Pombinha branca

De muito longe vem a voz que me traz a canção.

Tento ouvir com nitidez, determinar o timbre

A divisão, o andamento.

Reconhecer a tessitura com precisão…

Em vão.

A canção está no pensamento e,

a voz, no coração.

Embalou um, embalou dois,

Embalou seis filhos!

Distraiu netos enquanto os banhava

Vestia, perfumava.

Em vão busco a voz precisa

Só tenho certeza da canção

Que um dia foi cuidado

carinho, puro afeto e,

Hoje, 3 de novembro,

É saudade.

Liberdade

Pra hoje, um poema de Fernando Pessoa:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

“Desfaze-te da vaidade triste de falar”

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“Desfaze-te da vaidade triste de falar”, diz Cecília Meireles em “Não digas onde acaba o dia”; e a poetisa conclui:

Pensa, completamente silencioso,

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

 

 

 

Medos

virus

O vírus assombra o planeta,
Assusta, deixando-nos no devido lugar.
Somos frágeis, indefesos,
Meros mortais.

O vírus avança lá,
Recua acolá,
aparece por aqui
O bicho-papão da infância
Volta em forma de realidade.

O medo antecede o vírus
O terror televisionado
Anônimos infectados
Anônimos mortos.

E as bolsas caem!
Feito ratos astutos
Feito baratas treinadas
Investidores preparam o bote
Recuam para melhor lucrar com a morte.

O vírus, tragédia anunciada
Pede serenidade perante o cadafalso
Resignação.
Medo mesmo, vem dos obtusos
Dos contaminados disfarçados
Dos propagadores irresponsáveis.

Medo maior dos donos das coisas
Das bolsas retraídas
Dos investimentos suspensos.
Para que água tratada?
Para que esgoto na periferia?
A hora é de investir em laboratórios
Distribuidores, vendedores de vacinas.

Medo dessa gente
Que lucra com o câncer
Com os tratamentos sofisticados
O dinheiro retraído para o próximo bote

O vírus, silencioso
Não discrimina ricos
O que é vantagem para o pobre.
A vacina, se vier,
Quando vier
Terá que ser para todos.

 

Valdo Resende, Março/2020

Foto: Flávio Monteiro

O Bilac que não conheci na escola

(Um poeta bem-humorado, divertido; outra face do Príncipe dos Poetas que relembro abaixo).

bilac

Velho conto

Rita, mocinha, faceira,

Passeia com o namorado

E, descendo uma ladeira,

Dá um tombo desastrado.

Que tombo! Quase desmaia…

E o noivo, que o tombo aterra,

Vê coisas por sob a saia

Mais do céu do que da terra.

Nem acode a levantá-la:

Contempla, mira, remira,

Fica tonto, perde a fala,

Bate palmas e suspira.

Levanta-se ela sozinha…

Vendo do moço a surpresa,

Murmura rindo a Ritinha:

“Viu a minha ligeireza?”

E ele, logo: “Sim, senhora!

Vi, mas sem que suspeitasse

Que aquilo que vi de fora

Também assim se chamasse…”

Olavo Bilac, Velho Conto, em Os Melhores Poemas

Aceito a minha idade

(No poema de Carlos Nejar encontro as palavras que gostaria de dizer para esse momento em que a poesia é o exercício agradável para continuar).

autorretrato

Aceito a minha idade

e a que me completa

a face padecida e conquistada

as derrotas caladas

no meu sangue

os amores poentos e chovidos

e este amor que me fez reencontrar

o dia humano

.

Nada me ilude mais

nenhum signo é perfeito

as mistificações

o exato reino

das mãos e da vontade

me conhecem

e sei de cor a sua brevidade

o círculo fendido

.

E a idade convenceu-me

de estar mais junto ao chão

rente à pele, ao diário suor,

ao coração

Carlos Nejar in ‘Melhores Poemas’

Do poema para vozes

(Excerto do Auto do Frade, de João Cabral de Melo Neto, que um dia dirigi e sonho voltar a montar).

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Acordo fora de mim
como há tempos não fazia
Acordo claro, de todo,
acordo com toda a vida,
com todos cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro desta prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim
como vida apodrecida.
Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.
Mesmo quando alguém acorda
para um fiapo de vida
como o que tanto aparato
que me cerca me anuncia:
esse bosque de espingardas
mudas, mas logo assassinas, …

João Cabral de Melo Neto, in ‘Auto do Frade’, monólogo do frei.