O mundo dos espertos

“- Seja um voluntário na Copa do Mundo!” é o simpático convite de Dona Fifa, a sede de um monte de espertos. Serão necessários 18 mil voluntários; cerca de 1.500 para cada cidade sede. Vai ser uma grande honra para o cidadão brasileiro trabalhar de graça durante 20 dias seguidos. Li na imprensa: “Os escolhidos passarão por treinamento e terão uma rotina de trabalho rígida. Cada voluntário terá de cumprir turnos de até 10 horas de trabalho.” Sem salário, mas com alimentação, transporte e uniforme. Eles são bonzinhos!

Na televisão, uma jornalista entrou várias vezes, durante a tarde, dando a notícia; ela esclareceu a questão do transporte; “se você morar fora do município onde ocorrerá cada evento, a passagem até a cidade do mesmo é por sua conta”.

Adotando como base o pagamento de um salário mínimo de R$ 622,00 por pessoa, parece que Dona Fifa está economizando R$ 11.196.000,00. Muito dinheiro, dirão os que estão a serviço dos espertos. Dona Fifa, coitada, não ganha quase nada! Ela está realizando a Copa do Mundo na nossa terra! Imagina se vai ter que gastar toda essa grana! Espertinha!

Quanto Dona Fifa vai lucrar com esse evento? Pense apenas as cotas de patrocínio e os direitos de transmissão mundial da competição. É difícil imaginar? Veja então um único dado, sobre a arrecadação da Dona Fifa, publicado pela revista Isto É; a Sony “assinou contrato de US$ 305 milhões com a Fifa para se tornar parceira até 2014.” Atenção, leitor, são dólares! A revista publicou (veja aqui) vários números, estratosféricos, sobre os ganhos da seleção brasileira (em relação à Copa, parte vai para a Fifinha). Veja os “parcos” números e corra ao site de Dona Fifa, para colaborar gratuitamente com a pobrezinha.

Mesmo não sendo tão esperto, adoro notas de 100! Em qualquer moeda

Interessante notar que a campanha para voluntários de Dona Fifa começou simultaneamente com o horário eleitoral gratuito. Cartolas e políticos são, definitivamente, espertos. Políticos, indivíduos que criam leis em causa própria, aumentam sempre os próprios salários, raramente abdicam de uma regalia (aluguel, passagem, moradia) e em nome de supostos direitos democráticos impõem horários de enfadonhos programas televisivos e radiofônicos aos eleitores brasileiros.

Sejamos justos; nossos senadores, recentemente, abdicaram do 14º e 15º salários. Ficaram pobrezinhos, já que só recebem apenas13 salários durante o ano, no valor de R$ 26,7 mil cada. Aliás, senadores e deputados continuam recebendo de graça moradia, transporte e uma boa grana para pagar telefone, gráfica e correios.

Tão pobrezinhos esses espertos políticos; carecem realmente de horário gratuito para divulgação de ótimas intenções retiradas temporariamente do inferno, cheio dessas mesmas intenções. As emissoras de rádio e tv ficam muito chateadas com o horário político. Não faturam! Já com Dona Fifa estão satisfeitíssimas, dedicando várias chamadas para divulgação da solicitação de voluntários.  Isso se justifica, já que a maior parte das verbas publicitárias vai para a televisão.

Segundo o Media Book 2012, lançado pelo IBOPE, a tv aberta ficou com 53% da verba publicitária de 2011. Pensando em todos os investimentos que serão feitos pelas grandes patrocinadoras da Copa do Mundo, sem contar a Copa das Federações e o faturamento cotidiano de cada emissora, dá para entender a necessidade dessas pobres espertas empresas em pedir nossa ajuda para que elas façam caridade com nosso dinheiro. Disque 040 para doar quarenta reais!

Interessante esse mundo dos espertos. Nós trabalhamos duramente para que possamos trabalhar de graça para a Fifa, doar um pouco para a Rede Globo e assistir promessas dos nossos políticos que não serão cumpridas em tempo algum. Eles lucram! Um dia ainda aprendo a ser assim. Mas, caro leitor, fique tranquilo; por enquanto, não pedirei trabalho voluntário, nem doações, através desse blog. Em se tratando de política é bom alertar! Escreverei sempre o que penso.

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Até mais!

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A sensitiva da Vila Mariana

A solução de todos os problemas estava bem ali, próxima da Rua Domingos de Moraes.  Estava escrito em verde, todas as letras em verde, deixando o papel esverdeado de esperança. A sensitiva resolveria tudo. E lá fui com Vanilda, a tatuada, buscar resolver a vida da minha amiga. Sempre é bom lembrar que Vanilda é companheira de longa data; portadora de cinco tatuagens, apaixonada por música brasileira e por um bom trago, quando em boa companhia. Vanilda era presença constante nos meus escritos passados. Pediu-me que parasse.

– Odeio fama, Vavá!

Veio pedir-me companhia na consulta com a tal sensitiva. Concordei; desde que pudesse contar a história. Ela soltou palavrões, palavrões e mais palavrões… Tomamos rumo da Vila Mariana, eu insistindo para que ela me dissesse as razões da consulta.

– Estou com problemas financeiros, Vavá!

– A Dilma vetou um monte de coisas das diretrizes orçamentárias do país.

Vanilda lançou um olhar fulminante, desses que transmitem insultos, ignorando minha observação, continuando a dizer as razões em buscar ajuda espiritual.

– Meu namorado não aparece, minha mãe aparece sempre pra me encher, no meu trabalho tem uma “zinha”, mais infeliz que eu, me botando olho gordo.

– Como você sabe que a outra te coloca olho gordo, Vanilda?

– A gente sente, ora essa!

– Se sente, para que ir até a sensitiva?

Palavrões, insultos verbalizados, ameaças, chantagens e um “pelo amor de Deus, eu só quero a sua companhia silenciosa” e repetiu a expressão silenciosa, acentuando cada sílaba. Amuado, calei a boca e voltei a ler o papelzinho, peça eficiente; Vanilda era a comprovação da eficácia publicitária. Vinte reais a consulta.

– Vinte reais? Vanilda, isso não é muito popular?

– Você disse bem, me chamo Vanilda. Não sou Elizabeth, aquela de Windsor, rainha e partner do agente 007.  Você não prometeu que ficaria calado?

Eu não havia prometido. Estava sendo constrangido. E assim chegamos a um velho casarão em uma travessa da Rua Domingos de Morais. Estava caindo aos pedaços, sendo este um sinal evidente da ineficácia da sensitiva. Pensei em argumentar sobre a incapacidade da guru em resolver os próprios problemas financeiros; olhando para minha amiga, vi que estava tensa e só me manifestei quando ela balbuciou:

– O que é que eu estou fazendo aqui?

– Por problemas financeiros, seu namorado não aparece, sua mãe que aparece toda hora e para afastar a zinha do olho gordo!

– E amigo filho da mãe que fica me zoneando. Sabia que ela cura impotência?

Vanilda soltou o impropério justamente quando atravessávamos o portão, entrando direto em um espaço cheio de cadeiras ocupadas pelos clientes da sensitiva. Todos os olhares avaliaram o “impotente” que, para garantir a potência, mandou a amiga para aqueles lugares que o baixo calão permite, virando as costas e deixando-a sozinha, entre olhares curiosos. Uma senhorinha, empertigada e altiva, chamou a atenção de Vanilda.

– Isto não se faz. Vá pedir desculpas! Ande!

O “ande” foi tão alto e tão decisivo, que Vanilda correu e puxou-me pela mão, rindo.

– Vavá, volte ou a velhinha vai me bater!

– Você gosta de apanhar que eu sei!

– Nem bêbada! Vamos parar com isso, por favor. Viemos resolver problemas, não aumentá-los.

– Viemos, cara pálida? Você não namora, não tem grana, não se livra da mãe, nem da zinha do olho gordo! Viemos?

A frase foi pequena vingança pelo recente impotente. Já estávamos de volta ao lar da “poderosa vidente das águas místicas”, e assim todos souberam os motivos que levaram Vanilda a consulta. A senhorinha empertigada solidarizou-se com minha amiga:

– Eu também estou sem namorado, minha filha. Vim consultar através dos búzios africanos. Eles irão indicar-me o que fazer para acabar com a solidão.

Um senhor, desse tipo bem bonachão, gordinho simpático, mostrou cumplicidade.

– Devo tanto, minha filha! Tenho tanta conta pra pagar! A sensitiva prometeu orientação para que eu resolva tudo. Estamos fazendo um trabalho.

– Quanto ela cobrou? Perguntei, sob olhar de censura de Vanilda, acompanhado de um beliscão.

– Sou marceneiro; estou pagando com pequenos trabalhos na cozinha e no banheiro aqui da casa.

Uma moça daquele tipo gostosona, 90cm daqui, 110cm ali no meio, tudo muito evidente por roupas justas, curtas, decotadas, entrou na conversa:

– Inveja é triste, não é? Olha, estou fazendo os banhos indicados pelo guia. Minhas colegas de firma não se agüentam, é pura inveja. A senhora fez muito bem em vir buscar proteção.

A moça aproximou-se, sentando ao meu lado e encostando a coxa generosa em minhas pernas. Vanilda arrepiou! Ciúmes sempre foi um grande problema para minha amiga!

– Querida, não carece testar a potência dele. Falei na hora da raiva. Cai fora!

A senhorinha empertigada voltou a exercitar a solidariedade à Vanilda:

– Isso, minha filha, muito bem. Por conta de uma piranha assim que fiquei sozinha.

A citação do peixe carnívoro provocou enorme bate-boca. Vanilda e a senhoria versus a jovem gostosona. O bafafá só não foi longe por conta da interferência da própria sensitiva, a vidente das águas místicas. Vestida de cigana da Rua 25 de Março, ou seja, saia e blusa estampadas de chita, bijuterias ordinárias e pintura exagerada, exigiu silêncio absoluto sob pena de não atender ninguém. Os presentes, certamente sofrendo com as próprias necessidades, calaram-se totalmente. Muitos e muitos minutos correram até que Vanilda fosse atendida.

O tempo passando e eu matutando sobre meu carma em pagar micos em nome da amizade. Vinte minutos de consulta e percebi vozes alteradas; aliás, a voz de Vanilda alterada.

– Não vou fazer chapinha de jeito nenhum!

A voz da minha amiga soou mais alta;

– Não vou morar com minha mãe!

Por fim, gritando, minha amiga saiu da sala, repetindo a última frase:

– Nem morta eu tiro minhas tatuagens! Nem morta! Vavá! Tire-me daqui! Leve-me para longe dessa caloteira!

Levantei para acompanhá-la quando a sensitiva nos alcançou, com voz que era puro ódio:

– Vai sair sem pagar, senhora? Quem é a caloteira aqui!

Vanilda soltou, sem respirar, dezessete palavrões. Somou pragas, desafiou os guias da outra e, pagando, saiu pisando duro, ignorando a bela tarde ensolarada da Vila Mariana. Conhecendo minha amiga, esperei que ela me dissesse a razão da tempestade.

– Vavá, para resolver problemas financeiros, eu devo morar com minha mãe; ou seja, transferir as dívidas para minha pobre mãe. A zinha do olho gordo tem inveja dos meus cabelos anelados, sabia disso? Portanto, para acabar com isso devo fazer chapinha. Que sensitiva é essa?

Eu já não segurava o riso. E Vanilda completou:

– E só terei meu namorado de volta após procurar um cirurgião plástico e tirar minhas tatuagens. Olha só, que vidente de meia tigela! E soltou palavrões, muitos palavrões enquanto ríamos muito. A vidente deveria ter perguntado a profissão do namorado de Vanilda. O gajo é o autor das cinco tatuagens ostentadas pela moça.

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Boa semana para todos!

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Os Impressionistas em São Paulo

Muito bom morar em uma cidade como São Paulo: a cidade que recebe Caravaggio no MASP também expõe 85 quadros impressionistas, vindos diretamente de Paris. A mostra, denominada Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay está no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade.

“Impression soleil levant” (1872) o quadro de Monet que dá nome ao movimento

O Impressionismo é apaixonante e pede aprofundamentos diferenciados conforme o artista, a obra. Monet é um artista peculiar, próximo e distante de Cezanne. Gauguin, presente na história de vida de Van Gogh tem particularidades próprias que o tornam totalmente diferente do amigo. Renoir deixou pinturas memoráveis, feitas ao ar livre, enquanto Degas pintou o interior de teatros, o palco visto de dentro.

A grande exposição em São Paulo pode ser vista pelo jovem estudioso de arte, sequioso de ver de perto aquilo que conhece por reproduções gráficas. Também pode ser apreciada por aquele cidadão que nunca estudou arte e nem sabe o motivo de um movimento ser dito impressionista. As obras falam por si, conquistam pela qualidade técnica, pelas diferentes acepções de beleza formando, no todo, um grande tratado estético.

O Impressionismo: Diferentes formas de olhar, de perceber e captar o objeto.

O Impressionismo encerra um momento peculiar da arte no final do século XIX, sendo antecedente fundamental de toda a pintura do século XX. Uma fase que implica em quebra de padrões tradicionais, abandono de convenções em favor da liberdade de expressão e de pesquisa formal. Muitos fatores contribuíram para as mudanças que explodem com o Impressionismo. A busca por captar um instante, uma impressão observada propiciará manifestações individuais e há, nesse curto período de tempo, grandes e profundas divisões.

A exposição no CCBB apresenta três gerações distintas do movimento francês; os impressionistas, como Manet, Monet, Renoir e Cézanne; os pós-impressionistas, como Van Gogh e Gauguin, e os Nabis (profetas), com obras de artistas como Pierre Bonnard e Edouard Vuillard. Estão dispostos em quatro andares do Centro Cultural e carecem, basicamente, de mais do que uma hora de apreciação, mais que uma única visita para contato eficaz. Duas justificativas básicas:

O trabalho de Paul Cézanne busca captar formas, de sintetizá-las, expressá-las por ângulos diversos. Ele é antecedente direto da grande arte que faria de Pablo Picasso um dos maiores gênios da pintura no século XX. Não é com um olhar “de quem passeia pelo shopping” que esse artista será percebido em sua totalidade. Cézanne merece um olhar reflexivo, um tempo que é investimento para que possamos entender melhor o Cubismo de Braque e Picasso.

Cézanne – ‘Rochers près des grottes audessus de Château-Noir’ 1904.

Claude Monet é o impressionista por excelência. Sua obra é síntese do movimento. Nela, percebemos que o artista impressionista realiza uma “operação primária”, justapondo pinceladas em complexa tarefa de misturas de cores “puras”. Essas misturas resultam em novas cores conforme a intenção e necessidade do artista em captar um local, uma situação, um personagem. A obra se completa com outra operação, esta a cargo do espectador.  Ao observar a mistura ótica, dos fragmentos elaborados pelo artista, o espectador completa o resultado visualizando a imagem proposta. Esse é o grande diferencial da arte impressionista: o receptor participa da obra finalizando-a através da observação.

Tal qual no filme famoso, gostaria de ser vigia do CCBB. Poderia ver sozinho e tranquilamente esses 85 trabalhos. E da distância que quisesse. Porque os quadros impressionistas têm essa característica: devem ser vistos de uma distância razoável; três vezes a medida maior do quadro, dizem os especialistas. Assim, se um quadro tiver 1m de largura, o ideal é observá-lo a 3m de distância. Com tanta gente nos corredores do CCBB, terá muita sorte quem conseguir ver as telas conforme ensinam os nossos mestres.

Fico empolgado com esse tema; também com a oportunidade de contar com um evento que é de grande estímulo para que conheçamos mais, pesquisemos mais. A riqueza impressionista é imensa; é o grande ponto de partida para outros momentos, fortes, intensos e encantadores. Deixei de citar alguns fatos históricos, alguns artistas. Outras oportunidades virão; por enquanto importa ver, rever, descobrir, conhecer através das telas o que nos emociona, o que provoca admiração.

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Bom final de semana!

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Anote: Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay; Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, Centro. De 4 de agosto a 7 de outubro. De terça-feira a domingo, das 10h às 22h. Entrada: Gratuita.

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Alguns detalhes sobre Altamiro Carrilho

Antes dos primeiros versos de “Detalhes” é o inesquecível som de uma flauta que faz com que identifiquemos a canção. Altamiro Carrilho faz uma abertura brilhante para aquela que está entre as maiores canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Nem sempre nos damos conta do quanto um instrumentista importa em nossas vidas; mas não dá para imaginar “Detalhes” sem aquele som simples, tão característico, evocando toda uma situação mágica e encantadora, precedendo a interpretação impecável de Roberto Carlos (Clique para ouvir).

Em 1971 Altamiro Carrilho participou da gravação de “Detalhes”. No mesmo ano, no VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro dá um maravilhoso suporte para Wanderléa. Cantando “Lourinha”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, Wanderléia deixava evidente que já estava longe da Jovem Guarda, interpretando este gracioso chorinho com o acompanhamento preciso e virtuoso de Carrilho.

Com Roberto Carlos e Wanderléa conheci o flautista genial que foi Altamiro Carrilho. Tão genial que me levou a fantasiar que a flauta foi um instrumento criado para solo de chorinhos, maxixes, marchinhas… Altamiro Aquino Carrilho (21/12/1924) começou a carreira em 1949, gravando com Moreira da Silva. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Certamente a música “Detalhes” está entre as mais executadas nas emissoras de rádio e tv do Brasil. Não é só; Altamiro Carrilho está presente também em outros grandes sucessos; é difícil imaginar “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime) sem o flautista; e na gravação original da trilha do seriado Gabriela, é ele a dar um colorido especial, enriquecendo a interpretação de Gal Costa

O que e o quanto mais temos de Altamiro Carrilho em nossas vidas, na música brasileira? Se acontecer uma pesquisa aprofundada é certo que encontraremos muito mais do músico que faleceu, aos 87 anos, nesse 15 de agosto. Será um encontro com gente do nível de Pixinguinha, Vicente Celestino, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacó do Bandolim, Clara Nunes e mais, de outro universo onde estão Bach, Beethoven, Chopin… Muito, muito grande esse Altamiro Carrilho.

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Até!

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Nota: o falecimento de Altamiro Carrilho foi destaque em toda a imprensa. O G1 apresentou uma seleção de entrevistas que valem uma visita; clique aqui para acesso aos vídeos.

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Uma vassoura no palco de Sua Majestade!

Corre por aí a crença de que garis são “o mais baixo da escala de trabalho”. Boris Casoy que o diga! No entanto, nós não precisamos de rainhas nem de apresentadores de telejornais tanto quanto precisamos de garis e coletores de resíduos na limpeza de nossas cidades. Segundo uma especialista no assunto, amiga deste que vos escreve, cada pessoa produz diariamente, em média, 700 gramas de lixo. Se tudo for direto para as ruas, sem nada de coleta seletiva, as cidades levariam cerca de três dias para entrar em colapso. Assim, agradeçamos profundamente aos garis que garantem a higiene de nossas cidades.

Na abertura das Olimpíadas de Londres tivemos a presença de Sua Majestade, devidamente escoltada pelo seu agente mais famoso, o fictício 007. Referência de uma Inglaterra que dominou boa parte do mundo através de seus reis e de sua força bélica. No encerramento dos jogos o Brasil chegou maneiro, com a suave presença de Renato Sorriso; digno representante de nossa gente simples. Nossa origem é humilde e são raros aqueles que ainda ostentam título de nobreza na terra brazilis; mas somos de uma simpatia contagiante, de um gingado inigualável e temos de sobra o que falta na maioria dos monarcas: alegria e samba no pé!

Provavelmente, por andarmos com a cabeça cheia de pensamentos tipo “mais baixo da escala”, tenhamos deixado a humildade de lado. Tanto é que não valorizamos devidamente nossos atletas. Hoje, por exemplo, dois caminhões do Corpo de Bombeiros subiram a Avenida Brigadeiro Luis Antônio levando nossas campeãs de vôlei. Merecida homenagem para as meninas de ouro. No entanto, não ha a mesma festa para a prata, o bronze.  Dizer que todos os premiados, todos os classificados merecem nosso respeito, nossa admiração, é repetir o já dito. Todavia, enquanto a situação não melhorar, vamos insistir dizendo e escrevendo. Tenhamos a humildade em aceitar outra colocação que não seja a primeira na escala olímpica.

O Reino Unido, anfitrião da grande festa, chegou ao final com 65 medalhas. Um olhar sério sobre a realidade indica que o Brasil, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, pode não ir muito além das 17 medalhas conquistadas em Londres. Não se trata de estabelecer diferenças entre cetros e vassouras, mas de quantificar os investimentos de cada país; e os escândalos entre os dirigentes das duas nações. A rainha, parece, está fora da corrupção que possa haver na Inglaterra; não podemos afirmar o mesmo dos nossos dirigentes, por razões mais que óbvias: dezenas deles ainda estão nos bancos dos réus.

É utópico sonhar que a vassoura de Renato Sorriso limpe a corrupção do país. As vassouras de nossos garis não tem a força do cetro da rainha; mas, esses singelos instrumentos podem assinalar um desejo,  uma intenção, um compromisso: que em 2016, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, tenhamos mais resíduos sólidos que lixo moral.

Somos um povo simples; temos familiaridade com vassouras, ancinhos, pás e o que mais se faz necessário para a higiene de nossos lares, nossa terra; aos poucos, vamos tomando ampla consciência das leis e do que é fundamental para que nosso país seja totalmente limpo. Uma vassoura real e uma ideal. Disso carecemos. Tomara que as atitudes venham e que assim, melhor higienizados física e moralmente, possamos receber dignamente os próximos jogos olímpicos.

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Até mais!

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Nosso pai humano

Papai foi um menino – o da direita – que veio a se tornar o rapaz da foto sobreposta. Meu avô, Deolino, casou-se pela segunda vez com essa simpática Maria. Minha avó trouxe outros filhos do primeiro casamento. Papai foi caçula de uma família moldada nos velhos hábitos mineiros. Nasceu em Estrela do Sul (20/02/1924), mas mudou-se muito cedo para Araguari, ambas as cidades do Triangulo Mineiro. Saiu de lá casado e perambulou um pouco até fixar residência em Uberaba, onde faleceu em 21/05/2005.

O tempo é inexorável; coloca névoas sobre a memória, afasta impressões, guarda fatos desimportantes e transforma a história; reduzindo esta ao que é possível através de textos, fotos e outros materiais de que são feitas as lembranças. O respeito e o afeto, misturados com a saudade, levam-nos ao risco de sacralizar nossos entes queridos que são alçados à categoria de seres celestiais e assim, perde-se um pouco mais do ser humano.

Papai foi um ser humano. Responsável e, dentro das limitações impostas pelos hábitos machistas brasileiros, foi bastante carinhoso. Responsável aí, conduzindo minha irmã Walcenis no baile de formatura. Papai trabalhou duro para sustentar todos os filhos. A velha estrutura ainda mantida, mamãe trabalhava em casa – “do lar” – e papai era o mantenedor financeiro. Difícil mensurar todos os problemas e horas de preocupação para garantir o necessário para nosso sustento, saúde e, principalmente, educação.

Carinhoso, como nessa foto com Bibi, a Gabriela. Gosto da expressão de ternura de meu pai e recordo das vezes que me senti, como Bibi, protegido e seguro. O que mais gosto desta foto é a peculiaridade com que meu pai segura os braços da neta.  Não há um único dedo que não esteja tocando os bracinhos da menina. Carinho silencioso, manifestado em gestos discretos. Mineiro afeito ao silêncio, papai também manifestava carinho fazendo gangorras, estilingues, brincando com todo mundo.

Papai foi vaidoso. Sempre que possível e necessário envergava um bom terno. Até na praia o mineirinho não abria mão da elegância (Na foto menor, em Santos, com meu tio Ulisses). E gostava de ver minha mãe produzida, arrumadinha. Gosto de ver essa imagens de meu pai, bonitão. Recordo o dia da foto abaixo, na lambreta; lamento não ter uma imagem com ele dirigindo trator, caminhão, moto e  até bicicleta. Papai gostava de dirigir e de ganhar carona. Aposentado, papai saia dando voltas de ônibus pela cidade.

Nas bodas de ouro meus pais receberam de presente um retrato, pintura a óleo, feita por Salles Tiné.  Devidamente emoldurada, o quadro ganhou lugar de honra na sala e enquanto colocávamos o objeto na parede, papai disse: “-Estou parecendo o Juscelino Kubitschek.” Foi a melhor maneira de dizer que havia gostado, que estava feliz com o presente. Os mineiros entenderão melhor a comparação com o ex-presidente.

Recordo meu pai entre nós, sua família. E sentiremos sempre a sua ausência. Em dias dos pais, ou no dia do aniversário, papai sentava-se no sofá, ao lado do telefone, aguardando os telefonemas dos dois filhos distantes, meu irmão Valdonei e eu. Atendia brincando, comemorando “mais um” e após os telefonemas aguardava a visita dos netos, dos bisnetos, sempre com um pequeno rádio de pilhas, ouvindo música caipira.

As imagens são insuficientes e meu texto é precário diante do que foi o homem, o ser humano que, por destino, foi meu pai. Afeito como criança a peraltices, papai gostava de contar seus feitos em meio a incontido riso. Tudo o que representa e diz respeito a um pai é lembrado sempre; por mim, meus familiares, assim como para todos aqueles que estão ou não com seus pais. Desse tudo, o que mais sinto falta, é da voz e das risadas de papai. Dos momentos em que, alegre, contava alguma história e chorava de rir. Todavia, quando era necessário, papai dizia sério, com sua voz, cuja lembrança quero guardar para sempre:

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“- Pois não, sou Felisbino Francisco Rodrigues Resende; ao seu dispor!”

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Até mais!

Magro, primeiras lembranças

Semana de perdas lamentáveis. Para o rock, com a morte de Celso Blues Boy, para a MPB, a morte de Magro (Antonio José Waghabi Filho), líder do grupo vocal MPB4.

Chico Buarque com o MPB4, Roda Viva para a eternidade.

Todo apreciador de música brasileira não digere bem a música Roda Viva, de Chico Buarque, quando não interpretada por ele e pelos “meninos” do MPB4. Desde a primeira audição, no antigo Festival da TV Record, os quatro integrantes do MPB4 ficaram definitivamente associados ao compositor e a um repertório de altíssima qualidade. Com Magro estiveram Dalmo, Miltinho e Aquiles. A afinação impecável, os arranjos inteligentes e sofisticados.

Há uma infinidade de canções que serão eternamente associadas ao grupo. “Amigo é pra essas coisas”, certamente, é a mais tocada e cantada por boêmios, em mesas de bar e boates, de todo o país. Os rapazes do MPB4 colocam doçura e virilidade em uma canção que poderia ser alçada à categoria de hino da amizade.

Magro (Antonio José Waghabi Filho)

Adeus.
Toma mais um…
Já amolei bastante.
De jeito algum…
Muito obrigado amigo.
Não tem de que.
Por você ter me ouvido.
Amigo é pra essas coisas…
É.
Toma um Cabral.
Tua amizade basta.
Pode faltar.
O apreço não tem preço.
Eu vivo ao Deus-dará!

Além do repertório de carreira, que inclui músicas extraordinárias como “De frente pro crime” (João Bosco e Aldir Blanc), ou “Cálice” (Chico Buarque e Gilberto Gil), quero recordar outros momentos do grupo, como por exemplo, a participação na peça “Os Saltimbancos”, quando Ruy interpretou o cachorro e Magro, o Burro; os dois formaram, no musical infantil, um quarteto com a gata, interpretada por Nara Leão e a galinha, por Miúcha. Também é inesquecível os encontros do MPB4 com o Quarteto em Cy; os quatro rapazes e as quatro meninas deixaram uma gravação memorável e uma interpretação imbatível para o “Cio da Terra” (Milton Nascimento e Chico Buarque). Para concluir esse pequeno inventário de lembranças, a “Antologia”, uma série em que o grupo resgata e registra a história da nossa música.

Nossa música fica mais pobre, desfalcada, com a morte do guitarrista e do cantor. Pouco acompanhei a história de Celso Blues Boy, embora tenha conhecimento do que ele fez para a música brasileira. Do outro lado, sinto a morte de Magro como a de um velho amigo, com uma amizade que começou lá nos anos 60, quando bastava um microfone para cinco pessoas. Sim, um único microfone para o MPB4 e Chico Buarque. E o Brasil ganhou uma “Roda Viva” inesquecível. Pequenos detalhes que tornam um momento especial, que não deve ser esquecido. Primeiras lembranças quando ouvimos um nome, quando lamentamos uma perda.

Magro, Ruy, Aquiles e Miltinho. A formação original.

Para detalhes sobre a morte do cantor, veja aqui.

Até mais!

Notas:

Amigo é pra essas coisas (Sílvio da Silva Junior e Aldir Blanc)