Boa música para começar o carnaval

Dalva de Oliveira e Marlene.
Dalva de Oliveira e Marlene.

“Hoje, eu não quero sofrer

Hoje eu não quero chorar

Deixei a tristeza lá fora

Mandei a saudade esperar…”

Penso em carnaval e recordo os versos de “O primeiro Clarim” , criação de Klécius Caldas e Rutinaldo Silva que tive o privilégio de ver Dircinha Batista cantar.  Dircinha foi uma cantora extraordinária, talentosa tanto quanto sua irmã, Linda Batista.

“… Hoje eu não quero sofrer

Quem quiser que sofra em meu lugar…”

Algumas músicas de carnaval tem esse poder de alimentar sonhos e, incrível, fazer com que grandes tristezas sejam transformadas em belíssimos versos. E é possível sair pelos salões, quando há salões, cantando e dançando uma triste sensação de rejeição, como esse Malmequer, composição de Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar:

Eu perguntei a um malmequer

Se meu bem ainda me quer

E ele então me respondeu que não

Chorei, mas depois eu me lembrei

Que a flor também é uma mulher/

Que nunca teve coração…

Não é porque é carnaval que a gente perde o senso crítico. Algumas gravações para o carnaval de 2014 são no mínimo lamentáveis. Sabem-se lá quantas são as tramas dos negócios que permeiam “músicas para consumo”; todavia, na falta de algo que seja efetivamente bom, não seria legal regravar uma bela canção e fazê-la voltar na boca do povo?  João de Barro e Noel Rosa e tantos outros  merecem suas canções gravadas nas vozes de Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Claudia Leitte. Mais que músicas e atitudes autopromocionais, esperamos grandes canções dessas profissionais. E a propagar versos precários e medíocres, porque não cantar, por exemplo, Estrela-do-Mar, de Marino Pinto e Paulo Soledade? De quebra ainda homenageariam a grande Dalva de Oliveira:

Um pequenino grão de areia

Que era um pobre sonhador

Olhando o céu viu uma estrela

E imaginou coisas de amor ô-ô-ô/

Passaram anos, muitos anos

Ela no céu, ele no mar

Dizem que nunca o pobrezinho

Pode com ela encontrar.

Talvez nossos cantores de agora não cantem esse tipo de música pela impossibilidade de enfiar um “tira o pé do chão” no meio da letra. Ou então, imaginem só Elizeth Cardoso dizendo um “Levanta o braço ai!” entre os versos de “As Pastorinhas”!

A estrela d’alva

No céu desponta

E a lua anda tonta

Com tamanho esplendor

E as pastorinhas

Pra consolo da lua

Vão cantando na rua

Lindos versos de amor

João de Barro e Noel Rosa sempre tiraram o pé do chão. As canções de carnaval ou são marchinhas, ou marcha-ranchos… E são tão geniais que não carecem de um “Quem gostou faça barulho”, porque é impossível ficar calado quando a música é boa. Lá pelas tantas, o coro é geral e fortíssimo em versos como esses:

Linda criança

Tu não me sais da lembrança

Meu coração não se cansa

De sempre e sempre te amar.

Emilinha Borba, Elizeth Cardoso e, abaixo,as irmãs Dircinha e Linda Batista
Emilinha Borba, Elizeth Cardoso e, abaixo,as irmãs Dircinha e Linda Batista

Tenho certeza de que as primeiras músicas de carnaval que me fizeram a cabeça foram cantadas por Marlene e Emilinha Borba. Esta última era extremamente popular com sua Chiquita Bacana e, na minha infância eu gostava da ideia de um “tomara que chova três dias sem parar”. Aliás, bem propícia para esse ano, quando estamos na eminência cantar com muita verdade que  “a minha grande mágoa é lá em casa não ter água e eu preciso me lavar…”. Já Marlene, era a melhor. A mais bonita e a grande intérprete com seu “Apito no samba, “Lata d’água” e tantos outros. Mas, há sempre um mas… A primeira paixão musical de carnaval veio com Dalva de Oliveira, uma das maiores cantoras deste país. Depois de “Máscara Negra  (Zé Kéti/Hildebrando Matos), o carnaval, marchinhas e marchas-rancho entraram definitivamente na minha vida. Há quem resista a esses versos?

Tanto riso

Oh, quanta alegria

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina

No meio da multidão…

Se estiver difícil ouvir “bagunceiras” e outras bobagens, tente isso: Ao clicar nos títulos das canções abrirá um link para ouvir a música no Youtube. Há alguns vídeos com cenas interessantes. Divirtam-se!

E bom final de semana!

Até!

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Sempre no Vapor Barato de Jards Macalé

jards_macalé

Decidi lá na adolescência, que não queria “ficar dando adeus às coisas passando” e assim, pensando que gostaria de “passar com elas”, sempre estive pronto para sair, ir embora. Percebo, passados tantos anos, que as idéias de “Movimento dos barcos”, de Jards Macalé e Capinan, estão entre os norteadores da minha vida.

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo…

Essa música forte, na voz intensa de Maria Bethânia, é, na minha modesta opinião, o que há de melhor em termos de uma canção sobre o fim de um relacionamento. O quarto e o quinto versos da letra de Capinan são de uma beleza aterradora:

Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei…

Precisamente, Jards Anet da Silva nasceu em um 03 de Março de 1943 no Rio de Janeiro. Hoje, no domingo em que escrevo este post, o músico completa 70 anos. Parece que a origem do apelido está em um antigo jogador do Botafogo, tão ruim de bola quanto o jovem Jards. Grande fera da música brasileira, a carreira de Jards Macalé é sólida, com trabalhos marcantes que contribuíram para o sucesso dos baianos. Além de Maria Bethânia, Jards comparece em trabalhos de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa.

Em parceria com Wally Salomão, Macalé criou alguns grandes sucessos para a voz límpida de Gal Costa. Quem é jovem, quem foi nos anos de 1970 para cá, identifica-se tranquilamente com os versos de “Mal Secreto”:

..Se você me pergunta: “Como vai?”
Respondo sempre igual: “Tudo legal!”
Mas quando você vai embora
Morro meu rosto no espelho
Minha alma chora…

Sempre fui grato aos dois compositores e não sei dizer, nem de longe, quantas vezes me senti o “rapaz esforçado”, exposto via Gal:

Não fico parado, não fico calado, não fico quieto
Eu choro, converso
E tudo o mais jogo num verso
Intitulado mal secreto

O criador do “Banquete dos Mendigos” tem um longo histórico. Bastaria uma canção para colocá-lo entre os nossos maiores criadores musicais; ou há alguém que, conhecendo, não goste de “Vapor Barato”?

Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
(Graças a Deus)
E não me importa, honey
Oh, minha honey baby

Jards Macalé e Wally Salomão (fonte: site do compositor)
Jards Macalé e Wally Salomão (fonte: site do compositor)

Novamente com o parceiro Wally Salomão, Jards, em Vapor Barato, retrata uma geração, um momento brasileiro (1971) via show “Fa-Tal, Gal a todo vapor”. Fez isso com tal maestria que ouvindo Gal lembramos do Brasil de então e do rapaz da esquina, parado no ponto de ônibus, desolado em um banco de jardim:

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto (quem sabe)

Ah, cidadão Macalé. Pudera eu dizer pessoalmente o quanto gosto dessas canções, o quão importante foi pensar e refletir, durante toda a minha vida, enquanto cantarolava esses versos:

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

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Feliz aniversário, Jards Macalé!

Boa Semana para todos.

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As fotos que ilustram este post estão divulgadas no site do compositor.

Veja mais sobre Macalé em:

http://www.jardsmacale.com.br/

As letras das canções acima e de outras criações do compositor estão em:

http://www.mpbnet.com.br/musicos/jards.macale/index.html

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Mangueira é um “Catavento a Girar”

Logo ali já se vê o carnaval chegando. É bom escrever sobre sambas de enredo e grandes escolas. Pra continuar vou de Mangueira, a Estação Primeira, cantada em verso e prosa desde sempre.

Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira
Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira!

Mangueira poderia ser qualquer lugar. As mangueiras proliferam-se pelo país. Belém do Pará, por exemplo, é lembrada por seus mangueirais. Transformar um lugar comum em algo mítico, especial é privilégio da criação artística. Em artes plásticas, em prosa, em poesia ou música, tudo pode ser transformado em sonho, diante de qualquer que seja a realidade. a música colocou no mapa da música brasileira uma Mangueira, eternizada nos carnavais, indo muito além de um único período do ano.

Mangueira é poesia em canção, como em “Sei lá Mangueira”, a criação dos mestres Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho.

Visto assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá, não sei
Em Mangueira a poesia fez um mar…

Esse mar vem de longe e, desde lá já merecia uma “Exaltação à Mangueira”, feita por Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites, imortalizada na interpretação de Jamelão:

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor…

Quando a poesia vai embora, em Mangueira apela-se para o passado. Dá samba bonito! Herivelto Martins já sabia disso quando criou “Saudosa Mangueira”:

Eu sou do tempo do Cartola
Velha guarda o que é que há?
Eu sou do tempo em que
Malandro não descia
Mas a policia no morro também não subia…

Falando em Cartola a lembrança desse morador permanece em Mangueira, nos sambas belíssimos, de uma brutal e encantadora simplicidade como “Alvorada”, onde Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho celebram as belezas do morro e da mulher brasileira:

…Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida…

Cartola é símbolo da escola, como Nelson Cavaquinho que, junto com Guilherme de Brito criou um dos sambas mais geniais de todos os tempos. Fico sempre na dúvida se a melhor interpretação deste samba é de Jamelão, Elis Regina ou Beth Carvalho:

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira…

Ah, Estação Primeira. De Dona Neuma, Dona Zica, de Jamelão de voz inconfundível, do “ Bumbo da Mangueira” Jorge Benjor tão bem homenageou e que Gal Costa canta como ninguém:

Eu conheço esse bumbo
Esse bumbo é da mangueira…
Ele sobe e desce o morro
Com cadência e precisão
E desfila na avenida
Batendo no compasso
Do meu coração
Bum, bum, bum…

Mangueira, a escola, vem encantando gerações. Levou a poesia de Chico Buarque e o som inconfundível de Tom Jobim para o alto, para o morro, junto aos sambistas da escola de cores verde e rosa:

…A minha música não é de levantar poeira
Mas pode entrar no barracão
Onde a cabrocha pendura a saia
No amanhecer da quarta-feira
Mangueira
Estação Primeira de Mangueira.

E é assim, só com versos de músicas de altíssima qualidade. Qual escola tem uma história contada dessa forma? Cantada? É fácil pra todo brasileiro gostar da escola de samba, amar suas cores, mesmo nunca tendo ido ao Rio, ao morro.

A música de Mangueira atravessou todas as fronteiras e fez da escola de samba um ícone, amado por quem gosta de samba e do Brasil. E pra terminar esse primeiro post só mesmo a lembrança desse “catavento a girar”, no “Chão de esmeraldas” cantado na composição de Chico Buarque e Hermínio Bello de Carvalho.

Me sinto pisando
Um chão de esmeraldas
Quando levo meu coração
À Mangueira…

Soberba, garbosa
Minha escola é um catavento a girar
É verde, é rosa
Oh, abre alas para a Mangueira passar!

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Até!

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Nota:

Logo mais escreverei sobre o carnaval da Mangueira neste ano de 2013. Antes resolvi preservar o texto acima, que havia sido publicado originalmente no Papolog, em 05/01/201

Lili Marlene e as escolhas humanas

O ser humano não escolhe apenas por instinto; diferente de qualquer animal, tem a capacidade de estabelecer critérios, analisar possibilidades e ponderar sobre as próprias decisões. Essa característica que coloca indivíduos em escala superior aos demais animais é um tanto mais complexa, já que existe o outro, o grupo familiar, a sociedade. Tomar uma decisão envolve ética, religião, filosofia, cultura, hábitos, a trajetória individual, a história…

Lili Marleen

“Lili Marlene” (Lili Marleen), o filme de Rainer Werner Fassbinder, é uma grande obra de arte por, entre outras qualidades, mostrar as diferentes nuances na escolha das personagens principais, uma cantora e um pianista. O cineasta alemão, morto em 1982, deixou alguns clássicos para o cinema do final do século XX. A filmografia de Fassbinder  é vasta e possibilita-nos uma visão diferenciada do mundo. Aprendemos um pouco mais com a obra do diretor.

“Lili Marlene” é baseado na história da cantora Lale Andersen. A atriz Hanna Schygulla interpreta a cantora ariana Willie, apaixonada e correspondida pelo pianista judeu Robert, papel de Giancarlo Giannini. Em plena guerra, em 1939, ela grava a canção “Lili Marleen” e a música torna-se a preferida dos soldados alemães, também admirada pelos inimigos, do outro lado do front.

Duas pessoas de raça distintas; uma canção que atravessa todas as fronteiras. Fassbinder, com essas duas situações, traça um sutil painel do ser humano frente às possibilidades de escolha. A trajetória do sucesso da canção evidencia a ascensão e queda do nazismo. Poeticamente, a guerra dá um tempo, parando por minutos, estagnada ao som da canção. As cenas com soldados imóveis, ouvindo a canção, têm mais força que qualquer arma de fogo. Já o amor entre Willie e Robert é movimento constante, intenso; o casal é levado a escolher lados, a decidir sobre comportamentos, a optar pelo próprio futuro. Com agilidade, roteiro inteligente e atores de primeiríssima qualidade, Fassbinder deixa evidente que a Grande Guerra é mais que uma simples luta de dois lados.

Escolhas! As situações cotidianas obrigaram-nos pensar um pouco mais sobre decisões, julgamentos. Porque escolher supõe julgar. E justamente por haver infinitas motivações e nuances em determinadas ações humanas é que temos que tomar cuidado com julgamentos. E se o “evidente” criminoso estiver dizendo a verdade? Quais as reais intenções daquela decisão do governante?  O juiz teria visto ou não a mão que tocou a bola? Na televisão escolheram o cantor porque é bom ou por ser bonito? Quais motivações movem a ação de relatores e ministros?

Lili Marleen
A guerra: pano de fundo que determina escolhas!

Opinamos baseando-nos em fatos. Escolhemos em função do que determinamos enquanto correto; todavia, nem tudo é o que parece e a história carrega fartos exemplos de mentiras que foram celebradas como verdade, de heróis que foram grandes bandidos e de criminosos que não passaram de vítimas das circunstâncias. Lale Andersen foi uma notável intérprete  alemã em pleno nazismo. Elis Regina cantou para os militares em plena ditadura.  Fassbinder mostra que Lale, através da personagem Willie, foi outra pessoa, assim como sabemos que Elis só cantou nas Olimpíadas do Exército, em 1972,  porque sentiu-se pressionada.

Ponderar os fatos com a devida cautela e perceber além do aparente; posturas que só o ser humano pode adotar. “Lili Marlene” levou-me a pensar sobre isso. Não é nada demais refletir um pouco sobre essa capacidade tão humana perante tantas histórias que infestam nosso cotidiano.

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Boa semana para todos!

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Escrever é eterno recomeçar

Então, vamos lá:

O ato de escrever é atividade mais ou menos árdua. Pensar, arquitetar e organizar as idéias. Ordená-las em frases, parágrafos. Rever o que foi escrito, revisar, cortar tudo o que é desnecessário. Pronto. Tornado público, o texto irá ou não estabelecer um diálogo com o leitor, o receptor. E para não cessar a comunicação, vem o recomeço: Pensar, arquitetar e, sobretudo, GOSTAR de escrever.

Volto a redigir em um blog neste primeiro de setembro de 2011, dia em que TARSILA DO AMARAL, a grande pintora do modernismo brasileira, é lembrada até pelo Google. Bom sinal. Pois é parte dessa nova proposta ir além do que escrevi em blog anterior, onde priorizei a música e vez em quando abordei outras formas de arte.

Neste blog assumo nova empreitada, com a música sempre presente. Para excluir qualquer possibilidade de dúvida quanto a isso escolhi o verso de CHICO BUARQUE, da música “ASSENTAMENTO”, ao lado do meu nome. Um primeiro norte para essa caminhada. Também escreverei sobre outro assunto, área de atuação pessoal: Teatro.  ARTES PLÁSTICAS, MÚSICA, TEATRO e um pouco mais, que entrará em uma categoria que denominei COTIDIANO.

E escolhi, homenageando a aniversariante TARSILA, uma reprodução do quadro “A Lua”. Uma sutil referência ao ato noturno de escrever. Desde adolescente, lá em UBERABA, cidade mineira onde nasci, quando o ato de escrever tornou-se hábito. Foi no silêncio da noite, o dia remoído, a vida tornada texto.

Tarsila nasceu em 01/09/1886.

Seja bem-vindo, caro leitor! Por gentileza, sempre que possível, troque uma idéia, deixe um comentário. Escrever é sempre para alguém, mesmo que este seja o próprio escritor. Prefiro o outro, VOCE, como interlocutor; então, se o tempo permitir, não me deixe a impressão de falar sozinho.

Obrigado. Volte sempre!