“Desfaze-te da vaidade triste de falar”

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“Desfaze-te da vaidade triste de falar”, diz Cecília Meireles em “Não digas onde acaba o dia”; e a poetisa conclui:

Pensa, completamente silencioso,

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

 

 

 

Medos

virus

O vírus assombra o planeta,
Assusta, deixando-nos no devido lugar.
Somos frágeis, indefesos,
Meros mortais.

O vírus avança lá,
Recua acolá,
aparece por aqui
O bicho-papão da infância
Volta em forma de realidade.

O medo antecede o vírus
O terror televisionado
Anônimos infectados
Anônimos mortos.

E as bolsas caem!
Feito ratos astutos
Feito baratas treinadas
Investidores preparam o bote
Recuam para melhor lucrar com a morte.

O vírus, tragédia anunciada
Pede serenidade perante o cadafalso
Resignação.
Medo mesmo, vem dos obtusos
Dos contaminados disfarçados
Dos propagadores irresponsáveis.

Medo maior dos donos das coisas
Das bolsas retraídas
Dos investimentos suspensos.
Para que água tratada?
Para que esgoto na periferia?
A hora é de investir em laboratórios
Distribuidores, vendedores de vacinas.

Medo dessa gente
Que lucra com o câncer
Com os tratamentos sofisticados
O dinheiro retraído para o próximo bote

O vírus, silencioso
Não discrimina ricos
O que é vantagem para o pobre.
A vacina, se vier,
Quando vier
Terá que ser para todos.

 

Valdo Resende, Março/2020

Foto: Flávio Monteiro

O Bilac que não conheci na escola

(Um poeta bem-humorado, divertido; outra face do Príncipe dos Poetas que relembro abaixo).

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Velho conto

Rita, mocinha, faceira,

Passeia com o namorado

E, descendo uma ladeira,

Dá um tombo desastrado.

Que tombo! Quase desmaia…

E o noivo, que o tombo aterra,

Vê coisas por sob a saia

Mais do céu do que da terra.

Nem acode a levantá-la:

Contempla, mira, remira,

Fica tonto, perde a fala,

Bate palmas e suspira.

Levanta-se ela sozinha…

Vendo do moço a surpresa,

Murmura rindo a Ritinha:

“Viu a minha ligeireza?”

E ele, logo: “Sim, senhora!

Vi, mas sem que suspeitasse

Que aquilo que vi de fora

Também assim se chamasse…”

Olavo Bilac, Velho Conto, em Os Melhores Poemas

Aceito a minha idade

(No poema de Carlos Nejar encontro as palavras que gostaria de dizer para esse momento em que a poesia é o exercício agradável para continuar).

autorretrato

Aceito a minha idade

e a que me completa

a face padecida e conquistada

as derrotas caladas

no meu sangue

os amores poentos e chovidos

e este amor que me fez reencontrar

o dia humano

.

Nada me ilude mais

nenhum signo é perfeito

as mistificações

o exato reino

das mãos e da vontade

me conhecem

e sei de cor a sua brevidade

o círculo fendido

.

E a idade convenceu-me

de estar mais junto ao chão

rente à pele, ao diário suor,

ao coração

Carlos Nejar in ‘Melhores Poemas’

Do poema para vozes

(Excerto do Auto do Frade, de João Cabral de Melo Neto, que um dia dirigi e sonho voltar a montar).

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Acordo fora de mim
como há tempos não fazia
Acordo claro, de todo,
acordo com toda a vida,
com todos cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro desta prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim
como vida apodrecida.
Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.
Mesmo quando alguém acorda
para um fiapo de vida
como o que tanto aparato
que me cerca me anuncia:
esse bosque de espingardas
mudas, mas logo assassinas, …

João Cabral de Melo Neto, in ‘Auto do Frade’, monólogo do frei.

Desejo de Regresso

(Entre vidas e sonhos, a ilusão do renascer, o desejo de reviver. E a vida que penso e quero é a que expressa o verso alheio tomado emprestado nesse exercício para retornar).

eu aviao

Deixai-me nascer de novo,

nunca mais em terra estranha,

mas no meio do meu povo,

com meu céu, minha montanha,

meu mar e minha família.

E que na minha memória

fique esta vida bem viva,

para contar minha história…

Porque há doçura e beleza

na amargura atravessada,

e eu quero a memoria acesa

depois da angústia apagada.

Cecilia Meireles in ‘Melhores Poemas’

Poema

(Manhãs nubladas sob infinito céu azul. Irreversível,
inesquecível. Entre cimento e asfalto, mantenho a poesia
alheia nesse exercício para retornar).

ceu azul

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Mario Quintana in ‘Antologia Poética”.