Um Sábado com Domingo no Parque

Pura emoção: junto à Orquestra de Câmara da ECA/USP, com arranjos e regência do Maestro Gil Jardim, Gilberto Gil canta Domingo no Parque. Suavemente os sons invadem a Sala São Paulo e dou-me conta de ser esta a primeira vez que ouço ao vivo a música, originalmente apresentada no Festival da Record de 1967. O choro vem fácil e sinto o apoio que vem da amiga que me propiciou tal evento. Careço de outra canção pra sintetizar esse momento: “Tudo ainda é tal e qual e, no entanto, nada é igual” diz a letra de Caetano Veloso em “Os mais doces bárbaros”.

Tal e qual é a beleza de Domingo no Parque na voz madura e segura de seu criador. João, José e Juliana estão em um parque, onde o triangulo amoroso será desfeito tragicamente. As frases melódicas são precisas e realçam a história ocorrida em algum domingo, no parque de diversões onde a roda gigante gira, feito a roda do destino. Os versos evocam imagens com a precisão da poesia. O fim é, infelizmente, comum ainda hoje: resolvido com a lâmina de uma faca.

Gil e os mutantes
Gilberto Gil e Os Mutantes, em 1967

Nada igual! Não estavam lá Os Mutantes fazendo coro com Gilberto Gil. E o novo arranjo, embora belíssimo, continua fazendo lembrar e reverenciar o original de Rogério Duprat. Um encontro impossível com a morte de Duprat, em 2006, e com os rumos sem retorno dos irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Batista, cada vez mais distantes de Rita Lee. No entanto… Criador e criatura! Gilberto Gil é um dos máximos compositores que somam letra e música com beleza e emoção. E há mais: o cantor! Dono de um timbre inequívoco, a voz conhecida de décadas está ali, fazendo a emoção atingir altíssimos graus.

Gilberto Gil brilhou em noite que estiveram presentes a cantora Vanessa Moreno com Fi Maróstica, e a fadista Carminho, duas mulheres extraordinárias. O Concerto Letras de Luz, no Dia Internacional da Língua Portuguesa comemorou o 10º aniversário do Instituto EDP, encarregado de ações socioculturais do Grupo EDP, que tem origem em Portugal.

Gil e os demais artistas
Gilberto Gil, Carminho, Vanessa Moreno e Fi Maróstica, e o maestro Gil Jardim, os artistas do Concerto Letras de Luz

A voz de Vanessa Moreno surpreendeu ao cantar Expresso 2222 e Carminho, lembrando Amália Rodrigues com Saudades do Brasil em Portugal, de Vinícius de Moraes, segue a tradição das grandes cantoras portuguesas. A Orquestra de Câmara da ECA/USP fez um memorável O Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos. O final do show reuniu todos os artistas presentes que fizeram o bis com Panis et Circenses e, novamente emocionaram, em interpretação que lembrou Os Mutantes e a Tropicália.

Foi um sábado feliz. Com Vinho do Porto, Pastel de Belém, alguns amigos e a companhia pra lá de especial da Sonia Kavantan (Obrigado, Sonia! Obrigado EDP!). Tudo muito bom!

Já na Bela Vista quando desci do carro da minha amiga, enquanto caminhava solitário na rua deserta, madrugada de domingo, pensei em Gil, na Ribeira que vi de passagem, lá em Salvador, no parque de diversões do meu pai e da canção, que tive o privilégio de ouvir…

Olha o sangue na mão (ê, José)

Juliana no chão (ê, José)

Outro corpo caído (ê, José)

Seu amigo João (ê, José)

Amanhã não tem feira (ê, José)

Não tem mais construção (ê, João)

Não tem mais brincadeira (ê, José)

Não tem mais confusão (ê, João).

Boa semana para todos!

Ah! Para rever Domingo no Parque no Festival da Record:

 

Até!

Estamos longe de parar

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Após uma caminhada de mais de seis quilômetros eu gostaria de poder dizer que está tudo bem. Andei devagar (porque já tive pressa, diz a canção!) e falando muito pouco. Embora cada vez mais afeito ao silêncio, gostei do som de palavras de ordem, de apitos, do barulho de gente que acima de tudo celebra a liberdade de poder dizer o que pensa. Mesmo com dezenas de carros da polícia na retaguarda; e outro tanto de motocicletas da corporação nas beiras…

Antes, entrei na Avenida Paulista na mesma hora em que uma longa fila de viaturas policiais avançava lentamente, luzes vermelhas piscando e ocupantes ameaçadores que – no nosso país – continuam olhando a população como inimiga. (Chame o ladrão! Chame o ladrão! Diz outra velha canção!). Alguns transeuntes armados de celulares registravam o cortejo armado e na frente, bem na frente daqueles que não foram chamados alcancei milhares e milhares de pessoas.

Por vários instantes me perguntei sobre as reais intenções de cada caminhante, em nome de que, de quem, de qual partido gritavam pelas avenidas; em quem votariam nas possíveis “diretas já”? Quais, quantos nomes constariam para livre escolha? Naquele momento, me parece, o mais importante foi dizer ao “desafeto mor” que são mais, muito mais que quarenta os insatisfeitos com o rumo das coisas.

Na sexta-feira, dia 2, li que o Senado, após o impeachment, passou a considerar legítimo o que na semana passada era crime. Na quarta-feira anterior uma estudante, “atingida por estilhaços de bomba de efeito moral” perdeu o olho durante protesto contra o governo. Dois exemplos da situação em que estamos. Duas situações entre as tantas que merecem caminhadas, palavras de ordem e a luta por um país descente, civilizado.

“Vai caminhante, antes do dia nascer”, terceira canção (Os Mutantes, estão lembrados?)! E assim,  por ter saído antes da noite avançar não sofri o ataque violento da polícia. Antes de chegar ao Largo da Batata manifestei receio aos que estavam comigo. Trechos inteiros mal iluminados – apagaram as luzes públicas? – e no final da passeata, grande número já debandando, o que ocorreria? Noite de domingo:  A grande mídia ignorou ou deu sua “versão dos fatos”…

Segunda-feira, dia 5. “Tudo ainda é tal e qual e, no entanto, nada é igual”… Quarta canção.  Ontem, milhares de pessoas, em todo o nosso país, deixaram bem nítido que continuarão, que a luta segue, que estamos longe de parar. Por um país melhor caminharemos outros seis, dez quilômetros. Até que fiquemos minimamente bem.

Até mais!

Obs 1. As canções referenciadas neste texto são, respectivamente: Tocando em Frente – Almir Satter e Renato Teixeira ; Acorda amor – Leonel Paiva e Julinho da Adelaide {Chico Buarque}; Caminhante Noturno – Arnaldo Baptista e Rita Lee; Os Mais Doces Bárbaros – Caetano Veloso.

Obs 2.Para a foto acima, a legenda óbvia: E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão. (Sonho Impossível – Versão de Chico Buarque).

Esse tal de Roque Enrow!

Eu conheço pouco o cidadão, “esse tal de Roque Enrow”. Tenho a impressão que regrediu, que estacionou. E Dona Rita Lee (dona dos versos da canção, presentes abaixo) permanece atualíssima:

Quem é ele?
Esse tal de Roque Enrow!
Uma mosca, um mistério
Uma moda que passou
-Já Passou!
Ele! Quem é ele?

Estou mais para Os Sertões, o grupo que surgiu com o fim da banda Cordel do Fogo Encantado, cuja capa está antropofagicamente construída. Esse Roque Enrow eu gosto muito. Roque iniciado por Tarsila, Oswald e dona Pagu. Esses certamente ficariam satisfeitos com a capa do disco da banda Os Sertões. Esta:

Brinque: identifique os brasileiros abaixo!

Engraçado é que tenho a impressão de que quando se fala em roque enrow deixam os Beatles de lado. Pegam umas bandas de grunhidos duvidosos, som mais pra tosco que pra melódico e parecem crianças fazendo careta de capeta, escandalizando papai e mamãe para, na esquina, fumar escondido um baseadinho.

Quem é ele?
Esse tal de Roque Enrow!
Um planeta, um deserto
Uma bomba que estourou
Ele! Quem é ele?
Isso ninguém nunca falou!

Por isso, no dia do roque e para o final de semana, deixo-vos com a lembrança e a indicação de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Esse aí, cuja capa é para não deixar a menor dúvida.

Brinque: cante cinco canções deste disco!

O resto, digo, os demais que aprendam. Senhores, roque enrow pede melodias refinadas, ritmos contagiantes, ousadia criativa e um olhar para muito além do momento presente. Isto é Sgt. Pepper’s, isto é roque enrow. Alguém discorda?

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Bom final de semana.

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“Reza” é o rock brasileiro de Rita Lee

Fiquei ouvindo a nova música de Rita Lee, “Reza”, de um álbum que será lançado no próximo mês. A informação do catálogo diz que é rock. Donald Judd, citado em livro de Frederico Morais, disse  que “se alguém chama isto arte, então é arte”. Rita Lee é a Vovó do Rock, tem porte e postura de roqueira; portanto, faz rock.

O próximo trabalho de Rita Lee e Roberto Carvalho sairá pela Biscoito Fino, a gravadora que reúne em seu catálogo alguns dos maiores nomes da música do Brasil. Maria Bethânia é contratada da Biscoito Fino e sempre fala sobre a liberdade e o respeito com o qual é tratada na gravadora. Essa liberdade é somada a uma ausência de pressão quanto ao volume de vendas; nas gravadoras multinacionais os artistas recebem tratamento e atenção conforme a vendagem de seus álbuns. Assim é que na Biscoito Fino os artistas tendem a projetos artísticos, não necessariamente comerciais, diferenciando-os substancialmente dos álbuns feitos em outras empresas.

Rita Lee estreou em 2009 na Biscoito Fino com uma coletânea da série “Multishow Ao Vivo”. A cantora lançou um single pela Internet, “Reza”, antecipando o próximo álbum, programado para lançamento no dia 13 de abril próximo. Se a nova casa – gravadora – permite maior liberdade e propicia autonomia para a criação de seus contratados, cresce a responsabilidade da cantora e compositora sobre o repertório.

O primeiro single, “Reza”, vem com a Rita Lee de sempre. Aquela que nos habituamos a ouvir ao longo de mais de três décadas da parceria com Roberto de Carvalho. Os acordes iniciais lembram outros, de grande impacto, na carreira de sucessos comerciais da dupla. Nada de Os Mutantes, nem da fase “Tutti & Frutti”. Mas a música é gostosa, a letra é bem feita, com expressões bem típicas da nossa gente.

Deus me proteja da sua inveja 
Deus me defenda da sua macumba 
Deus me salve da sua praga…

… Deus me perdoe por querer 
Que deus me livre e guarde de você

Conheço mais que um entre roqueiros que se ressentem das mudanças ocorridas ao longo da carreira da cantora; como não tenho compromisso com o rock de outras terras encontro, em Rita, a melhor expressão do rock feito no Brasil. Um rock que é feito somando nossa tradição musical: é leve como a batida suave de João Gilberto e tem aquele humor, que conhecemos desde Noel Rosa. Que venha o novo álbum de Rita Lee!

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Até mais!

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Notas:

– O livro citado de Frederico Morais é da editora Record e o título é “Arte é o que eu e você chamamos arte”.

– A nova música de Rita Lee está no iTunes por $0.99.

Abacaxis e bananas! Porque é carnaval

Santo Deus! Vou me tornar um abacaxi! sexta-feira, cinco da manhã, entrarei no sambódromo paulistano, todinho de abacaxi!

Nas vésperas de me tornar um senhor abacaxi, vem à memória uns versos de música da Rita Lee:

Pois as pernas que um dia abalaram Paris

Hoje são dois abacaxis… 

Pois bem, minhas pernas não abalaram ninguém e sempre fui do grupo denominado “perna de pau”, aquele que não joga nada de futebol. E agora, não só as pernas, todo eu serei um abacaxi.

Vamos ao como tudo começou!

O lero-lero: To cansado, o ano mal começando e já estou querendo pendurar as chuteiras. Não agüento mais, a mega-sena não vem, blá, blá, blá…

O carnaval: to cansado; assim mesmo, gostaria de ir pro sambódromo, ninguém quer sair na escola comigo, preciso me enturmar com gente que curte; poxa, nem comprei ingressos ainda; deixa pro ano que vem, blá, blá, blá…

Quarta-feira chega a menina: – Professor, o senhor quer desfilar no carnaval? E eu que sou um cara ocupadíssimo, com mil compromissos, que precisa ponderar e pensar muito para tomar uma decisão, respondo: – Aceito! E, ainda ocupadíssimo, pedi desculpas: amanhã nos falamos! E fui para a sala de aula.

Tamborim batucando não sai da cabeça, vem a lembrança do bumbo marcando feito batida de coração, e o corpo começa a querer mexer, os pés já ameaçam sair no compasso do samba. Vou sair na Sociedade Rosas de Ouro!

O vento sopra magia

Vem viajar na imaginação

Era uma vez, um reino abençoado

Onde imperava a igualdade

Justiça e liberdade…

“Caraca – pensei – desse reino vou ser um nobre!” Nos meus delírios que começaram logo após ter nascido,  se é pra ser da nobreza, meu lance é ser duque. Nem rei, nem príncipe e, marquês só o nome da avenida onde está o meu outro local de trabalho. Meu lance é ser duque. E ser anunciado com pompa e circunstância: – Senhores, está presente no recinto, o ilustríssimo Valdo Resende, Duque de Uberaba!

A maionese acaba, o delírio passa e volto a ser “minerim, que tá bom demais, sô!”. Acontece, que a Rosas de Ouro “no ano do seu aniversário de 40 anos, se inspira na história da Hungria, uma lendária terra de reis, guerreiros e justos para contar a saga de bravos homens que acreditaram em seus sonhos…”

O autor de enredo, Darlan Carneiro e o carnavalesco Jorge Freitas, mandaram bem na sinopse: “Contaremos a saga de um fictício Rei húngaro (Janos ) que viu seu reino ser invadido pelas forças do mal, obrigando-o a partir e a deixar para trás o solo que por justiça era seu, o solo sagrado de seus ancestrais. Em busca de uma nova terra onde pudessem viver seu sonho de justiça e paz, chegam ao Brasil, esta pátria mãe gentil, que lhes acolhe e oferece um pedaço deste chão.”

Baixou aqui no “minerim” a personagem de Guimarães Rosa e repeti a famosa frase de Augusto Matraga; “- Todo homem tem sua hora e sua vez, a minha há de chegar.” E a minha vez de ser nobre chegou!

É mais que um caso de amor

Rosas de Ouro, razão do meu viver!

Trazendo a Hungria no coração

E o sonho de ser campeão! 

Voltei dia seguinte na faculdade para saber um pouco mais. Tentando abrir brechas na agenda para ensaios na quadra, ensaio no sambódromo, sonhando com a nobreza mineira defendendo a “Roseira”. Vi todos os detalhes do enredo, em homenagem ao povo húngaro na figura de seu representante mais famoso no Brasil, Roberto Justus. E com o pensamento elevado na mais alta aristocracia européia fui ao encontro de Lucielen, ansioso, perguntando de cara: – E então, em qual ala vamos desfilar? Qual é a minha fantasia?

– Abacaxi!

Tive uma idéia do que foi a guilhotina para a nobreza francesa.

– Abacaxi?

– Abacaxi, ela confirmou.

Comecei a rir e – lógico – que um ser delirante, olhando o site, não tinha prestado atenção na fantasia de abacaxi! Fiquei imaginando, lembrando de carnavais anteriores e antecipadamente, já estou muito feliz. Vou brincar na avenida; vou sambar e cantar com todo o povo da Rosas de Ouro:

…Vou coroar essa conquista

Honrando as cores do meu pavilhão 

É mais que um caso de amor

Rosas de Ouro, razão do meu viver!

Trazendo a Hungria no coração

E o sonho de ser campeão!

Acordo após mais uma noite de calor infernal, feliz em ser um abacaxi na avenida e, ao abrir o Facebook , dou de cara com uma foto do meu querido Fernando Brengel vestido de banana. O distinto sairá na Ala das Bananas da Pérola Negra. Outras risadas e uma primeira conclusão sobre o carnaval 2012. Neste ano, vai dar fruta na avenida!

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Bom final de semana!

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Fundamental: O enredo da escola é “O Reino de Justus”. Os compositores do samba de enredo, dos versos citados acima, são: Léo do Cavaco, Rogério Morgado, Leonardo Lima, Eric Lisboa, Luciano Godoi e Cleverson Japa. Fico feliz e honrado em poder defender as cores da Rosas de Ouro neste carnaval. Meu especial agradecimento para Lucielen, pelo convite.

Tropicália no Sambódromo é Águia de Ouro

Desde o ano passado gostei da idéia de que a Tropicália seria o tema da Escola de Samba Águia de Ouro. A escolha não poderia ser mais feliz e estou torcendo, desde então, para que a Águia de Ouro brilhe na avenida. Não foi por acaso que Caetano Veloso disse em versos, lá na década de sessenta, na letra da música “Tropicália”:

 Eu organizo o movimento

Eu oriento o carnaval

Eu inauguro o monumento no Planalto Central

Do país. 

Se o samba nasceu na Bahia, a Bossa Nova no Rio de Janeiro, São Paulo é a cidade da Tropicália, assim como foi a cidade da Semana de Arte Moderna em 1922. Nossa São Paulo tem uma especial vocação para a modernidade e aqui que a guitarra elétrica foi definitivamente somada ao instrumental da música brasileira.

Os principais criadores do movimento

O tema da escola do bairro da Pompéia, neste ano, é “Tropicália da paz e do amor! O movimento que não acabou” (clique para ouvir). Historicamente, considera-se o final do movimento com o exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Após prisão, foram para Londres. Por aqui, Gal Costa fez um trabalho de resistência e a música brasileira ganhou outro matiz com a posterior chegada do grupo Novos Baianos. 

A letra do samba de enredo da Águia de Ouro é farta em referências explícitas para contar a Tropicália: Cita a Bossa Nova, a Jovem Guarda, o Rock, as guitarras e segue, dando crédito aos criadores Caetano Veloso e Gilberto Gil. Lembra a primeira parte do verso mais famoso da música “Alegria, Alegria”, “caminhando contra o vento” que é momento empolgante do samba. Há ainda a menção aos festivais, ao filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, e à peça de Oswald de Andrade, “O Rei da Vela”, na encenação histórica do Teatro Oficina. Chacrinha é lembrado e as citações terminam com os Novos Baianos.

Bruna Martini, que é minha aluna e integrante apaixonada da Águia de Ouro, foi a primeira a falar-me da Tropicália enquanto tema da escola. E escreveu-me: “Os autores do samba são Jairo, Fernando Sales, Tadeu e Rodrigues. O intérprete é Serginho Porto e o carnavalesco é o Cebola.” Sendo uma escola da Pompéia, pensei que haveria maiores menções ao pessoal da banda “Os Mutantes”. Os meninos moravam no bairro. Acompanharam Gilberto Gil em Domingo no Parque e, como banda, Os Mutantes participam de todo o disco do cantor e compositor, lançado em 1968. Acima de tudo, Os Mutantes mantiveram uma postura musical tropicalista até a década seguinte, realizando um trabalho que atravessou fronteiras, tornando-se a banda brasileira de rock com maior reconhecimento internacional.

Rita Lee estará na avenida. Caetano Veloso manifestou apoio em vídeo. E a Águia de Ouro já anunciou outros nomes para o desfile. Fiquei pensando com meus botões que se eu fosse o tal Cebola, minha comissão de frente reproduziria a capa de “Tropicália ou Panis et Circensis”. O disco é, em si, o projeto estético da Tropicália e, conforme Celso Favaretto, no livro “Tropicália: Alegoria, Alegria”, é estruturado, musicalmente, como uma polifonia, ou longa suíte. Assim, dá uma clara noção do que os idealizadores do movimento pretendem.

A reprodução desta foto seria minha opção para a comissão de frente.

Imaginem um grupo dançando e, bem no meio do Sambódromo, reproduzindo a famosa foto! E se as baianas viessem com cabelos à la Gal Costa? Um grupo inteiro de noivas, lembrando Rita Lee no Festival Internacional da Canção? Cor é o que não falta e espero, sinceramente, que a Águia de Ouro não só faça um belo carnaval, mas que consiga uma excelente colocação. Só pelo tema, a escola já merece estar entre as primeiras colocadas. Agora é torcer para que ela concretize a Tropicália no carnaval de São Paulo e consiga vencer o campeonato.

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Bom carnaval, Águia de Ouro!

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Nota:

Veja abaixo, a letra do samba de enredo da escola que estará desfilando na segunda noite dos desfiles paulistanos. A ordem do desfile do Grupo Especial no Anhembi será:

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Dia 17/02 – sexta-feira: ordemCamisa Branco e Verde; Império de Casa Verde; X-9 Paulistana; Vai-Vai; Rosas de Ouro; Acadêmicos do Tucuruvi e Mancha Verde.

Dia 18/02 – sábado: Dragões da Real; Pérola Negra; Mocidade Alegre; Águia de Ouro; Unidos de Vila Maria; Gaviões da Fiel e Tom Maior.

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Tropicália da paz e do amor! O movimento que não acabou

Autores: Jairo, Fernando Sales, Tadeu e Rodrigues

Águia de Ouro eterna paixão
O tesouro que guardo no meu coração
No swing da Pompéia eu vou
Na Tropicália da paz e do amor

Brasil, oh pátria amada
Terra abençoada de encantos mil
Sua natureza é divinal
Paraíso de beleza Tropical
A Beira Mar a Bossa Nova Nasceu
Guitarras a tocar, como inspiração
Pra jovem guarda e o rock em apogeu (apogeu)
Com Caetano e Gil, a Tropicália Surgiu
Em liberdade de expressão
“Caminhando contra o Vento”
Ao novo tempo sem repressão

No ar, ecoam notas musicais
Pra eternizar, grandes festivais
E os talentos, o povo consagrou
E a  musica embalou

Sucesso no cinema
Terra em transe na tela
A arte a moda em poema
No teatro, “o rei da vela”
Bate tambor no iê iê iê pro povo balançar
O caldeirão a ferver de cultura popular
A nave louca partiu a dor foi demais
Na luta os seus ideais (Ideais)
Mas, Chacrinha tropicalista imortal
Recebe os novos baianos no Planeta Carnaval

…Fá, Sol, Lá, Si Vai Dona Doida!

Rita em capa de disco gravado em 1970

Preparar esse pé de meia

Pra enfrentar a velhice

E se leva a vida inteira

Pra saber que é uma boboquice…

Não precisa olhar calendário. De manhã, bem antes do horário bancário, quando há uma fila de aposentados na porta da agência estamos no quinto dia útil. Logo, logo, em uma dessas filas, não é que a gente pode dar de cara com dona Rita Lee?

…Deolinda dos sem rainha

Deusa pagã do Butantã

Heavy metal de Santa Izildinha

Joana dark do lexotan

Bendita Rita da lua cheia

Rogai por mim nesse começo do fim…

Foi estranho ver e ouvir a própria Rita Lee anunciando aposentadoria dos palcos. Há pouco soube de outra cantora, Nana Caymmi, também falando de afastamento. Ok! Todo mundo tem o direito de parar e, como disse a própria Nana, querer “… ver o sol nascer de forma diferente; e essa casa em Minas corresponde a tudo que eu preciso.” A Minas, de Nana, é Minas Gerais mesmo, onde a cantora escolheu viver. São Paulo é a terra de Rita Lee e é por aqui que ela deverá ficar.

Esta foi outra capa, em 1980

Rita Lee pretende parar com os shows. Da música – ela mesma disse – não se afastará nunca. De qualquer forma é estranho, muito estranho. Fico imaginando Rita Lee na fila do SUS, sentadinha em banco especial do metrô, na fila preferencial dos supermercados, farmácias… E nos bancos, recebendo o “fantástico” e “imenso” salário pago aos aposentados brasileiros!

Como vai você?

Assim como eu

Uma pessoa comum

Um filho de Deus

Nessa canoa furada

Remando contra a maré

Não acredito em nada

Até duvido da fé…

Ultimamente Rita Lee tem usado o Twitter para colocar a boca no trombone. Sem shows, mais tempo terá para o Corinthians, os bichinhos de estimação, os netos e, certamente, para a música. Aos 64 anos, a menina que encantou com a banda Os Mutantes e transformou-se, segundo Caetano Veloso, “na mais completa tradução” de Sampa, das mulheres de Sampa, fez uma trajetória única, plena de êxitos e agora, sem condições físicas, afasta-se dos palcos. Não deixa de ser melancólico.

A Roling Stone celebra a longa carreira de Rita Lee

Em 1972, ainda jovenzinha e com Os Mutantes, Rita Lee gravou “Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida”. Essa música bateu na lembrança, na medida em que tomei conhecimento do anúncio da aposentadoria. Sem dramas, sem desespero. Apenas isso:

Hoje é o primeiro dia

Do resto da sua vida

E da minha também

E então

Sente no meu colo.

E assim o tempo passou e o hoje tem sido vivido por Rita Lee. De tantas mudanças que podemos verificar na vida da cantora e compositora, esta é, no final das contas, apenas mais uma: Rita Lee se aposenta dos palcos. Tudo bem! Vamos nessa, sempre bailando…

... Como se baila na tribo

Baila comigo, lá no meu esconderijo.

Boa semana para todos.

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Notas musicais:

As músicas citadas neste post, respectivamente: Dona Doida – Rita Lee/Roberto de Carvalho (o título do post é verso  desta canção); Pé de Meia – Rita Lee; Santa Rita de Sampa – Rita Lee/Roberto de Carvalho; Nem Luxo Nem Lixo – Rita Lee/Roberto de Carvalho; Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida – Arnaldo Baptista/Sergio Baptista;  Baila Comigo –  Rita Lee

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