Ana Paula Padrão errou?

Ana Paula Padrão apresenta as Olimpíadas na TV Record

Depende do ponto de vista. O meu é de que foi um inteligentíssimo ato para ampliar a divulgação das transmissões das Olimpíadas de Londres pela TV Record. A apresentadora colocou a emissora e o evento entre os mais comentados do final de semana; e não foram só os comentários de exaltados “defensores de acertos” das redes sociais. Ana Paula Padrão “estrelou” dezenas de artigos, além de citações e discussões em outros tantos blogs, como este, que acontece aqui e agora.

A Rede Globo, segundo consta com a maior audiência no país, não citou nem os preparativos que antecederam o evento londrino, como se isso não fosse acontecer como fato jornalístico.  Aqueles que seguem unicamente a emissora carioca ouviram, de repente, a informação inevitável da abertura das Olimpíadas e de alguns resultados iniciais da mesma. Nem todo brasileiro é desatento, tanto é que a TV Record ficou com o segundo lugar em audiência durante o espetáculo de abertura, em Londres, com participação da Rainha Elizabeth e súditos. Para os distraídos, o “erro” de Ana Paula Padrão serviu como eficiente lembrete.

Nossos hábitos colocam-nos na chamada zona de conforto. Sabemos exatamente o que esperar de determinadas situações – como o final de qualquer novela, por exemplo – e é mais tranquilo manter tais hábitos do que correr riscos fora deles. Assim que é seguro para muitos ficar na Rede Globo. Somos aptos a repetir todas as gracinhas do Faustão, sabemos que Nina vencerá Carminha, que o próximo jogo será de vida ou morte, exceto se for jogo nas Olimpíadas de Londres!

Terrível vício o de manter-se em um único canal de TV. Em comunicação sabemos que esse costume facilita a manipulação de nossas opiniões, já que só temos acesso ao que é dito por um único emissor. Donos de jornais e similares não são propriamente santos e atendem aos interesses de quem os patrocina, ou de quem facilita a permanência de seus veículos no mercado. A história da imprensa brasileira, por exemplo, é a história de determinados indivíduos atrelados ao poder vigente. Que ninguém perca muito tempo em refletir os motivos que levam a imprensa a “esquecer” acontecimentos como greves, por exemplo. Elas estão atendendo aos interesses de quem está no poder, de quem paga o espaço publicitário.

Ana Paula Padrão, que de burra não tem absolutamente nada, sabe isso e muito mais. Se ela cometeu um erro, isso é humano. Se de caso pensado, os bons resultados são comprováveis. Se todos os concorrentes da Record, por obrigações para com o público, falariam da abertura das Olimpíadas de Londres, a apresentadora fez lembrar em qual emissora o evento está sendo exibido. Golpe de mestre.

Fora da Globo desde 2005, com uma passagem pelo SBT, agora como apresentadora oficial das Olimpíadas, fica difícil acreditar na fixação da jornalista pela antiga emissora. Se houver, que ela faça um tratamento com profissionais adequados. O certo é que há um monte de pessoas prontas para malhar o próximo pelo mínimo erro. Que essas noticiam, ou propagam o erro de outros, com um evidente prazer, vendendo a impressão de que são maiores que aqueles que erraram. Há aqueles que lidam com isso, numa boa.

Cresci lendo sobre as gafes de Hebe Camargo. Algumas estão por aí, fixadas na história da apresentadora. Quando tive oportunidade assisti várias gravações do programa de Hebe Camargo, assim como outros que foram feitos ao vivo. Tive, desde então, a absoluta certeza da inteligência dessa mulher e do domínio incrível que ela tem daquilo que faz. Não é por acaso que Hebe está entre os principais nomes da TV brasileira. Tenho cá comigo que muitas das boas gargalhadas de Hebe decorrem da consciência da própria capacidade e do conhecimento da precariedade daqueles que passaram horas execrando-a quando, por exemplo, ela perguntou ao astronauta Neil Armstrong se na lua tinha luar… Neste momento, quem pode rir um bocadinho com os últimos fatos é Ana Paula Padrão; afinal, não é qualquer dia que uma gafe rende tanto!

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Boa semana para todos.

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Solução para o professor brasileiro

rené magritte detalhe
Uma nova identidade, mesmo que seja um mero substantivo.

O marmanjo chegou todo pimpão perante minha amiga e, apresentando-se, anunciou a profissão:

Trabalho no ramo da construção civil!

A moça depois descobriu que o indivíduo era servente de pedreiro.  Alfabetizado, chegado a usar luvas para evitar calos e ainda, nas horas vagas, era cantor de um grupo de pagode; ou seria solista de sexteto rítmico do genuíno ritmo afro-brasileiro?

Depois do surgimento do marketing inventaram de mudar o nome de antigas profissões. Parece produto velho em nova embalagem, mas que tem dado certo, disso não há dúvidas. O exemplo de conhecimento e aceitação ampla é a morte da costureira pelo surgimento da estilista. A impressão que passa é que os profissionais sentem-se menores quando dito costureiros, mas ficam cheio das poses dizendo-se estilistas. Na real, com o avanço da produção industrial de vestuário ter um costureiro é luxo de poucos. E o indivíduo enche-se de idéias e vira estilista.

Como é que professor quer ganhar melhores salários se ainda se autodenomina professor? Penso que a classe deveria seguir o exemplo de algumas cozinheiras que, agora, atendem por culinaristas. Toda pessoa que não tem hábito de cascar batatas, tipo Ana Maria Braga, se diz culinarista. Esta do exemplo tem algumas auxiliares, um papagaio e um fone de ouvido para seguir a montagem de algo sempre já pronto…

Professor tipo culinarista não é bom negócio. É falso demais! Lembra o autor de livro que usou uma coisa chamada ghost writer. Indivíduos com alfabetização precária usam o tal ghost writer e não duvido que em breve o cidadão de livro escrito por outro entre para a Academia Brasileira de Letras. Ambos, o falso autor e o ghost writer, ganham dinheiro; já o salário do professor continua o mesmo…

As instituições de ensino já adotaram nomes diferenciados para arregimentar novos consumidores. Tipo gestão para a velha e sempre boa administração. Saca a diferença entre gestão de negócios e administração de negócios? Tudo a mesma coisa, mas o que parece certo é que dá uma grana bem maior chamar mestrado, da mesma administração, de MBA.

Quando professor brasileiro aprender a se valorizar fará como certos maquiadores, conhecidos em meios específicos como visagistas. E inventar uma boa lorota para justificar a mudança de nome. Se o visagismo é a arte de criar uma imagem pessoal personalizada (?) o maquiador é só mesmo o que coloca cremes e pós no rosto de alguém…

A maior dificuldade, penso, é encontrar um novo nome para o profissional de ensino (tem gente que usa essa expressão, fugindo de proclamar-se professor). Andam usando, por aí, a palavra coaching e sobre esse, copiei que “o coaching oferece ao cliente uma orientação nas esferas particular e profissional, com o objetivo de prepará-lo para colher frutos objetivos e assertivos tanto no campo trabalhista quanto na vida pessoal.” Obviamente que esse treinamento não implica aula, porque se for aula, diminui o preço. De qualquer forma, eu não diria que exerço a função de coaching; não gosto do som da palavra que remete a anfíbios.

O que todo professor deve recusar é ser chamado tio. Com veemência! Essa foi uma grande cilada social. Tornaram os mestres parentes de todo mundo e para parente, é cultural, paga-se pouco. O cara já tem tudo e o que ele faz pode ser feito por qualquer um; então, para que bons salários?

Por mais que um professor saiba, falta aprender a valorizar financeiramente o próprio trabalho. A mudança de nome pode ser a solução para uma sociedade que só pensa mediante a suposição de algo novo sendo consumido. Vejam bem, o tal trabalhador do ramo dá construção civil já é passado. Serventes, pedreiros, no mercado de hoje são denominados instaladores de alvenaria. Merece ou não um salário melhor aquele que instala alvenaria?

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Até mais!

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Nota:

As imagens deste post são detalhes de obras originais de René Magritte.

Opções para o quarto mandamento

Bandido que é bandido mata, não brinca de assustar. Essa história de jogar mocinha na cova escura cai bem em conto infantil. Isso se chama dramaturgia precária. Andei lendo por aí que a emissora pretende esticar a novela Avenida Brasil até dezembro. Se não fizerem isso com inteligência começarão as esculhambações ao bom trabalho feito por uma grande equipe. Uma bobagem é a discussão se Nina – a adorável Débora Falabella – é vingativa ou justiceira. Conversa para boi dormir. A personagem não tem representatividade social para fazer justiça e está muito distante de conduta divina para alçar-se à categoria de, em nome de Deus, vingar a morte do pai.

Honrar pai e mãe – o quarto mandamento – é muito diferente de vingar ou justiçar males sofridos por esses. A ação de Nina pode resultar em um ótimo folhetim, mas humanamente representa a volta aos instintos primários; socialmente, a falência da crença na justiça. Em termos de dramaturgia, insisto, muito fraca. Se a dramaturgia televisiva não satisfaz, uma solução viável é buscar socorro no cinema. Há roteiros honrando pai e mãe, com muita inteligência, diversão e emoção, distantes da vingança primitiva, animalesca.

Tão Forte e Tão Perto

Pai e filho são amigos, o primeiro buscando fazer com que o garoto viva melhor. O pai (Tom Hanks) morre em consequência dos ataques ao World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001. O filho, deprimido, teme esquecer o pai. Ao vasculhar o armário do falecido, deixado intacto pela mãe (Sandra Bullock) encontra uma chave, dentro de um envelope, cuja única possível identificação é a palavra ‘Black’. O garoto resolve visitar todos os moradores com sobrenome Black, de New York, para encontrar utilização para a chave.

O menino Thomas Horn é um excepcional ator, do nível de Mel Maia, a atriz mirim que interpretou Rita em Avenida Brasil. Neurótico, perturbado com a morte do pai, o menino esbanja talento em cenas dificílimas, principalmente nos momentos de busca em que está acompanhado do avô, o genial Max Von Sydow. O roteiro não facilita. Max interpreta um ancião que deixou de falar. Quem ganha com isso é o público, com um ator mirim que fala pelos cotovelos e com um ator que carece fundamentalmente de olhares e expressões faciais.

Tão forte e tão perto é baseado no livro “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”, escrito por Jonathan Safran Foer. Dirigido por Stephen Daldry, tem fôlego para minissérie, novela. Imaginem as histórias vivenciadas pelo garoto, que registra através de fotos todas as visitas realizadas durante a busca. Esses encontros, rapidamente mostrados no filme, merecem apreciação demorada em quem tiver interesse em conhecer o livro.

Adeus, Lenin!

O quarto mandamento diz que devemos honrar pai e mãe. Mais que honrar, por amor à mãe, em Adeus, Lenin! um jovem não muda o mundo; pelo contrário, tenta manter Berlim oriental como se o Muro não houvesse caído, para preservar a saúde da mãe. É divertido. É desesperador. É de uma ternura raramente vista em filmes, peças ou novelas.

Uma senhora, cidadã exemplar da Berlim Oriental, vive com os dois filhos, já que o marido foi embora para o outro lado. Sofre um derrame e entra em coma, voltando a si oito meses depois, quando o Muro já caiu e o capitalismo enterra os hábitos dos alemães socialistas. A mãe (Katrin Sab) não pode sofrer fortes emoções e o filho, (Daniel Brühl), resolve manter tudo tal qual a mãe deixara, antes da doença. O garoto empreende uma verdadeira caça à embalagens de produtos, desaparecidos com o novo regime, móveis e roupas para que a mãe pense que tudo está como antes. Quando a mulher insiste em ver televisão, a solução é a produção de programas falsos, com a ajuda de um amigo, diretor de vídeos. É a Berlim oriental recriada conforme os valores transmitidos ao garoto pela mãe.

Na dedicação do filho em recriar o mundo para preservar a saúde da mãe reside a beleza de Adeus, Lenin! Dirigido por Wolfgang Becker, o filme fez barulho por aqui apenas em mostras como o Festival do Rio, em 2003, tendo sido também um dos filmes mais vistos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O sucesso de crítica no Brasil, os prêmios e as grandes bilheterias mundiais não foram suficientes para que Adeus, Lenin! fosse exibido nos cinemas brasileiros; felizmente pode ser visto em vídeo.

Férias acabando; é possível uma opção à vingança/justiça de Nina. Esta personagem mantém a morte do pai como norteador da própria vida; a novela carece de cenas que esclareçam o que o pai deixou de bom para a filha, o que ele ensinou. Bem que Nina poderia ter algo de  Oskar Schell; a criança interpretada por Thomas Horn está cheia de boas lembranças do pai. Também seria bom se ela manifestasse um pouquinho de dedicação pelos vivos, como a personagem Alexander (Daniel Brühl), de Adeus, Lenin! Nina sai fazendo das suas, e todos os que ela supostamente ama, são os mais prejudicados. A jovem limita-se a pedir perdão, desculpas, alegando as boas intenções de seus atos, como se não fosse de conhecimento geral que de boas intenções o inferno está cheio.

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Boa semana!

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Para os melhores amigos…

As melhores canções. Não dá pra escolher uma, porque há muitas e todas são emocionantes. Cada um tem a sua preferida e neste post estão aquelas que me ocorrem sempre quando penso nos meus grandes amigos (todos eles são melhores!)…

Para ler este post, seja manhã, tarde ou noite, clique aqui para ouvir Abílio Manoel. A canção é a inspiração básica para entrar no clima e relembrar outras sobre amizade. “Bom dia, amigo” é uma composição interpretada pelo autor, Abílio Manoel. Cantei muitas vezes essa música com grupos de criança e ao pensar esse texto, foi inevitável relembrá-la. Então, clique e deixe o som de fundo para continuar a ler.

Um lugar assim, para conviver com meus amigos.

Algumas canções são tiro e queda quando o tema é amizade. Em qualquer lista aparece, sem delongas, “Canção da América”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Quem pode negar que “Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”? O mais difícil desta música é escolher entre a interpretação de Elis Regina (clique para ouvir) e a do próprio Milton Nascimento; mas, essa é outra questão.

Outra que não falta em uma provável lista também é figurinha carimbada, presente em todo e qualquer boteco onde cantar ainda é possível: “Amigo é Pra Essas Coisas”, composta por Silvio da Silva Jr. e Aldir Blanc. Um diálogo transformado em sambinha dos bons;  marcou toda uma geração que sabe que “tua amizade basta” e que “o apreço não tem preço”. A interpretação do MPB-4 é imbatível.

Amigo que é amigo escuta, atentamente, todas as nossas agruras amorosas. Quando apaixonados, se o amor está em crise, diante de uma nova paixão, encucados por uma desavença, só mesmo um amigo pra nos ouvir. Para amores complicados Roberto Carlos e Erasmo Carlos criaram uma verdadeira obra-prima: “Amiga”. Originalmente a música foi criada especialmente pelo desejo de Roberto Carlos gravar com Maria Bethânia. Veja-os, em 1982.

Shangrila, para sonhar um lugar ideal para grandes amigos.

Foi nos anos 80 que Djavan criou “Nobreza”. Talvez a mais bela canção para a amizade verdadeira entre dois homens. Os versos são ousados para ouvidos conservadores e, provavelmente por isso, a música não é tão comum em bares e similares. É difícil para a maioria dos rapazes, mesmo diante do melhor amigo, cantar “uma bela amizade é assim: dois homens apaixonados…” Talvez um dia a coisa mude de rumo; mas que é uma belíssima música, é só ouvir e comprovar.

Chico Buarque, o melhor de todos os nossos compositores, criou com Francis Hime “Meu Caro Amigo”. É uma carta em forma de chorinho, para soltar o gogó amaciado por uma boa cerveja. E como amigo verdadeiro assume a família do outro, “a Marieta manda um beijo para os seus, um beijo na família, na Cecília, nas crianças…”

Se você chegou até aqui já leu minhas escolhas para a música preferida sobre amizade. Sinta-se livre para indicar outra fora desta relação, que talvez eu não conheça ou tenha deixado de fora. Caso indique outra, não deixe de mencionar os autores. Eles merecem.

Nosso Lar, para viver todas as vidas com meus amigos

A vida me presenteou com amigos incríveis – muitos! – só entendo uma música para expressar o que sinto por meus amigos; é a canção que escolhi para concluir este, na voz suave e inesquecível de Mercedes Sosa: Los Hermanos, de Atahualpa Yupanqui. Se você é realmente meu amigo, esta canção é pra você.

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Bom final de semana!

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Até!

Saudade do calor do Piauí

Meus sobrinhos João e Antônio felizes, no calor do Piauí.

Frio dói. Qualquer mínima parte do corpo, quando exposta, dói. Toca a ficar encolhido, envelopado, enrolado, acebolado. Saudade dos 40ºC de São Raimundo Nonato. Muita e real saudade. Calor, por maior que seja, incomoda, mas não dói. É só arranjar uma bela sombra, de preferência acomodado em uma rede, com uma boa jarra de suco de caju do lado, um bom livro, ou um bom som e a vida, vira canção.

A vida aqui só é ruim

Quando não chove no chão

Mas se chover dá de tudo

Fartura tem de montão…

Conheci bem o município de São Raimundo Nonato, no Piauí, antes de qualquer outra localidade nordestina. Cheguei de avião, cheio de curiosidade, em Petrolina; lá estava o aeroporto mais próximo para o sudeste do Piauí. Na cidade pernambucana fui molhar os pés no Rio São Francisco – atendendo pedido de meu pai – e atravessei a ponte para Juazeiro, na Bahia.

…Juazeiro nem te lembras desta tarde
Petrolina nem chegaste a perceber
Mais na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê…

Magicamente conheci três Estados nordestinos em uma única tarde. Desci em Petrolina, calor escaldante, aproveitei o frescor das águas cantarolando o verso de Caetano Veloso “Velho Chico vens de Minas” e, viajante, atravessei a ponte, de passagem pela Bahia para, poucas horas depois, entrar no Piauí.

Uma tarde no Rio Parnaíba, no Piaui. Nem tudo é caatinga por lá.

A caatinga é uma experiência inesquecível. O calor exasperante no clima semiárido assusta e principia nosso entendimento do que seja o vaqueiro, o sertanejo. De imediato recordei os cangaceiros e entendi suas roupas de couro, seus aboios tristes enfrentando os espinheiros, lutando pela própria vida. Mas é sol e as tardes são mornas, cálidas; as noites são gostosamente frias.

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixaras aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

Ah, esse frio que dói. Demais! Muito! Só faz aumentar em mim o desejo de ir embora; quero viver meus últimos dias sob o sol! Sonho com o calor do nordeste. Um dia, pego minha Anarina, e vou. Quero o norte de Minas, o sul da Bahia, o sudeste do Piaui, o litoral das Alagoas…

Sombra, uma bela rede. Tudo é melhor no calor.

Enquanto isso não acontece, fico aqui, com minha taça de vinho tinto, quase “bebinho da silva”, correndo o risco de, enquanto bebum, chorar com cena de novela e invejando Gabriela, com todo o calor que ela não promete, tem.

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Até mais.

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Notas:

Os trechos citados, respectivamente, são:

O último pau de arara, canção de Venâncio,Corumbá e J. Guimarães

O ciúme, canção de Caetano Veloso

Brisa, poema de Manoel Bandeira

As fotos são do arquivo pessoal da minha comadre Vânia Lourenço Sanches

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Esse tal de Roque Enrow!

Eu conheço pouco o cidadão, “esse tal de Roque Enrow”. Tenho a impressão que regrediu, que estacionou. E Dona Rita Lee (dona dos versos da canção, presentes abaixo) permanece atualíssima:

Quem é ele?
Esse tal de Roque Enrow!
Uma mosca, um mistério
Uma moda que passou
-Já Passou!
Ele! Quem é ele?

Estou mais para Os Sertões, o grupo que surgiu com o fim da banda Cordel do Fogo Encantado, cuja capa está antropofagicamente construída. Esse Roque Enrow eu gosto muito. Roque iniciado por Tarsila, Oswald e dona Pagu. Esses certamente ficariam satisfeitos com a capa do disco da banda Os Sertões. Esta:

Brinque: identifique os brasileiros abaixo!

Engraçado é que tenho a impressão de que quando se fala em roque enrow deixam os Beatles de lado. Pegam umas bandas de grunhidos duvidosos, som mais pra tosco que pra melódico e parecem crianças fazendo careta de capeta, escandalizando papai e mamãe para, na esquina, fumar escondido um baseadinho.

Quem é ele?
Esse tal de Roque Enrow!
Um planeta, um deserto
Uma bomba que estourou
Ele! Quem é ele?
Isso ninguém nunca falou!

Por isso, no dia do roque e para o final de semana, deixo-vos com a lembrança e a indicação de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Esse aí, cuja capa é para não deixar a menor dúvida.

Brinque: cante cinco canções deste disco!

O resto, digo, os demais que aprendam. Senhores, roque enrow pede melodias refinadas, ritmos contagiantes, ousadia criativa e um olhar para muito além do momento presente. Isto é Sgt. Pepper’s, isto é roque enrow. Alguém discorda?

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Bom final de semana.

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Dois e dois são cinco

Outro dia sonhei com um elefante que, sendo irritado por um macaco, deixa este subir em sua tromba para depois esmagá-lo em um “abraço” mortal. Minha irmã sentenciou: 

– Traição. Vai dar cobra.

E lá se foi ela, botando fé e grana no jogo do bicho.  Em Uberaba, em São Paulo, nas demais cidades de todo o país, todo mundo sabe onde arriscar um palpite.

Incontáveis bares paulistanos têm uma mesinha, ou um pequeno balcão, com um cidadão munido de uma maquininha fazendo jogo do bicho. Na real, quase todo brasileiro tem relações com bicheiros. O Senador Demóstenes Torres perdeu o mandato. Provavelmente porque ganhou dinheiro sem jogar; mas ficou uma dúvida: O senador joga no bicho?

O Brasil é assim mesmo: tudo certo como dois e dois são cinco. A música de Caetano Veloso na voz de Roberto Carlos ou de Gal Costa nos cabe como luva. O nosso país é tão democrático que todo mundo pode jogar o jogo proibido. Eu não sei por qual motivo proíbem o jogo do bicho e, creio, a razão principal é proteger a Caixa Econômica Federal, que oferece mais jogos que cassino. A CEF tem dez tipos de loteria e, legalmente, é a dona desse mercado.

Longe estou de defender o Sr. Demóstenes. Bom saber que o país vai, aos poucos, botando ordem na casa. Mas também não dá para esquecer que, nesse nosso país, tem político procurado pela polícia internacional, o que não impede o dito cujo de trocar carícias com ex-presidente. Como ambos não são bicheiros, tudo bem! Quem sabe a justiça possa chegar para o senhor Maluf se ele jogar no jogo do bicho. Dois e dois, são cinco!

Estão dizendo que o senador cassado está inelegível até 2027. Ele já anunciou que vai recorrer. E a gente fica sem saber que bicho vai dar. Quem quiser que arrisque um palpite. Eu é que não jogarei em bicho nenhum, porque se há uma coisa certa nesse país é pobre ir parar na cadeia. De qualquer forma, 2 e2, igual a 22 que é tigre, 5 é cachorro, 25 é vaca e, pra garantir, vamos inverter, ou seja, 52 que é galo…

Quer saber; com licença! Vou fazer minha fezinha.

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Até mais!

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