Garimpo de causos e da história

Foi um final de semana reativando lembranças; uma série de reencontros propiciados por um escritor. Quando fui presenteado por Jennifer Monteiro com o livro “Princesinha da Farinha Podre: Aventureiros, bandidos, caubóis e sonhadores no velho oeste das Minas Gerais” soube de imediato tratar-se de Uberaba. Os que lá nasceram guardam expressões como Princesinha do Sertão, Arraial da Farinha Podre, Freguesia Santo Antônio e quantas mais a memória permite.

Ainda não conheci o autor, André Borges Lopes. Estou longe de Uberaba e há três anos não moro mais em São Paulo, onde ele reside. Virtualmente conheço um pouco do trabalho do site Uberaba em Fotos. Sem demora mergulhei no livro da maneira que mais gosto. Primeiro lendo as informações de capa, contracapa, sumário, olhando demoradamente as ilustrações e já me emocionando com fotos como a da Ponte do Rio Grande em construção (págs. 62/63), e entre outras, a do presidente Juscelino Kubitscheck caminhando pela Fábrica da Produtos Ceres, lá no Boa Vista, onde nasci. Depois fui para os causos.

Tenho apreço pela memória e pelo registro de lembranças via exercício da oralidade e da escrita*. De imediato salta à percepção uma grande qualidade do autor de Princesinha do Sertão: o rigor da pesquisa. Historiador, André Borges Lopes deixa evidente o aproveitamento do que aprendeu. Não apenas cita o fato e as fontes, mas vai além, publicando documentos que comprovam por onde pesquisou e a veracidade do que nos conta. E o faz enquanto jornalista, garimpando história que embasa o que poderia ser apenas causo.

O livro propicia a uberabenses encontros com gente quase esquecida, como Dona Chiquinha, sempre lembrada por agradinhos duvidosos. Para pessoas de outros lugares há notícias de, por exemplo, Ataliba Nogueira, até então um nome de escola em Campinas, onde meus primos estudaram. Os mais velhos se lembrarão de Calafate, no caminho de ferro para atravessar o Rio Grande em direção ao estado de São Paulo.

Tive lembranças muito fortes por ter atravessado com meu pai, à pé, por várias vezes a ponte do Rio Grande. E, caríssimo André Borges, nunca me esqueci dos sinais de bala nas estruturas da ponte. Atente! Sinais, não perfurações, mostrados por meu pai. Óbvio que, menino, acreditei. E meu avô materno, mestre de linhas da Mogiana, nos deixou relatos de como os funcionários da ferrovia tiveram de se submeter aos combatentes em 1930, em 1932.

Tão fortes quanto, mas bem amenas, são as lembranças que guardo da gameleira quando, passando por lá com minha mãe, parávamos na Padaria Espéria de sucrilhos cheirosos e inesquecíveis. E as doze horas de trem de Uberaba até Campinas não pesavam para crianças em férias. Pesa hoje o tempo absurdo entre Santos e Uberaba, o monopólio antes da companhia férrea agora é de empresa de ônibus.

As crônicas reunidas no livro lembram e suscitam recordações. Informam com clareza e honestidade. As sutilezas interpretativas já no título e subtítulo do livro nos remetem à realidade. A terrinha que amamos tem lá suas histórias que, não bastasse a virulência de quem praticou atrocidades, há o acréscimo da criatividade do ser comum. O exemplo mais notável são as atribuições dadas pela população ao “monstro de Capinópolis”. Eita, povo criativo!

Foi um final de semana em Uberaba sem sair da sala do meu apartamento. Uma viagem que me levou até a Guerra do Paraguai, me trouxe de volta os patuás com lascas de madeira da cruz de Cristo, quando me vi demarcando o Distrito Federal e, entre um tempo e outro, me escondendo dos tiroteios que de vez em quando rolam pela cidade.

Meu obrigado a Jennifer Monteiro e Fernando Brengel pelo livro. Parabéns ao autor André Borges Lopes pelo trabalho. Espero que esse seja lido por muitos outros, de Uberaba e de todo o Brasil. Indicado aos que gostam de boas histórias, fundamentadas na História e registradas com talento e competência.

Até mais!

*No livro O vai e vem da memória, que vou pedir a Jennifer encaminhar um exemplar ao André Borges Lopes, exercitei e registrei lembranças desse mesma Uberaba que, sem dúvida, merece livros e mais livros sobre sua gente, seus bairros, toda a cidade.

4 comentários sobre “Garimpo de causos e da história

  1. Avatar de Desconhecido João Eurípedes Sabino

    Caro amigo Valdo Resende.

    Ainda não tive o prazer de ter em mãos o livro de André Borges Lopes. Sei que é uma obra literária fantástica que inicia narrando a chegada de Major Eustáquio, nosso fundador, atravessa o tempo por 205 anos e alcança dias recentes.

  2. Avatar de Desconhecido André Borges

    Valdo, muito obrigado pela gentileza e pela sensibilidade dessa resenha. Fico feliz que a Jennifer tenha feito essa ponte e que você tenha gostado do livro. Vamos combinar uma prosa quando você estiver aqui em São Paulo. Grande abraço.

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