Catalonha para a páscoa!

Dany, personagem de Michael Quoist, dá algumas cenouras de presente para a irmã, no domingo de páscoa. Li o livro na adolescência (faz tempo!) e achei o presente estranhíssimo. O cenário do livro O Diário de Dany é o Havre,  cidade portuária francesa; o autor pouco escreve sobre as reações da garota ao ganhar o presente do irmão.

Temos por ai uma montanha de ovos de páscoa; disponíveis, de todos os tipos, por diferentes preços. É comum ouvir gente lamentando pelos preços, ou reclamando dos quilos que virão com o consumo de chocolate. Pensei nisso logo depois de receber um presente. Eu ganhei um pote com catalonha. Prontinha, temperadinha e com uns “tecos” de bacon, deixando a receita mais deliciosa.

Recebi a catalonha (da família do almeirão, conhecida por alguns como radicchio!) feliz da vida, como o meu primeiro presente de páscoa. De quebra, veio um delicioso doce de banana caseiro que nem esperei voltar para casa e iniciei o “ataque”.

Catalonha e doce caseiro de banana! E recordei a história de Dany e da irmã. Quem me presenteou, o fez com a consciência de estar me oferecendo algo de que realmente gosto. E é bom refletir que catalonha não é algo fácil de ser feito; tem que ser folha fresquinha, muito bem lavada. Depois tem que ferver a verdura para tirar o amargo e então, só ai, fazer a receita. Ou seja, alguém dispensou parte do precioso tempo para preparar uma salada e, desta, reservou um bocado para me presentear.

Estamos próximos da páscoa. É um absurdo o que o comércio faz com os preços das coisas. De um lado tem a publicidade reforçando o hábito, lembrando o costume e fazendo a boca de muita gente ficar cheia de água, com as imagens do delicioso chocolate. Há aqueles que não têm problemas financeiros e adquirem caixas e mais caixas de ovos de todos os tamanhos. Há outros, que aguardam o preço baixo com a proximidade do domingo. E há pessoas que, graças a Deus, presenteiam os amigos com algo que eles gostam muito, pouco se preocupando com o “costume”, a obrigação do presente de ocasião. Acelga, almeirão, alface, couve, agrião… Catalonha para a Páscoa! Ninguém é obrigado a seguir o que a propaganda sugere.

Bom, resta contar o “destino” da catalonha: moro no Bixiga e embora noite avançada, ainda encontrei pão fresquinho na padaria (Vantagens da Bela Vista!). Em casa, despejei o conteúdo do pote em um prato, aqueci e comi com pão. E enquanto comia, deliciado, fiquei pensando na Páscoa, nos amigos, na possibilidade de, ao invés de presentear com o óbvio, buscar fazer o outro feliz. Depois da catalonha, “matei” o doce de banana, pensando sempre que a melhor ideia é fazer o outro feliz.

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Até!

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Obs. Quem me presenteou é muito discreta. Respeito isso.

Ederaldo e Ademilde, a Rainha!

O ouro afunda no mar

Madeira fica por cima

Ostra nasce no lodo

Gerando pérolas finas… 

O Brasil perdeu de uma só tacada, Chico Anysio, Millôr Fernandes, Jorge Goulart, Ederaldo Gentil e Ademilde Fonseca. Muita gente boa. A Rede Globo prestou merecidas homenagens ao humorista e até resgatou – no calor da hora – o programa A Escolinha do Professor Raimundo para o horário das manhãs. Aqueles que têm boa memória irão recordar que Chico Anysio andou reclamando a falta de espaço que não lhe foi dado, nos últimos anos. Que a emissora aproveite do momento para faturar um pouco mais é inevitável; pelo menos reverencia a memória de um funcionário que deu muita audiência e dinheiro para a família Marinho.

Ederaldo, Ademilde, Millôr, Chico (como Popó, meu preferido) e Jorge Goulart

Jornais, telejornais e revistas lembraram a obra do genial Millôr Fernandes. Ele está em uma das chamadas de capa da Revista Veja. Em todos os lugares há entrevista de familiares, publicação ou leitura de frases do humorista Millôr e, entre diferentes homenagens, os depoimentos de profissionais, parceiros de longos anos do teatrólogo que, além de textos próprios, deixou excelentes traduções de peças de Wiliam Shakespeare.

Não queria ser o mar

Me bastava a fonte

Muito menos ser a rosa

Simplesmente o espinho

Não queria ser o caminho

Porém o atalho

Muito menos ser a chuva

Apenas o orvalho…

Dos outros três artistas falecidos falaram menos. Bem menos. Jorge Goulart foi um dos reis do rádio, é um dos artistas mais cantados em todo país, compositor e cantor de um mega sucesso: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é…”. Também foi o primeiro a gravar “A voz do morro”. Ederaldo Gentil foi um compositor baiano, falecido neste 30 de março. Em 1975 o Brasil inteiro cantou e, ainda hoje, “O ouro e a madeira” é um dos mais belos sambas de todos os tempos; o autor do samba cujos versos estão aqui, neste post, foi Ederaldo Gentil, que foi também parceiro do célebre Batatinha,.

…Não queria ser o dia

Só a alvorada

Muito menos ser o campo

Me bastava o grão

Não queria ser a vida

Porém o momento

Muito menos ser concerto

Apenas a canção…

Ademilde Fonseca está entre um tipo de intérpretes muito peculiares. Um país do tamanho do nosso possibilita uma voz regionalíssima como a de Elba Ramalho, ou uma voz absolutamente diferenciada como a de Tetê Espindola. Ademilde é aquela da articulação primorosa, com um domínio absurdo sobre a palavra cantada.

Qual teria sido o destino de chorinhos como “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” sem as palavras cantadas primorosamente por Ademilde Fonseca? Apreciamos demais uma série de músicas instrumentais, entre elas alguns chorinhos admiráveis. Mas, “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” lembramos fácil graças ao abençoado fôlego de Ademilde. Aposto que a maioria dos que lêem este blog conhece o balanço do ritmo gostoso, eternizado por Ademilde Fonseca.

“O tico-tico tá

Tá outra vez aqui

O tico-tico ta comendo meu fubá

O tico-tico tem, tem que se alimentar

Que vá comer é mais minhoca e não fubá…”

(Alberico Barreiros e Zequinha de Abreu)

“O brasileiro quando é do choro
É entusiasmado quando cai no samba,
Não fica abafado e é um desacato
Quando chega no salão…”

(Waldir Azevedo e Pereira Costa)

Ademilde Fonseca foi a Rainha do Choro. Um ritmo entre os únicos verdadeiramente brasileiros. Sendo Ademilde uma das poucas que canta choro com propriedade, merece todas as homenagens. O cenário da música brasileira está cheio de umas “mocorongas” que balbuciam letras, com ar de enfado, simulando um distanciamento que é falso, estudado.

Uma geração abaixo de Ademilde Fonseca consegue cantar com dignidade essas canções: Wanderléa, Baby do Brasil, Maria Alcina e Gal Costa estão entre as poucas cantoras com competência para cantar chorinhos. Das novíssimas cantoras, será que tem alguma que se habilita? Mas, sem aquele arzinho “mocorongo”, olhando de soslaio e pensando que é “diva”. Bem, o bom de tudo é saber que os versos de Ederaldo permanecerão, assim como Ademilde Fonseca, que será para todo o sempre aquela que deu voz ao choro.

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Até mais!

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Notas:

1) Jorge Goulart faleceu em 17 de março. Chico Anysio faleceu em 23 de março.  Millôr Fernandes e Ademilde Fonseca faleceram em 27 de março. Ederaldo Gentil faleceu no dia 30.

2) “O ouro e a madeira” foi um imenso sucesso na voz do grupo “Nosso Samba”.

3) “A cabeleira do Zezé” de Roberto Faissal e João Roberto Kelly foi originalmente gravada em 1964.

4) Ademilde gravou Tico-tico no fubá em 1942. Brasileirinho foi gravado pela cantora em 1950.

Bethânia, oásis da música brasileira

O lançamento do 50º álbum de Maria Bethânia celebra a carreira de uma das mais importantes cantoras da nossa história. “Oásis de Bethânia” é o título do novo trabalho, que tem na capa uma imagem do semi-árido brasileiro, em pleno sertão nordestino. Para a imprensa justificou a capa: “- Preciso lembrar que existe esse lugar no meu país. Isso me coloca do tamanho que eu sou”. Essa é a Bethânia, a mulher admirável, a mulher brasileira.

Ouvindo as dez faixas do cd,  reforço a certeza de que a discografia de Maria Bethânia sintetiza toda a música do país. Não é exagero afirmar que conhecer Bethânia é conhecer nossa música. Nos discos da cantora todos os ritmos, todas as regiões, todos os maiores compositores de nossa história. De Noel Rosa a Chico Buarque, Bethânia, que lançou em disco o irmão Caetano Veloso, canta Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ari Barroso, Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues, D. Ivone Lara, Joyce, Edu Lobo, Alceu Valença…

Poxa, são 50 álbuns. A lista desse Oásis de qualidade que é a carreira de Maria Bethânia cabe muito mais nomes. De Luiz Gonzaga a Gonzaguinha, tem também Djavan, Gilberto Gil, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento, Roberto Mendes, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Haroldo Barbosa, Moraes Moreira, Dominguinhos e, que me perdoem todos os outros, vou encerrar essa lista primária com Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

Além dos maiores compositores brasileiros, Maria Bethânia celebrou, em seus discos, as grandes cantoras do país, sempre respeitosamente reverenciadas por ela. As duas cantoras mais presentes em seus discos são Gal Costa e Dalva de Oliveira. Com a amiga Gal, muitas gravações em dupla, com sucessos memoráveis, como “Sonho Meu”. De Dalva, Bethânia resgatou boa parte do repertório da mais notável cantora da era do rádio; inclusive no presente álbum, Dalva de Oliveira é lembrada através de “Calúnia” (Marino Pinto e Paulo Soledade).

Muitas outras cantoras estão nos discos, álbuns ou DVDs de Maria Bethânia. Nara Leão, Alcione, Miúcha, Sandra de Sá, Wanderléa, a cubana Omara Portuondo, a francesa Jeanne Moreau, Dona Ivone Lara e, entre muitas outras, Ângela Maria e a divina Elizeth Cardoso. Como fez com Dalva de Oliveira, Maria Bethânia relembrou em outros discos as canções de Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Maysa, Isaura Garcia, Elis Regina…

Minha cantora preferida é incansável. Além dos próprios discos, Bethânia produziu outras cantoras, como D. Edith do Prato e a jovem Martinália e prepara, para breve, um Songbook com oito CDs dedicados à obra de Chico Buarque. Este sempre esteve nos discos da cantora. No atual, ela gravou “O Velho Francisco” com Lenine, um dos grandes momentos do álbum. Apesar de tudo o que já gravou de Chico Buarque, Maria Bethânia quer mais. Pretende abordar todas as diferentes faces do grande compositor brasileiro.

O trabalho constante de Maria Bethânia é o que faz da “Senhora do Engenho” a menina baiana que roda a saia pelos palcos do mundo todo, com uma graça e presença inconfundíveis. Estou, propositalmente, falando pouco sobre o atual disco, pois o lançamento do 50º álbum de Maria Bethânia é fato para lembrar aspectos de uma carreira brilhante, única.

Oásis é onde o caminhante do deserto mata a sede. Oásis é o lugar agradável, paradisíaco, pleno de água e sombra e conforto. O “Oásis de Bethânia” é a caatinga nordestina, o pampa gaúcho, a chapada mineira, a mata e o sertão brasileiro. A obra de Bethânia é o oásis de qualidade das nossas canções.

Maria Bethânia incomoda muita gente. Quando todo mundo engole, economiza palavras, Bethânia nos brinda com a poesia de Fernando Pessoa, Castro Alves e torna populares os densos temas de Clarice Lispector. Incomoda, porque enquanto incontáveis artistas se rendem as leis de consumo, Bethânia grava Villa Lobos, revive Catulo da Paixão Cearense, e torna populares os pontos de Oxossi, Iansã.

Enfim, se milhares de brasileiros entregam-se a uma aposentadoria precoce, vivendo apaticamente em função de um copo de cerveja, um jogo de futebol ou um ordinário programa de televisão, de outro lado, uma jovem senhora baiana,  de 65 anos, nos dá claros sinais de que está longe de parar. Gravou o 50º e prepara oito novos álbuns para o próximo ano. Depois; bom, depois virão outros e mais outros e, tomara, muitos outros!

Que bom poder beber no seu Oásis, Maria Bethânia!

Bom final de semana!

Marlene Dietrich, as pernas do século

Algumas mulheres entram na vida da gente sem pedir licença; e ficam. Lá pelas tantas surge alguém, tipo Marlene Dietrich, que toma posse de parte do nosso cérebro, permanecendo para sempre na nossa lembrança.

Marlene Dietrich, inesquecível.
Marlene Dietrich, inesquecível.

Eu já havia assistido “Testemunha de Acusação”, provavelmente no TEU – o Teatro Experimental de Uberaba – quando anunciaram o filme na televisão. Na telinha a mulher misteriosa, cínica, instigante. Também mentirosa, fria, falsa. Mais ainda: fascinante, belíssima, sensual e forte, decidida.

Marlene Dietrich deu vida à personagem de Agatha Christie no filme que ainda tinha outro grande ator, Charles Laughton, além de um dos mitos de Hollywood, Tyrone Power. Depois de “Testemunha de Acusação”, fui descobrindo mais e mais sobre a atriz alemã, sua voz inconfundível, a beleza única de um rosto belíssimo e as pernas lendárias.

Sylvia Bandeira é a estrela de “Marlene Dietrich, as pernas do século”

Mágica teatral: Marlene Dietrich estará em São Paulo; a bela Sylvia Bandeira é a estrela da montagem “Marlene Dietrich, as pernas do século”, que estréia na cidade no próximo 30 de março; o texto é de Aimar Labaki e a direção de William Pereira. Uma síntese da sinopse do espetáculo:

No final da vida, já bem idosa, Marlene conhece um jovem que não faz a menor idéia de quem ela seja. Já às vésperas de completar 90 anos, ela acaba seduzindo o rapaz de uma forma bem diferente de quando brilhava absoluta no cinema e nos palcos. Se não conta mais com o frescor da juventude nem com as lendárias pernas, seu charme e inteligência estão mais vivos do que nunca, e somados a uma grande aliada: a memória. Ao narrar para o desavisado rapaz sua trajetória, a diva o envolve e o fascina por ter sido testemunha e personagem dos acontecimentos mais marcantes do século XX.”

Os acontecimentos são muitos. As duas Grandes Guerras; a ousadia da mulher que vestiu calça comprida; a cantora que vai para o front cantar para os aliados, após ter dito não aos convites de Hitler; a alemã que deixou sua terra e ganhou o mundo, sempre com idéias próprias e marcantes. Certamente também será lembrada a atriz dos diretores Josef Von Sternberg (“Anjo Azul”), Billy Wilder (Testemunha de Acusação) e muitos outros filmes europeus e americanos.

Depois da II Guerra Mundial cresce a carreira de Marlene Dietrich como cantora. Grava grandes nomes e faz-se acompanhar por ninguém menos que o maestro Burt Bacharah. Além do músico, também Eric Maria Remarque, Jean Gabin, Yul Bryner, Ernest Hemingway, Frank Sinatra e Cole Porter estão entre os homens que passaram pela vida da estrela.

Versões da capa do disco que contém "Luar do Sertão"

Um dos grandes discos de Marlene Dietrich foi feito no Brasil. Sim, ela veio por aqui e cantou no Rio de Janeiro, encontrou-se com Cauby Peixoto, Juscelino Kubitschek e mais algumas centenas de brasileiros, apaixonados por ela. No show, registrado em disco, um momento encantador quando ela canta, em bom português, a música “Luar do Sertão” (clique aqui e ouça a canção). Esse é um momento que não deve faltar na montagem sobre a vida de Marlene que estreia em São Paulo.

“Marlene, as pernas do século” estreou no Rio de Janeiro. O musical com Sylvia Bandeira ainda tem, no elenco, José Mauro Brant, Marciah Luna Cabral e Silvio Ferrari. No palco, embora esses tempos atuais, tomara que Sylvia venha com as baforadas sedutoras de um cigarro no canto dos lábios, com o charme e a beleza eternizada pela grande tela de uma das mulheres mais fascinantes de todos os tempos.

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Até Mais!

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ANOTE:

Teatro Nair Bello, Shopping Frei Caneca – Rua Frei Caneca, 569 – 3° andar, sexta, às 21h30.     Sábado, às 21h. Domingo, às 18h. Telefone:  3472-2414.

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De Chirico chegou!

Obra da fase inicial do artista: Gare Montparnasse, 1914

Na UNESP conheci De Chirico; a Marise e o Giorgio. Nessa ordem; a Marise foi minha colega e desde então minha grande amiga. Ela é De Chirico e sempre estudou o outro, o De Chirico greco-italiano. Minha amiga esteve na Itália, aprofundando-se no assunto sobre o qual dissertou em trabalho de mestrado. Conheci o trabalho do pintor na convivência com Marise. Depois, vi coisas dele em andanças por aí. Agora em São Paulo parte da obra desse artista singular.

De Chirico esteve em vários lugares antes de chegar a Paris, no início do século passado. Cidades da Grécia, Alemanha e da Itália, onde, em Florença, começa seu trabalho característico, que veio a ser denominado Escola Metafísica. “O enigma do Oráculo” e “Enigma de uma tarde de outono” estão entre as obras que dão o impulso inicial da Escola, que se caracteriza por combinar elementos anteriores ao artista com outros, retirados do cotidiano observado por ele. Em Paris expõe a série baseada na estação de Montparnasse (imagem acima), passando a ser reconhecido por seus pares.

Foi na capital francesa que o poeta Apolinário e o pintor Pablo Picasso disseram ser Giorgio de Chirico o pintor mais extraordinário de seu tempo. As praças misteriosas, as personagens estranhas, sugerem repetição e invenção. Um universo peculiar que instiga quem observa e faz do observador participante ativo quando este busca respostas aos “enigmas” propostos pelo artista.

As cidades e as personagens de De Chirico. (Reprodução / divulgação)

O insólito proposto por De Chirico está no Brasil, tendo primeiramente passado por Porto Alegre, na Fundação Iberê Camargo. Está no MASP, em São Paulo, até o dia 20 de maio e depois seguirá para Belo Horizonte, em Minas Gerais, onde será exibida na Casa Fiat, (29 de maio até 29 de julho). São 45 pinturas, 11 esculturas e 66 fotografias, da coleção da Fondazione Giorgio e Isa de Chirico, sediada em Roma.

Denominada “De Chirico: O Sentimento da Arquitetura”, a exposição tem curadoria da arquiteta e crítica italiana Maddalena d’Alfonso. Prioriza a produção dos anos 60 e 70 do artista, falecido em 1978. Paisagens urbanas, cidades que mesclam arquitetura antiga e clássica e as estranhas figuras humanas criadas pelo pintor, que antecedeu o Surrealismo e alimentou este. A Fiat é a patrocinadora do evento que foi beneficiado pela Lei de Incentivo a Cultura, e que pode ser visto por R$ 15,00. Estudantes, professores e aposentados, com comprovantes, pagam R$ 7,00.

Certamente Marise De Chirico escreveria melhor sobre o tema. Fica aqui o convite para que ela escreva e para que todos compareçam ao MASP. Fica também um pedido para que Marise coloque na web as releituras que fez da obra de Giorgio de Chirico, que se constituem em um dos trabalhos de mestrado mais incríveis que tive a oportunidade de conhecer.

Boa semana para todos.

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O realejo e a minha boa fortuna

A única coisa que esperamos, indo ao médico, é receber a notícia de que está tudo bem. Aí, a vida é bela e o rio Nilo continua tranqüilo, a viagem na nave permanece suave. Essas brincadeiras tipo “tranqüilo no Nilo”, “suave na nave” ou “de boa na lagoa” aprendi com um amigo querido e foi mais ou menos assim que voltei da consulta.

Literalmente, quando estava “de bobeira na ladeira” foi que vi o homem com o seu realejo. A ladeira, do bairro Liberdade, em São Paulo. E a visão do senhor com a velha geringonça trouxe de volta uma das canções que aprendi na infância.

… já vendi tanta alegria

Vendi sonhos a varejo

Ninguém mais quer hoje em dia

Acreditar no realejo…

Cantarolando mentalmente e assim me distanciando, senti de imediata a sensação de oportunidade perdida. Poxa, o realejo estava ali. Era poeticamente real e eu estava perdendo a chance de saber o que me aguarda, qual sina ou destino tenho pela frente.

Sua sorte, seu desejo

Ninguém mais veio tirar

Então eu vendo um realejo

Quem vai levar?…

Voltei e, timidamente, pedi para tirar uma foto. Prontamente o Senhor Luiz Carlos – nome nada exótico para um portador de destinos via realejo – consentiu e, em seguida, apresentou-me sua companheira de trabalho: “- Cristina! Venha para fora posar pro moço! Venha, Cristina!”.

Luiz Carlos e Cristina

Fiquei ali, diante de uma papagaia chamada Cristina, conversando com o Senhor Luiz Carlos que, orgulhosamente, informou-me ser paulistano, morador de Itaquera. “– A máquina veio da Argentina e há muito está comigo”. A idade da máquina, visível até na foto, era reforçada por uma música tão fanhosa, que lembrava uma rabeca estranha, uma gaita desafinada. Todavia, eu já estava tomado pela ansiedade em conhecer a minha sorte.

“- Cristina! tire a sorte do moço! Venha, Cristina! Escolha direito, escolha com cuidado, sem pressa. É a sorte do moço, Cristina!”

“- Agora, Cristina, carimbe a sorte do moço. Venha, menina! Muito bom, Cristina! Seja feliz, moço!”‘

Agradeci e retomei meu caminho, segurando o pequeno papel como se este fosse um talismã, uma jóia raríssima, um recado dos deuses para os dias que me restam no planeta. Quis me distanciar e, em uma praça, diante de um belíssimo e florido arvoredo, li o recado que me foi entregue pela papagaia Cristina:

“Tenha V. Sa. muito cuidado com as pessoas que tratam em sua casa ou fora dela; os aduladores deixe-os a um lado porque são eles que o estão a explorar; mas não tem que fazer caso; o seu nascimento anuncia a glória sobre os seus inimigos. V. Sa. será surpreendido; terá uma herança inesperada e a soma de dinheiro que receber causar-lhe-á muita alegria; com esse dinheiro ganhará V. Sa. muito, e, sem que o saiba, será senhor de muitos bens.”

Puxa vida! Que maravilha! Voltando do médico com a saúde em dia, encontrei o homem do realejo que veio informar-me que serei vitorioso ante meus inimigos e ainda dono de muitos bens! Pouco me importou a tarde sem sol, a tempestade anunciada. Como trilha sonora em cinema reli o papel enquanto recordava outra bela canção:

Sim, quem dentre todos vocês

Minha sorte quer comigo gozar?

A mensagem termina assim: V. Sa. tem tido muitos pesares até agora, mas doravante será perseguido pela fortuna. Terá sorte na loteria com o número… (será que tenho algum inimigo lendo este texto? Melhor guardar segredo.)

Dentro de casa já tinha tido o calor diminuído pelas primeiras gotas de chuva caídas sobre meu corpo. Mas eu estava serenado, feliz por morar em São Paulo e, em uma tarde qualquer de uma quinta-feira do mês de março, poder encontrar o homem do realejo e ter a certeza de que a fortuna me espera. Como viver e não dividir tudo isso?

Recostado em uma mureta, lendo minha sorte bem em frente ao arvoredo que ignora o outono.

Sim, quem dentre todos vocês

Minha sorte quer comigo gozar?

… no coração do meu corpo um porta-jóias existe

Dentro dele um talismã sem par…

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Bom final de semana!

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Notas: A primeira música citada é “Realejo”, de Chico Buarque de Holanda. A segunda é “Talismã”, de Waly Salomão e Caetano Veloso.

Volto na próxima sexta-feira

Todos os que passam sempre por este blog sabem que escrevo, costumeiramente, as segundas, terças e sextas; estou com alguns compromissos inadiáveis; por isso, só este recado. Volto na próxima sexta-feira, dia 23. Contando com sua compreensão e, desde já, agradecendo sua visita.

Abraços

Valdo Resende