia pra santa para ajudá-lo quando caçava passarinho. A mãe dele ralhava e ameaçava uma surra de vara se ele matasse o bichinho. Ditinho não se esquecia da mãe dizendo: “Olha aqui, Benedito! Deixe os passarinhos em paz. Já acabaram com muita mata, mudaram o ambiente com tanta lavoura e você… Você ainda quer matar os coitadinhos? É pecado! São Francisco não gosta. Nossa Senhora há de castigar!”
O menino deixava os passarinhos em paz. Saia com os amigos para buscar um bom pedaço de rio para tomar banho e houve uma época em que os meninos aproveitavam os passeios no campo para procurar pedra polida, pedra lascada. Tudo porque a avó de Ditinho, Dona Dinorá, muito simpática, contara aos meninos que a região tinha sido povoada por índios caiapós, que viveram por aqui muito antes da chegada dos bandeirantes. A avó Dona Dinorá ensinava e alimentava a imaginação dos meninos; a mãe do Ditinho ficava danada quando ele chegava dessas expedições, todo sujo, às vezes rasgado, com uma capanga cheia de pedras planejando mostrar para a professora. Essa vovó Dinorá, pensa a mãe; fazer o que, ralhava com o menino! Não precisava sujar tanta roupa!
“Olha aqui, Benedito! Eu vou fazer você lavar essas roupas imundas! Você acha que vai achar pedra lascada, Benedito! A terra já foi arada tantas vezes! Você fica pensando que é coisa antiga, parece coisa velha, mas é coisa mexida por gente que ainda tá viva!”
O menino não ligava. Sabia que as pedras que guardava eram material para paleontólogo, arqueólogo! Ditinho aprendeu com a avó Dinorá que no Prata haviam muitos dinossauros, que os ossos dos antigos bichos que viveram por aqui já haviam virado pedra.
Detalhe da Praça Juscelino Kubitschek, em Prata, Minas Gerais. (foto arquivo pessoal)
Um dia a avó de Ditinho, foi fazer um pic-nic com ele e os amiguinhos na Praça Juscelino Kubitschek, bem ao lado daquela escultura de dinossauro e começou a falar nos bichos, especificamente nos Titanossauros; aconteceu que nesse tal dia a imaginação do Ditinho já tinha saído da praça e levado o menino lá pra serra Seio de Moça, o Morrinho. Lá do alto, Ditinho via o cerrado povoado de dinossauros, titanossauros e todos os seus parentes! Imaginação é uma coisa muito boa. Leva a gente longe e nada melhor do que os livros para estimular nossos pensamentos. Mas, naquele dia, os doces e a conversa da avó Dinorá foi tão boa que Ditinho nem percebeu que todos esses animais viveram por aqui há 80 milhões de anos. Viveram, não vivem mais. Na cabeça do menino já havia imagens dos Titanossauros tomando das águas do Rio da Prata, comendo as folhas verdinhas das árvores banhadas pelo rio.
Depois de brincar e sonhar, voltando pra casa, Ditinho olhou na direção do Morrinho e pediu para a santa proteger a cidade. Vai que apareça um Titanossauro, com seus 18 metros de comprimento! 18 metros! Ficou matutando, matutando… Chegando em casa viu que a mãe estava com um vestido verde. O menino implorou para que ela trocasse de roupa. “– Mãe, vai que um dinossauro confunde a senhora com um monte de folhas! É um perigo!” A mãe ficou uma fera! “Olha aqui, Benedito! Vou te mostrar um monte de folhas! Estão no jardim. Você vai capinar o jardim para aprender a não confundir mãe com monte de folhas. Quero aquilo lá limpinho! Vai, Benedito!”.
O menino nem ligou para a bronca da mãe. Limpar jardim não é castigo. Mas quando estava fazendo a tarefa, tomou o maior susto. Viu um calango, enorme, uma lagartixa gigante que, de repente, poderia ser um filhote de dinossauro! O menino olhou para os lados com receio, desconfiado e para garantir a simpatia de uma possível mamãe dinossauro tratou de não matar o calango.
Lilia Pitta em foto de Thaneressa Lima(Divulgação)
Anoiteceu e naquela noite Ditinho demorou a dormir, pensando nos Titanossauros do Prata. O sono pesou e o menino acabou adormecendo quando, pouco depois, acordou com barulhos estranhos (FAZ OS SONS QUE O GAROTO ESTARIA OUVINDO). Era um bicho tentando abrir a porta… arranhava, arranhava cada vez mais forte. Um terror. Ditinho não quis nem acender a luz, com tanto medo. Os barulhos na porta continuavam e a esses somaram grunhidos, grasnados, um som horroroso. “– Minha nossa senhora do Carmo”, rezava o menino.
De repente, do outro lado da janela, uns uivos, uns gemidos, uma lamentação enlouquecida ( FAZ O BARULHO). Ditinho, assustado com os movimentos na porta ficou mais aterrorizado ainda com mais esses sons que vinham da janela. Então aconteceu que o barulho do outro lado da janela aumentou ao mesmo tempo em que a porta, sendo forçada pelos arranhões pesados ameaçou ceder. Antes que o monstro entrasse no quarto ditinho entregou os pontos, aos berros: “- Mamãe! Socorro! Socorro Mamãe!” A mulher entrou no quarto e o menino pulou no pescoço dela, abraçando-a e buscando proteção. Tem um dinossauro ai, tem um dinossauro ai! Repetia aos soluços. Estava arranhando a porta. E tem umas coisas lá fora. E a mãe, entendendo tudo, falou carinhosamente.
“Olha aqui, Benedito! Os dinossauros morreram; não existem mais. A natureza é assim, vai se transformando e com ela o homem evolui. Os homens também transformam o mundo. As mudanças ocorrem, há perdas e ganhos, mas nessa caminhada o que prevalece é o bem do homem. Sumiram os grandes dinossauros, mas aprendemos a plantar grandes lavouras que nos alimentam e também aprendemos a construir barragens em rios; assim temos luz. Você precisa ler mais, estudar mais. Quanto aos barulhos, lá fora, são gemidos dos gatinhos, namorando. Eles namoram assim. E veja ai, o dinossauro nos seus pés!”
Ditinho, ainda com medo, encolheu-se, mas já todo sem graça. O cachorrinho, de nome Sheik, lambia alegremente os pés do menino, abanando o rabo alegre, já esquecido de ter sido deixado fora do quarto. Foi a única vez na história do Prata em que um cachorro foi confundido com um dinossauro. Naquela noite, a mãe continuou no quarto contando as histórias dos Titanossauros do Prata, que viveram há 40 milhões de anos. Eram as mesmas histórias da avó, Dona Dinorá; mas, o menino, ah, o menino ouvindo a voz doce da mãe, dormiu tranquilo. Boa noite, Benedito!
Lilia Pitta em foto de Thaneressa Lima (divulgação).
(O CONTADOR AGRADECE E, FECHANDO SUA MALA, SAI DE CENA).