Um vídeo pela paz e trinta e seis aviões caça

Hoje recebi por e-mail um vídeo que é uma magnifica ação pela paz. O vídeo foi postado originalmente em março deste ano e, até agora, não creio ter tido a divulgação merecida. Nele, um jovem professor e designer, de Israel, envia mensagem de amor e paz ao Iran. Já ia deixando o vídeo cair no esquecimento quando li:

Brasil e França voltam a discutir em

novembro venda de aviões de caça

O Brasil negocia com a francesa Dassault, a sueca Saab e a Boeing, norte-americana. No negócio com os franceses, além dos 36 caças, está em pauta a compra de quatro submarinos e cinquenta helicópteros.  Tudo pela paz… do bolso de quem ganha comissões para comprar e ou vender armas. Veja a notícia completa clicando aqui.

Não precisamos de armas. Não precisamos de guerras! A mensagem do jovem professor deve ser propagada.

Fica aqui um humilde pedido pela paz. E um desejo sincero de que as pessoas tomem conhecimento desses fatos para que possam ampliar o apelo e assim, pressionar aqueles que, com dinheiro público, sustentam guerras que não interessam aos povos.

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Até mais!

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O mundo dos espertos

“- Seja um voluntário na Copa do Mundo!” é o simpático convite de Dona Fifa, a sede de um monte de espertos. Serão necessários 18 mil voluntários; cerca de 1.500 para cada cidade sede. Vai ser uma grande honra para o cidadão brasileiro trabalhar de graça durante 20 dias seguidos. Li na imprensa: “Os escolhidos passarão por treinamento e terão uma rotina de trabalho rígida. Cada voluntário terá de cumprir turnos de até 10 horas de trabalho.” Sem salário, mas com alimentação, transporte e uniforme. Eles são bonzinhos!

Na televisão, uma jornalista entrou várias vezes, durante a tarde, dando a notícia; ela esclareceu a questão do transporte; “se você morar fora do município onde ocorrerá cada evento, a passagem até a cidade do mesmo é por sua conta”.

Adotando como base o pagamento de um salário mínimo de R$ 622,00 por pessoa, parece que Dona Fifa está economizando R$ 11.196.000,00. Muito dinheiro, dirão os que estão a serviço dos espertos. Dona Fifa, coitada, não ganha quase nada! Ela está realizando a Copa do Mundo na nossa terra! Imagina se vai ter que gastar toda essa grana! Espertinha!

Quanto Dona Fifa vai lucrar com esse evento? Pense apenas as cotas de patrocínio e os direitos de transmissão mundial da competição. É difícil imaginar? Veja então um único dado, sobre a arrecadação da Dona Fifa, publicado pela revista Isto É; a Sony “assinou contrato de US$ 305 milhões com a Fifa para se tornar parceira até 2014.” Atenção, leitor, são dólares! A revista publicou (veja aqui) vários números, estratosféricos, sobre os ganhos da seleção brasileira (em relação à Copa, parte vai para a Fifinha). Veja os “parcos” números e corra ao site de Dona Fifa, para colaborar gratuitamente com a pobrezinha.

Mesmo não sendo tão esperto, adoro notas de 100! Em qualquer moeda

Interessante notar que a campanha para voluntários de Dona Fifa começou simultaneamente com o horário eleitoral gratuito. Cartolas e políticos são, definitivamente, espertos. Políticos, indivíduos que criam leis em causa própria, aumentam sempre os próprios salários, raramente abdicam de uma regalia (aluguel, passagem, moradia) e em nome de supostos direitos democráticos impõem horários de enfadonhos programas televisivos e radiofônicos aos eleitores brasileiros.

Sejamos justos; nossos senadores, recentemente, abdicaram do 14º e 15º salários. Ficaram pobrezinhos, já que só recebem apenas13 salários durante o ano, no valor de R$ 26,7 mil cada. Aliás, senadores e deputados continuam recebendo de graça moradia, transporte e uma boa grana para pagar telefone, gráfica e correios.

Tão pobrezinhos esses espertos políticos; carecem realmente de horário gratuito para divulgação de ótimas intenções retiradas temporariamente do inferno, cheio dessas mesmas intenções. As emissoras de rádio e tv ficam muito chateadas com o horário político. Não faturam! Já com Dona Fifa estão satisfeitíssimas, dedicando várias chamadas para divulgação da solicitação de voluntários.  Isso se justifica, já que a maior parte das verbas publicitárias vai para a televisão.

Segundo o Media Book 2012, lançado pelo IBOPE, a tv aberta ficou com 53% da verba publicitária de 2011. Pensando em todos os investimentos que serão feitos pelas grandes patrocinadoras da Copa do Mundo, sem contar a Copa das Federações e o faturamento cotidiano de cada emissora, dá para entender a necessidade dessas pobres espertas empresas em pedir nossa ajuda para que elas façam caridade com nosso dinheiro. Disque 040 para doar quarenta reais!

Interessante esse mundo dos espertos. Nós trabalhamos duramente para que possamos trabalhar de graça para a Fifa, doar um pouco para a Rede Globo e assistir promessas dos nossos políticos que não serão cumpridas em tempo algum. Eles lucram! Um dia ainda aprendo a ser assim. Mas, caro leitor, fique tranquilo; por enquanto, não pedirei trabalho voluntário, nem doações, através desse blog. Em se tratando de política é bom alertar! Escreverei sempre o que penso.

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Até mais!

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A sensitiva da Vila Mariana

A solução de todos os problemas estava bem ali, próxima da Rua Domingos de Moraes.  Estava escrito em verde, todas as letras em verde, deixando o papel esverdeado de esperança. A sensitiva resolveria tudo. E lá fui com Vanilda, a tatuada, buscar resolver a vida da minha amiga. Sempre é bom lembrar que Vanilda é companheira de longa data; portadora de cinco tatuagens, apaixonada por música brasileira e por um bom trago, quando em boa companhia. Vanilda era presença constante nos meus escritos passados. Pediu-me que parasse.

– Odeio fama, Vavá!

Veio pedir-me companhia na consulta com a tal sensitiva. Concordei; desde que pudesse contar a história. Ela soltou palavrões, palavrões e mais palavrões… Tomamos rumo da Vila Mariana, eu insistindo para que ela me dissesse as razões da consulta.

– Estou com problemas financeiros, Vavá!

– A Dilma vetou um monte de coisas das diretrizes orçamentárias do país.

Vanilda lançou um olhar fulminante, desses que transmitem insultos, ignorando minha observação, continuando a dizer as razões em buscar ajuda espiritual.

– Meu namorado não aparece, minha mãe aparece sempre pra me encher, no meu trabalho tem uma “zinha”, mais infeliz que eu, me botando olho gordo.

– Como você sabe que a outra te coloca olho gordo, Vanilda?

– A gente sente, ora essa!

– Se sente, para que ir até a sensitiva?

Palavrões, insultos verbalizados, ameaças, chantagens e um “pelo amor de Deus, eu só quero a sua companhia silenciosa” e repetiu a expressão silenciosa, acentuando cada sílaba. Amuado, calei a boca e voltei a ler o papelzinho, peça eficiente; Vanilda era a comprovação da eficácia publicitária. Vinte reais a consulta.

– Vinte reais? Vanilda, isso não é muito popular?

– Você disse bem, me chamo Vanilda. Não sou Elizabeth, aquela de Windsor, rainha e partner do agente 007.  Você não prometeu que ficaria calado?

Eu não havia prometido. Estava sendo constrangido. E assim chegamos a um velho casarão em uma travessa da Rua Domingos de Morais. Estava caindo aos pedaços, sendo este um sinal evidente da ineficácia da sensitiva. Pensei em argumentar sobre a incapacidade da guru em resolver os próprios problemas financeiros; olhando para minha amiga, vi que estava tensa e só me manifestei quando ela balbuciou:

– O que é que eu estou fazendo aqui?

– Por problemas financeiros, seu namorado não aparece, sua mãe que aparece toda hora e para afastar a zinha do olho gordo!

– E amigo filho da mãe que fica me zoneando. Sabia que ela cura impotência?

Vanilda soltou o impropério justamente quando atravessávamos o portão, entrando direto em um espaço cheio de cadeiras ocupadas pelos clientes da sensitiva. Todos os olhares avaliaram o “impotente” que, para garantir a potência, mandou a amiga para aqueles lugares que o baixo calão permite, virando as costas e deixando-a sozinha, entre olhares curiosos. Uma senhorinha, empertigada e altiva, chamou a atenção de Vanilda.

– Isto não se faz. Vá pedir desculpas! Ande!

O “ande” foi tão alto e tão decisivo, que Vanilda correu e puxou-me pela mão, rindo.

– Vavá, volte ou a velhinha vai me bater!

– Você gosta de apanhar que eu sei!

– Nem bêbada! Vamos parar com isso, por favor. Viemos resolver problemas, não aumentá-los.

– Viemos, cara pálida? Você não namora, não tem grana, não se livra da mãe, nem da zinha do olho gordo! Viemos?

A frase foi pequena vingança pelo recente impotente. Já estávamos de volta ao lar da “poderosa vidente das águas místicas”, e assim todos souberam os motivos que levaram Vanilda a consulta. A senhorinha empertigada solidarizou-se com minha amiga:

– Eu também estou sem namorado, minha filha. Vim consultar através dos búzios africanos. Eles irão indicar-me o que fazer para acabar com a solidão.

Um senhor, desse tipo bem bonachão, gordinho simpático, mostrou cumplicidade.

– Devo tanto, minha filha! Tenho tanta conta pra pagar! A sensitiva prometeu orientação para que eu resolva tudo. Estamos fazendo um trabalho.

– Quanto ela cobrou? Perguntei, sob olhar de censura de Vanilda, acompanhado de um beliscão.

– Sou marceneiro; estou pagando com pequenos trabalhos na cozinha e no banheiro aqui da casa.

Uma moça daquele tipo gostosona, 90cm daqui, 110cm ali no meio, tudo muito evidente por roupas justas, curtas, decotadas, entrou na conversa:

– Inveja é triste, não é? Olha, estou fazendo os banhos indicados pelo guia. Minhas colegas de firma não se agüentam, é pura inveja. A senhora fez muito bem em vir buscar proteção.

A moça aproximou-se, sentando ao meu lado e encostando a coxa generosa em minhas pernas. Vanilda arrepiou! Ciúmes sempre foi um grande problema para minha amiga!

– Querida, não carece testar a potência dele. Falei na hora da raiva. Cai fora!

A senhorinha empertigada voltou a exercitar a solidariedade à Vanilda:

– Isso, minha filha, muito bem. Por conta de uma piranha assim que fiquei sozinha.

A citação do peixe carnívoro provocou enorme bate-boca. Vanilda e a senhoria versus a jovem gostosona. O bafafá só não foi longe por conta da interferência da própria sensitiva, a vidente das águas místicas. Vestida de cigana da Rua 25 de Março, ou seja, saia e blusa estampadas de chita, bijuterias ordinárias e pintura exagerada, exigiu silêncio absoluto sob pena de não atender ninguém. Os presentes, certamente sofrendo com as próprias necessidades, calaram-se totalmente. Muitos e muitos minutos correram até que Vanilda fosse atendida.

O tempo passando e eu matutando sobre meu carma em pagar micos em nome da amizade. Vinte minutos de consulta e percebi vozes alteradas; aliás, a voz de Vanilda alterada.

– Não vou fazer chapinha de jeito nenhum!

A voz da minha amiga soou mais alta;

– Não vou morar com minha mãe!

Por fim, gritando, minha amiga saiu da sala, repetindo a última frase:

– Nem morta eu tiro minhas tatuagens! Nem morta! Vavá! Tire-me daqui! Leve-me para longe dessa caloteira!

Levantei para acompanhá-la quando a sensitiva nos alcançou, com voz que era puro ódio:

– Vai sair sem pagar, senhora? Quem é a caloteira aqui!

Vanilda soltou, sem respirar, dezessete palavrões. Somou pragas, desafiou os guias da outra e, pagando, saiu pisando duro, ignorando a bela tarde ensolarada da Vila Mariana. Conhecendo minha amiga, esperei que ela me dissesse a razão da tempestade.

– Vavá, para resolver problemas financeiros, eu devo morar com minha mãe; ou seja, transferir as dívidas para minha pobre mãe. A zinha do olho gordo tem inveja dos meus cabelos anelados, sabia disso? Portanto, para acabar com isso devo fazer chapinha. Que sensitiva é essa?

Eu já não segurava o riso. E Vanilda completou:

– E só terei meu namorado de volta após procurar um cirurgião plástico e tirar minhas tatuagens. Olha só, que vidente de meia tigela! E soltou palavrões, muitos palavrões enquanto ríamos muito. A vidente deveria ter perguntado a profissão do namorado de Vanilda. O gajo é o autor das cinco tatuagens ostentadas pela moça.

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Boa semana para todos!

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Uma vassoura no palco de Sua Majestade!

Corre por aí a crença de que garis são “o mais baixo da escala de trabalho”. Boris Casoy que o diga! No entanto, nós não precisamos de rainhas nem de apresentadores de telejornais tanto quanto precisamos de garis e coletores de resíduos na limpeza de nossas cidades. Segundo uma especialista no assunto, amiga deste que vos escreve, cada pessoa produz diariamente, em média, 700 gramas de lixo. Se tudo for direto para as ruas, sem nada de coleta seletiva, as cidades levariam cerca de três dias para entrar em colapso. Assim, agradeçamos profundamente aos garis que garantem a higiene de nossas cidades.

Na abertura das Olimpíadas de Londres tivemos a presença de Sua Majestade, devidamente escoltada pelo seu agente mais famoso, o fictício 007. Referência de uma Inglaterra que dominou boa parte do mundo através de seus reis e de sua força bélica. No encerramento dos jogos o Brasil chegou maneiro, com a suave presença de Renato Sorriso; digno representante de nossa gente simples. Nossa origem é humilde e são raros aqueles que ainda ostentam título de nobreza na terra brazilis; mas somos de uma simpatia contagiante, de um gingado inigualável e temos de sobra o que falta na maioria dos monarcas: alegria e samba no pé!

Provavelmente, por andarmos com a cabeça cheia de pensamentos tipo “mais baixo da escala”, tenhamos deixado a humildade de lado. Tanto é que não valorizamos devidamente nossos atletas. Hoje, por exemplo, dois caminhões do Corpo de Bombeiros subiram a Avenida Brigadeiro Luis Antônio levando nossas campeãs de vôlei. Merecida homenagem para as meninas de ouro. No entanto, não ha a mesma festa para a prata, o bronze.  Dizer que todos os premiados, todos os classificados merecem nosso respeito, nossa admiração, é repetir o já dito. Todavia, enquanto a situação não melhorar, vamos insistir dizendo e escrevendo. Tenhamos a humildade em aceitar outra colocação que não seja a primeira na escala olímpica.

O Reino Unido, anfitrião da grande festa, chegou ao final com 65 medalhas. Um olhar sério sobre a realidade indica que o Brasil, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, pode não ir muito além das 17 medalhas conquistadas em Londres. Não se trata de estabelecer diferenças entre cetros e vassouras, mas de quantificar os investimentos de cada país; e os escândalos entre os dirigentes das duas nações. A rainha, parece, está fora da corrupção que possa haver na Inglaterra; não podemos afirmar o mesmo dos nossos dirigentes, por razões mais que óbvias: dezenas deles ainda estão nos bancos dos réus.

É utópico sonhar que a vassoura de Renato Sorriso limpe a corrupção do país. As vassouras de nossos garis não tem a força do cetro da rainha; mas, esses singelos instrumentos podem assinalar um desejo,  uma intenção, um compromisso: que em 2016, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, tenhamos mais resíduos sólidos que lixo moral.

Somos um povo simples; temos familiaridade com vassouras, ancinhos, pás e o que mais se faz necessário para a higiene de nossos lares, nossa terra; aos poucos, vamos tomando ampla consciência das leis e do que é fundamental para que nosso país seja totalmente limpo. Uma vassoura real e uma ideal. Disso carecemos. Tomara que as atitudes venham e que assim, melhor higienizados física e moralmente, possamos receber dignamente os próximos jogos olímpicos.

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Até mais!

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Nosso pai humano

Papai foi um menino – o da direita – que veio a se tornar o rapaz da foto sobreposta. Meu avô, Deolino, casou-se pela segunda vez com essa simpática Maria. Minha avó trouxe outros filhos do primeiro casamento. Papai foi caçula de uma família moldada nos velhos hábitos mineiros. Nasceu em Estrela do Sul (20/02/1924), mas mudou-se muito cedo para Araguari, ambas as cidades do Triangulo Mineiro. Saiu de lá casado e perambulou um pouco até fixar residência em Uberaba, onde faleceu em 21/05/2005.

O tempo é inexorável; coloca névoas sobre a memória, afasta impressões, guarda fatos desimportantes e transforma a história; reduzindo esta ao que é possível através de textos, fotos e outros materiais de que são feitas as lembranças. O respeito e o afeto, misturados com a saudade, levam-nos ao risco de sacralizar nossos entes queridos que são alçados à categoria de seres celestiais e assim, perde-se um pouco mais do ser humano.

Papai foi um ser humano. Responsável e, dentro das limitações impostas pelos hábitos machistas brasileiros, foi bastante carinhoso. Responsável aí, conduzindo minha irmã Walcenis no baile de formatura. Papai trabalhou duro para sustentar todos os filhos. A velha estrutura ainda mantida, mamãe trabalhava em casa – “do lar” – e papai era o mantenedor financeiro. Difícil mensurar todos os problemas e horas de preocupação para garantir o necessário para nosso sustento, saúde e, principalmente, educação.

Carinhoso, como nessa foto com Bibi, a Gabriela. Gosto da expressão de ternura de meu pai e recordo das vezes que me senti, como Bibi, protegido e seguro. O que mais gosto desta foto é a peculiaridade com que meu pai segura os braços da neta.  Não há um único dedo que não esteja tocando os bracinhos da menina. Carinho silencioso, manifestado em gestos discretos. Mineiro afeito ao silêncio, papai também manifestava carinho fazendo gangorras, estilingues, brincando com todo mundo.

Papai foi vaidoso. Sempre que possível e necessário envergava um bom terno. Até na praia o mineirinho não abria mão da elegância (Na foto menor, em Santos, com meu tio Ulisses). E gostava de ver minha mãe produzida, arrumadinha. Gosto de ver essa imagens de meu pai, bonitão. Recordo o dia da foto abaixo, na lambreta; lamento não ter uma imagem com ele dirigindo trator, caminhão, moto e  até bicicleta. Papai gostava de dirigir e de ganhar carona. Aposentado, papai saia dando voltas de ônibus pela cidade.

Nas bodas de ouro meus pais receberam de presente um retrato, pintura a óleo, feita por Salles Tiné.  Devidamente emoldurada, o quadro ganhou lugar de honra na sala e enquanto colocávamos o objeto na parede, papai disse: “-Estou parecendo o Juscelino Kubitschek.” Foi a melhor maneira de dizer que havia gostado, que estava feliz com o presente. Os mineiros entenderão melhor a comparação com o ex-presidente.

Recordo meu pai entre nós, sua família. E sentiremos sempre a sua ausência. Em dias dos pais, ou no dia do aniversário, papai sentava-se no sofá, ao lado do telefone, aguardando os telefonemas dos dois filhos distantes, meu irmão Valdonei e eu. Atendia brincando, comemorando “mais um” e após os telefonemas aguardava a visita dos netos, dos bisnetos, sempre com um pequeno rádio de pilhas, ouvindo música caipira.

As imagens são insuficientes e meu texto é precário diante do que foi o homem, o ser humano que, por destino, foi meu pai. Afeito como criança a peraltices, papai gostava de contar seus feitos em meio a incontido riso. Tudo o que representa e diz respeito a um pai é lembrado sempre; por mim, meus familiares, assim como para todos aqueles que estão ou não com seus pais. Desse tudo, o que mais sinto falta, é da voz e das risadas de papai. Dos momentos em que, alegre, contava alguma história e chorava de rir. Todavia, quando era necessário, papai dizia sério, com sua voz, cuja lembrança quero guardar para sempre:

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“- Pois não, sou Felisbino Francisco Rodrigues Resende; ao seu dispor!”

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Até mais!

A cartomante estava certa

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Para meu amigo Fernando Brengel.

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Na última segunda-feira revi Zuzu Angel, o filme dirigido por Sergio Rezende que narra a história da estilista carioca. O filho de Zuzu foi preso e morto pela repressão no período da ditadura militar. A mulher empreende uma busca ingrata pelo filho, em um ambiente hostil onde os donos do poder arrogam-se o direito de não responder, de mentir. Quando informada que o filho morreu torturado na prisão, Zuzu passa a reivindicar o corpo do filho; acaba sendo morta em um acidente provocado por agentes da repressão.

Uma canção de Chico Buarque sintetizou a trajetória de Zuzu em música denominada “Angélica”. Ao mesmo tempo em que Chico evidencia o aspecto angelical da mulher, que lamenta a tenebrosa perda, também se esquiva da censura que proibiu a imprensa de publicar qualquer coisa sobre o assunto.

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse estribilho?

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar…

A nossa história está carregada de mandos e desmandos de gente poderosa. Podemos dizer que os militares são filhos dos coronéis do passado, que tudo resolviam pela força, pelas armas. De maneira leve, quase lúdica, esses coronéis estão lembrados, presentes em Dona Flor, interpretados por atores notáveis como Antonio Fagundes e José Wilker.

A crença no poder assentado pela força ainda é bastante presente entre nós. Em uma simples relação de um casal há resquícios de militares, de coronéis, quando o sujeito, com uma inflexão peculiar, refere-se à companheira como “minha mulher”. A expressão determina quem manda, indica uma pretensa superioridade.

O problema sai da esfera individual quando tememos alguém por conta da quantidade de dinheiro ou pela posição que esse ocupa na sociedade. A tendência à submissão pelo medo, pela ignorância, é um triste fato constante na história da nossa gente. Da mesma época de “Angélica” há outra música, de Ivan Lins e Victor Martins, que parece incitar-nos à submissão:

Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos…

Temos origem portuguesa e há sempre um fado pairando sobre nossas cabeças. A tristeza, a amargura e a descrença ameaçam nosso cotidiano. Tendemos a acreditar que o país não tem jeito, que nada mudará, que as coisas permanecerão como sempre foram. Uma atitude de esperança soa como ingenuidade. A felicidade é coisa de “jogo do contente” e para evitar repetir Pollyana seguimos, cinicamente, ignorando que é possível mudar. No entanto…

A música de Ivan Lins e Victor Martins chama-se “Cartomante”, longe de pregar a submissão, funcionou como profecia que, aos poucos, tornou-se realidade.

… Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias

Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai, não fica nada.

O Mensalão começou. Não sei quem está certo. Não sei quem é inocente ou culpado; todavia, o país que foi de coronéis de nome e militares de carreira vem evoluindo e, dentro da legalidade, botando ordem na casa. O mais importante nesse julgamento, que toma conta do noticiário, é o cacife dos réus. O STF – Supremo Tribunal Federal – ignora profissões, cargos políticos em um avanço democrático notável. São 38 réus entre deputados federais, ministros e secretários. A lista ainda conta com um publicitário, um tesoureiro e um diretor de marketing. O prefeito de Uberaba está entre os réus; na época dos acontecimentos agora em julgamento ele era Ministro dos Transportes.

Ivan, Chico e Vandré, nos discos em que estão as canções aqui citadas.

Que ótimo viver em um país onde um figurão é julgado publicamente. Infelizmente há a possibilidade de tudo terminar em pizza. Também é fato que bons pratos não são esquecidos. O Mensalão não é fato isolado e a história está aí, registrando a derrocada de outros que após julgamentos tiveram a carreira pública encerrada. A semana que começou com a triste história de Zuzu Angel termina com um alento, uma esperança de um país melhor. Dá até vontade de voltar no tempo, lembrar Geraldo Vandré e cantar “Pra não dizer que não falei das flores”…

Os amores na mente, as flores no chão

A certeza na frente, a história na mão

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Aprendendo e ensinando uma nova lição…

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Bom final de semana.

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