Quem tem dois corações…

diadosnamorados

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Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum… (1)

Ah! O nome da minha primeira namorada… Ela tinha cabelos loiros, encaracolados e um sorriso gracioso. Morava nas proximidades da minha casa e conhecemo-nos no primeiro ano de escola. Foi ela que se disse minha namorada… E eu gostei da ideia. Lembro-me dela muito bonita, cheia de laçarotes, vestidos rodados, bonita mesmo!

Botão de rosa menina

Carinhosa, pequenina

Corpinho de tentação

Vem morar na minha vida

Dá em ti terna guarida

Ao meu pobre coração (2)

O tempo passou… O primeiro amor, se é que se pode chamar de amor, veio quando vi dois olhos negros, profundos, de uma moreninha saindo da igreja no final de uma missa dominical. Demorei pra me aproximar e, tímido, passei meses andando de bicicleta pela rua onde ela morava. No bairro onde nasci, quando criança, eram muitas áreas por construir, transformadas em “campinhos” para brincadeiras. Foi em uma tarde nessas tais brincadeiras que tive a certeza, pela primeira vez, do interesse dela por mim. Passou, e a última vez em que estivemos próximos, foi durante um show do Roberto Carlos.

Se você quer ser minha namorada

Ah! Que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser… (3)

Tempo… Tempo… E aconteceu o primeiro beijo, bem distante da minha Uberaba, vindo de uma descendente de italianos, em Campinas, interior de São Paulo. Um namoro de férias, que durou um pouco mais. Dela recebi as primeiras cartas, cartões perfumados, fotos com dedicatória carinhosa; tudo guardado no baú de lembranças que há dentro do meu peito. Veio a adolescência, braba! E adolescente, sabe como é…

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo

Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora

Que amava…

Carlos amava Dora que amava

Pedro que amava tanto que amava a filha que amava

Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha  (4)

De repente, tudo ficou sério. Namoro deixou de ser descoberta pra ser ensaio, projeto para uma vida a dois. Ideais muito distintos e os conflitos, inevitáveis quando não se sabe ao certo por onde irá a vida, onde aportaremos o barco, de que maneira atuaremos profissionalmente para ganhar o pão nosso de cada dia. Aqui deixo de falar de namoradas, recordando os desencontros da vida, as separações doloridas. Lembrando, agora, foi tudo muito bom, mas então, naquele instante, quando não deu certo… O tempo digeriu mágoas, serenou ânimos. Cada um pro seu rumo, construindo a própria história.

Quando me lembro da minha bela mocidade

Tinha tudo à vontade, brincando no boi de Axixá

Eu brincava com você naquela praia ensolarada

A sua pele bronzeada eu começava a contemplar… (5)

O amor concebido como troca, complemento, doação, veio só quando já adulto. Natural que assim fosse. A vida,todo mundo sabe, é um constante aprendizado. Não posso dizer que tenha sido perfeito, que estávamos prontos para viver o amor. Mas por ser troca, complemento e doação, foi incrivelmente melhor que tudo o que eu havia vivido anteriormente.

Quero-te mais do que imaginas ser possível

Te trouxe um búzio mágico dessa viagem

Marinha melodia ao pé do teu ouvido

Já que pensas que sou um marinheiro audaz… (6)

Era uma vez… E aqui estou eu, em véspera do dia dos namorados. As coisas não se repetem e, graças aos céus, melhoram. Resta-me viver intensamente o agora enquanto condição para a tranqüilidade e sanidade futura. Assim sigo em frente!

…da cor do azeviche, da jabuticaba

E da cor da luz do sol, eu te amo!

Vou dizer que eu te amo!

Sim eu te amo, minha flor… Eu nunca te disse.

Não tem aonde caiba, eu te amo.

Sim, eu te amo.

Serei pra sempre o teu cantor. (7)

Quem tiver sem amor, esqueça a timidez, a preguiça e vá à luta na noite de Sampa, na noite do Brasil.. Não foi por acaso que comecei este texto lembrando os lindos versos de FERNANDO PESSOA, musicados por FERNANDO MENDES e cantados pela MARIA BETHÂNIA. Já que namorar é muito bom, vale repetir a trovinha, desejando que todos possam namorar um pouquinho! E amar “bastantão”!

Quem tem dois corações

Me faça presente de um

Que eu já fui dono de dois

E já não tenho nenhum

Quem tem dois corações… (8)

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Até!

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Notas Musicais:

(1),(2) e (7) – Quadrinhas – Fernando Pessoa, musicado por ROBERTO MENDES.

(3)Minha Namorada – Vinícius de Moraes e Carlos Lyra

(4)Flor da Idade – Chico Buarque

(5)Bela Mocidade – Donato e Francisco Naiva

(6)Todos os Lugares – Tite de Lemos e Sueli Costa

(7) Eu te amo – Caetano Veloso

Publicado originalmente no Papolog em 12/06/2009 e atualizado em junho de 2013/Valdo Resende.

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Frio e festa, é Junho!

São João, na visão da pintora Anita Malfatti
São João, na visão da pintora Anita Malfatti

Sinto que carecemos de nos aquecer ao redor de uma fogueira, de preferência assando pinhão, milho verde, batata doce… E ao chegar a noite, após rezar terço, todo mundo em festiva luta contra o frio, manter o fogo aceso, levantando bandeira pra dançar quadrilha.

Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro
Com seu capuz escuro e bolorento
As setas que passaram com o vento
Zunindo pela noite, no terreiro
Eu sei que é junho!

O Junho de Pernambuco é o mesmo de Minas Gerais, embora o junho de Alceu Valença, em Olinda seja bem mais quente que os junhos da minha Uberaba. E, certamente, muitos graus acima do junho da nossa São Paulo. E o frio de junho, que às vezes entorpece, torna tudo um pouco mais difícil.

Eu sei que é junho, esse relógio lento
Esse punhal de lesma, esse ponteiro,
Esse morcego em volta do candeeiro
E o chumbo de um velho pensamento

Di Cavalcanti também visitou o tema.
Di Cavalcanti também visitou o tema.

Alceu Valença, que faz música muito diferente de tudo aquilo que estamos habituados a ouvir, tem lá seu jeito de ver o mundo, de expressar sensações e acontecimentos. E a contrapartida desse junho cheio de festas pros santos – Antônio, João, Pedro – e de farras pelo futebol, é a música do pernambucano Alceu, quase premonitória ante tantas enchentes rolando por aí. O junho do compositor não é festivo, pelo contrário, é denso mesmo ante uma aparente suavidade. Chega a ser árido, como em certas regiões do país.

Eu sei que é junho, o barro dessas horas
O berro desses céus, ai, de anti-auroras
E essas cisternas, sombra, cinza, sul

E esses aquários fundos, cristalinos
Onde vão se afogar mudos meninos
Entre peixinhos de geléia azul
Eu sei que é junho!

O mês começando, anunciando frio pela frente, mas propiciando festas nos dias 13 para Santo Antônio, 24 para São João e 30, para São Pedro. Momentos de alegria, amenizando a temperatura e abrindo esperanças para as férias escolares de julho.

Os santos em destaque na pintura de Djanira
Os santos em destaque na pintura de Djanira

Acabo de ver bem de perto o céu de Uberaba, onde consigo perceber as estações do ano. Lá também consigo visualizar possíveis tempestades, prever temperatura. É junho e sinto falta das festas de lá, das fogueiras nas portas das casas, das bandeiras elevadas em nome dos três simpáticos santos. Por aqui, mal temos espaço pra levantar um único mastro em homenagem aos santos, quanto mais fazer fogueiras ou dançar quadrilhas em plena rua. Mas somos felizes nesta São Paulo; e, do nosso jeito, também podemos celebrar, reverenciar e comemorar o mês, os santos.

Eu sei que é junho!

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Viva São João! Viva Santo Antônio! Viva São Pedro!

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Até!

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Nota: A música Junho, cujos versos valorizam este post é de Alceu Valença; também foi registrada por Maria Bethânia. Para ouvir a música clique aqui.

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A mão sobre minha fronte

Laura Vinagreiro Resende

Lá onde o céu é azul

Alem do Rio Grande

Uma luz tênue de vela

Roga aos céus, apela

Alguém!

Esse alguém é minha mãe; sempre pronta e disposta a rezar por todos nós. Ladainhas, terços, rosários… Antes, mais jovem, mamãe acendia velas para todos os santos. Sempre por nós; os filhos, os netos e, também, os irmãos dela, os sobrinhos, os primos, as tias…

Sempre confiei nas orações de minha mãe. Acredito que Deus ouve todas as mães, principalmente quando elas não pedem por si, mas pelo bem de todos os seus.

Além do Rio Grande fica Minas Gerais, Uberaba, onde minha mãe pede a intercessão de Nossa Senhora da Abadia, a proteção da Medalha Milagrosa. Santo Antônio ajuda-a a achar coisas; São José traz chuvas. Todos os santos e santos permeiam a vida de minha mãe que, às vezes, cochila um pouquinho entre uma reza e outra. Para quem pede tanto, alguns minutos de descanso são mais que merecidos.

Longe de si minha luta

Acima de mim seu afeto

Une espaço e tempo

Retém cada momento;

Alguém!

Nossa mãe nos deu asas; aquelas invencíveis, denominadas conhecimento. Fomos além até do que ela pode entender e adquirimos um vocabulário, às vezes, inatingível para seus conhecimentos. Não importa; ela conhece as coisas do gostar, do querer bem.

Mamãe fala com os que já foram como se estivessem ouvindo-a. Não, ela não é médium; papai, meus avós, meu irmão e tantos outros permanecem vivos no coração de minha mãe; na fala cotidiana de uma longa vida que desconhece as medidas de tempo. Estas medidas que são meras abstrações, distantes da realidade da alma. Da alma de todas as mães.

Livre, acho eu, liberta:

Acuada, talvez, pelo amor

Uma mulher pequena

Rindo-me, serena

Alguém!

Dona Laura, a nossa mãe, tratou de viver a vida como achou que devia. Foi longe para os parâmetros de meus avôs sem jamais deixar-se distante deles. Gosto de saber das lutas que teve e sou grato pelas batalhas que venceu principalmente por garantir a todos nós, seus filhos, uma vida melhor.

Aqui, sozinho neste momento e em tantos outros, sinto falta da mão de minha mãe sobre minha fronte. Nada neste mundo me acalma tanto, me propicia sono tranqüilo e momentos de intensa paz. Sempre que próximo, em toda e qualquer instância recebo de minha mãe o afago supremo, o remédio eficaz; o calor de sua mão sobre minha testa, fazendo-me fechar os olhos, em paz..

Os versos acima são de uma música, denominada Leréia  que fiz para minha mãe. Quero registrá-los aqui, desejando que mães e filhos possam ter um dia cheio de carinho e, sobretudo, afeto. Esse imenso afeto que, junto com meus irmãos, tenho por Laura, a minha mãe.

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Até!

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Redivivo

De Uberaba veio notícia de perdas. Na manhã de hoje reencontro o velho senhor, simpático vizinho, que há tempos não aparecia na porta de nosso prédio. Notei que sentia falta do bom dia do senhor que está com 86 anos. Pergunto se está tudo bem; ele responde: “- Bem, bem mesmo, nunca mais! Mas temos que continuar, não é assim?”

Enquanto caminhava para o médico,  ironicamente senti o peso da expressão “bem, bem mesmo, nunca mais”. Recordei um velho poema que escrevi quando jovem, pensando em Maria Elza Sigrist, amiga querida. Não sabíamos que alguns problemas de então eram só um pequeno esboço do que a vida nos reservava; lá, como hoje,  a poesia melhora a vida.

redivivo

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Reviver a partir da perda,

Tendo em frente o nada

Retrocedendo um pouco.

Afastar ilusões, buscando novas

Porque  é parte.

Estar atento ao novo encontro.

Se possível, duradouro,

Pra ter chances de ser profundo

Porque assim vale.

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Vestir roupas novas, sorrisos;

Remoçar e ser, intensamente,

Prosseguir e amar calmamente

Porque não há pressa.

E não se desesperar com ventos fortes

Céu escuro, tempestades,

Ignorando possíveis acidentes

Pra ser inesperado e,

Ao vir, deixar-se morrer sem muita luta

(Amor pinta sem labuta).

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Mergulhar no negro desencontro

Buscar forças, energias

Para outra vez…

Reviver a partir da perda.

(Redivivo/Valdo Resende)

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Até mais!

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Um dia de domingo

Crochê por Walcenis V Rezende
A paz é sonho

Cedo aprendi que domingo era dia de descanso, de oração, de estar com amigos ou familiares. Também deveria ser um dia de refeições caprichadas, de sobremesas especiais e tardes preguiçosas diante da TV ou na sala de algum entre os cinemas da cidade. Quando mais jovem era o dia ideal para longas caminhadas, jornadas extensas pela zona rural da minha Uberaba.

Hoje acordei com a tenebrosa notícia de um rapaz ciclista que, atropelado, perdeu o braço. O braço, diz a notícia, ficou preso no carro do motorista que, abandonando o pobre ciclista fez uma parada para jogar o membro no córrego que passa no centro de uma avenida, no Ipiranga.

A lista de acontecimentos violentos é vasta; nem se resolveu a questão dos torcedores presos após a morte de um torcedor “rival”, na Bolívia, e já chegou a notícia de outros marmanjos que, após um jogo perdido, desceram o braço na equipe “do coração”. No Rio de Janeiro, também neste domingo, outro motorista atropelou duas pessoas. O cidadão dirigia uma Ferrari, símbolo de poder econômico. O mesmo poder que leva o filho do milionário a atropelar alguém e não sofrer conseqüências legais.

Não sei se o mundo piorou ao constatar que a violência tem assumido proporções lamentáveis. Tenho certeza de outras faces; por exemplo, a da violência como estética, passatempo, ou como solução. A cultura norte-americana fez da violência grandes espetáculos, consumidos fartamente em nossos cinemas e nos canais de TV. Na estética cinematográfica americana sobram tiros, mortes, carros destruídos, explosões que derrubam tanto prédios quanto cidades. Também de lá os grandes eventos, dito “esportivos”, onde atletas sobem ao ringue em lutas sangrentas.

Foi neste final de semana que vi cenas de uma luta; pouquíssimas cenas, já que mudo de canal quando vejo um sujeito arrancando sangue de outro, já caído no chão, e sendo aclamado como campeão. Podem fornecer quantos argumentos quiserem e sinto que será difícil, em pleno século XXI, alguém me convencer de que isso seja esporte saudável. No entanto, nós, seres humanos, estamos prontinhos a defender essa violência “institucionalizada”. A “nobre arte do boxe” é expressão para descrever um esporte onde uma cara quebrada é parte do jogo.

Sei que muitos estão prontos a defender o boxe, o cinema, tanto quanto as nossas novelas. Sim, nossas novelas também caminharam para uma inusitada violência. Sou noveleiro de final de semana; mesmo lecionando a noite consigo seguir uma ou outra novela e, nas sextas, sábados, vejo capítulos completos. No final da novela “Lado a Lado” fui surpreendido com duas inusitadas bofetadas desferidas pela personagem de Camila Pitanga, a mocinha, na vilã interpretada por Patrícia Pillar. A mocinha vivida pela bela Camila Pitanga desistiu de processar a vilã, mas a jovem resolveu no braço seus problemas com a adversária.

Não está distante a cena em que Luana Piovani (com ares de mocinha), espancou a vilãzinha interpretada por Bianca Bin em Guerra dos Sexos. Do “lado do bem”, as mocinhas de “Salve Jorge” também têm resolvido suas diferenças no braço. A violência dá audiência e a quantidade de pancadaria expõe a precariedade criativa dos autores de novela.

Nesta segunda-feira tomaremos café da manhã vendo e ouvindo sobre o moço que perdeu o braço. É quase certo que noticiarão algum roubo, um novo golpe e as brigas no futebol. Mostrarão cenas da briga de dois jogadores que culminou com a expulsão de um; dirão que é preciso acabar com a violência no futebol. Depois virão os programas de entretenimento; nesses, é hábito repetir cenas de pancadaria de novelas. E assim caminharemos, entre bofetões, assassinatos, atropelamentos, brigas, roubos, com a terrível impressão de que um domingo de paz entrou para a lista de utopias.

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Paz pra todo mundo!

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A Uberaba do meu tempo

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Havia no meu tempo uma Uberaba

Era calma, suave, cheia de tardes bucólicas.

A cidade da minha infância tinha um absoluto céu azul,

Chuvas fininhas, intermináveis, irritantes.

Aventura era encontrar Maria Boneca portando o brinquedo

E fugir, para descansar sob a sombra da Gameleira.

Na exposição de gado meus pais compravam mexericas

Levando-me a preferir, sempre, mexericas ao Zebu.

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No meu tempo Uberaba tinha córregos a céu aberto

Guardados por muretas que nos serviam de encosto

Antes das sessões do Metrópole, do Palace

Esperando caronas do Padre Nicolau após aulas no Cristo Rei.

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Brincava no Mangueirão, passeava pelos trilhos da Mogiana,

No parque infantil da Praça Rigoleto de Martino (hoje só resta a Codau!)

O autor do Hino do Uberaba Sport, o time que, na Uberaba do meu tempo

Rivalizava com o Independente, o Nacional…

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No Boa Vista éramos todos sobrinhos da Tia Carola

Fazíamos teatro com a Belinha

Sabíamos que era maio pelas congadas

E que era dezembro no presépio de d. Castorina.

Foram tempos de festas constantes

Quando bastavam as quermesses de santos e santas

Soando sinos e cânticos nas sete colinas de Uberaba.

Parque Fernando Costa, Uberaba, MG. Foto Valdo Resende

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A minha Uberaba tinha crônica ao meio-dia

O festival do Chapadão de Teatro e de Música

O Observatório, no Lavoura e Comércio,

Tudo criação do Ataliba Guaritá, o Netinho.

Raul Jardim fazia o “Escutando e Divulgando”

Lídia Varanda reinava na PRE-5

E Nhô Bernardino terminava o dia na hora do Ângelus.

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Noite de Uberaba tinha o Parque Boa Vista (Eu era o filho do rei!)

O circo do Cheiroso, batuques no terreiro de Mãe Marlene

Cartas pelas mãos abençoadas de Chico Xavier

Mamãe rezando terço, aguardando-me dormir na noite sempre calma da cidade.

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Recordo o café oferecido pelas freiras do Carmelo

As aulas na Escola Estadual Fidélis Reis

As tardes de jogos no pátio da Igreja Nossa Senhora das Graças…

Tantas coisas como essas que continuam na Uberaba de hoje.

Que vejo longe, sei de ler, de ouvir contar

A cidade de agora é de quem por lá está.

Chácara dos Eucaliptos, foto by Valdo Resende

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Há uma Uberaba que é minha, feita de sonhos acalentados

De planos vitoriosos, de projetos engavetados.

Guardada por todo o sempre e sempre teimando em sair à tona

Aquela cidade ganha meus dias, ocupa minhas noites de insônia.

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Neste dois de março Uberaba faz 193 anos

A cidade de agora é porque um dia foi outra

Essa outra que chamo “minha”

Impregnada em ruas e morros,

Acalentando ternamente o coração transforma-se sempre

Vive o hoje, comemora o agora

Segue rumo ao tempo em que alguém, lá longe, lembrará:

A Uberaba do meu tempo…

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São Paulo! Comoção de minha vida…

São Paulo é a segunda cidade de milhões de pessoas que migraram, como eu, em busca de uma vida melhor. E, de “segunda cidade” passa a ser a primeira no coração de toda essa gente. Eu, pelo menos, não consigo pensar minha vida fora de São Paulo e sei de muitos migrantes que também pensam assim. É um sentimento às vezes carregado de culpa quando se coloca a cidade onde nascemos (Uberaba, meu amor!) em segundo plano.

Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia a chegada em São Paulo.
Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia São Paulo.

Foi complicado conhecer São Paulo, entender a cidade. Foi difícil aceitar que Santo André, São Caetano, fossem outras cidades. Todas próximas, sem fronteiras visíveis, sem os campos que separam as cidades da minha Minas Gerais. Os primeiros foram tempos de aventura, com dificuldades, descobertas estranhas: Uma mesma rua, por exemplo, a Rua Augusta, muda de nome quatro vezes! Tive, naquele período, algumas alegrias e muita saudade.

Augusta, 

Graças a Deus,

Entre você e a Angélica

Eu encontrei a Consolação

Que veio olhar por mim

E me deu a mão.

Meu primeiro endereço foi a Avenida Paulista. Contei minha chegada, detalhadamente aqui (é só clicar!). Estava perto da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, avenida por onde passo todos os dias já que moro em uma travessa da mesma. Todavia, naquela época, durante o dia eu procurava emprego e, entre uma caminhada e outra, ia conhecendo a cidade onde, um dia, havia sido turista.

Augusta, que saudade,

Você era vaidosa,

Que saudade,

E gastava o meu dinheiro

Que saudade,

Com roupas importadas

E outras bobagens.

O primeiro trabalho foi em uma empresa que fica na Rua Abdo Chaim, uma paralela da Rua 25 de Março. Desde então mantive minha definição para o que via por lá: a imensa capacidade humana de criar objetos obsoletos. De dia trabalhava como auditor. Saia da empresa sempre correndo – aprendi rapidamente a andar como paulistano, às pressas! – para ir ensaiar peças teatrais. Nos finais de semana cantava em botecos. Foi em uma tarde, no trabalho, que ouvi pelo rádio, sem acreditar, que Elis Regina estava morta.

Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post
Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post

Bom ser jovem. Eu vivia comendo salgados feito por chineses, descobri o pastel de feira, o caldo de cana, milho verde em cumbuca, e, volta e meia, tomava refeição dentro de um vagão lotado do trem suburbano. Via grandes ratos transitando pelo parque D. Pedro e presenciei três assaltos em um único momento, na fila aguardando o ônibus. Dormia três, quatro horas por noite, alimentando-me mal, valendo-me da saúde obtida na vida tranquila de Uberaba.

Angélica, que maldade

Você sempre me deu bolo,

Que maldade,

E até andava com a roupa,

Que maldade,

Cheirando a consultório médico,

Angélica.

Meu primeiro apartamento ficava “nos fundos” do Mosteiro de São Bento. Tinha todas as horas marcadas pelos sinos, com uma musicalidade sóbria, grave e, simultaneamente suave. Minhas sessões religiosas aconteciam ao som do canto gregoriano dos frades beneditinos. Após grandes viravoltas, o segundo apartamento foi no bairro da Liberdade, onde aprendi a gostar de sushi, temaki, sashimi entre tantas outras comidas japonesas.

Antes de parar na Bela Vista contabilizei mais moradias que anos de vida. Vila Mariana, Higienópolis, Ipiranga, Cerqueira César… Fui atropelado, fui assaltado… Um batismo no folclore da grande metrópole.

Quando eu vi

Que o Largo dos Aflitos

Não era bastante largo

Pra caber minha aflição,

Eu fui morar na Estação da Luz,

Porque estava tudo escuro

Dentro do meu coração.

Das lembranças todas suscitadas em datas como a do aniversário da cidade, gosto de comemorar a imensa galeria de amigos. De todos os matizes, raças, origens… De agradecer pela carreira profissional múltipla, a cidade permitindo-me realizações concretas no magistério, no teatro, no jornalismo, nas artes plásticas, nas letras…

Quantas histórias similares a esta. Quantos milhões de pessoas beneficiadas pela graça do Santo, São Paulo, que nunca castigou-me por ser Palmeirense. Há mais de 30 anos por aqui, trago Uberaba no meu peito; sou Minas Gerais. Jamais abdicarei disso por crer que esta é uma condição essencial para perceber e agradecer aos céus tudo o que,como migrante, tenho recebido em São Paulo. Dia 25 sempre foi, no meu entendimento, dia pra comemorar e agradecer.

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Parabéns, minha capital querida!

Obrigado, São Paulo!

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Notas:

1 – O título deste post é o primeiro verso do poema “Inspiração”, de MÁRIO DE ANDRADE in Paulicéia Desvairada.

2 – Os versos que intercalam o texto são da música de TOM ZÉ (Augusta, Angélica e Consolação), onde o compositor sintetiza a alma de três, das principais avenidas da capital. Para ouvir a canção, clique aqui.