Nosso pai humano

Papai foi um menino – o da direita – que veio a se tornar o rapaz da foto sobreposta. Meu avô, Deolino, casou-se pela segunda vez com essa simpática Maria. Minha avó trouxe outros filhos do primeiro casamento. Papai foi caçula de uma família moldada nos velhos hábitos mineiros. Nasceu em Estrela do Sul (20/02/1924), mas mudou-se muito cedo para Araguari, ambas as cidades do Triangulo Mineiro. Saiu de lá casado e perambulou um pouco até fixar residência em Uberaba, onde faleceu em 21/05/2005.

O tempo é inexorável; coloca névoas sobre a memória, afasta impressões, guarda fatos desimportantes e transforma a história; reduzindo esta ao que é possível através de textos, fotos e outros materiais de que são feitas as lembranças. O respeito e o afeto, misturados com a saudade, levam-nos ao risco de sacralizar nossos entes queridos que são alçados à categoria de seres celestiais e assim, perde-se um pouco mais do ser humano.

Papai foi um ser humano. Responsável e, dentro das limitações impostas pelos hábitos machistas brasileiros, foi bastante carinhoso. Responsável aí, conduzindo minha irmã Walcenis no baile de formatura. Papai trabalhou duro para sustentar todos os filhos. A velha estrutura ainda mantida, mamãe trabalhava em casa – “do lar” – e papai era o mantenedor financeiro. Difícil mensurar todos os problemas e horas de preocupação para garantir o necessário para nosso sustento, saúde e, principalmente, educação.

Carinhoso, como nessa foto com Bibi, a Gabriela. Gosto da expressão de ternura de meu pai e recordo das vezes que me senti, como Bibi, protegido e seguro. O que mais gosto desta foto é a peculiaridade com que meu pai segura os braços da neta.  Não há um único dedo que não esteja tocando os bracinhos da menina. Carinho silencioso, manifestado em gestos discretos. Mineiro afeito ao silêncio, papai também manifestava carinho fazendo gangorras, estilingues, brincando com todo mundo.

Papai foi vaidoso. Sempre que possível e necessário envergava um bom terno. Até na praia o mineirinho não abria mão da elegância (Na foto menor, em Santos, com meu tio Ulisses). E gostava de ver minha mãe produzida, arrumadinha. Gosto de ver essa imagens de meu pai, bonitão. Recordo o dia da foto abaixo, na lambreta; lamento não ter uma imagem com ele dirigindo trator, caminhão, moto e  até bicicleta. Papai gostava de dirigir e de ganhar carona. Aposentado, papai saia dando voltas de ônibus pela cidade.

Nas bodas de ouro meus pais receberam de presente um retrato, pintura a óleo, feita por Salles Tiné.  Devidamente emoldurada, o quadro ganhou lugar de honra na sala e enquanto colocávamos o objeto na parede, papai disse: “-Estou parecendo o Juscelino Kubitschek.” Foi a melhor maneira de dizer que havia gostado, que estava feliz com o presente. Os mineiros entenderão melhor a comparação com o ex-presidente.

Recordo meu pai entre nós, sua família. E sentiremos sempre a sua ausência. Em dias dos pais, ou no dia do aniversário, papai sentava-se no sofá, ao lado do telefone, aguardando os telefonemas dos dois filhos distantes, meu irmão Valdonei e eu. Atendia brincando, comemorando “mais um” e após os telefonemas aguardava a visita dos netos, dos bisnetos, sempre com um pequeno rádio de pilhas, ouvindo música caipira.

As imagens são insuficientes e meu texto é precário diante do que foi o homem, o ser humano que, por destino, foi meu pai. Afeito como criança a peraltices, papai gostava de contar seus feitos em meio a incontido riso. Tudo o que representa e diz respeito a um pai é lembrado sempre; por mim, meus familiares, assim como para todos aqueles que estão ou não com seus pais. Desse tudo, o que mais sinto falta, é da voz e das risadas de papai. Dos momentos em que, alegre, contava alguma história e chorava de rir. Todavia, quando era necessário, papai dizia sério, com sua voz, cuja lembrança quero guardar para sempre:

.

“- Pois não, sou Felisbino Francisco Rodrigues Resende; ao seu dispor!”

.

Até mais!

Sete mil vezes Caetano Veloso

Impossível não reverenciar Caetano Veloso quando este grande, entre os maiores compositores brasileiros, completa 70 anos. O natalício será neste próximo dia sete de agosto. Difícil escrever algo novo sobre Caetano já que o mesmo, merecidamente, será homenageado pelos maiores intelectuais deste país; difícil também escrever para alguém que escreve tão bem! Mas, vamos lá, deixar o coração falar para homenagear alguém que, ao longo de tantos anos, propiciou momentos incríveis para milhões de brasileiros.

Claudia Cardinale e Brigitte Bardot
Todo mundo, como Caetano, sonhava com Cardinale e Bardot

A primeira música que emerge, quando penso em Caetano Veloso, fala de um amor arrebatador. Todavia, como a música brasileira é sempre presente em minha vida, inclusive em sala de aula, falar em primeira é falar em “Alegria, alegria”. Criança – eu tinha 9, 10 anos – pouco sabia que em música brasileira não se usava guitarra elétrica. A música daquele rapaz cabeludo da Bahia era contagiante; eu não usava nem lenço nem tinha documento e era, como todo garoto de então, apaixonado por Brigitte Bardot, com uma grande queda para Claudia Cardinale. Tudo era uma grande festa!

…Espaçonaves, guerrilhas

Em Cardinales bonitas

Eu vou

Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras,

Bomba e Brigitte Bardot…

A vida tratou de ensinar-me que Caetano Veloso era mais que “Alegria, Alegria”. Antes de completar 17 anos saí de casa pela primeira vez. Foram tempos conturbados para todo o país e eu, como o baiano de Santo Amaro da Purificação, também tive que vir embora. “No dia em que eu vim-me embora” a canção de Caetano Veloso e seu parceiro Gilberto Gil, é trilha profunda para o retirante que sou.

…E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada

Nem de por que eu ia indo

Nem dos sonhos que eu sonhava…

Caetano Veloso foi embora para Londres onde criou “London, London”, uma das mais belas canções com a capital inglesa como tema, e voltou para um Brasil de sempre, com “podres poderes” que demoraram a tomar rumo. Longe de Uberaba fui ao primeiro show daquelas quatro figuras mágicas, então denominadas “Doces Bárbaros”: Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Quem é da minha geração pode entender qual o impacto de, em um mesmo palco, encontrar quatro imensas feras da nossa música. Isso em uma época onde não rolavam festivais de verão e similares. No show, no disco, o aprendizado que persigo e que pretendo seguir enquanto vivo:

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar…

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser…

Ame-o e deixe-o ser o que ele é…

Alguém importa quando importa para a vida de muita gente. É o caso de Caetano Veloso que, creio, seja autor de canções para a vida da maioria dos brasileiros. Desde o primeiro disco o compositor, também excelente cantor, jamais fugiu de suas raízes populares. Gravou Vicente Celestino com o mesmo respeito que gravou Chico Buarque; fez sucesso com canções de Peninha, Roberto Carlos e atualmente segue em parceria nos palcos, ao lado de Maria Gadu.

Caetano Veloso 70 anos

Poderia alongar-me aqui e escrever sobre a trilha sonora de “Velhos Marinheiros”; a adaptação do romance de Jorge Amado foi para os palcos de São Paulo, com uma trilha baseada em Caetano Veloso; meu amigo Ivan Feijó participou deste trabalho e corrigiu-me a memória (vejam no comentário abaixo). No espetáculo teatral dirigido por Ulysses Cruz, Ivan contribui com as canções de Vicente Celestino. Poderia escrever sobre as inesquecíveis aulas de Dirce Ceribeli, na UNESP, introduzindo semiologia através das letras das canções do compositor. Poderia contar um monte de histórias; várias delas com “Eclipse Oculto” como tema.

Nosso amor não deu certo

Gargalhadas e lágrimas

De perto fomos quase nada

Tipo de amor que não pode dar certo

Na luz da manhã

E desperdiçamos os blues do Djavan…

Tantas histórias de tantas vidas com a música de Caetano Veloso ali, presente; marcando acontecimentos, tornando pessoas inesquecíveis. As canções são sempre novas para quem não as conhece. Tornam-se vivas e tornam vivas as pessoas, mesmo que o tempo tenha ficado longe demais. Muitas histórias, mas hoje é segunda-feira…

– Vamos trabalhar!

Então, deste humilde blog quero desejar outros 70 anos ou setenta mil vezes setenta para Caetano Veloso. Penso que basta uma música para fazer célebre um grande compositor. Sou contra cobranças ou exigências de novas canções, novos sucessos, outra “Sampa”. Cada pessoa tem sua preferência e, em se tratando de Caetano Veloso, esse leque é bastante amplo. Eu prefiro “Sete mil vezes”. Feliz de quem pode amar e, para esse amor, tomar emprestada a música e a letra de Caetano Veloso para soltar o gogó….

Sete mil vezes eu tornaria a viver assim
Sempre contigo transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz, todas as coisas são belas
Sete mil vezes, e em cada uma outra vez querer
Sete mil outras em progressão infinita…

.

Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Boa semana para todos!

.

(Sem) Destino de Mineiro

Como mineiro fora de Minas Gerais, em um período das férias e em quase todos os feriados volto para casa. É obrigação. Sendo trabalhador brasileiro, e professor, só posso viajar depois do quinto dia útil: dinheirinho no bolso, contas pagas e aí, sim, sair com tranquilidade.

Façamos as contas: primeiros cinco dias úteis, dar de mamar aos braços – não fazer nada é bom demais – e acertar as finanças. Em seguida, no mínimo uma semaninha em casa, no meu caso, em Uberaba. Pelo calendário do mês de julho de 2012 o quinto dia útil será na próxima sexta, dia 6. Uma semana em casa, já salta pro dia 14 (D. Laura não vai gostar de eu sair lá em pleno sábado, dia 14; vai mais o domingo, 15). Aí, lembrando que sou trabalhador, devo voltar dia 29 para descansar dois dias, 30 e 31, das peripécias da viagem. Sobraram exatamente 13 dias para férias.

A idéia de estar em Minas já me faz totalmente mineiro e esquecido das influências verbais paulistanas uma pergunta não me sai da cabeça:

– Prondéquieuvô?

.

Valdo Resende foto by Luis

Quando meu amigo Luis, lá da UNIP, fez essa foto, as férias estavam distantes.  Qualquer cidade da lista acima valeria um bom período de férias, exceto “Radiator Springs” (Não quero, obrigado!) e eu acrescentaria ainda outras: Tegucigalpa, Belém do Pará, Helsinki, Cairu, a Ilha de Páscoa…

– Prondéquieuvô?

Algumas viagens, já feitas, estão amorosamente arquivadas. Acumulei lembranças, álbuns de retratos, camisetas, bonés e muitos outros cacarecos. Somando todas essas bugigangas às que o cotidiano obriga e tenho uma enorme quantidade de coisas sobre as quais devo  “montar guarda”. Isso se torna mais um empecilho em cada momento de férias: quem fica para guardar a tralha toda? Então percebo que a grande viagem, aquela sonhada desde a adolescência, ainda não aconteceu.

Sem Destino / Easy Rider
Easy Rider, viagem e liberdade

Minha geração foi beneficiada com Easy Rider  (Sem Destino), o filme produzido por Peter Fonda, dirigido por Dennis Hopper, que ainda revelou Jack Nicholson. Jovens americanos, em 1969, buscam liberdade pessoal, distância de hábitos e costumes obsoletos. Era a Contracultura, resultante de fenômenos sociais que remontam a Segunda Grande Guerra, aos conflitos no Vietnã e à Guerra Fria. As personagens do filme (contrariamente ao título dado no Brasil) tinham destino definido, um festival em New Orleans. Dois jovens atravessando os EUA sobre motos. Em dado momento entra um terceiro. A idéia é de total liberdade.

Adolescente, somei literalmente “Sem Destino”, dos americanos, ao nacional “Sem lenço e sem documento”, da música “Alegria, alegria” de Caetano Veloso. Nasceu o sonho. Sair por aí, sem destino, sem pousada, sem hotel, sem bagagem, sem lenço, sem documento.

O governo militar tratou de amedrontar a molecada de então. A gente sabia de gente que desaparecia e tínhamos medo da polícia (que então, não existia para proteger o cidadão, mas o Estado). Isso resultou em que cresci portando documentos. Sem oportunidades sonhadas de trabalho em minha terra, viajei para o mundo com destino geográfico definido, mas com a indefinição do vir a ser, do que seria possível conseguir.

– Prondéquieuvô?

Como milhares de migrantes brasileiros eu venho, desde então, voltando para casa. Há viagens e viagens, se é que me entendem. Poucas foram concretizadas. Já fiz viagens emocionantes para muito longe; outras, inesquecíveis, para bem perto. Todas com destino traçado e com documento no bolso. E centenas de viagens para o cosmo, o profundo dos oceanos, o interior das grandes florestas…

Tenho a impressão de que, volta e meia, deixo de programar minhas férias esperando o momento de sair por aí. Pode ser de bicicleta, moto, carro. Até mesmo a idéia de ser andarilho me é fascinante. O sonho permanece. Sair por aí, livre de amarras, de conceitos, de regras, de vontades alheias. Apenas viajar. A idéia é instigante e só faz martelar em minha cabeça de mineiro:

– Prondéquieuvô?

Como mineiro, respondo: – Por enquanto, sei não, sô!

.

Boa semana!

E somando pessoas, lugares…

Trago dentro do meu coração,

Como num cofre que se não pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive…

.

 O colo de minha mãe e de minha tia Aurora nas noites cálidas de Uberaba

Na oficina, o fogo da forja iluminando o rosto de meu pai

E do quintal as lembranças das brincadeiras com meus irmãos.

Guardo a sensação de autonomia no trem rumo a Campinas

E a de absoluta solidão caminhando por São Paulo

Desde então sei que, mais que lugares, trago em mim pessoas.

.

 .

Eu quero ser sempre aquilo com quem eu simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem eu simpatizo…

.

Os vizinhos: primeiros amigos na calçada, donos da rua

Os primeiros afetos, de tratados e promessas não cumpridas

Amigas e amigos para todas as horas, todo o tempo, todo o sempre

E mais gente de todas as raças, de todos os cantos que, em mim

Fizeram brotar canções e versos, manhãs amenas e noites de tempestades.

.

Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,

Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

.

Sobrevivi a seqüestros, atropelamentos

Venci meu pulmão sempre afeito a pneumonias

Senti o brutal calor da caatinga tanto quanto o frio dos Andes

Plantei partidos e deles não fiz parte, fiz arte

Persisto buscando ter a alma, ser artista.

.

Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,

E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim…

.

.

Giram meus pais, meus irmãos

Giram colegas, amigos, conhecidos

Ídolos, santos, espíritos

E somando pessoas, lugares, mais pessoas

Sou eu, resultando em 57 anos!

Somando o hoje para repetir no amanhã:

.

Trago dentro do meu coração,

Aquilo com quem eu simpatizo…

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo

E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim…

.

Obrigado a todos, pela lembrança e pelo carinho.

Valdo Resende

.

Nota:

Os versos em azul foram retirados da “Passagem das Horas” de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos.

.

O som que nos define

Uberaba é bão, todo mundo sabe.

Prestem atenção em Débora Falabella quando diz “faz” em “Avenida Brasil”. É a típica mineira que um mineiro reconhece só de ouvir. A atriz é primorosa e de talento inegável, não deixa aparecer muito mais do que pequenos detalhes  do “minereis”. Também não aparece nada de sotaque argentino (não foi lá que a personagem cresceu?), muito menos o sotaque carioca. Nem Débora Falabella, nem qualquer outro ator tem sotaque carioca em “Avenida Brasil”. Dona Globo pasteuriza tudo e todos. Nem o garoto de praia Cauã Reymond tem sotaque carioca.

Postura oposta ocorre com “Gabriela”; as chamadas comerciais da novela, baseada no livro de Jorge Amado, vêm carregadas de “baianês”. Sem ser carioca de Copacabana, como a personagem de Débora Falabella, sem que Juliana Paes utilize o real sotaque de uma verdadeira baiana da região de Ilhéus, tudo fica um tanto ou quanto artificial; é novela.

No cotidiano do país, uma rica e vasta sonoridade encanta, emociona e, sobretudo, propicia identidade aos brasileiros deste imenso país. Para muitos, o sotaque é motivo para boas piadas, constituindo-se em mote para histórias e estórias. Foi assim, vindo para Uberaba em companhia de mineiros, que surgiram comentários sobre o modo de falar do paulistano. Uma sonoridade única, uma musicalidade que difere de nós, aqui de Minas, mas que também aparece diferente em gaúchos, paraenses, sergipanos, catarinenses. Cada um com seu jeito próprio de pronunciar, emitir palavras, expressões inteiras, além das diferenças vocabulares regionais.

Pessoalmente gosto muito de sotaques. Quando trabalhei em Viracopos, a diversão era perceber a origem do viajante através do sotaque do mesmo, falando em inglês. Às vezes aparecia alguém de país mais distante, com o qual tinha pouca familiaridade, então ficava mais difícil perceber a nacionalidade do cidadão. Também não era muito fácil distinguir o colombiano do paraguaio, o peruano do chileno, o argentino do Uruguaio, todos falando variações do espanhol. O visual ajudava bastante e os “hermanos”, por exemplo, sempre foram e são muito elegantes.

Em São Paulo, um dos desafios linguísticos que enfrentei, logo no início, foi distinguir a origem de alguns indivíduos, genericamente denominados “baianos” ou “ceará”. Morando no bairro da Liberdade, convivi muito mais com nordestinos do que com japoneses (Em São Paulo, tradicionalmente a Liberdade é território da colônia nipônica). Nordestinos chamavam-se mutuamente por “ceará”. Convivendo aprendi a estabelecer diferenças e reconheço quando estou falando com um pernambucano, conheço a sonoridade do cearense e a malemolência do falar baiano. Sempre tenho boas lembranças quando identifico um piauiense.

Tamen rima com trem, que só mineiro tem

Quando o assunto é sotaque só fico irritado com o exagero preconceituoso de pessoas que confundem mineiro com caipira paulista; ou com o infeliz que utiliza um suposto sotaque baiano, aprendido assistindo atores de qualidade pra lá de duvidosa, para piadas pejorativas. Fora essas bobagens, fico encantado com as diferentes variações de uma mesma língua; Às vezes, emocionado. Basta que Débora Falabella diga um “faz” de maneia peculiar para que eu recorde o jeito de falar do meu pai, de velhos e grandes amigos. Sotaque é assunto para lá de sério. Se a língua é determinante para nossa nacionalidade, é o falar específico que nos localiza dentro da grande nação. Eu, por exemplo, sou mineiro, do Triangulo, entre Goiás e São Paulo; ao conversar comigo, perceba a diferença! Vou ficar feliz, pois tenho orgulho dela.

.

Bom final de semana.

.

São Paulo de bicicleta

A bicicleta oferecida aos alunos dos CEUs de São Paulo

Em breve poderemos ter muitos novos ciclistas pelas ruas da cidade. Soube da novidade através de Carlos Vitor, meu aluno, que será um dos monitores que formarão crianças ciclistas na cidade de São Paulo.  Os professores ensinarão crianças a andar de bicicleta e, além de equilíbrio e pedaladas, serão dadas aulas sobre normas de trânsito e manutenção das próprias bicicletas. O melhor de tudo, em minha opinião, é que cada turma formará um comboio, acompanhada pelo monitor, percorrendo o trajeto de casa até a escola.

O projeto municipal será implantado em todos os CEUs, os Centros de Educação Unificada. No final de 2012 cada um, dos 45 CEUs tem como meta formar 100 alunos, totalizando 4500 novos ciclistas pela cidade. O projeto tem o que há de inovador em termos de educação, cidadania e sustentabilidade; as bicicletas serão de bambu e cada comboio terá uma ciclo-rota, definida e comunicada à população local, facilitando a segurança dos pequenos ciclistas, devidamente uniformizados e, portanto, facilmente identificados.

É um orgulho para nossa São Paulo: a primeira cidade a ter uma escola desse gênero. Baseado em experiência dinamarquesa – de lá veio o especialista em mobilidade urbana Mikael Colville-Andersen, o formato da escola paulistana é mundialmente inédito. Andersen é o autor da proposta “Copenhagenize”  “para inspirar as cidades de todo o mundo a se tornarem amigas dos ciclistas, como é a capital da Dinamarca, onde 37% da população (500 mil pessoas) usa a bicicleta como meio de transporte todos os dias” (clique aqui para ver matéria sobre o assunto). São Paulo começa com milhares de crianças e, tomara que a moda pegue, teremos uma cidade mais humana, mais limpa.

Eu adoraria ir e voltar de bicicleta para o trabalho. Como saio por volta das 23h da universidade, tenho medo. A segurança da cidade precisa melhorar para que possamos trafegar sem comboio. O respeito ao trânsito também. Venho na contramão da maioria dos meus alunos e assim, vou adiando meu retorno ao simpático veículo, pelo qual sou apaixonado desde criança.

Papai tinha uma bicicleta antiga, adquirida de vendedores de peixe da cidade de Santos. Era quase toda de ferro e acompanhou meu pai muito antes de eu nascer, permanecendo em nossa família até há pouco tempo. De bicicleta fui, incontáveis vezes, para os arredores da cidade de Uberaba. Na minha adolescência, Amoroso Costa era um bairro distante – o nome via de um posto de parada da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro; ia até lá e gostava de ir além, em um local que chamávamos Rodolfo Paixão. A estrada era de terra e nesse local havia um cruzamento que, hoje, é a Avenida Nossa Senhora do Desterro, bastante urbanizada.

Fafá, amiga de sempre, foi minha companheira de algumas aventuras com nossas bicicletas. Saíamos passeando pela região e, por algumas vezes, abandonamos as estradas em aventura doida, pedalando sobre capim, descendo pirambeiras e atravessando córregos. Inventamos qualquer coisa que hoje denominam esporte radical, bike não sei das quantas. Nós apenas nos divertíamos. As cicatrizes em nossas pernas eram as testemunhas das viagens juvenis.

Já em São Paulo, início dos anos 80 e morando na Vila Mariana, gostava de pedalar saindo da Rua Dona Júlia, onde ficava minha casa e ia até o final da Avenida Paulista. De lá, voltava, passava pela Vila Mariana indo até ao Jabaquara. Tudo isso de madrugada. Era delicioso e um passeio e tanto no verão sempre quente. Depois, a violência foi aumentando e o receio do perigo levou-me a abandonar o hábito.

Carlos Vitor: Know-how até para pilotar carrinho de supermercado

Penso em voltar a pedalar. Disse ao Carlos Vitor, na boa, que fiquei com inveja do maravilhoso emprego que ele conseguiu. E estou torcendo muito para que tudo dê certo. Quero que São Paulo seja a Copenhagen sul-americana. Espero que todo o país imite a cidade, criando seus próprios projetos, pensando em escolas de bicicleta que atendam aos hábitos e à geografia locais. Cidadãos saudáveis, diminuição de poluentes e melhoria no trânsito. Lamento que alguns, nesta segunda-feira, lerão este post após um congestionamentozinho básico antes de chegarem ao trabalho. Mais um bom motivo para aderir, divulgar e aplaudir esta idéia.

Boa semana!

Vasto mundo, aqui mesmo!

Há uma pequena lista que, até aqui, só eu conhecia. É uma modesta relação das visualizações deste blog mundo afora(Vejam o quadro). Sim, há um monte de pessoas por este “mundo, vasto mundo” que vez em quando entram nesse pequeno espaço e tomam conhecimento do que escrevo. É coisa tipo “Europa, França e Bahia” (reverenciando Mário de Andrade e seu Macunaíma); gente de terras que nunca vi, donos de idiomas que não falo, que aparecem não sei exatamente de onde, e nem sei como aqui chegaram.

 

Para ser bem honesto, primeiramente me envaideço. Tudo bem que uns tenham entrado por engano, via “tags” abrangentes (Uma chance de ganhar um amigo!). Pode ser que outros venham por saudade do Brasil. Há também os amigos (Muitos, graças aos céus!), e os ex-alunos.  Sei de alguns, explorando o planeta: na Espanha, na Dinamarca, Inglaterra, Austrália, Estados Unidos… E de amigos, que estão em Portugal, França, Japão… Não sei quantos e quais estão por aí, nesses outros países. De alguns, poucos, há comentários e mensagens, via Facebook, que permitem identificação precisa.

Segundamente (reverenciando Dias Gomes e seu Odorico Paraguaçu) tenho urticária de tanta curiosidade. Quem são essas pessoas? Tailândia, Indonésia, Lituânia? São várias centenas e não creio ter tantos alunos, nem tantos amigos assim. Há alguém nesse “mundo, vasto mundo” que me honra com sua visita e que tenho muita vontade de saber quem é. Pode ter vindo atrás de algum artista, uma música, uma peça de teatro; chegou até aqui para saber de Uberaba, de Minas Gerais, da Bahia de Jorge Amado, de Belém do meu Pará. Quem serão essas pessoas?

Vasto mundo, aqui mesmo!

Sou de uma geração que esperava dois, três, dez dias por uma carta; há muitos, como eu, que recordam a dependência da telefonista para telefonemas interurbanos, para ligações internacionais. Meu querido Carlos Drummond de Andrade, lembrando-me que “se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução”, demorava um pouco mais para atingir esse “vasto mundo” que, na era da Internet, favorece-me  com a rapidez e a instantaneidade da comunicação virtual, fazendo que esse “vasto mundo” seja aqui mesmo. Por isso fico encantado e, insisto, curioso. Quem é que me honra com sua visita por esse Brasil e por todo esse mundão de Deus?

Peço perdão aos que estão sempre por aqui; aqueles que já me conhecem, um pouquinho que seja, compreenderão essa curiosidade, esse estranho prazer que é ser lido em Luxemburgo e também em algum recanto da imensa Rússia. Cá, entre todos nós, sinto-me pertinho de Minas Gerais, Tocantins, Piauí, Rio de Janeiro, Pará, Paraná, Bahia. Sinto-me extensão de São Paulo, um pequeno braço de Uberaba. Mas tenho vontade de ir além, criar outros laços, já que não  há limites pra conhecer gente e fazer amizades. Daí escrever este post, aos mais distantes, aos saudosos do Brasil, àqueles que buscam um pouco daquilo que escrevo. Por isso, peço: por favor, quando possível, matem essa curiosidade. Digam nem que seja apenas o nome e o lugar de onde estão vendo/lendo este blog. Desde já, meu muitíssimo obrigado. E aos que estão sempre por aqui, um carinho especial.

 .

Boa semana para todos!

.

Nota:

O trecho citado de Carlos Drummond de Andrade é do “Poema de sete faces”.

.