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Trago dentro do meu coração,

Como num cofre que se não pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive…

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 O colo de minha mãe e de minha tia Aurora nas noites cálidas de Uberaba

Na oficina, o fogo da forja iluminando o rosto de meu pai

E do quintal as lembranças das brincadeiras com meus irmãos.

Guardo a sensação de autonomia no trem rumo a Campinas

E a de absoluta solidão caminhando por São Paulo

Desde então sei que, mais que lugares, trago em mim pessoas.

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Eu quero ser sempre aquilo com quem eu simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem eu simpatizo…

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Os vizinhos: primeiros amigos na calçada, donos da rua

Os primeiros afetos, de tratados e promessas não cumpridas

Amigas e amigos para todas as horas, todo o tempo, todo o sempre

E mais gente de todas as raças, de todos os cantos que, em mim

Fizeram brotar canções e versos, manhãs amenas e noites de tempestades.

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Sentir tudo de todas as maneiras,

Viver tudo de todos os lados,

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,

Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

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Sobrevivi a seqüestros, atropelamentos

Venci meu pulmão sempre afeito a pneumonias

Senti o brutal calor da caatinga tanto quanto o frio dos Andes

Plantei partidos e deles não fiz parte, fiz arte

Persisto buscando ter a alma, ser artista.

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Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,

E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim…

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Giram meus pais, meus irmãos

Giram colegas, amigos, conhecidos

Ídolos, santos, espíritos

E somando pessoas, lugares, mais pessoas

Sou eu, resultando em 57 anos!

Somando o hoje para repetir no amanhã:

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Trago dentro do meu coração,

Aquilo com quem eu simpatizo…

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo

E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim…

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Obrigado a todos, pela lembrança e pelo carinho.

Valdo Resende

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Nota:

Os versos em azul foram retirados da “Passagem das Horas” de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos.

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