Foi, não foi, segue a vida.

Toda segunda-feira é a mesma coisa. O cidadão que viu o jogo no domingo, assistiu aos “disse-me-disse” dos comentaristas, viu a repetição dos gols na tv e na internet, segue a vida. Ou seja, pega logo cedo o jornal, vai para o caderno de esportes, e conforme o resultado do time do coração envia provocações aos amigos, responde a outras. A hora do almoço será animada: foi pênalti, não foi, roubou, não roubou e, aos perdedores para o Palmeiras, resta a única e duvidosa réplica do populacho: não tem mundial!

Nelson Rodrigues, que em A Falecida faz um personagem alterar o enterro da esposa por conta do amor ao time, alardeava a paixão pelo futebol. E entre os apaixonados, como o corno da citada peça, há indivíduos com peculiaridades interessantes. Como aqueles caras obesos que invadem sedes dos próprios times exigindo dos esguios jogadores de futebol o que não são capazes de fazer em campo. Há outros, que vendem a própria casa para viajar em finais de campeonato, o que levou o sistema público de habitação a colocar a casa financiada no nome das esposas.

Nos tempos de faculdade constatei inúmeras ausências de alunos nas quartas-feiras. Os que vinham às aulas ficavam ansiosos, escondiam fones de ouvidos e não era raro um grito de gol em meio à explanação do professor. Havia entre os jovens aqueles que participavam das tais torcidas organizadas. Desde aquele cuja família vivia do negócio – alugar ônibus e levar torcedores às partidas – ao jovem que acreditava firmemente que gritar e pular durante 90 minutos era sua fundamental contribuição para a vitória do time. E por isso se julgava no direito de exigir o gol, o campeonato inteiro. E faltar às aulas, mesmo sendo reprovado por isso.

A família Rodrigues, do Nelson citado acima, foi dona de jornais. Ao perceber o quanto o esporte mexia com as pessoas tratou de criar os campeonatos que viraram febre no país. Para vender jornais e dar dinheiro aos cartolas há a repetição do que ocorre nas segundas, também nas quintas-feiras. E o excesso de campeonatos, aqui e no exterior, leva ao incauto torcedor o envolvimento constante e diário com o futebol. E toda uma imensa gama de negócios é movimentada.

Torcedor que se preza paga dez vezes mais o valor de uma caneca, “oficial”, assim também com uniformes e diversos outros cacarecos. As camisetas personalizadas com nomes de atletas são um caso à parte. O torcedor paga os olhos da cara para ter a camisa “oficial do craque da hora” e quando este passa a jogar para time rival recebe ódios mesclados com paixões recolhidas. No fundo de gavetas, em companhia das ridículas cartas citadas por Fernando Pessoa, estão as camisas nominadas com o craque um dia amado, idolatrado, salve, salve!

Faz pouco tempo, aqui em Santos, uma movimentação entre os banhistas chamou a atenção. Um atleta, morador do pedaço, dera pinta na praia e com simpatia e educação cumprimentou aos alvoroçados torcedores que pouco se importavam que, naquele momento, o indivíduo era um condenado na Itália aguardando a decisão que o levou a jogar no xilindró – notícias recentes dão conta que presidiários emprestaram chuteiras para o moço. Uma mudança notável! A nova postura quanto ao comportamento dos “heróis” está levando alguns a pagarem pelos seus crimes. Ao que uma observação apurada indica, continuarão sendo adorados e respeitados por um grupo restrito de gente que confunde esporte com vida.

Sinto-me ET quando exponho esse tipo de ideias, às vezes utilizando termos bem mais densos que esses acima. Atribuo minha postura ao antigo professor e diretor do colégio, um sujeito enorme, de origem alemã. Rígido em seus princípios, obrigava os alunos a praticarem todos os esportes. Todos! Cada modalidade contribuía na condição física e na educação moral dos alunos: o importante é competir! Completava e exclamava com frequência. E lá estávamos jogando vôlei, basquete, pulando na cama elástica, praticando as modalidades olímpicas e, é claro, o futebol. Em alguns momentos enfrentávamos adversários melhores, perdendo feio. Lá estava o diretor, no final, orgulhoso da nossa participação: Vocês jogaram com dignidade. Lutaram! O importante é competir.

A farra durante uma partida esportiva é sempre bem-vinda. E a tensão vale, pois a representação do embate está ali, “viver é lutar!”. E a comemoração, o sarro nos amigos é parte do combo. Vivi muitos anos atendendo telefonemas do meu irmão após cada jogo do Corinthians. Ele não falava nada. Colocava o hino para eu ouvir. Sempre respondi com palavrões adequados ao momento. Vários! E a rusga com o irmão terminava ali, já que é sabido que em dois, três dias haveria outro jogo. Ficar discutindo a morte da bezerra é muito chato. Uma briga só vale a pena quando é possível alterar o rumo das coisas. Se foi, se não foi, se teve, se não teve… A bola vai continuar rolando (Ops! Há um bafafá aí sobre a bola rolando!). Segue a vida.

Nei Rozeira, “que a nossa emoção sobreviva”!

Há 39 anos, através de um comentário crítico publicado em um jornal, Nei Rozeira entrava em minha vida com um texto simpático sobre a montagem “Era uma vez… aonde vamos?” que fiz com o Grupo Caroço. Encantado com tal trabalho, Nei nos abriu os braços, o coração e não demorou nada para abrir-nos também a própria casa, junto a seus familiares. Hoje, infelizmente, despeço-me e presto homenagem ao grande amigo.

Nei Rozeira. Fotos: acervo familiar.

Após uma apresentação da tal peça conheci o autor da crítica, Claudine, mas que preferia ser chamado Nei. Certamente foi essa a primeira confidência, seguida de comentários e causos advindos dos nomes que recebemos de nossos pais. Gentil e educado, Nei pediu autorização para filmar trechos do trabalho, o que aconteceu na sessão seguinte e, naquela mesma noite, fomos convidados para ver o resultado no apartamento que dividia com a mãe, D. Jacira, e a irmã, Sonia, em São Caetano do Sul.

Dessas coisas que acontecem por afinidades múltiplas, nos tornamos amigos. Grandes amigos! Era 1983 e fazia pouco que eu havia chegado de Minas. Eu pensava conhecer muito, embora já percebera não saber nada de São Paulo e suas peculiaridades nem sempre desfrutadas por distraídos ou mal informados. Tal qual irmão mais velho, Nei ensinou-me tudo o que lhe foi possível; encontramo-nos no amor pela música brasileira (ele amava Elis Regina!), pelo cinema, pelo teatro. E confirmamos nossa amizade nas descobertas e no amor por São Paulo.

Administrador atuando em multinacional, já com uma carreira profissional de sucesso, Nei vivia bem. Com generosidade, facilitava-nos a vida – sempre difícil para quem busca fazer arte neste país – com discrição e elegância. Dividindo um apartamento com mais três amigos, vivíamos tempos parcos. Com frequência Nei passava em casa e nos convidava para uma pizza, uma “ida ao japonês”. Eram noites de mesa farta!

Um dia ele manifestou a vontade de jantar estrogonofe com arroz branco, vinho também branco e, de sobremesa, doce de goiabada com catupiry. “Mamãe não anda muito bem, não está cozinhando, e eu gostaria de estrogonofe mesmo, não carne picadinha. Você sabe fazer?” Claro que sim, respondi disposto a usufruir de uma boa mesa. E combinamos para breve. Assim que ele saiu de casa liguei para minha irmã: “Como é que faz estrogonofe?”. A receita veio por carta, um ou dois dias depois, chegando na mesma data marcada para a comilança, com um detalhe que se constituiu em incógnita: Em dado momento seria necessário flambar, sem que houvesse a menor indicação do que seria isso. Nei chegou com todos os ingredientes e eu, receita decorada, não querendo manifestar minha ignorância: “Faço direitinho, mas não sei flambar”. “Poxa, Valdo!” Ele respondeu, “essa é a única parte que eu gosto de fazer, trouxe até o conhaque”. No momento certo, meu amigo tascou fogo na panela e a gente ficou em volta do fogão, feito crianças. Inteligente, certamente ele percebeu que era a primeira vez que cozinhava o tal prato. Elegante, não se manifestou.

Apaixonado por fotos, Nei tinha todo o material para montar um estúdio. No tal apartamento em que eu morava havia um banheiro desativado que, transformado, produziu inúmeras fotografias para todos os residentes e visitantes. Guardo inúmeras imagens desse período, grande parte são registros do trabalho teatral que realizava; outro tanto de paixões de ocasião. Com Beth, uma das moradoras, passávamos horas buscando melhor composição, detalhes de cada fotografia, tudo muito bem dividido dentro do pequeno espaço. As paredes cobertas de paixões do Nei, da Beth e minhas.

Há inúmeras outras histórias que dividimos, que vivenciamos. Nei era discreto e entre nossas afinidades sempre esteve o exercício do direito à vida privada. Desta, fico feliz em dividir o universo sobre o qual transitávamos. Através dele conheci Gore Vidal, James Baldwin e era dele o primeiro livro que li de Pasolini. Do meu lado dividi André Gide, Luchino Visconti, Nelson Rodrigues. Em nossos passeios, no carro intercalava-se Elis e Maria Bethânia, Chico Buarque e Vinícius de Moraes. E entre as preferidas dele guardo a lembrança de uma canção, de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, Mordaça:

… Mas só se a vida fluir sem se opor

Mas só se o tempo seguir sem se impor

Mas só se for seja lá como for

O importante é que a nossa emoção sobreviva…

Hoje, 14 de março de 2022, quem mora aqui no Bexiga, em São Paulo, viu o dia amanhecer ensolarado para, no final da manhã, cair uma chuva torrencial. O tempo foi meu cúmplice, solidário com minha tristeza ao saber da morte do meu amigo, ocorrida em julho do ano passado. Dessas ironias da vida, quando nos orgulhamos de estarmos conectados e, no entanto, deixamos de ver notícias que nos são fundamentais.

Felizes, em São Vicente.

Nosso último encontro, quando estivemos juntos em momento fugaz, ele esteve com Sonia prestigiando a apresentação do projeto Arte na Comunidade que fizemos em São Vicente, onde residia. Ele chegou junto com a irmã e desfrutamos juntos de pequenos e bons momentos. Meu amigo, manifestando os efeitos do tempo, ainda mantinha um intenso brilho no olhar, meu conhecido, dando-me a certeza de que nosso encontro estava sendo o que deveria ser. De amigos que se amam.

Adeus, Nei Rozeira. Sou profundamente grato por tudo o que vivemos, tudo o que fizemos. Um dia escrevi neste blog sobre você e, emocionado, você me disse que por amizades assim é que a vida vale a pena. E como vale! Obrigado, Nei. Quero terminar este com a frase que aprendi com sua mãe quando vocês se cumprimentavam e que sempre guardei com muito carinho:

“Paz de Deus!”.

Caipiras, caiçaras, piraquaras…

Sertanejo por herança paterna, caipira pelo lado de minha mãe, eu cresci como todo mundo e, enquanto criança, fui apenas um garoto mineiro nascido em Uberaba. Após muitas andanças comecei a descobrir o que era ser caipira através do teatro.

Atuando no CPT – o Centro de Pesquisa Teatral dirigido por Antunes Filho – estudamos o universo do caipira paulista através da obra Os Parceiros do Rio Bonito, do professor Antonio Cândido. O objetivo era fundamentar montagem baseada no livro “Alice”, de José Antonio da Silva que depois estreou como “Rosa de Cabriúna”. Muito do que conheci na convivência com meus familiares emergiu com força. Nossas festas, nossas rezas, uma infinidade de hábitos e costumes tornados fonte preciosa para o exercício teatral.

No CPT conheci e tornei-me amigo de Marlene Fortuna. A grande atriz que, então, interpretava magnificamente a “Senhorinha” de “Álbum  de Família” e a “Geni”, de “Toda Nudez Será Castigada”, peças de Nelson Rodrigues no espetáculo denominado Nelson2Rodrigues. Dentro do projeto de teatro de repertório, Marlene Fortuna também fazia uma “Ama” formidável em “Romeu e Julieta” e várias outras personagens dentro do monumental “Macunaíma”.  Todavia, não foi o teatro a nos aproximar. Marlene é filha de José Fortuna, um dos maiores autores da música caipira, famoso também pela dupla Zé Fortuna e Pitangueira e imortalizado nas diversas gravações de “Índia” e “Meu Primeiro Amor”.

Um dia, perdido no tempo, eu estava em um dos corredores do Sesc Vila Nova cantando “Lembrança” (conheça no vídeo acima),  música do José Fortuna, sem saber que Marlene era filha do compositor. Ela aproximou-se, emocionada, e nos tornamos amigos ali; pouco depois eu pude participar de uma festa entre os familiares do compositor com a presença de grandes duplas caipiras. Inesquecível.

De caiçaras sempre ouvi falar e pude me aprofundar um pouco mais nas pesquisas realizadas para o Arte na Comunidade 3, realizado em 2015 na Baixada Santista. No nosso litoral estão pescadores artesanais que desenvolveram técnicas ao longo do tempo e do contato entre grupos indígenas e os portugueses que por aqui aportaram.

Estudei mais do que escrevi a respeito nos textos para as montagens realizadas em Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande e Cubatão. Peculiaridades do trabalho levaram-nos para outros aspectos da população pesquisada. Infelizmente, os grupos caiçaras que ainda sobrevivem no nosso litoral, sofrem constante violação dos direitos humanos.

Neste ano, para o Arte na Comunidade 4, chegou a vez de conhecer os piraquaras, nome dado aos habitantes ribeirinhos do Rio Paraíba do Sul. A vida de pescadores e camponeses do Vale do Paraíba é parte vital da pesquisa para o trabalho que estamos fazendo na região. Os problemas de poluição são grandes e mudaram hábitos e costumes locais. O progresso imenso transformou a paisagem e tanto o Vale quanto a Serra da Mantiqueira carecem de cuidados constantes garantindo a sobrevivência de todos os que vivem por lá.

piraquaras1.jpg
Conrado Sardinha, Luciana Fonseca e Rodolfo Oliveira estão em “Os Piraquaras do Vale do Paraíba”

“Os Piraquaras do Vale do Paraíba” é o nome da peça final que apresentaremos no final de agosto. Será o encerramento do Arte na Comunidade 4 nas cidades de Cruzeiro, Lavrinhas e Queluz. Tomara que os piraquaras voltem a pescar não só no Rio Paraíba do Sul, mas nos muitos rios da região (o município de Lavrinhas tem sete!). A região já produziu toneladas de peixes que abasteceram muito além do mercado local. Hoje, a pesca é cada vez mais rara e a limpeza dos rios é prioridade.

Caipiras, caiçaras, piraquaras… Peculiaridades da nossa gente que, somadas, formam a identidade do Brasileiro. Fico muito feliz em conhecer, em vivenciar e, mesmo que modestamente, lutar pela sobrevivência de tudo isso. Se o bom Deus me permitir, que venham os caboclos, os sertanejos, gaúchos, pantaneiros, candangos, seringueiros… Enfim, toda a gente do Brasil.

 

Até mais!

A falecida, uma morte e a suicida

Conhecer Nelson Rodrigues através dos textos agradáveis que ele escreveu é muito bom; filmes e especiais de TV com adaptações de sua obra agradam bastante. Todavia, é no teatro que se concretiza a magia do dramaturgo excepcional, com uma obra que merece as constantes montagens. De 1943 para cá, desde a estréia de “Vestido de Noiva”, Nelson Rodrigues é a referência obrigatória no dia-a-dia do teatro brasileiro.

Lembrando o centenário do autor, comemorado dia 23, quero registrar os dois encontros que tive com o teatro de Nelson Rodrigues. Vim morar em São Paulo em 1980 quando o Teatro Popular do SESI apresentava “A Falecida”, direção de Osmar Rodrigues Cruz, com Nize Silva como Zulmira. Guardei como objeto precioso o programa da peça.

O programa da peça, primeiro da minha coleção.

Meu primeiro grande impacto foi visual. O deslumbrante cenário de Flávio Império deixou o mineirinho de boca aberta. Com economia de elementos, o cenógrafo criou espaços luxuosos imensos, pequenos espaços populares como um bar (deste lembro uma mesa de sinuca, reclinada para facilitar a visualização da platéia) e provocando em todos, na cena final, a absoluta sensação de que estávamos no Maracanã, no meio da torcida do Vasco.

Nize Silva é uma ótima atriz, interpretando a suburbana que, nas palavras do próprio Nelson Rodrigues “uma mulher da classe média que, um belo dia, se convence de que é um fracasso como esposa, amante e em todos os sentidos. E começa a pensar. Então vai nascendo dentro dela, elaborado lentamente, que o ideal seria morrer, para ter um enterro de luxo, tudo aquilo que a vida não lhe deu”. A personagem gasta suas últimas energias para obter esse enterro. A ironia de Nelson Rodrigues mistura-se ao cômico, ao trágico.

Dessa montagem recordo, com emoção, a oportunidade de ver Elias Gleiser no papel de Timbira. Até então só conhecia esse grande ator via televisão. Estive muitas vezes vendo a montagem. Minhas noites eram livres e eu tentava descobrir os truques do cenógrafo, ria sempre com Elias Gleiser, ficava encantado com Nize Silva e me deliciava com a vingança de Tuninho, o marido traído, apostando o dinheiro do amante da esposa no Vasco com todo o público do Maracanã.

Anos depois minha vida tinha mudado radicalmente. Comecei a trabalhar com Antunes Filho, no Centro de Pesquisa Teatral do SESC Vila Nova, o CPT. Ensaiávamos e criávamos novos trabalhos em tardes intensas. O Grupo de Teatro Macunaíma apresentava três encenações, dentro de um projeto de teatro de repertório. A adaptação de Macunaíma,  a histórica montagem de Romeu e Julieta tendo a música dos Beatles como trilha sonora; a terceira montagem foi denominada “Nelson 2 Rodrigues”. Em dois grandes atos, o grupo encenava Álbum de Família e Toda Nudez Será Castigada. Naquele momento, em que comecei a trabalhar com Antunes Filho, a estrela absoluta da companhia era Marlene Fortuna.

Capa do programa da montagem de Antunes Filho

A montagem que Antunes Filho fez de “Álbum de Família” soube mostrar com perfeição a contradição absurda que Nelson Rodrigues criou. As fotos do álbum sugeridas no texto do autor foram recriadas em cena, com os próprios atores alternando imagens doces e cálidas das fotografias com as situações dolorosas vividas pela família. Dona Senhorinha, a mãe da tal família, foi criada por uma Marlene Fortuna belíssima, mostrando suavidade, sensualidade contida, amor intenso pelos filhos homens e desprezo pelos homens, projetados na figura do marido. A “mãe fecunda”, expressão do próprio autor, se mostrava em “oportuno exemplo para as moças modernas que bebem refrigerante na própria garrafinha”. Genial!

Descrever as ações que Nelson Rodrigues elaborou é minimizar a peça. O crítico Sábato Magaldi descreve o enredo com eficácia; sem nenhum “crivo censor, compreende-se a sucessão de incestos, crimes e suicídio. É o homem afastado da disciplina social, exercendo a espontaneidade desenfreada, entregue ao desvario que aboliu a conveniência da razão (1).” A montagem de Antunes Filho equilibrou as difíceis situações do texto com o distanciamento concreto propiciado pela montagem das fotos feita em cena.

Com Marlene Fortuna estava um jovem e sensacional Marcos Oliveira, fazendo o marido Jonas. A cena em que o Jonas tenta estuprar a mulher era de uma força absurda, culminando com a morte de Jonas pelas mãos de Dona Senhorinha. Esta saía de cena, atendendo aos chamados do filho enlouquecido, correndo nu pelas imediações da casa. Após o intervalo, tudo novo, o universo de Nelson Rodrigues abria outra página, com outra família em “Toda nudez será castigada”.

Darlene Glória, intérprete marcante de Geni no cinema, me perdoe. Também não tinha idade para ver Cleide Yáconis, na primeira montagem da peça em 1965. Assim, Marlene Fortuna continua sendo minha Geni preferida. Preparando-me para escrever este texto encontrei um vídeo (que pode ser visto aqui) com alguns momentos da montagem de Antunes Filho. A imagem sintetiza bem a personagem, prostituta, que casa-se com Herculano – Oswaldo Boaretto Junior na montagem do CPT.

Nelson Rodrigues escreveu “Toda nudez será castigada” como uma obsessão em três atos. Uma família tradicional vive entre máscaras sociais e hipocrisia. O casamento entre Herculano e Geni vai fazer com que venham à tona as verdadeiras faces das personagens. O filho de Herculano tem uma relação edipiana com o pai; vinga-se deste ao seduzir a madrasta e depois se realiza no homossexualismo, fugindo com um ladrão boliviano. Esses acontecimentos levam Geni ao suicídio e assim, o “Nelson 2 Rodrigues”, de Antunes Filho, completa um painel onde a principal figura feminina quebra a estrutura familiar com um crime e um suicídio.

São esses os momentos, os mais marcantes que tive com a obra de Nelson Rodrigues e que, neste centenário, tenho o prazer em dividir com os leitores deste blog. Talvez venham outros; por enquanto, esses não me saem da cabeça.

.

Bom final de semana!

.

Notas:

1 – A citação de Sábato Magaldi foi extraída do programa da montagem.

Outras informações sobre o Teatro Popular do Sesi estão em

http://institutoosmarrodriguescruz.blogspot.com.br/

.

Um velório online para Zulmira

Cresci ouvindo a piada do mineiro, comprador de bonde. Depois aprendi, para rebater, que mineiro não compra bonde, já que inventou o avião. Nós, mineiros, definitivamente estamos muito além da imaginação. Em Minas Gerais já temos velórios online. E não é nada novo, já faz um tempinho. Eu é que, mal informado, só soube recentemente.

O “trem” veio de Governador Valadares, a tranquila cidade do Vale do Rio Doce. Para uma cidade que tem milhares de seus habitantes entre aqueles que saíram do país, visando melhores condições em terras estrangeiras, fica coerente a história do velório online. Aqueles que vivem como clandestinos nos EUA não conseguem visitar os vivos, muito menos voltam para uma última despedida. Então os mineiros, antenados, colocam seus defuntos na web.

Fernanda Montenegro, a Zulmira na adaptação da peça para o cinema

Tenho certeza que Zulmira sonharia com um velório assim, online. Tudo com transmissão de áudio e vídeo em tempo real. A sala bonita, a urna luxuosa, castiçais imensos de prata sustentando as velas ornamentadas, tudo envolvido com uma deliciosa mistura de incenso perfumando o ambiente. Dentro da urna, Zulmira não seria a tuberculosa suburbana; pelos artifícios da tanatopraxia, estaria bela, com a maquiagem criando a impressão de que ela, ao invés de morta, dormiria o sono dos justos.

Tanatopraxia? Essa não é invenção mineira, mas parece que tem forte influência americana! É lá na terra do Tio Sam que já vimos, em filmes, as pessoas maquiando defuntos. Bem verdade que os egípcios já faziam isso na antiguidade. Agora, que o nome é sofisticado, disso não há dúvidas. O que eu duvido é que no distante 1953 a tuberculosa Zulmira soubesse da existência da tal tanatoestética, que em Minas, inclui a reparação facial.

Sônia Oiticica, Sérgio Cardoso e Leonardo Villar, na estreia de A Falecida.

Zulmira é personagem de Nelson Rodrigues. Uma pobre mulher do subúrbio carioca que sonha com um enterro de luxo. Deseja um velório que provoque a inveja da vizinhança, pelo tamanho dos arranjos de flores, pela riqueza da urna, pela pompa do carro funerário. A peça de Nelson Rodrigues, cujo centenário celebramos em 2012, estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no dia 8 de Junho de 1953. O autor classificou a peça como “Tragédia Carioca”, mas um tom de comédia fica inevitável. Alguém que se realiza através de um enterro de luxo não pode ser levada a sério.

Fosse hoje e Zulmira pediria um velório online. Não importa onde, mas o cantor preferido poderia entoar um réquiem, assim como o padre superstar poderia enviar a benção de onde estivesse. Tudo “tuitado”, compartilhado em todas as redes sociais, para todo o planeta. Vídeos em tempo real mostrariam lágrimas reais e as “de crocodilo” e aquele interessado distante já poderia pedir uma geral do ambiente, garantindo a gravação dos bens do defunto que entrariam no inventário.

Minas Gerais sempre me surpreende. Na aparente imutabilidade dos hábitos dos mineiros, dentro dos casarios seculares onde, aparentemente, nada mudou, o futuro está presente e os mineiros de agora continuam não comprando bondes. Se fosse para comprar fariam via internet. Namoram, casam e até velório online já estão fazendo.  Tudo bem que ocorram velórios online em tudo quanto é lugar, mas em Minas? “Eita! Povo novidadeiro, sô! É pra se admirar.”

.

Boa semana para todos!

.

.

Notas:

– Os dados sobre a peça A Falecida foram extraídos do livro “O anjo pornográfico”, a biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro e publicada pela Companhia das Letras.

– Mineiros interessados em velórios online: http://www.funerariagonzaga.com.br

– A Falecida foi adaptada para o cinema em1965, com direção de Leon Hirszman

PAULISTA, DE UM MILHÃO DE ESTRELAS

Amanhã é o aniversário da Avenida Paulista. Optei por, neste primeiro momento, recordar um post que escrevi em outro aniversário, o da cidade de São Paulo.

-.-.-.-.-


Foto: Nelson Kon

Tive o privilégio de, chegando a São Paulo, ter a Avenida Paulista como primeiro endereço. A capital era local de passagem, antes dessa mudança; um local de curtas estadias para curtir shows, peças de teatro ou para consumir objetos necessários e fúteis de vasto mercado. Vim tornar-me “paulistano” residindo na avenida mais charmosa da cidade.

Na Paulista os faróis já vão abrir

E um milhão de estrelas prontas pra invadir

Os jardins onde a gente aqueceu numa paixão

Manhãs frias de abril…

Tendo a Avenida Paulista como epicentro fui, lenta e perenemente conhecendo a cidade.  Meus primeiros dias por aqui, como qualquer migrante, tinha a busca de um emprego como atividade primeira; chegada a noite, um mar de possibilidades bem próximas de casa. No Teatro Popular do Sesi encenavam “A Falecida”, de Nelson Rodrigues. Namorei intensamente a exposição permanente do Masp – que viria a ser referência em todas as minhas futuras aulas de arte. Lembro da tristeza durante a primeira Corrida de São Silvestre, por estar longe da família, e da alegria em saber do resultado do vestibular no hall do prédio da Gazeta.

A Paulista sempre foi lugar de gente interessante, de todos os tipos. Em uma distante manhã percebi um certo alvoroço em torno de uma moça, entrando em uma livraria vizinha da minha casa. A moça era MARIA BETHÂNIA. Posteriormente vi o primeiro show de DANIELA MERCURY em São Paulo, dei um cigarro para BETH FARIA e dividi uma mesa de bar com CAZUZA. Tudo na Paulista! Logo tive que bater em retirada, morar próximo do emprego conseguido, economizar no aluguel, na condução…

Se a avenida exilou seus casarões

Quem reconstruiria nossas ilusões?

Me lembrei de contar pra você nessa canção que o amor conseguiu

Um dia cogitou-se de tombar os casarões da Paulista; esses se tornariam patrimônio histórico municipal. Antes que a lei tramitasse pelos canais competentes, os proprietários apressaram-se em destruir as fachadas dos casarões. Uma visão grotesca que tive, passando de ônibus pela avenida. Desci do veículo e fui ver de perto o resultado de uma idéia mal colocada, tornada desastre paisagístico pela ganância dos proprietários das mansões.

Você sabe quantas noites eu te procurei nessas ruas onde andei?

Contam onde passeia hoje, esse seu olhar

Quantas fronteiras ele já cruzou no mundo inteiro de uma só cidade

Zanzei por vários outros bairros e, um dia, voltei a morar na Avenida Paulista. Bem ao lado do Parque Trianon, em um edifício charmosamente decadente. ELKE MARAVILHA estava entre os condôminos; se RITA LEE era “a mais completa tradução” para a cidade, ELKE era o mesmo para o Edifício Baronesa de Arari. Eu me considerava ainda um estrangeiro, um mineiro fora de Minas. Prestes a entregar os pontos, definitivamente, para a Avenida, para a cidade.

Dividia um apartamento com três amigos. Uma cantora, um pintor e uma agente de turismo. A diversidade interna era imensa; entre as poucas unanimidades, a fotografia – chegamos a montar um laboratório doméstico –  e as vozes de GAL COSTA e JANIS JOPLIN. Foram tempos de grandes aprendizados e, quase prontos, tomamos destinos distintos.

Se os seus sonhos emigraram sem deixar

Nem pedra sobre pedra pra poder lembrar

Dou razão, é difícil hospedar

No coração sentimentos assim

Divido a posse de São Paulo com milhões de seres que estão aqui, alguns distantes, mas ainda proprietários apaixonados dessa “minha cidade”. Não moro mais na Paulista, mas estou nas imediações. Caminho por quatro quarteirões para chegar na local que ainda considero o mais bonito, o mais charmoso. Vejo a Paulista como NELSON KON, o dono da foto da avenida que ilustra esse post. Quando ouço VÂNIA BASTOS cantando “Paulista”, a música de EDUARDO GUDIN e J. C. COSTA NETTO dos versos que intercalam este texto, grafados em azul, mil e uma situações retornam, emergem de todos os anos, de toda uma vida nesta cidade de São Paulo.

Sou feliz em estar aqui. Muito feliz por usufruir da Paulista, uma paixão que ultrapassou o encantamento, a surpresa, algumas decepções e rompimentos. Vejo a Avenida Paulista como o coração de São Paulo, o meu coração em São Paulo. Por isso, nesse aniversário da cidade, minha total e dedicada reverência. Nesse feriado irei caminhar pela Paulista. Minha forma de desejar feliz aniversário para São Paulo.

Até!

(publicado originalmente em  22/01/2010, 10:42, no Papolog.com/valdoresende

Os Herculanos são minas de ouro da ficção

Ter um Herculano na ficção brasileira é um ótimo negócio. O sucesso acompanha esse nome na televisão, no teatro e até na adaptação do teatro para o cinema. Vamos aos fatos, começando pelo Herculano da hora, o da novela “O Astro”.

Herculano Quintanilha já foi um grande êxito de Francisco Cuoco e na atual versão, com o velho ator em participação especial, o Herculano de Rodrigo Lombardi está com tudo. Fez par com as belas Carolina Ferraz e Juliana Paz, além de contracenar com feras como Rosamaria Murtinho e Regina Duarte (Coitada, essa virou a assassina do momento! Só porque os caras acreditam que mudar criminoso mantém audiência…).

Rodrigo e Cuoco, os Herculanos da tv

Na abertura do capítulo final o atual Herculano fugiu da polícia transformando-se em pássaro. Uma licença poética que só novelão permite. Não sei se rolou essa cena na primeira versão; parece-me mais uma referência ao “pavão misterioso” de Dias Gomes, da novela Saramandaia. Nesta, Juca de Oliveira transformava-se em pássaro e sobrevoava a cidade. No remake que terminou nesta sexta, Herculano fugiu da polícia com um truque de mágica. Um show de efeitos especiais. Um indicador da grana investida, já que o retorno está garantido.

Continuando: A Rede Globo faturou um monte com a novela original de Janete Clair e vai continuar faturando, já que o formato atual, com número reduzido de capítulos, tem maior aceitação no mercado internacional. Herculano, embora o nome lembre a força do lendário Hercules, ta mais pra mina de ouro mesmo.

Vamos ao outro Herculano, aquele que é anunciado por Geni, na primeira fala da personagem central da peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues: “- Herculano, quem te fala é uma morta!” Com meu amigo Octavio Cariello, brincando ante as adversidades irônicas, costumamos simular um corte de pulsos com a frase de Geni, a prostituta da peça de Nelson Rodrigues.

O Herculano de Nelson Rodrigues é, com o perdão da palavra, um bundão. Um viúvo de família conservadora que jura para o único filho que não se casará novamente. Personagem mais interessante é o Patrício, irmão de Herculano e que vive nas costas deste. Para continuar na mamata, resolve apresentar uma prostituta ao irmão. O lance é fazer o cara ficar de quatro pela mulher e amolecer o cidadão para conseguir mais grana. Dá certo para Patrício, mas errado para Herculano, que acaba perdendo a Geni para o filho, que por sua vez a abandona, apaixonado por um bandido boliviano e… Coisas de Nelson Rodrigues.

Nosso maior dramaturgo sempre teve sorte com grandes atrizes interpretando suas incríveis personagens. Geni, por exemplo, foi interpretada na estréia da peça, por Cleyde Yáconis, uma de nossas melhores atrizes. Pessoalmente conheci a segunda e genial Geni, interpretada por Marlene Fortuna, na montagem dirigida por Antunes Filho. Uma momento memorável do teatro do Centro de Pesquisa do Sesc!

Provavelmente, o maior sucesso desta peça foi no cinema. Em 1973, Darlene Glória criou uma inesquecível Geni, em filme dirigido por Arnaldo Jabor. O Herculano da vez foi Paulo Porto. O filme fez grande carreira comercial e ganhou prêmios em Berlim, o Urso de Prata e, no Festival de Gramado, foi melhor filme e melhor atriz para Darlene Glória.

O cartaz internacional de divulgação do filme de sucesso.

Dos dois Herculanos, creio que melhor sorte tem aquele criado por Nelson Rodrigues. Embora bundão, pelo menos não sofrerá alterações de ocasião, como é hábito da televisão visando obter audiência. O Herculano da televisão, misto de MacGyver com Mr. M (Val Valentino), ou com David Copperfield (David Cotki). Um angu de caroço que, é o que conta para a emissora do Jardim Botânico, rendeu e renderá muita grana. Eu estou escrevendo sobre Herculano, quem sabe, né! Vai que funcione e eu comece a ganhar um bom dinheiro!

Feliz final de semana para todos!