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Conhecer Nelson Rodrigues através dos textos agradáveis que ele escreveu é muito bom; filmes e especiais de TV com adaptações de sua obra agradam bastante. Todavia, é no teatro que se concretiza a magia do dramaturgo excepcional, com uma obra que merece as constantes montagens. De 1943 para cá, desde a estréia de “Vestido de Noiva”, Nelson Rodrigues é a referência obrigatória no dia-a-dia do teatro brasileiro.

Lembrando o centenário do autor, comemorado dia 23, quero registrar os dois encontros que tive com o teatro de Nelson Rodrigues. Vim morar em São Paulo em 1980 quando o Teatro Popular do SESI apresentava “A Falecida”, direção de Osmar Rodrigues Cruz, com Nize Silva como Zulmira. Guardei como objeto precioso o programa da peça.

O programa da peça, primeiro da minha coleção.

Meu primeiro grande impacto foi visual. O deslumbrante cenário de Flávio Império deixou o mineirinho de boca aberta. Com economia de elementos, o cenógrafo criou espaços luxuosos imensos, pequenos espaços populares como um bar (deste lembro uma mesa de sinuca, reclinada para facilitar a visualização da platéia) e provocando em todos, na cena final, a absoluta sensação de que estávamos no Maracanã, no meio da torcida do Vasco.

Nize Silva é uma ótima atriz, interpretando a suburbana que, nas palavras do próprio Nelson Rodrigues “uma mulher da classe média que, um belo dia, se convence de que é um fracasso como esposa, amante e em todos os sentidos. E começa a pensar. Então vai nascendo dentro dela, elaborado lentamente, que o ideal seria morrer, para ter um enterro de luxo, tudo aquilo que a vida não lhe deu”. A personagem gasta suas últimas energias para obter esse enterro. A ironia de Nelson Rodrigues mistura-se ao cômico, ao trágico.

Dessa montagem recordo, com emoção, a oportunidade de ver Elias Gleiser no papel de Timbira. Até então só conhecia esse grande ator via televisão. Estive muitas vezes vendo a montagem. Minhas noites eram livres e eu tentava descobrir os truques do cenógrafo, ria sempre com Elias Gleiser, ficava encantado com Nize Silva e me deliciava com a vingança de Tuninho, o marido traído, apostando o dinheiro do amante da esposa no Vasco com todo o público do Maracanã.

Anos depois minha vida tinha mudado radicalmente. Comecei a trabalhar com Antunes Filho, no Centro de Pesquisa Teatral do SESC Vila Nova, o CPT. Ensaiávamos e criávamos novos trabalhos em tardes intensas. O Grupo de Teatro Macunaíma apresentava três encenações, dentro de um projeto de teatro de repertório. A adaptação de Macunaíma,  a histórica montagem de Romeu e Julieta tendo a música dos Beatles como trilha sonora; a terceira montagem foi denominada “Nelson 2 Rodrigues”. Em dois grandes atos, o grupo encenava Álbum de Família e Toda Nudez Será Castigada. Naquele momento, em que comecei a trabalhar com Antunes Filho, a estrela absoluta da companhia era Marlene Fortuna.

Capa do programa da montagem de Antunes Filho

A montagem que Antunes Filho fez de “Álbum de Família” soube mostrar com perfeição a contradição absurda que Nelson Rodrigues criou. As fotos do álbum sugeridas no texto do autor foram recriadas em cena, com os próprios atores alternando imagens doces e cálidas das fotografias com as situações dolorosas vividas pela família. Dona Senhorinha, a mãe da tal família, foi criada por uma Marlene Fortuna belíssima, mostrando suavidade, sensualidade contida, amor intenso pelos filhos homens e desprezo pelos homens, projetados na figura do marido. A “mãe fecunda”, expressão do próprio autor, se mostrava em “oportuno exemplo para as moças modernas que bebem refrigerante na própria garrafinha”. Genial!

Descrever as ações que Nelson Rodrigues elaborou é minimizar a peça. O crítico Sábato Magaldi descreve o enredo com eficácia; sem nenhum “crivo censor, compreende-se a sucessão de incestos, crimes e suicídio. É o homem afastado da disciplina social, exercendo a espontaneidade desenfreada, entregue ao desvario que aboliu a conveniência da razão (1).” A montagem de Antunes Filho equilibrou as difíceis situações do texto com o distanciamento concreto propiciado pela montagem das fotos feita em cena.

Com Marlene Fortuna estava um jovem e sensacional Marcos Oliveira, fazendo o marido Jonas. A cena em que o Jonas tenta estuprar a mulher era de uma força absurda, culminando com a morte de Jonas pelas mãos de Dona Senhorinha. Esta saía de cena, atendendo aos chamados do filho enlouquecido, correndo nu pelas imediações da casa. Após o intervalo, tudo novo, o universo de Nelson Rodrigues abria outra página, com outra família em “Toda nudez será castigada”.

Darlene Glória, intérprete marcante de Geni no cinema, me perdoe. Também não tinha idade para ver Cleide Yáconis, na primeira montagem da peça em 1965. Assim, Marlene Fortuna continua sendo minha Geni preferida. Preparando-me para escrever este texto encontrei um vídeo (que pode ser visto aqui) com alguns momentos da montagem de Antunes Filho. A imagem sintetiza bem a personagem, prostituta, que casa-se com Herculano – Oswaldo Boaretto Junior na montagem do CPT.

Nelson Rodrigues escreveu “Toda nudez será castigada” como uma obsessão em três atos. Uma família tradicional vive entre máscaras sociais e hipocrisia. O casamento entre Herculano e Geni vai fazer com que venham à tona as verdadeiras faces das personagens. O filho de Herculano tem uma relação edipiana com o pai; vinga-se deste ao seduzir a madrasta e depois se realiza no homossexualismo, fugindo com um ladrão boliviano. Esses acontecimentos levam Geni ao suicídio e assim, o “Nelson 2 Rodrigues”, de Antunes Filho, completa um painel onde a principal figura feminina quebra a estrutura familiar com um crime e um suicídio.

São esses os momentos, os mais marcantes que tive com a obra de Nelson Rodrigues e que, neste centenário, tenho o prazer em dividir com os leitores deste blog. Talvez venham outros; por enquanto, esses não me saem da cabeça.

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Bom final de semana!

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Notas:

1 – A citação de Sábato Magaldi foi extraída do programa da montagem.

Outras informações sobre o Teatro Popular do Sesi estão em

http://institutoosmarrodriguescruz.blogspot.com.br/

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