Pote de lobisomem e um pouco mais

É só um aparente cacareco, entre tantos outros que guardo. Um potinho de louça ordinária, presente de Dona Antônia. Ela e Cesarino, o marido, foram inquilinos de meus pais e tinham origem espanhola. A frágil cerca que dividia nossos quintais não foi suficiente para isolar-nos e logo após o jantar, enquanto mamãe ultimava tarefas do dia, Dona Antônia vinha papear, contar histórias.

Na fazenda tal, onde moraram, apareciam mulas sem cabeça. Vinham em disparada, cabeças em chamas, perseguindo caminhantes noturnos. Às vezes era uma única, de outras vezes várias em tropel ensurdecedor. Parece que alguém foi pisoteado; houve quem perdeu a fala e até outra pessoa ficou com marcas de queimadura.

Entusiasmada com a atenção das crianças, olhos arregalados, sinais de medo ao encolherem-se umas nas outras, Dona Antônia emendava causos, como um lobisomem que caminhava em noites de lua cheia por entre as casas dos camponeses. Ouvia-se o bater do rabo que o bicho, ao andar, movimentava com força, para espantar um imenso enxame de moscas. Se percebia a luz vinda de alguma lamparina no interior das cabanas, o lobisomem batia com força em portas e janelas, tentando entrar.

Últimas brincadeiras noturnas, era comum ter os pés empoeirados e restava lavá-los antes de ir para a cama. A bacia utilizada tinha de ficar seca, sem água nenhuma, ou o próprio Diabo viria lavar-se, ou refrescar-se do calor do inferno, vai saber! E vinham histórias de gente que sofreu nas mãos do Demo por conta de água suja deixada de um dia para outro.

Impressionado, eu estava entre os irmãos que perdia o sono, chamando a mãe no meio da noite com medo de algum ser fantástico. Mamãe não perdoava: “Para de acreditar nas coisas dessa velha mentirosa! Amanhã vou cortar as conversas dela. Não acredite em nada disso!” Minha impressão era que mamãe, cansada, desacreditava Dona Antônia pra poder ir logo para a cama. Todavia, as histórias pararam.

Um dia, aproveitando a companhia de minha mãe que foi comigo para Araguari, em visita aos meus avós paternos, Dona Antônia foi conosco. O trem da Mogiana saia bem cedo de Uberaba e era puxado por uma Maria Fumaça. Uma aventura! Lá pelas imediações do Rio das Velhas, os trilhos molhados, a velha máquina patinava e Dona Antônia rezava com receio de que a composição descesse de costas, sem controle. Um foguista, munido de vasilha com areia, ia despejando essa sobre os trilhos, a máquina andando um pouquinho, ele despejando outro tanto e assim foi até ultrapassar aquele trecho.

Foi naquela viagem que descobri outra Dona Antônia. Normalmente era uma senhoria que tinha murchos a parte superior dos lábios. Para viajar ela usava dentadura. Imensa, com um dente de ouro incrustado entre os outros, enormes, que a impedia de ficar com a boca fechada. Que coisa era aquela que eu nunca tinha visto? Onde ela guardava os dentes quando não estava passeando? Fui informado que o objeto ficava em um copo com água, ao lado da cama, para ser usado só em momentos especiais. Lembro de um beliscão de minha mãe, para eu parar de me meter na dentadura alheia.

Do velho Cesarino guardo momentos tensos que nossas famílias tiveram por conta de uma colmeia, instalada na laranjeira que estava na divisa dos nossos quintais. O caixote, abrigo das abelhas, já estava pequeno e ameaçava cair. Papai e o vizinho Cesarino resolveram que iriam mudar a colmeia para outro lugar. Munidos de muitas folhas de erva-cidreira, esfregada nos objetos e nos braços de ambos, o que deveria acalmar as bichinhas que, segundo o Cesarino, atendiam por nome “Mariinha”. Era só repetir o nome e pedir calma que elas obedeceriam e ficariam tranquilas com a mudança.

Um enxame no quintal atacando dois incautos e algumas crianças, a casa trancada e, logo, a vizinhança tomada por uma tenebrosa nuvem de abelhas. Minha irmã Walderez, com os cabelos longos e fartos, foi picada pelas bichinhas embaraçadas nos cabelos e depois retiradas por mamãe com ajuda de um pente. Papai, feito criança peralta, tinha crises de riso e o velho Cesarino foi quem mais sofreu pelo excesso de picadas ou por alguma alergia. Ninguém foi para Pronto Socorro. Fomos, sim, visitá-lo quando tudo se acalmou e, confesso, o que guardei da visita foi a visão do copo com a dentadura da minha amiga. Estava no local antes informado.

A cama de Dona Antônia também ficou na lembrança por conta de um incêndio, por um ferro elétrico ligado e esquecido. Tenho guardado os gritos desesperados da pobre senhora por conta do dinheiro do filho, Agostinho, guardado sob o colchão. Esse filho, ao se casar, levou os pais para morarem com ele, e antes de irem embora fui presenteado com o potinho de louça onde ela sempre me servia algum doce. Era para que eu não a esquecesse. E ao rearrumar minhas coisas na casa nova, me vem lembranças de seres folclóricos, viagens de Maria Fumaça, ataques de abelha e a velha amiga, Dona Antônia. O pote cumpriu sua missão.

Até mais!

Trens de Minas! Trem de São João Del Rei

Bons sujeitos sabem que, para um mineiro, trem é aquilo que ele resolve denominar trem. Pega aquele trem ali! Viu que trem doido? Larga desse trem, meu filho! Cuidado com esse trem, cara… e os exemplos são variados ao infinito. E, fora do contexto, tente adivinhar qual o trem de cada frase! Todavia, de todos os trens de Minas, o melhor é mesmo o Trem de Ferro. Aquele da Maria Fumaça conduzindo vagões que nos levam para as mais ternas lembranças.

Outro dia estive em São João Del Rei, lá para os lados do Campo das Vertentes. Confesso não ter dormido toda a noite durante a viagem, admirando os contornos vistos pela janela do ônibus. Silhuetas, luzes esparsas fazendo perceber os contornos da minha terra. Longas horas curtidas com prazer que cresce com o raiar do dia. Nas beiras da estrada, pequenas capelas pra Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aparecida; no centro de um micro trevo, uma escultura de São Sebastião. Estamos em Minas! E se há alguma dúvida de estar em Minas ela se acaba quando passamos sobre o Córrego Cala-Boca (que história levou a esse nome?) ou divisamos o anúncio de um boteco qualquer: “A legítima empada!” Creiam-me, todas as outras são falsas.

Já estava distante, em outro município, uma ponte sobre o Rio Grande quando passamos por uma casa suspeitíssima, a Casa da Maria Rosa. A dona da casa pode ser uma santa, mas o visual da propriedade remete aos velhos e bons bordéis de beira de estrada. Será? Ao longo da estrada corre outro rio, o das Mortes. Minas, que logo em seguida anuncia um Trem Margoso que, ao que tudo indica, jamais saberei do que se trata. Estava lá, a plaquinha: trem margoso. Tudo rapidamente deixado para trás quando, já na rodoviária, antes de qualquer coisa comem-se dois pães de queijo para começar o dia. Dois! Poderia ter sido dez.

Quem quiser saber sobre identidade brasileira deve visitar nossas velhas cidades. Pode ser Marechal Deodoro, a primeira capital das Alagoas; ou então, um pouco mais perto de onde estou, pode ser São Luís do Paraitinga, no Estado de São Paulo. Cidades como essas exalam brasilidade. E me senti assim, caminhando pelas ladeiras de São João Del Rei, com seu casario na beira da calçada, sua gente cordial sempre disposta a dar passagem ao transeunte, sua comida que coloca qualquer regime para escanteio e, entre outras boas coisas, o seu Museu Ferroviário.

As igrejas locais são belíssimas e encantadoras. Bons mineiros se calam observando as majestosas Basílica Catedral de Nossa Senhora do Pilar, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja de Nossa Senhora das Mercês. A beleza da Igreja de São Francisco é ímpar e nos impõe respeitoso silêncio e admiração. O Barroco, o Rococó, a arquitetura do século XVIII embelezam a cidade dividida pelo Rio das Mortes, unida por diversas pontes. Fui recebido na casa de D. Bárbara Heliodora, a Bárbara Bela do poeta que hoje, através de um delicado busto, recebe os visitantes da Biblioteca Municipal de São João Del Rei, todos muito bem tratados pela coordenadora local.

É bom registrar que na cidade, durante a semana em que lá estive, aconteceu o XXXIII Congresso da Anppom – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música. Um monte de gente fera no setor transitando e trocando conhecimento sobre a área. Música sacra na igreja, batucada na esquina, e outras tantas discussões e oficinas pela cidade, viva e atual. Só que cidades históricas nos levam para outros tempos, nossa ancestralidade. Parece que fantasmas ou espíritos, como queiram, estão ali ao nosso lado, contando de tudo quanto o que passaram antes de chegarmos ao século XXI. E, experiência muito pessoal, a cidade me propiciou revisitar um trem. Trem mesmo, sobre trilhos e puxado por uma Maria Fumaça.

Aqueles que conhecem a história da minha família sabem da importância da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, onde meu avô trabalhou por 45 anos. Tio João Batista outro tanto e mais outros tios e primos trabalharam como maquinistas, telegrafistas, chefes de trem, mestres de linha. A composição de São João Del Rei é outra, reminiscências da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas. Na inauguração da estrada, em 1858, a cidade se orgulha de ter recebido a visita de D. Pedro II. Quem é que se lembra disso ao iniciar uma nova viagem?

Com certeza, entrou no trem, rumo a Tiradentes, o menino que um dia eu fui. O garoto que corria apressado para uma janela, abrindo-a e se debruçando aguardando a partida e, de lá, voltando-se apenas para o lado, saudando o chefe do trem que verificava a passagem – normalmente um conhecido que conversava com minha mãe pedindo notícias do meu avô. Outro momento de grata memória era a vinda do garçom vendendo refrigerantes, sanduíches, geleia de mocotó. E as cidades, as turmas de estrada, os postos todos do percurso de Uberaba a Campinas, rumo à casa da avó materna, ou de Uberaba a Araguari, para visitar a avó paterna.

Eu e Flávio Monteiro nessa viagem que mistura passado e presente

Foi comovente ver a mudança de postura nos viajantes, meus companheiros no Trem de São João Del Rei. Feito crianças, alegres como tal, logo estavam acenando para estranhos que, com simpatia, respondiam da rua, das portas de suas casas, das janelas. “Adeus, adeus, vou me embora para Catende, vou me embora pra Catende…” Era o tempo voltando e ao mesmo tempo alertando para a possibilidade de convivência harmoniosa, mesmo que da janela de um trem. Pura poesia. E vieram pontes sobre rios e córregos, lagos, pastos com vaquinhas tranquilas, pássaros em revoada… E o trem apitando, a fumaça traçando outros rumos pelo céu. Foram apenas 45 minutos! Outro tanto para voltar. A eternidade das lembranças e dos afetos.

Quanto custa esse trem? Não tem preço. E não é caro o suficiente para que não haja outros. Lá em Uberaba, onde nasci, há uma linda Maria Fumaça na Praça da Mogiana, certamente “doidinha” para sair apitando por aí. Certamente também há muitas outras disponíveis para tornar a vida das pessoas mais felizes, através de passeios agradáveis e tranquilos. Que bom ter estado em São João Del Rei! Que bom voltar para Santos, onde bondes, esses “trens sem vagões” trafegam pelo centro da cidade. Que outras cidades sigam o exemplo de Santos e São João Del Rei, propiciando felicidade, revivendo lembranças e criando recordações para todos nós.

Até mais!

Palmiras

D. Palmira, a Tia acima e Palmirinha.

Por um bom período moramos lado a lado. A proximidade de relações entre nossas famílias facilitou a ausência de muros e são lembranças muito fortes quando, pela manhã, vinham mães com crianças doentias, algumas bem choronas. Sem muita conversa, D. Palmira caminhava pelo quintal colhendo pequenas porções de ervas; arruda era a mais comum. Sem tirar a criança do colo da mãe, D. Palmira fazia o sinal da cruz em si e na doentinha. Iniciava o benzimento falando bem baixinho; a mais frequente ação era para tirar o quebranto.

“Tu tens quebranto, dois te puseram, três hão de tirar… em nome das três pessoas da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Outros tempos quando para qualquer mal o primeiro socorro era o benzimento. De crianças perebentas tirava-se o “cobreiro brabo” e cabia ao paciente responder três vezes à pergunta da benzedeira: “O que é que eu tiro?” E ouvia-se a voz débil, “cobreiro brabo!”. D. Palmira para uns, Madrinha Bia para outros, era mulher risonha, adorava um bom prato e estava sempre disposta ao trabalho, ajudando a filha a cuidar de nove crianças, seus netos. Creio que a maioria das crianças do bairro e outro tanto de adultos receberam as bençãos daquela mulher, viúva simples e pobre, que jamais cobrou um tostão pelo trabalho.

Minhas recordações de Tia Palmira são distintas. Irmã caçula de minha avó, tinha um rosto alvo, sempre muito bonita e sorridente. Recordo a tia lutando pela saúde do marido, Tio Alcides. Ela não mediu esforços buscando a cura para a doença que, penso eu, devia ser desses males difíceis. Foi a primeira vez que ouvi falar em Zé Arigó, o famoso médium que recebia o espírito do Dr. Fritz. A Tia Palmira levou o marido até Congonhas do Campo, em Minas Gerais, para que este fosse operado espiritualmente. O médium foi honesto e afirmou que a ação seria paliativa, pois não haveria cura. Todavia, maior poder tem Deus e Tia Palmira continuou. Em Uberaba procurou Chico Xavier e lá também frequentava o Sr. Eduardo, ou Eduardinho, que trabalhava com ervas, beberagens, garrafadas.

À morte inevitável do marido ocorreu longo período de luto. Dez anos vestindo-se com roupas pretas. Cabe ressaltar que esse fato ocorreu bem antes do vestido “pretinho básico” das elegantes de ocasião. Tia Palmira não se preocupava com moda, mas com o respeito que achava que devia ao falecido. Passado o luto, voltou a sorrir, a usar joias e a se maquiar. Sendo bonita, logo reencontrou antigo afeto com quem se casou e foi feliz. A última vez que nos encontramos foi no velório de minha avó e Tia Palmira, com boa dose de humor macabro, afirmava entre risos contidos ser a próxima. “Estou tão ruim! Logo, logo vou eu!”.

Não tendo hábito de assistir programas de culinária vi poucas vezes a simpática Palmirinha, mas quando a vi estava sempre cozinhando com bom humor e afeto. Tive tempo de perceber a relação da cozinheira para com seu trabalho. Um aprendizado necessário: cozinhar com alegria e afeto, uma tarefa primordial para a relação que se estabelece entre as pessoas. Cozinhar para si e para o outro! Algo a ser estimulado posto que hoje em dia é comum encontrar pessoas que rejeitam o fazer uma refeição como se essa não fosse fundamental para qualquer ser humano.

A história de Palmirinha, descobri nos obituários, é bastante densa, com uma infância e juventude sofridas. Embora todo o passado conturbado e difícil, tornou-se a mulher doce, a apresentadora simpática e a cozinheira amorosa. Deixou-nos a lição fundamental do bom humor e da alegria no ato de transformar ingredientes em refeições deliciosas. Ensinou-nos, como alguns de seus pares ensinam, que cozinhar é uma arte, um terreno de criação e transformação.

D. Palmira, Tia Palmira, D. Palmirinha! Três mulheres tão distintas e, percebo agora, tão próximas no sorriso, nas relações com a vida, com o trabalho, com o outro. São mulheres que deixaram lembranças doces. Para elas destinamos vibrações carinhosas, desejando-lhes em dobro o que por nós aqui fizeram.

Uma volta ao passado (da Walcenis)

Há um ano, precisamente no dia 14 de janeiro de 2022, recebi um texto de presente da minha irmã, Walcenis Vinagreiro de Rezende, resultado da leitura que ela fez e do que suscitou meu livro O Vai e Vem da Memória. Meio perdido no Facebook, resolvi registrá-lo. Bom ter outras memórias, como saber que meu trabalho chegou aos familiares do Cacaso. Já agradeci lá e reitero aqui, querida irmã, minha gratidão.

Um detalhe de coisas que a gente gostaria de entender o motivo real: o Rezende da minha irmã é com Z mesmo. O meu, com S, não sei exatamente o motivo. Vamos ao texto, ilustrado originalmente com a foto abaixo:

UMA VOLTA AO PASSADO

Não me lembro de ter lido um livro tão rapidamente quanto este. Que delícia!
Benza Deus a sua memória! Revivi; relembrei; curti; aprendi… E agora que terminei … uma sensação de puro prazer.

Gostaria de descrever o meu sentimento sobre cada momento. Mas, seria redundante. Mas um fato eu não posso deixar de registrar quando, no dia do lançamento de O vai e vem da memória, presenciei a emoção da minha amiga “Marta Loes” ao repassar as folhas do livro parando exatamente na página em que “Cacaso”, seu primo, estava sendo homenageado. Nem eu sabia que esta fonte tão rica de informações sobre o mesmo, é minha vizinha amiga. Na hora, me emocionei também .

Um dos meus aprendizados, com 5 anos de idade, foi quando a sabedoria e o carisma da nossa tia Aurora colocou todas as crianças sentadas em um barranco para que vigiássemos o telhado da casa onde você ia nascer, que ficava em frente, para que víssemos a cegonha entrar pelo telhado trazendo você no bico. Alvoroçadas mas sem sair do lugar, pois era esse o objetivo da nossa tia, ficamos ali aguardando esse momento, quando ouvimos o seu choro. Pura decepção. Ao questionar, a nossa tia disse: ” Eu falei para vocês não tirar os olhos do telhado. Agora a cegonha já foi embora”. Foi assim que aprendi como as crianças nasciam, ou seja, você já nasceu ensinando. Rsrsrs…

A leitura desse livro “O Vai e vem da Memória ” me proporcionou vários sentimentos, além da certeza de que a sua memória é mesmo muito privilegiada. Parabéns e Obrigada por essa obra prima. Que Deus continue abençoando você sempre.

Walcenis Vinagreiro de Rezende

P.S. Resultado do encontro de minha irmã com Marta, a prima do Cacaso, foi que através da senhora conheci e li os livros de Cacaso que não havia conseguido antes, já que infelizmente estão fora de catálogo. Meu agradecimento também à Marta Loes.

A pescaria, para não esquecer

Grande mesmo, ele só conhecia o rio, divisa de Minas Gerais com São Paulo. O trem de passageiros diminuía a velocidade para entrar na ponte que, em tal momento, era fechada ao tráfego de automóveis ou caminhões. O rio imenso, Rio Grande! O menino nunca viu peixes, nem mesmo quando atravessou a ponte caminhando com o pai. Não nadou nem pescou por lá!

Pescar mesmo foi na Lagoa do Taquaral. Em Campinas, no tempo em que só havia o bairro de mesmo nome. Do outro lado do lago era puro mato e muitos eucaliptos. A maior lagoa do mundo para quem não conhecia outras lagoas, o mar. Com a parentada ele aprendeu a colocar isca, jogar a linha e esperar, esperar, esperar…

“…Mas os peixes não querem cooperar

Se eu não pescar nenhum

Com que cara vou ficar…”

Essa prática acontecia nas férias e o menino precisava voltar para Uberaba, para o Alto do Boa Vista que, por tal nome, já se conclui a ausência de lagoas e rios. Lá no alto se ouvia muito rádio e entre tantas vozes havia uma, com história de pescador fajuto, que compra peixe no mercado para ficar bem na fita. As músicas ingênuas, contanto pequenas histórias… Com o pescador fajuto o menino aprendeu a escrever cartas, formato bem definido na canção:

“Escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor

Porque veio a saudade visitar meu coração…”

Andando com primos e colegas de escola o menino conheceu o estúdio e o auditório da PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro. Durante a semana entravam no estúdio e, caladinhos, viam e ouviam os locutores de então atuando nos programas vespertinos. Ficou a lembrança do Cirquinho do Xuxu (Edson Iglesias), Júlio César Jardim (Casquinha) que atuavam com Lídia Varanda. Aos domingos havia o programa com auditório e as crianças cantavam acompanhadas por um regional extraordinário, que acompanhava as crianças em qualquer canção, sem qualquer ensaio.

Xuxu e Lídia chamam o garoto inscrito. A plateia lotada e o menino, sem medo de ser feliz: O que você vai cantar? A Pescaria, responde o garoto.

“E mal o broto me vê passar ouço sempre ela falar

Se ele é um bom pescador, serve pra ser meu amor”.

E assim Erasmo entrou e permanece na minha memória, desde quando aos 10 anos cantei a singela canção em um programa infantil. Já se vão 57 anos!

Consta por aí que os encontros entre geminianos são para todo o sempre, mesmo quando distantes. Erasmo Carlos, Wanderléa, Maria Bethânia, Chico Buarque, Paul McCartney… Só para ficar no campo da música esses exemplos de uma mesma geração de artistas que entraram em minha vida. Todos são geminianos, como eu. Pretensão não custa nada… Sempre me senti feliz por estar na mesma casa astral desse povo e sonhar em ter um pouquinho do talento com o qual presentearam a vida de milhões de pessoas.

Lá longe, nos tempos de A Pescaria, Erasmo foi o cara da Festa de Arromba, registrando toda uma gama de artistas que amávamos e que não esqueceríamos, imortais na canção. Já se mostrava o amigo de Roberto Carlos e Wanderléa, tranquilo e sem qualquer tentativa de concorrência, dono de si e do seu lugar. Mereceu de Roberto uma declaração pública de amizade e fraternidade:

“…cabeça de homem, mas o coração de menino

Aquele que está do meu lado em qualquer caminhada”

Eu já não morava em Uberaba e, trabalhando na mesma Campinas das pescarias de infância, recebi um telefonema que recolocava Erasmo na minha história. Recebi um telefonema de Ronaldo Feliciano de Assis, “O meu amigo Ronaldo!”, me informando que “Roberto Carlos fez uma música sobre nossa amizade”. Amigo!

O Erasmo que eu mais gosto é o de Meu nome é Gal e Cachaça Mecânica. É maravilhoso ver Gal Costa mostrar a indiscutível superioridade vocal cantando uma música de Erasmo e duelando com uma guitarra na célebre interpretação. Em Cachaça Mecânica, Erasmo dialoga com Chico Buarque referenciando Construção, em letra precisa e criativa sobre nossa gente.

Há tantas canções de Erasmo! Sem contar as parcerias com Roberto! Muitas! Todavia, há aquelas que nos acompanham por toda a vida, nos levam ao puro deleite e, quando a vida nos machuca, acompanham nosso sofrimento. O Erasmo de “A pescaria” é doce, como são doces as lembranças de infância. Ronaldinho e meus melhores amigos estão em “Amigo”, como estão Erasmo, Gal Costa, Pablo Milanez, Rolando Boldrin, Lizette Negreiros, entre os seres queridos que acabam de partir. Para todos eles, peço perdão pelo egoísmo e insisto:

“…Onde você estiver, não se esqueça de mim
Quando você se lembrar, não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar você da minha vida
Onde você estiver, não se esqueça de mim”.

——–xxx———

Notas: As canções citadas acima estão nos vídeos, disponíveis abaixo.

A pescaria

A carta

Festa de Arromba

Amigo

Meu nome é Gal

Cachaça Mecânica

Não se esqueça de mim

60 anos da Academia de Letras do Triângulo Mineiro

Osmar Baroni, João Eurípedes e Olga Maria Frange de Oliveira. O presidente recebendo novos acadêmicos

Escritores e leitores em festa. A Academia de Letras do Triângulo Mineiro comemora seu 60º aniversário. Fundada em 15 de novembro de 1962 em Uberaba, Minas Gerais, a ALTM tem sido guardiã da memória literária local e regional, através de seus membros: patronos, fundadores e demais acadêmicos.

Instituições existem por haver quem nutre afeto por elas. Na medida em que não há desvelo, atenção, cuidado, instituições vão se esvaindo tornando-se pequenas chamas, apagando-se aos poucos até ao derradeiro lampejo de luz. Viva e atuante, a ALTM enfrentou com galhardia momentos difíceis nesses últimos anos e comemora o aniversário com cores vivas e a hospitalidade de sempre. Essa situação deve-se a quem ocupa a presidência, desde 2017, o escritor João Eurípedes Sabino.

Fonte da imagem: Jornal da Manhã

Sem a menor pretensão de diminuir a atuação de outros, quero nesse momento enfatizar o trabalho do atual presidente, seu cuidado e afeto para com a Academia, seu respeito e carinho pelos demais componentes, seus pares. Reitero que as instituições são o que são aqueles que a representam. João Eurípedes Sabino, sou testemunha, atende com presteza e cortesia toda e qualquer pessoa, seja membro, visitante ou mero curioso. Nos períodos mais difíceis, na triste pandemia da qual ainda temos sinais, o presidente manteve acesa a chama que norteia os trabalhos da ALTM: realizou publicações, concursos, reuniões virtuais, elegeu novos membros sem jamais deixar de prestar assistência aos demais.

Parabéns, João Eurípedes Sabino!

Parabéns, Academia de Letras do Triângulo Mineiro!

Tempo de brincar ou de matar?

De Uberaba chega a notícia de um evento promovido pela prefeita para celebrar o Dia das Crianças. Uma exposição onde foi ensinado a usar explosivos e sobre cada tipo de revólver e rifles. Meus pêsames!

O nome do evento é curioso: “Tempo de Brincar – 2ª Edição”. Tenho medo de saber o que foi ensinado na primeira edição, mas nesta, segundo foi noticiado, a Polícia Militar e a Polícia Penal foram os professores do dia. Explicaram que o armamento exposto pode atingir de 10 a 15 pessoas. Ou seja, penso eu que dá para matar a família, a vizinhança mais próxima e sobra tiro para algum abelhudo que resolver questionar sobre o motivo da matança!

Fui atrás dos objetivos da prefeitura! A prefeita tira o dela do rumo e informa que foi solicitação das forças de segurança pública, visando “afastar o medo, culturalmente imposto nas crianças sobre as forças de segurança e promover uma aproximação destas com a comunidade”.  Amigos meus não andam armados! Nem me ensinam a usar granadas ou bombas de gás lacrimogêneo. Me oferecem, conforme o evento, pipoca, picanha, pernil, pizza… só para ficar na língua do P, caro Policial! Vou ficar amigo de quem porta um fuzil e ou uma metralhadora, que pode ser apontada em minha direção, ou de quem me convida para degustar um panetone, um pudim?

A prefeita de Uberaba, Elisa Gonçalves de Araújo, do Partido Solidariedade, em entrevista ao Estado de Minas afirmou que pretende “humanizar a educação” na cidade. O jornal não diz o que significa para a prefeita “humanizar” e “educação”. Provavelmente a distinta deve ter mudado de opinião, já que tal fala se deu em janeiro do ano passado. No entanto é valido notar que seguindo o governador mineiro, a prefeita é apoiadora do presidente candidato à reeleição, notório incentivador do uso de armas e do comércio armamentista no país.

Dotar a polícia de armamento atual e qualificado é uma questão de planejamento de especialistas do setor, e de uma formação adequada de cada policial para que a população não se torne vítima de quem existe para defendê-la. Armar a população é outra história. Em recente debate, a candidata Soraya Thronicke disse que as armas devem ser liberadas desde que usadas com “critério e responsabilidade”. Seria o critério principal de uso estourar os miolos e mandar para o inferno o inimigo do momento? Tudo com a responsabilidade de saber que a direção do tiro está direcionada à pessoa certa? Foi isso que a senhora quis dizer, Dona Soraya?

Volta e meia temos lido no noticiário a morte de alguém por uma criança, manuseando curiosamente a arma de um adulto encontrada em algum canto da casa. As crianças participantes do evento de Uberaba já têm uma noção preliminar de como usar. Essa é a real dimensão do fato. A notícia de jornal, a cena do filme, da novela, toma outra forma quando tenho em mãos uma granada e descubro exatamente como ativá-la. Também é distinto brincar com uma arma de plástico e sentir em minhas próprias mãos o peso, a potência e as possibilidades de uma metralhadora ou fuzil. O que é que isso tem a ver com amizade?

Dá próxima vez, cara Prefeita, caros responsáveis pela segurança de Uberaba, promovam um encontro entre a Banda de Música do IV Batalhão da Cidade. Mostrem os instrumentos, como funcionam, como cuidar dos mesmos. E ensinem uma canção! Toquem e cantem Saudades de Uberaba, do Alberto Calçada. É melhor lembrar um passado imperfeito que forjar um futuro de sangue ao ensinar uma criança a usar uma arma.