Presentes para São Paulo

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Praça da Sé, amada por milhões.

Nuvens densas, sinal de chuva certa e, de repente, o avião sobrevoa a cidade. No mar de cimento sobressaem edifícios, pedras de impreciso e caótico dominó. Será que iremos parar? A pista será suficiente? A reversão assusta e a nave, impassível, desliza até o ponto de parada.

Amanhã é dia de festa. Aniversário da cidade. 462 anos de São Paulo. Quantos milhares de paulistanos e outros, que moram aqui, saíram no primeiro feriado prolongado do ano? Interessa mais saber que voltarão. E os que aqui permaneceram festejarão comendo bolo no Bexiga, passeando no Ibirapuera, andando de bicicleta na Paulista…

No hall de Congonhas um embate entre o taxista oficial e o clandestino. Voltamos. Estamos em casa.  Na cidade que abriga o mundo, todo tipo de gente. Nossa casa é São Paulo. E a cidade, grande mãe, administrando tudo e todos segue seu curso indiferente ao tempo, vencendo-o e renovando-se, ignorando o próprio aniversário.

Vinte e cinco de janeiro. Dia de acordar mais tarde, permanecer tranquilo. Dia de presentear São Paulo: Um pouco mais de verde; outro tanto de higiene; todas as cores de flores e, daqueles que por aqui transitam infinitas gentilezas; para com a cidade, para com seus habitantes. Simples assim! Como um desejo de criança.

Feliz aniversário, São Paulo!

O que está sendo feito por São Paulo?

Foto by Valdo Resende
Bela Vista! O meu bairro!

Como é possível ter problemas com água estando em um país com doze bacias hidrográficas? Desde criança estudamos geografia e, orgulhosos, guardamos as informações das imensas riquezas nacionais; a água está entre elas. Por conta disso, mais a influência indígena na nossa cultura tomamos um, dois banhos ou mais por dia. “- Somos pobres, mas somos limpinhos” diz a piada popular. No entanto, de um tempo para cá, vivemos a ameaça da falta de água até em São Paulo, a mais rica entre as capitais brasileiras. Exagero ou não, fala-se até em êxodo! Parece loucura imaginar a megalópole vazia, com seus edifícios abandonados, o povo abandonando tudo em busca de vida, de água.

Sair! A história não é nova. Basta lembrar “O Quinze”, quando Raquel de Queiroz contou-nos a história de Chico Bento e de seus familiares vitimados pela seca cujo ápice foi em 1915. Esta levou Chico a munir-se dos poucos pertences e, saindo do Ceará, rumou para o norte. A borracha era promessa de fortuna e água é o que não faltava na bacia amazônica – a maior do mundo. A viagem foi trágica e a família de retirantes tomou novo destino, São Paulo, o mesmo que seria procurado por milhares de outros nas décadas seguintes. A cidade, que já foi chamada de terra da garoa, tornou-se a maior da América do Sul

Estamos em 2015. Cem anos depois vivemos uma situação insana. Chove sempre em São Paulo. Apesar de chuvas fortes, de tempestades que derrubam árvores e provocam alagamentos, convivemos com a ameaça de um colapso por falta de água em nossas torneiras. Custa a acreditar que haja problema de seca com tanta água que cai do céu. Todavia, água tem destino certo, drena a terra, corre rumo ao mar, evapora. É preciso represá-la para garantir o abastecimento de toda e qualquer cidade. Represar é o problema.

Vi, no Estado do Piauí, a colocação de calhas no entorno de telhados direcionando a água da chuva para reservatórios domésticos, chamados “caldeirões”. No Estado de Pernambuco presenciei a construção de sistema similar, a água preservada em grandes tanques de borracha.  Aprendi que o lago de Sobradinho, na Bahia, suporta dois anos de estiagem e sei que a perfuração de poços artesianos dura de cinco a vinte dias. Li que o governo federal liberou R$ 2,6 bilhões para a construção de um novo sistema de abastecimento para São Paulo que ficará pronto só em 2017. A maior escassez de água, dizem, é para 2015. Bate um receio enorme! Um grande amigo tranquilizou-me: a importância econômica de São Paulo obriga a uma solução. Resta saber qual!

São Paulo completa 461 anos! O maior presente para todos os paulistanos seria a veracidade de informações. Transparência quanto ao que realmente está acontecendo. Não se trata de saber apenas por quanto tempo teremos água. IMPORTA SABER O QUE ESTÁ SENDO FEITO PARA ENFRENTAR A ESCASSEZ DE ÁGUA NA METRÓPOLE!  Ou será que nossos governantes pensam que repetiremos o “O Quinze” e tomaremos rumo ao norte? De minha parte, declaro amorosamente hoje e no aniversário de 25 de Janeiro de 2015: Não tenho a menor intenção de abandonar minha cidade. Quero sim, enfatizar todo o afeto pela cidade que escolhi para viver.

Feliz aniversário, São Paulo!

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Nota: Em anos anteriores escrevi outros textos, louvando a cidade. Quero colocar os links abaixo para reiterar meu amor pela cidade.

VERSOS DE MARIO DE ANDRADE PARA COMEMORAR SÃO PAULO

https://valdoresende.com/2012/01/24/versos-de-mario-de-andrade-para-comemorar-sao-paulo/

SÃO PAULO, COMOÇÃO DA MINHA VIDA

https://valdoresende.com/2013/01/24/sao-paulo-comocao-de-minha-vida/

SÃO PAULO FEITO GENTE.

https://valdoresende.com/2014/01/24/sao-paulo-feito-gente/

DOIS MENINOS – LIMBO

Este é o release oficial do lançamento do meu livro:

Dia 13 de dezembro, na Livraria Martins Fontes- Paulista, Sábado das 15h30min às 18h30min, no Espaço de Humanas, será o lançamento do livro “Dois Meninos – Limbo”, da Elipse, Arte e Afins, o romance de estreia de Valdo Resende. A partir das 15h30min ocorrerá uma sessão de autógrafos. O endereço é Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista, 509.

CAPA OFICIAL baixa

O Romance

No mercado da arte, no Brasil, há duas vertentes distintas, presentes no romance “Dois Meninos – Limbo”; uma é a arte que frequenta críticas, resenhas de jornais e revistas especializadas, sendo mostrada nos museus e centros culturais. E há uma arte popular, comercializada em feiras públicas, ao ar livre e em galerias particulares onde há o escoamento desses trabalhos.

“Dois Meninos-Limbo”, publicação da Elipse, Arte e Afins Ltda., é sobre um pintor de origem humilde que, mesmo conhecendo a arte vigente escolhe elaborar uma produção popular, dentro das tradições acadêmicas que elegeram gêneros como a paisagem, o retrato e a natureza-morta como fontes para um trabalho pretensamente artístico, mas que visa fundamentalmente a sobrevivência através da comercialização dos resultados.

O cenário é a cidade de São Paulo do final do século XX; a vida operária, a agitação de noites trepidantes tornadas tensas e perigosas com o surgimento da AIDS e, decorrentes dessa realidade,  as profundas mudanças e exigências impostas à sociedade. Revivendo esse momento, “Dois Meninos – Limbo” celebra a amizade e a solidariedade ante a adversidade, tanto quanto celebra a solidão e o amor.

Com prefácio de Octavio Cariello, “Dois Meninos-Limbo” também é a primeira publicação da Elipse, Arte e Afins, com projeto gráfico do Estação Design. A concepção da capa é de Marise de Chirico.

SERVIÇO

Lançamento romance: Dois Meninos – Limbo

Data: 13 de dezembro de 2014

Horário: 15h30min às 18h30min

Preço: R$34:90

Local: Livraria Martins Fontes. Av. Paulista, 509 – São Paulo, SP telefone: 11 2167-9900 (próximo à Estação Brigadeiro do Metrô). Convênio com estacionamento: Rua Manoel da Nóbrega, 88 ou 95. Primeira hora R$7,00 nas compras acima de R$ 10,00.

SOBRE O AUTOR:

Valdo Resende

Mestre em Artes Visuais é mineiro de Uberaba. Lá começou a escrever para teatro e, radicado em São Paulo, continua com atividades teatrais e é professor universitário.

No blog https://valdoresende.com/ publica regularmente crônicas, contos, divulga eventos artísticos e, entre outros gêneros, a poesia.

Estreou na coletânea de contos Alterego, organizada por Octavio Cariello para a Terracota e, na área de marketing idealizou o livro “Um Profissional para 2020”, publicado pela B4Editores.

A Menina Que Queria Ser Bandeirante

Ronan Vaz, Lilia Pitta, Marcelo Ribas e José Luiz Filho em foto de Thaneressa Lima (Divulgação)
Ronan Vaz, Lilia Pitta, Marcelo Ribas e José Luiz Filho em foto de Thaneressa Lima (Divulgação)

“A Menina Que Queria Ser Bandeirante” é a quinta história do projeto “Arte na Comunidade 2” e foi apresentada nas escolas, individualmente, por cada um dos atores do projeto. Para encerrar o projeto, nas quatro cidades, ocorreu uma mostra teatral com montagens feitas por artistas locais, grupos regionais e da capital, Belo Horizonte. Como anfitriões, os contadores do “Arte na Comunidade 2” subiram ao palco e, juntos, contaram para toda a comunidade as HISTÓRIAS DO PONTAL DE MINAS. Nesta, reviveram as histórias contadas por cada um, mas com a participação dos quatro atores.  As imagens que ilustram este post são deste momento, quando nossos contadores apresentam a quinta história, d’A Menina Que Queria Ser Bandeirante.

Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, pedimos a gentileza da citação da origem. Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 foi patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e contou com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata.

Vamos à história:

A Menina Que Queria Ser Bandeirante

Original de Valdo Resende

(VOLTA A MÚSICA INICAL AO TERMINAR A PRIMEIRA HISTÓRIA. O CONTADOR MEXE NOS LIVROS, POR ALGUNS SEGUNDOS E, EM SEGUIDA, RETIRA E ORDENA OS QUATRO OBJETOS IDENTIFICADORES DE CADA CIDADE SOBRE A MALA/BIBLIOTECA. NOMINA O OBJETO E REFERE A CIDADE, SEMPRE EM ORDEM ALFABÉTICA).

A mala-biblioteca e os demais adereços utilizados em cena.
A mala-biblioteca e os demais adereços utilizados em cena.

Canápolis! O abacaxi é, para milhares de pessoas, um delicioso símbolo da simpática cidade. Ituiutaba! Cidade tão pródiga, tão rica, que poderia ser lembrada por produzir arroz, cana de açúcar, leite. Escolhemos o leite, porque toda cidade tem um pouco de nossa mãe. Monte Alegre! Há farinha de mandioca em diferentes regiões, outros países… Em Monte Alegre de Minas ela é mais gostosa. Feita com o requinte dos quitutes que colocam Minas em destaque na culinária brasileira. Prata! A mais antiga cidade do pontal de Minas. Mãe de outros dezesseis municípios e, ainda assim, com a maior extensão territorial na região. A gente olha para esses achados arqueológicos e pensa em Minas, lembra o Triangulo Mineiro muito antes de o Brasil nascer.

Claudia, uma menina que nasceu por aqui há muitos anos, gostava de imaginar como eram as coisas, antes que os portugueses viessem para a região, antes que o progresso chegasse modificando e melhorando quase tudo. Com tanta cidade bonita por aqui, fica difícil imaginar o Triangulo como uma grande floresta habitada por índios caiapós, bororós. Mas era assim! Uma imensa floresta dominando o serrado e escondendo ouro, pedras preciosas e muitas outras riquezas.

bandeirante em canápolis

A menina Claudia, loirinha, olhos claros, não tinha nenhum aspecto aventureiro. Era mais para mocinha de contos de fadas. Todavia, desde que ouviu falar sobre os bandeirantes, soube que seria um entre eles. A professora contou que as Entradas e Bandeiras eram como grandes cidades em movimento. Homens, mulheres, crianças, escravos e índios amigos, caminhando juntos com a missão de desbravar a terra e encontrar riquezas. A menina ficou imaginando como seria estar na comitiva de Fernão Dias Paes Leme, buscando esmeraldas. O bandeirante Fernão Dias saiu de São Paulo, rumo a Guaratinguetá e rumou para o centro de Minas Gerais. Achou turmalinas e pensou que fossem esmeraldas. “- Um grande herói!” Claudia disse em alto e bom som que seria uma bandeirante!

Os colegas da menina começaram a rir, a debochar. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Ela ignorou, pensando no ato que fez de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. Bartolomeu Bueno da Silva passou por aqui, pelo Triangulo Mineiro, que na época já era conhecido como Sertão da Farinha Podre. Ele foi para Goiás, buscando ouro. Lá encontrou os bravos guerreiros Caiapós, que não entregariam seu território e suas riquezas sem luta. Foi então que ele ateou fogo em um pouco de aguardente, dizendo que era água, e que atearia fogo em todas as águas do território dos Caiapós. Os índios foram ludibriados e, crédulos, chamaram Bueno da Silva de diabo velho, na língua deles, o Anhanguera. A loirinha Claudia delirava com as histórias. Os amigos debochavam.  Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Ela dava de ombros, interessada em saber da história de sua terra, do nosso querido pontal de Minas.

bandeirante 7

Os primeiros habitantes de Minas Gerais foram os índios. Depois vieram os portugueses, mas antes desses, muito antes de chegarem com suas entradas e bandeiras, foram os africanos que habitaram várias regiões do estado. É! Escravos africanos que lutando por liberdade fugiram do homem branco e organizaram-se em quilombos. Um dos mais resistentes quilombos que a história guarda é a do Quilombo do Ambrósio, que existiu onde hoje é a cidade de Ibiá, próxima de Araxá.

Aliás, Araxá está entre os primeiros arraiais surgidos no Triangulo Mineiro. Depois veio Uberaba. Depois, o Prata. Antigo, antigo mesmo, é o Desemboque, que hoje é distrito de Sacramento. Desemboque era o nome que se dava ao Triangulo Mineiro, o grande espaço de terra entre o Rio Grande e o Rio Paranaíba. Depois é que chamaram essa região de Sertão da Farinha Podre. Claudia guardava cada detalhe dessa bela história na sua cabecinha de menina.

Desemboque era um centro por onde passavam as bandeiras, rumo ao chapadão mineiro e às terras de Goiás. Outra picada se fez por São Paulo, mas isso foi depois. Nessa primeiras bandeiras que alguns homens, rumando para o interior desconhecido, deixaram pendurados em árvores no mesmo município de Sacramento, alguns sacos de farinha para que, ao retornarem, houvesse alimento para todos. Quando voltaram, a farinha estava estragada.  Começaram a chamar o território de Sertão da Farinha Podre e… Como se diz hoje em dia… Pegou!

A menina começou a esparramar para as amigas, para a família, que seria bandeirante. Que iria desbravar o Triangulo, Minas, o Brasil. O pai da menina não gostava daquilo. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! E as lutas, as guerras, ela tinha noção de como havia sido? Que os caiapós, dóceis em um momento, entraram em guerra logo depois, defendendo com garra seu território? Que outro bandeirante, aliando-se aos índios Bororós, arregimentou 500 guerreiros e só assim conseguiram derrotar os Caiapós, em triste carnificina? Ser bandeirante. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Isso não é coisa de menina!

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Claudia pesquisou muito. Como nessa história não havia mulheres? Foi estudando (PEGA UM LIVRO, COMO SE LESSE) que ela descobriu algumas grandes mulheres. Uma tal Ana de Oliveira, natural de Vila Nova, atualmente Sergipe, participou da formação de duas bandeiras. Duas! E foi perto do Pontal, no interior de Goiás, que uma mulher bandeirante é lembrada como heroína: Maria Diaz Ferraz do Amaral é chamada de Heroína de Capivari, por lutar ao lado dos homens num confronto com os Caiapós. A menina Claudia delirava entusiasmada: “-Veja, papai! Só aqui temos duas grandes mulheres bandeirantes!” Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!

O pai foi pedir ajuda na escola. Mesmo sabendo que as bandeiras são coisa do passado não gostava nada da ideia de ter uma filha bandeirante. Pediu ajuda e ambos, pai e orientadora educacional, resolveram falar com a menina, para fazê-la mudar de rumo. (COMO SE FOSSE O PAI, O CONTADOR MOSTRA-SE IRRITADO) Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!

A menina passou uns dias estudando, mergulhada nos livros. Quando parecia que havia esquecido os bandeirantes, a história da região, ela vinha com novidade: “- Papai, você sabia que foi um médico francês, Dr. Raymond Enric des Gennetes, residente em Uberaba, sabendo que a região estava entre dois imensos rios, o Rio Grande e o Rio Paranaíba e que esses sugeriam um triangulo agudo, propôs o triangulo para denominar a região?” O pai, já amuado por ter certeza que ela não mudaria de assunto, resmungou: “-Melhor Triangulo Mineiro que Sertão da Farinha Podre”. E ele voltou a falar com a orientadora. Tinham que fazer alguma coisa. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!

Bandeirante 6

Acontece que foi a menina Claudia quem marcou uma reunião com o pai, a orientadora, a professora, e todos os colegas. Ela já estava cansada de ser chamada de doida! Eles então acharam que ela havia pirado de vez. Marcar reunião? Que ideia! Que doida!

No dia marcado, a sala de aula toda lá, querendo saber. O pai querendo entender o que iria acontecer. E a menina Claudia, pedindo a palavra, começou a falar: “- Vocês todos sabem que entradas foram expedições mandadas pelo governo português e que bandeiras foram iniciativas privadas, certo? Entradas e bandeiras tinham objetivos similares.” A criançada começou a murmurar.  Que ideia! Que doida! Agora virou professora. A menina Claudia respondeu; enérgica: “-Professora não, bandeirante!”. O pai colocou a mão na cabeça. Pobre menina! Ela continuou: “-Muitas bandeiras surgiram para aprisionar índios ou escravos africanos que haviam fugido de seus donos, não é mesmo? Outras surgiram movidas pelo desejo de encontrar metais e pedras preciosas. Em todas elas, havia sempre alguém com o desejo de encontrar remédios, plantas medicinais. Eu chamo essa pessoa de herborista! Eu vou ser bandeirante herborista!”

A classe calou-se. Os adultos também emudeceram enquanto a menina explicou que sabia que havia passado o tempo das bandeiras que formaram nossa região. Tinha também certeza que não há, por ali, índios e ou escravos em luta, mas um povo que precisa viver junto e em harmonia. Não só na região; em toda Minas Gerais, em todo o Brasil, há muito por descobrir sobre ervas medicinais. Nossas florestas grandiosas carecem de exploradores, de heróis bandeirantes que busquem alternativas de alimentos, de remédios em meio ao cerrado, ao chapadão, enfim, em todo o território brasileiro.

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(O CONTADOR MUDA DE TOM, SOLENE, PARA ENCERRAR A HISTÓRIA) O tempo passou; a doutora Claudia tornou-se bandeirante respeitada, herborista de fama! Foi com ela que aprendi que os índios tupi-guarani chamavam pitanga de pyrang. E que essa frutinha colabora na prevenção do câncer. Ela também ensinou que os escravos africanos trouxeram a carqueja, bom para a digestão, para o fígado. Na escola, a doutora Claudia aprendeu a curar com agrião, guaco, alecrim, eucalipto, erva-cidreira, arnica… e continua, por aí, pesquisando nossa mata, na beira dos rios, buscando aprender a ajudar os outros através das nossas plantas. Uma bandeirante moderna! (CONCLUI COM ORGULHO E SATISFAÇÃO:) Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!

GUARDA OS LIVROS, FECHA A MALA E SAI DE CENA.

Obras de arte, vibradores e skank

Convite, por ocasião da entrega do quadro de Portinari ao MNBA
Convite, por ocasião da entrega do quadro de Portinari ao MNBA

 

O país segue em frente, mesmo em tempos de Copa do Mundo. Dois exemplos contundentes: as eleições, aonde o “café com leite” vem com tudo e algumas ações da Receita Federal garantindo tributos devidos aos cofres públicos. “Café com leite”, para os mais jovens, é quando os estados de São Paulo e Minas aliam-se em propósitos políticos. Aécio, de Minas, e Aloysio, paulista de São José do Rio Preto tentarão o lugar de Dilma. Já tributos, quando não pagos, é assunto para a Receita Federal.

A vida de um agente da Receita Federal fica distante do árido discurso político e, me parece, ser bem excitante. É bem verdade que sobram muambas paraguaias no cotidiano desses profissionais; a frequência é tanta que deve ser rotina apreender bebidas, roupas, perfumes e cacarecos para consumo ordinário. Já obras de arte…

O Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, receberá em doação várias obras de arte apreendidas pela Receita Federal. Avaliadas em R$ 10 milhões, as obras são de autoria de artistas nacionais (Cildo Meireles, Jorge Guinle, Daniel Senise, Beatriz Milhazes) e internacionais (Niki de Saint-Phalle e Michelangelo Pistoletto)e em breve estarão expostas para todo o público. Não é esta a primeira doação deste tipo que o museu recebe. Já tive a oportunidade de visitá-lo e conheci, lá, uma obra de Portinari, “Caçador de Passarinho” que foi apreendida e doada ao Belas Artes em 2006.

Ao ler a boa notícia – penso que grandes obras de arte devem permanecer em espaços públicos – deparei-me com outra; a inusitada apreensão de cem vibradores e outros duzentos massageadores eróticos em Foz do Iguaçu, no Paraná. O material estava com um cidadão que embarcava para Fortaleza. Fico imaginando a situação: o agente abre a mala, depara-se com dezenas de vibradores e encara o cearense, cabra macho, e indaga: – É para uso pessoal, senhor?

Animado pelo flagra erótico voltei para mais notícias do setor. Estão lá outras apreensões inusitadas: 160kg de cabelos, sete jatos de luxo, mil réplicas da Taça Fifa (Santo Deus, vários países brigando por uma quando há milhares por aí…) e, entre todas as apreensões, aquela que levou-me a abrir o link: “Receita apreende skank no aeroporto do Galeão”.

Será que a Receita Federal confundiu o grupo mineiro com droga? Pensaram que o vocalista Samuel tenha sido o responsável pelo tráfico dos 160 kg de cabelos? A banda também seria responsável pelas mil réplicas da taça, buscando lançar um novo hit tipo “É uma partida de futebol”?

O bom de certas notícias é não ir direto, desvendando o mistério. Há certo prazer em saborear possibilidades, buscando as causas para tal situação. Se a polícia confundiu a banda mineira Skank com droga, como deixaram de fora a Jota Quest? E seria um absurdo prender o Samuel e deixar o Dinho falando merda no programa dominical da Globo. Será que a manchete estaria errada?

A Skank apreendida pela Receita Federal é uma “supermaconha, cultivada em laboratório, também conhecida como skunk”… Hein? Ufa! Entendi. Então percebi nunca ter buscado a origem da Skank, nem ligado isso ao fato da banda tentar, como está no site oficial, “transportar o clima do dancehall jamaicano para a tradição pop brasileira”. Jamaica? Entendi. Acho…

Enfim, o país caminha com eleições e ações diversas de todos os setores. Mais que impostos retidos na fonte, mordidas do leão, na importante Secretaria há skank, obras de arte, jatos, cabelos, vibradores e, para quem tem, anualmente encontramos a notícia de restituição do IR. Bons e divertidos motivos para ficar atento às ações da Receita Federal.

Até mais!

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ELIPSE (Abecedário do Vava)

Αcalanto para o mundo,

Coro à capela, 59 velas acesas.

Graças, bom Deus, pela minha vida.

 Boa Vista, Bela Vista.

Nasci no Boa, na Bela moro.

Vista. Nem bela, nem boa: uso óculos.

Confiança e carinho

Meus pais, meus irmãos…

Afeto pouco é bobagem.

 Desafio: Desvelem-me!

Nem sei quem sou.

Faço-me em palavras e constato:

São só palavras.

Entreatos alegres,

Entreatos dolorosos

E a vida segue seu curso,

Feiticeiros nada transformam.

Cartas escondem causas, motivos.

E as mãos, calejadas, emitem sinais obscenos.

gemeos

 – Help!

E os Beatles repetiam: – Heeeeeelp!

Não entendia patavina.

Sabe-se lá de onde vem – e fica – a paixão.

“When I was Young…”

Íntimo; o ser com quem falo.

Uma voz jamais exteriorizada

Muitas, muitas intenções!

Tai o porquê de infernos.

Jaculatória para Aurora,

Joãozim, Bino e Donei…

Por todos os que se foram!

Pelo-sinal, guarde-os. Amém.

Kitchenette

Onde ganhei um joanete

Enquanto mascava chiclete…

Liberdade,

Minha quimera desfeita

Neste abecedário de carcereiros.

Mineiro, basta-me um queijo

A voz de Milton, os fantasmas de Ouro Preto

Os versos de Drummond, o céu de Uberaba

Os sertões de Rosa… muitos doces.

Tudinho dentro de casa, em São Paulo.

Nonato, São Raimundo.

Sol escaldante queima mágoas

Espinhos dispersos no pó da caatinga.

Ofício meu, depende da época.

Aos 59, não sei o que serei

Quando crescer.

Perdão!

Quem você levaria para uma ilha deserta?

– Parceiro de pipoca, poesia

E música!

Querelle, quo vadis?

Ao quarup? Fazer o que?

Quintuplicar quiosques com “q”?

Leve quibes e quiabos!

Ranzinza precoce, ranheta.

Tem cura? O humor compensa?

Também, guardo lembrança de radionovelas…

Sonho sempre; tenho saudade.

Manga no pé, uma sabiá

“Sei que ainda vou voltar…”

Titular, na nossa casa

É banana no prato

Fritinha da silva.

Uberaba dos casarões da praça

Córregos a céu aberto, charretes na Mogiana

Reinações no Boa Vista.

Tempo e espaço perdidos

Sonhos guardados.

Vadio, Vadinho, vagabundo

Vagar no mundo sem W. Vava!

Qual nada! Trabalho feito uma besta.

Xereta, xexelento, até xucro!

Um tanto xenófobo

Raramente xambregado.

Autorretrato xixilado…

Yang quando não yin

Prefiro yellows em Van Gogh

Digerindo Yakisoba.

Zabumba na cartilha

Bino feito a giz na calçada.

Minhas primeiras escritas.

D. Zilda: “A” na lousa

Abençoada seja!

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Greve é um tropeção na quina da porta

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Há partes do nosso corpo que são lembradas apenas quando doem. Um tropeção e percebemos a importância do artelho mínimo – vulgo dedinho do pé – para o ator de caminhar perfeitamente. Certos setores da sociedade passam pela mesma situação: quem está preocupado com a saúde dos coletores de lixo? Há segurança para que cobradores e motoristas trabalhem tranquilamente?O salário de diversas categorias supre as necessidades dos profissionais e de seus familiares?

Greve é aquela senhora batida na quina da porta. O funcionamento integral é interrompido e aí, só aí, percebemos o quanto importa esta ou aquela categoria profissional. Não adianta reclamar, perder a paciência ou praguejar; perante uma greve o mínimo necessário é olhar menos para o próprio umbigo e prestar um pouco de atenção na situação dos outros – esses outros também somos nós, dependentes daquele que decidiu interromper seu trabalho.

Que os valores sociais são estranhos não há dúvida. Por exemplo, qual a importância de uma greve de deputados ou da própria presidenta no nosso cotidiano? O que mudaria no dia-a-dia do cidadão caso a gloriosa seleção optasse por uma greve? Quem será realmente afetado caso essa gente falte ao trabalho? Já quando são os metroviários, os motoristas de ônibus… Esses, mais que qualquer governador, mexem muito mais com a vida da população. No entanto ganham infinitamente menos e têm raras e parcas regalias.

Greve é instrumento de diálogo. Quando um lado insiste em não ouvir, em não atender, o outro interrompe a ação forçando a volta da conversa, das negociações. A volta sim, pois nenhuma greve resulta de decisão abrupta e inesperada; a greve é o ápice de um conflito aparentemente insolúvel que exige a intervenção de terceiros: no caso, a justiça e a opinião pública.

Instrumento coletivo, a greve é para poucos. Talvez seja esse o motivo da irritação de muitos. Diante da dificuldade em agir como classe de trabalhadores – constituir-se classe é difícil! – destilam rancor e raiva para aqueles que importam para o funcionamento de setores da sociedade tais como os médicos na saúde pública, por exemplo, ou como os metalúrgicos que colocam a economia em polvorosa. Esses fazem a FIESP perder o sono.

Um jornalismo ordinário, cotidiano, tende a enfatizar os efeitos da greve. Se a greve é dos meios de transporte os “grandes jornalistas” pegam invariavelmente uma senhora de meia idade, acima do peso, que irá levar horas para chegar ao trabalho. Alguém se lembra de ter visto, nos nossos telejornais, as dificuldades de uma senhora de meia idade, acima do peso, esposa de um motorista de ônibus? Nossos telejornais manipulam a opinião pública. Caberia aos profissionais de comunicação mostrar todos os lados da questão.

Cabe à Justiça decidir sobre a legalidade de uma greve. O ato de espernear, tal como quando batemos com o pé na quina da porta, é para o cidadão comum. Quanto maior o grito, maior clareza se dará para a importância desses trabalhadores. Só não dá confundir reação com condenação. Condenar é para a Justiça. Se alguma classe trabalhadora exacerbar nos seus direitos terá de responder por esses atos.

Estamos vivendo um caos em São Paulo. Talvez seja o momento para perceber o grau de importância de cada indivíduo: Neymar não poderá dar carona para a população; nem ele, nem o Felipão! Podemos lamentar essa situação. Todavia, é essencial prestar atenção às condições de trabalho de milhares de indivíduos, como os lixeiros que, penso, não se dão conta do que podem provocar se resolverem parar… Enfim, prestar atenção à situação do outro e, sempre que possível, somar esforços por uma vida melhor. Desses profissionais e de todos nós.

Até mais!

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