Sete mil vezes Caetano Veloso

Impossível não reverenciar Caetano Veloso quando este grande, entre os maiores compositores brasileiros, completa 70 anos. O natalício será neste próximo dia sete de agosto. Difícil escrever algo novo sobre Caetano já que o mesmo, merecidamente, será homenageado pelos maiores intelectuais deste país; difícil também escrever para alguém que escreve tão bem! Mas, vamos lá, deixar o coração falar para homenagear alguém que, ao longo de tantos anos, propiciou momentos incríveis para milhões de brasileiros.

Claudia Cardinale e Brigitte Bardot
Todo mundo, como Caetano, sonhava com Cardinale e Bardot

A primeira música que emerge, quando penso em Caetano Veloso, fala de um amor arrebatador. Todavia, como a música brasileira é sempre presente em minha vida, inclusive em sala de aula, falar em primeira é falar em “Alegria, alegria”. Criança – eu tinha 9, 10 anos – pouco sabia que em música brasileira não se usava guitarra elétrica. A música daquele rapaz cabeludo da Bahia era contagiante; eu não usava nem lenço nem tinha documento e era, como todo garoto de então, apaixonado por Brigitte Bardot, com uma grande queda para Claudia Cardinale. Tudo era uma grande festa!

…Espaçonaves, guerrilhas

Em Cardinales bonitas

Eu vou

Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras,

Bomba e Brigitte Bardot…

A vida tratou de ensinar-me que Caetano Veloso era mais que “Alegria, Alegria”. Antes de completar 17 anos saí de casa pela primeira vez. Foram tempos conturbados para todo o país e eu, como o baiano de Santo Amaro da Purificação, também tive que vir embora. “No dia em que eu vim-me embora” a canção de Caetano Veloso e seu parceiro Gilberto Gil, é trilha profunda para o retirante que sou.

…E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada

Nem de por que eu ia indo

Nem dos sonhos que eu sonhava…

Caetano Veloso foi embora para Londres onde criou “London, London”, uma das mais belas canções com a capital inglesa como tema, e voltou para um Brasil de sempre, com “podres poderes” que demoraram a tomar rumo. Longe de Uberaba fui ao primeiro show daquelas quatro figuras mágicas, então denominadas “Doces Bárbaros”: Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Quem é da minha geração pode entender qual o impacto de, em um mesmo palco, encontrar quatro imensas feras da nossa música. Isso em uma época onde não rolavam festivais de verão e similares. No show, no disco, o aprendizado que persigo e que pretendo seguir enquanto vivo:

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar…

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser…

Ame-o e deixe-o ser o que ele é…

Alguém importa quando importa para a vida de muita gente. É o caso de Caetano Veloso que, creio, seja autor de canções para a vida da maioria dos brasileiros. Desde o primeiro disco o compositor, também excelente cantor, jamais fugiu de suas raízes populares. Gravou Vicente Celestino com o mesmo respeito que gravou Chico Buarque; fez sucesso com canções de Peninha, Roberto Carlos e atualmente segue em parceria nos palcos, ao lado de Maria Gadu.

Caetano Veloso 70 anos

Poderia alongar-me aqui e escrever sobre a trilha sonora de “Velhos Marinheiros”; a adaptação do romance de Jorge Amado foi para os palcos de São Paulo, com uma trilha baseada em Caetano Veloso; meu amigo Ivan Feijó participou deste trabalho e corrigiu-me a memória (vejam no comentário abaixo). No espetáculo teatral dirigido por Ulysses Cruz, Ivan contribui com as canções de Vicente Celestino. Poderia escrever sobre as inesquecíveis aulas de Dirce Ceribeli, na UNESP, introduzindo semiologia através das letras das canções do compositor. Poderia contar um monte de histórias; várias delas com “Eclipse Oculto” como tema.

Nosso amor não deu certo

Gargalhadas e lágrimas

De perto fomos quase nada

Tipo de amor que não pode dar certo

Na luz da manhã

E desperdiçamos os blues do Djavan…

Tantas histórias de tantas vidas com a música de Caetano Veloso ali, presente; marcando acontecimentos, tornando pessoas inesquecíveis. As canções são sempre novas para quem não as conhece. Tornam-se vivas e tornam vivas as pessoas, mesmo que o tempo tenha ficado longe demais. Muitas histórias, mas hoje é segunda-feira…

– Vamos trabalhar!

Então, deste humilde blog quero desejar outros 70 anos ou setenta mil vezes setenta para Caetano Veloso. Penso que basta uma música para fazer célebre um grande compositor. Sou contra cobranças ou exigências de novas canções, novos sucessos, outra “Sampa”. Cada pessoa tem sua preferência e, em se tratando de Caetano Veloso, esse leque é bastante amplo. Eu prefiro “Sete mil vezes”. Feliz de quem pode amar e, para esse amor, tomar emprestada a música e a letra de Caetano Veloso para soltar o gogó….

Sete mil vezes eu tornaria a viver assim
Sempre contigo transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz, todas as coisas são belas
Sete mil vezes, e em cada uma outra vez querer
Sete mil outras em progressão infinita…

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Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Boa semana para todos!

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A cartomante estava certa

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Para meu amigo Fernando Brengel.

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Na última segunda-feira revi Zuzu Angel, o filme dirigido por Sergio Rezende que narra a história da estilista carioca. O filho de Zuzu foi preso e morto pela repressão no período da ditadura militar. A mulher empreende uma busca ingrata pelo filho, em um ambiente hostil onde os donos do poder arrogam-se o direito de não responder, de mentir. Quando informada que o filho morreu torturado na prisão, Zuzu passa a reivindicar o corpo do filho; acaba sendo morta em um acidente provocado por agentes da repressão.

Uma canção de Chico Buarque sintetizou a trajetória de Zuzu em música denominada “Angélica”. Ao mesmo tempo em que Chico evidencia o aspecto angelical da mulher, que lamenta a tenebrosa perda, também se esquiva da censura que proibiu a imprensa de publicar qualquer coisa sobre o assunto.

Quem é essa mulher

Que canta sempre esse estribilho?

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar…

A nossa história está carregada de mandos e desmandos de gente poderosa. Podemos dizer que os militares são filhos dos coronéis do passado, que tudo resolviam pela força, pelas armas. De maneira leve, quase lúdica, esses coronéis estão lembrados, presentes em Dona Flor, interpretados por atores notáveis como Antonio Fagundes e José Wilker.

A crença no poder assentado pela força ainda é bastante presente entre nós. Em uma simples relação de um casal há resquícios de militares, de coronéis, quando o sujeito, com uma inflexão peculiar, refere-se à companheira como “minha mulher”. A expressão determina quem manda, indica uma pretensa superioridade.

O problema sai da esfera individual quando tememos alguém por conta da quantidade de dinheiro ou pela posição que esse ocupa na sociedade. A tendência à submissão pelo medo, pela ignorância, é um triste fato constante na história da nossa gente. Da mesma época de “Angélica” há outra música, de Ivan Lins e Victor Martins, que parece incitar-nos à submissão:

Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos…

Temos origem portuguesa e há sempre um fado pairando sobre nossas cabeças. A tristeza, a amargura e a descrença ameaçam nosso cotidiano. Tendemos a acreditar que o país não tem jeito, que nada mudará, que as coisas permanecerão como sempre foram. Uma atitude de esperança soa como ingenuidade. A felicidade é coisa de “jogo do contente” e para evitar repetir Pollyana seguimos, cinicamente, ignorando que é possível mudar. No entanto…

A música de Ivan Lins e Victor Martins chama-se “Cartomante”, longe de pregar a submissão, funcionou como profecia que, aos poucos, tornou-se realidade.

… Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias

Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai, não fica nada.

O Mensalão começou. Não sei quem está certo. Não sei quem é inocente ou culpado; todavia, o país que foi de coronéis de nome e militares de carreira vem evoluindo e, dentro da legalidade, botando ordem na casa. O mais importante nesse julgamento, que toma conta do noticiário, é o cacife dos réus. O STF – Supremo Tribunal Federal – ignora profissões, cargos políticos em um avanço democrático notável. São 38 réus entre deputados federais, ministros e secretários. A lista ainda conta com um publicitário, um tesoureiro e um diretor de marketing. O prefeito de Uberaba está entre os réus; na época dos acontecimentos agora em julgamento ele era Ministro dos Transportes.

Ivan, Chico e Vandré, nos discos em que estão as canções aqui citadas.

Que ótimo viver em um país onde um figurão é julgado publicamente. Infelizmente há a possibilidade de tudo terminar em pizza. Também é fato que bons pratos não são esquecidos. O Mensalão não é fato isolado e a história está aí, registrando a derrocada de outros que após julgamentos tiveram a carreira pública encerrada. A semana que começou com a triste história de Zuzu Angel termina com um alento, uma esperança de um país melhor. Dá até vontade de voltar no tempo, lembrar Geraldo Vandré e cantar “Pra não dizer que não falei das flores”…

Os amores na mente, as flores no chão

A certeza na frente, a história na mão

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Aprendendo e ensinando uma nova lição…

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Bom final de semana.

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Caravaggio chegou!

Estão em Roma alguns dos principais trabalhos de Caravaggio. Na penumbra de igrejas, sob uma irritante vigilância de padres que não ficam contentes com apreciadores de arte. Então, a melhor maneira para observar “A conversão de São Paulo” ou “A crucificação de São Pedro”, por exemplo, é fingir-se de fervoroso católico visitando a Igreja de Santa Maria Del Popolo. Todo mundo representa; o teatrinho compensa. Caravaggio é um dos maiores artistas do Barroco italiano.

A conversão de São Paulo, sob estrita vigilância dos padres da Igreja de Santa Maria del Popolo, em Roma. De lá, não sai fácil.

Em São Paulo, na exposição que começa hoje no MASP e que irá até setembro, ninguém precisará rezar. E não será por falta de obras sacras, já que estarão expostas obras como o “São Francisco em meditação” e o “São Jerônimo que escreve”, dois bons exemplos da técnica, da perícia e da capacidade expressiva do pintor italiano. Além de trabalhos do artista há outros, cuja autoria não é comprovada, e ainda uma terceira categoria de obras, feitas por admiradores do artista e por isso denominados “caravaggescos”. O nome da exposição: “Caravaggio e seus seguidores”.

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) viveu pouco, mas intensamente. A vida conturbada é motivo de curiosidade para muitos e é comum perceber o interesse de jovens, encantados com as transgressões do pintor. Entre as ações rebeldes de Caravaggio há o fato de ter usado como modelo, para pintar a Virgem Maria, uma prostituta chamada Lena, amante do pintor. Não só dissoluto, Caravaggio também foi violento e teve sua carreira comprometida por lutas, ferimentos e fugas. A última levou-o para longe de Roma e o pintor passou seus últimos dias tentando o perdão papal, morrendo em Porto Ércole, antes de conseguir retornar para Roma, o principal mercado de arte do período.

A Medusa Murtola é, deste post, a única obra exposta no MASP.

A pintura de Caravaggio – o nome do artista vem do lugarejo onde nasceu – é de um brutal e emocionado realismo. São composições dramáticas, violentas, buscando a emoção do receptor. O Barroco é um período em que a Igreja Católica busca responder aos avanços da Reforma Protestante. As construções e a arte barroca visam reforçar a fé católica, direcionar as sensações dos fiéis para o alto; prato cheio para figuras espiritualizadas, devotas, nobres. Caravaggio rebela-se contra o que foi denominado Maneirismo e escolhe seus modelos entre o povo e cria cenas religiosas com perturbadora realidade.

O domínio técnico do claro-escuro é absolutamente notório na obra de Caravaggio. As obras do pintor emergem da escuridão e cabem perfeitamente na penumbra de locais sacros como a Capela Contarelli, onde estão pinturas sobre a vida de São Mateus, ou as citadas acima, da Igreja de Santa Maria Del Popolo, que estão na capela Cerasi.

A Ceia em Emaús, exemplo da grande obra do artista, está na Galeria Nacional, em Londres.

O trabalho do artista está no Museu do Louvre, em Paris; no Palácio Barberini, em Roma; na Galeria Nacional, em Londres e, além das Igrejas e do museu do Vaticano, nas maiores galerias italianas tais como a Galeria Degli Uffizi e a Galeria Borghese. Se é difícil para o cidadão comum visitar todos esses lugares, visitar uma exposição dedicada ao artista é fundamental. Daí a relevância desse evento para os habitantes de São Paulo e para todos os que possam visitar a cidade.

Detalhes sobre horários, dias e preços estão em www.masp.art.br/masp2010

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Até mais!

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Ana Paula Padrão errou?

Ana Paula Padrão apresenta as Olimpíadas na TV Record

Depende do ponto de vista. O meu é de que foi um inteligentíssimo ato para ampliar a divulgação das transmissões das Olimpíadas de Londres pela TV Record. A apresentadora colocou a emissora e o evento entre os mais comentados do final de semana; e não foram só os comentários de exaltados “defensores de acertos” das redes sociais. Ana Paula Padrão “estrelou” dezenas de artigos, além de citações e discussões em outros tantos blogs, como este, que acontece aqui e agora.

A Rede Globo, segundo consta com a maior audiência no país, não citou nem os preparativos que antecederam o evento londrino, como se isso não fosse acontecer como fato jornalístico.  Aqueles que seguem unicamente a emissora carioca ouviram, de repente, a informação inevitável da abertura das Olimpíadas e de alguns resultados iniciais da mesma. Nem todo brasileiro é desatento, tanto é que a TV Record ficou com o segundo lugar em audiência durante o espetáculo de abertura, em Londres, com participação da Rainha Elizabeth e súditos. Para os distraídos, o “erro” de Ana Paula Padrão serviu como eficiente lembrete.

Nossos hábitos colocam-nos na chamada zona de conforto. Sabemos exatamente o que esperar de determinadas situações – como o final de qualquer novela, por exemplo – e é mais tranquilo manter tais hábitos do que correr riscos fora deles. Assim que é seguro para muitos ficar na Rede Globo. Somos aptos a repetir todas as gracinhas do Faustão, sabemos que Nina vencerá Carminha, que o próximo jogo será de vida ou morte, exceto se for jogo nas Olimpíadas de Londres!

Terrível vício o de manter-se em um único canal de TV. Em comunicação sabemos que esse costume facilita a manipulação de nossas opiniões, já que só temos acesso ao que é dito por um único emissor. Donos de jornais e similares não são propriamente santos e atendem aos interesses de quem os patrocina, ou de quem facilita a permanência de seus veículos no mercado. A história da imprensa brasileira, por exemplo, é a história de determinados indivíduos atrelados ao poder vigente. Que ninguém perca muito tempo em refletir os motivos que levam a imprensa a “esquecer” acontecimentos como greves, por exemplo. Elas estão atendendo aos interesses de quem está no poder, de quem paga o espaço publicitário.

Ana Paula Padrão, que de burra não tem absolutamente nada, sabe isso e muito mais. Se ela cometeu um erro, isso é humano. Se de caso pensado, os bons resultados são comprováveis. Se todos os concorrentes da Record, por obrigações para com o público, falariam da abertura das Olimpíadas de Londres, a apresentadora fez lembrar em qual emissora o evento está sendo exibido. Golpe de mestre.

Fora da Globo desde 2005, com uma passagem pelo SBT, agora como apresentadora oficial das Olimpíadas, fica difícil acreditar na fixação da jornalista pela antiga emissora. Se houver, que ela faça um tratamento com profissionais adequados. O certo é que há um monte de pessoas prontas para malhar o próximo pelo mínimo erro. Que essas noticiam, ou propagam o erro de outros, com um evidente prazer, vendendo a impressão de que são maiores que aqueles que erraram. Há aqueles que lidam com isso, numa boa.

Cresci lendo sobre as gafes de Hebe Camargo. Algumas estão por aí, fixadas na história da apresentadora. Quando tive oportunidade assisti várias gravações do programa de Hebe Camargo, assim como outros que foram feitos ao vivo. Tive, desde então, a absoluta certeza da inteligência dessa mulher e do domínio incrível que ela tem daquilo que faz. Não é por acaso que Hebe está entre os principais nomes da TV brasileira. Tenho cá comigo que muitas das boas gargalhadas de Hebe decorrem da consciência da própria capacidade e do conhecimento da precariedade daqueles que passaram horas execrando-a quando, por exemplo, ela perguntou ao astronauta Neil Armstrong se na lua tinha luar… Neste momento, quem pode rir um bocadinho com os últimos fatos é Ana Paula Padrão; afinal, não é qualquer dia que uma gafe rende tanto!

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Boa semana para todos.

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Um sonho de feijoada

Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Alcione, Paulinho da Viola e Elza Soares

Sabadão chegando, uma feijoada com roda de samba para aqueles que andam premeditando festas… E nessa de planejar, sonhar, idealizar, uma roda de samba começaria chamando gente de bem, como DONA IVONE LARA:

Foram me chamar

Eu estou aqui, o que é que há

Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho

Mas eu vim de lá pequenininho

Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho…

Devagarinho a roda iria esquentando, com bons contadores de história, gente boa, tipo DUDU NOBRE, festeiro que adora contar das festas que rolam por aí:

Que tremenda confusão

Voava cadeira, voava pandeiro

Gente com vacilação

Bagunçando o samba no terreiro

Bebeu umas e ficou valente

Virou homem forte, não teve receio

Tinha cachaça no meio…

Nessa feijoada teria que ter gente cuidadosa, cautelosa, que tomaria conta de todos os detalhes, como MARTINHO DA VILA, cuidando para que não ocorra nenhuma confusão:

Batuque na cozinha

Sinhá não quer

Por causa do batuque

Eu queimei meu pé…

Ingredientes de uma boa feijoada estão em sites e programas de culinária. Mineiro, farei questão de um detalhe, que JORGE ARAGÃO não deixa ninguém esquecer: feijão com farinha.

Meu samba quem ouve adivinha

Feijão com farinha, tempero e sabor

Seguimos tocando essa bola

Que veio de Angola no som do tambor

Me chama onde houver um samba que eu vou.

Em roda de samba, se não pintar umas boas paqueras, não tem a menor graça. Mas, para que o namoro aconteça, para que ninguém pise na bola, guarde o que ELZA SOARES tem para alertar:

Devagar com a louça

Que eu conheço a moça

Vai devagar, devagar

Eu conheço a moça

Devagar com a louça

Vai, devagar

Prá não errar!

Seguindo conselhos da mulher “dura na queda” Elza, ninguém sofrerá; mas como todo mundo sabe, que se conselho fosse bom… Tem aquele que não escuta e, aproveita um cantinho da festa para lamentar no ombro amigo, cantando mágoas, como PAULINHO DA VIOLA.

Trama em segredo teus planos

Parte sem dizer adeus

Nem lembra dos meus desenganos

Fere quem tudo perdeu

Ah coração leviano não sabe o que fez do meu…

Feijoada de sábado, todo mundo sabe, ninguém chega rigorosamente na hora. E uma estrela ocupada, como BETH CARVALHO só apareceria mais tarde; chegaria toda humilde; para ela, basta um simples jiló:

Pimenta pode ser da mais ardida

Pois no meu peito já houve ardência maior

Não tenho preferência por comida

Obrigado nessa vida,

A engolir coisa pior, por isso ó nêga

Ó nêga pode preparar o jiló

Ó nêga pode preparar o jiló.

Agora, se o malandro demorar demais pra aparecer, pode rolar de encontrar panela vazia, pratos sujos e bebida no fim. Depois sairá por aí, reclamando, como fez ARLINDO CRUZ:

É que eu fui no pagode

Acabou a comida, acabou a bebida

Acabou a canja

O que que sobrou

O bagaço da laranja

Sobrou pra mim

O bagaço da laranja

Arlindo Cruz, Dona Ivone Lara, Jorge Aragão, Martinho da Vila

Tomando precauções pra chegar no horário, o cidadão não correrá o risco de perder belas canjas (não de galinha, Mané!); de gente que canta bem demais, e que, raramente, põe a mão na massa ou no feijão. Também, preste atenção nas unhas da ALCIONE… Não é mãozinha para lavar pratos. Deus deu a voz e é o que nos basta!

Este amor

Me envenena

Mas todo amor

Sempre vale a pena

Desfalecer de prazer

Morrer de dor

Tanto faz

Eu quero é mais amor…

Certamente todo mundo vai pensar que, nessa feijoada, o responsável pela cerveja seria o ZECA PAGODINHO. Não, um convidado desse naipe não traria nada; a gente pediria pro cara aparecer e a presença do indivíduo dispensaria tudo. Mas como ZECA sabe das coisas, certamente nos daria essa dica de pagodeiro:

Eu já mandei pedir à Odete

Para me mandar

Um chiclete de hortelã

Para tirar

Esse cheiro de aguardente

De romã do ceará

…Se quando eu chegar em casa

Não estiver de cuca sã

Prá disfarçar eu vou mascar

Um chiclete de hortelã.

Essa feijoada pode ir longe. E aqui, nos meus delírios cotidianos, ela já está ocorrendo. Quem sentiu falta de Diogo Nogueira, Lecy Brandão e mais um monte de gente do primeiro time, pode trazer. Pode acrescentar. Monte a sua trupe da feijoada e vamos comer e bebemorar.

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Bom final de semana!

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Notas:

Os versos acima citados são, respectivamente, das seguintes músicas:

Alguém me Avisou, Dona Ivone Lara.

Tinha cachaça no meio, Dudu Nobre

Batuque na Cozinha, Martinho da Vila

Feijão com farinha, Jorge Aragão

Devagar com a louça, Luiz Reis/Haroldo Barbosa

Coração leviano, Paulinho da Viola

Pode preparar o jiló, Arlindo Cruz/ Zeca Pagodinho

Bagaço da laranja, Jovelina Pérola Negra/Zeca Pagodinho/Arlindo Cruz

Gostoso Veneno, Nei Lopes /Wilson Moreira

Chiclete de hortelã, Zeca Pagodinho

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Esse texto foi postado originalmente em papolog/valdoresende

Solução para o professor brasileiro

rené magritte detalhe
Uma nova identidade, mesmo que seja um mero substantivo.

O marmanjo chegou todo pimpão perante minha amiga e, apresentando-se, anunciou a profissão:

Trabalho no ramo da construção civil!

A moça depois descobriu que o indivíduo era servente de pedreiro.  Alfabetizado, chegado a usar luvas para evitar calos e ainda, nas horas vagas, era cantor de um grupo de pagode; ou seria solista de sexteto rítmico do genuíno ritmo afro-brasileiro?

Depois do surgimento do marketing inventaram de mudar o nome de antigas profissões. Parece produto velho em nova embalagem, mas que tem dado certo, disso não há dúvidas. O exemplo de conhecimento e aceitação ampla é a morte da costureira pelo surgimento da estilista. A impressão que passa é que os profissionais sentem-se menores quando dito costureiros, mas ficam cheio das poses dizendo-se estilistas. Na real, com o avanço da produção industrial de vestuário ter um costureiro é luxo de poucos. E o indivíduo enche-se de idéias e vira estilista.

Como é que professor quer ganhar melhores salários se ainda se autodenomina professor? Penso que a classe deveria seguir o exemplo de algumas cozinheiras que, agora, atendem por culinaristas. Toda pessoa que não tem hábito de cascar batatas, tipo Ana Maria Braga, se diz culinarista. Esta do exemplo tem algumas auxiliares, um papagaio e um fone de ouvido para seguir a montagem de algo sempre já pronto…

Professor tipo culinarista não é bom negócio. É falso demais! Lembra o autor de livro que usou uma coisa chamada ghost writer. Indivíduos com alfabetização precária usam o tal ghost writer e não duvido que em breve o cidadão de livro escrito por outro entre para a Academia Brasileira de Letras. Ambos, o falso autor e o ghost writer, ganham dinheiro; já o salário do professor continua o mesmo…

As instituições de ensino já adotaram nomes diferenciados para arregimentar novos consumidores. Tipo gestão para a velha e sempre boa administração. Saca a diferença entre gestão de negócios e administração de negócios? Tudo a mesma coisa, mas o que parece certo é que dá uma grana bem maior chamar mestrado, da mesma administração, de MBA.

Quando professor brasileiro aprender a se valorizar fará como certos maquiadores, conhecidos em meios específicos como visagistas. E inventar uma boa lorota para justificar a mudança de nome. Se o visagismo é a arte de criar uma imagem pessoal personalizada (?) o maquiador é só mesmo o que coloca cremes e pós no rosto de alguém…

A maior dificuldade, penso, é encontrar um novo nome para o profissional de ensino (tem gente que usa essa expressão, fugindo de proclamar-se professor). Andam usando, por aí, a palavra coaching e sobre esse, copiei que “o coaching oferece ao cliente uma orientação nas esferas particular e profissional, com o objetivo de prepará-lo para colher frutos objetivos e assertivos tanto no campo trabalhista quanto na vida pessoal.” Obviamente que esse treinamento não implica aula, porque se for aula, diminui o preço. De qualquer forma, eu não diria que exerço a função de coaching; não gosto do som da palavra que remete a anfíbios.

O que todo professor deve recusar é ser chamado tio. Com veemência! Essa foi uma grande cilada social. Tornaram os mestres parentes de todo mundo e para parente, é cultural, paga-se pouco. O cara já tem tudo e o que ele faz pode ser feito por qualquer um; então, para que bons salários?

Por mais que um professor saiba, falta aprender a valorizar financeiramente o próprio trabalho. A mudança de nome pode ser a solução para uma sociedade que só pensa mediante a suposição de algo novo sendo consumido. Vejam bem, o tal trabalhador do ramo dá construção civil já é passado. Serventes, pedreiros, no mercado de hoje são denominados instaladores de alvenaria. Merece ou não um salário melhor aquele que instala alvenaria?

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Até mais!

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Nota:

As imagens deste post são detalhes de obras originais de René Magritte.

Opções para o quarto mandamento

Bandido que é bandido mata, não brinca de assustar. Essa história de jogar mocinha na cova escura cai bem em conto infantil. Isso se chama dramaturgia precária. Andei lendo por aí que a emissora pretende esticar a novela Avenida Brasil até dezembro. Se não fizerem isso com inteligência começarão as esculhambações ao bom trabalho feito por uma grande equipe. Uma bobagem é a discussão se Nina – a adorável Débora Falabella – é vingativa ou justiceira. Conversa para boi dormir. A personagem não tem representatividade social para fazer justiça e está muito distante de conduta divina para alçar-se à categoria de, em nome de Deus, vingar a morte do pai.

Honrar pai e mãe – o quarto mandamento – é muito diferente de vingar ou justiçar males sofridos por esses. A ação de Nina pode resultar em um ótimo folhetim, mas humanamente representa a volta aos instintos primários; socialmente, a falência da crença na justiça. Em termos de dramaturgia, insisto, muito fraca. Se a dramaturgia televisiva não satisfaz, uma solução viável é buscar socorro no cinema. Há roteiros honrando pai e mãe, com muita inteligência, diversão e emoção, distantes da vingança primitiva, animalesca.

Tão Forte e Tão Perto

Pai e filho são amigos, o primeiro buscando fazer com que o garoto viva melhor. O pai (Tom Hanks) morre em consequência dos ataques ao World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001. O filho, deprimido, teme esquecer o pai. Ao vasculhar o armário do falecido, deixado intacto pela mãe (Sandra Bullock) encontra uma chave, dentro de um envelope, cuja única possível identificação é a palavra ‘Black’. O garoto resolve visitar todos os moradores com sobrenome Black, de New York, para encontrar utilização para a chave.

O menino Thomas Horn é um excepcional ator, do nível de Mel Maia, a atriz mirim que interpretou Rita em Avenida Brasil. Neurótico, perturbado com a morte do pai, o menino esbanja talento em cenas dificílimas, principalmente nos momentos de busca em que está acompanhado do avô, o genial Max Von Sydow. O roteiro não facilita. Max interpreta um ancião que deixou de falar. Quem ganha com isso é o público, com um ator mirim que fala pelos cotovelos e com um ator que carece fundamentalmente de olhares e expressões faciais.

Tão forte e tão perto é baseado no livro “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”, escrito por Jonathan Safran Foer. Dirigido por Stephen Daldry, tem fôlego para minissérie, novela. Imaginem as histórias vivenciadas pelo garoto, que registra através de fotos todas as visitas realizadas durante a busca. Esses encontros, rapidamente mostrados no filme, merecem apreciação demorada em quem tiver interesse em conhecer o livro.

Adeus, Lenin!

O quarto mandamento diz que devemos honrar pai e mãe. Mais que honrar, por amor à mãe, em Adeus, Lenin! um jovem não muda o mundo; pelo contrário, tenta manter Berlim oriental como se o Muro não houvesse caído, para preservar a saúde da mãe. É divertido. É desesperador. É de uma ternura raramente vista em filmes, peças ou novelas.

Uma senhora, cidadã exemplar da Berlim Oriental, vive com os dois filhos, já que o marido foi embora para o outro lado. Sofre um derrame e entra em coma, voltando a si oito meses depois, quando o Muro já caiu e o capitalismo enterra os hábitos dos alemães socialistas. A mãe (Katrin Sab) não pode sofrer fortes emoções e o filho, (Daniel Brühl), resolve manter tudo tal qual a mãe deixara, antes da doença. O garoto empreende uma verdadeira caça à embalagens de produtos, desaparecidos com o novo regime, móveis e roupas para que a mãe pense que tudo está como antes. Quando a mulher insiste em ver televisão, a solução é a produção de programas falsos, com a ajuda de um amigo, diretor de vídeos. É a Berlim oriental recriada conforme os valores transmitidos ao garoto pela mãe.

Na dedicação do filho em recriar o mundo para preservar a saúde da mãe reside a beleza de Adeus, Lenin! Dirigido por Wolfgang Becker, o filme fez barulho por aqui apenas em mostras como o Festival do Rio, em 2003, tendo sido também um dos filmes mais vistos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O sucesso de crítica no Brasil, os prêmios e as grandes bilheterias mundiais não foram suficientes para que Adeus, Lenin! fosse exibido nos cinemas brasileiros; felizmente pode ser visto em vídeo.

Férias acabando; é possível uma opção à vingança/justiça de Nina. Esta personagem mantém a morte do pai como norteador da própria vida; a novela carece de cenas que esclareçam o que o pai deixou de bom para a filha, o que ele ensinou. Bem que Nina poderia ter algo de  Oskar Schell; a criança interpretada por Thomas Horn está cheia de boas lembranças do pai. Também seria bom se ela manifestasse um pouquinho de dedicação pelos vivos, como a personagem Alexander (Daniel Brühl), de Adeus, Lenin! Nina sai fazendo das suas, e todos os que ela supostamente ama, são os mais prejudicados. A jovem limita-se a pedir perdão, desculpas, alegando as boas intenções de seus atos, como se não fosse de conhecimento geral que de boas intenções o inferno está cheio.

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Boa semana!

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