Vai que é bom!

VAI QUE É BOM! É o título da peça, com o subtítulo “O casamento do Pará com o Maranhão”.

A peça é uma comédia onde, através de um casamento, os hábitos e costumes regionais são celebrados. A música, o folclore, a culinária, a mata nativa e, principalmente suas figuras humanas ganham destaque. Outras questões são abordadas: a preservação das riquezas arqueológicas, os problemas do desmatamento irregular e a diversidade cultural advinda da formação recente dos aglomerados urbanos.

VAI QUE É BOM!

(O CASAMENTO DO PARÁ COM O MARANHÃO)

ESPAÇO CÊNICO

Semi-arena, pode conter praticáveis que, conforme a cena, funcionarão como locais distintos. Esses estarão revestidos com as cores das bandeiras dos dois estados: predomínio do vermelho e branco, com detalhes em azul e preto. Ao situar a ação em uma determinada cidade, o deslocamento dos atores dar-se-á para a direita, em direção ao Maranhão, ou à esquerda, rumo ao Pará.

PERSONAGENS E FIGURAS

(O texto foi estruturado para ser interpretado por oito atores. As personagens “Cascudinho” e “Luis” não revesarão, facilitando a “fé cênica”)

MESTRE DE CERIMÔNIAS

CASCUDINHO

NAZARETH, A NOIVA

LUIS, O NOIVO

SOGRA, MÃE DA NOIVA

SOGRO, PAI DO NOIVO

JURITI

MÃE-D’ÁGUA BOIÚNA

ÍNDIO GUAJÁ

VELHA

ARTESÃO

ARQUEÓLOGO

MANÉ-GOSTOSO

O BOI

Outros (índios, artesãos, arqueólogos, padre) com aparições ocasionais estão mencionados nas respectivas cenas.

Prólogo

(Referência à formação e aos aspectos da região percorrida pelas personagens, uma alegoria formada pelos atores lembra um trator avançando caminho e abrindo estrada[v1] . Com sons onomatopéicos reproduzem som de motor do trator. O grupo é composto por operários, engenheiros e índios.)

TODOS – BRRRRRRRRRR10… BRRRRRRRRRR10… BR- 010

            BRRRRRRRRRR10… BRRRRRRRRRR10… BR- 010

            BRRRRRRRRRR10… BRRRRRRRRRR10… BR- 010

ATOR 1 – Vai Bernardo Sayão[v2] ! É Juscelino[v3]  quem quer!

TODOS – É Juscelino quem quer, Bernardo Sayão.

              BRRRRRRRRRR10… BRRRRRRRRRR10… BR- 010

              BRRRRRRRRRR10… BRRRRRRRRRR10… BR- 010

             De Belém até Brasília, de Brasilia até Belém

             De Belém até Brasília, de Brasília até Belém

             BRRRRRRRRRR10… BRRRRRRRRRR10… BR- 010

ATOR 1 – Curia! Cucranum[v4] ! (reclamando) Esse trecho-seco! Busquem água!

(dois índios saem do grupo, atendendo ao pedido)

TODOS – BRRRRRRRRRR10… BRRRRRRRRRR10… BR- 010

              BRRRRRRRRRR10… BRRRRRRRRRR10… BR- 010

(o grupo continua, enquanto os índios encontram água)

CURIA – Água para o bem, água para o mal. Água para a vida. Água para todo o mundo! (chamando os outros) Venham! Há muita palmeira pra recostar o corpo e descansar! É açaí.

ATOR 1 – Um açaizeiro pra cada um! Uma cidade de açaís. Açailândia!

ATOR 2 – Pois é; e assim se faz; com pé de bacaba surgiu Bacabinha, hoje Paulo Ramos! E se tem um cidadão que cura, vira Curador, hoje Presidente Dutra!

ATOR 1 – Lembra do José das Canas?

ATOR 2 – Ele plantava ou bebia? Vai ver, plantava e bebia, não necessariamente nessa ordem! E o lugar só poderia chamar-se Canas!

ATOR 1 – Joselândia é bem melhor! Seu José devia ser homem bom.

CURIA – Homem bom? Abaetê! Homem honrado! Abaeté! Abaetetuba!

ATOR 1 – É lá que mora meu pai; falta muito pra chegar até lá. Vamos embora, gente!

ATOR 2 – E o meu mais longe um pouco; onde tem muita castanha; Castanhal! Em Belém ou em Bragança, havia o trem para Castanhal! Que saudade, velho e bom trem de ferro! Tô chegando, meu pai!

ATOR 1 – Trem, meu caro, vai vir até aqui, nessa cidade que nasce, Açailândia!  Abrimos esta estrada; outra virá, de ferro!

(O grupo se retira, repetindo as próximas frases em rítmo que remete ao trem de ferro, começando lentamente e aumentando a velocidade na medida em que deixa o espaço)

TODOS – De Brasilia até Belém!

              De Brasilia até Belém!

              De Brasilia até Belém!

               De Brasilia até Belém!

              De Brasilia até Belém!

              Piuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii (saem – a luz cai em resistência)

(Ao som de um carimbó – predominando-se o ritmo de atabaques sobre a melodia – uma dançarina, toda vestida em amarelo, portando lanternas nas mãos, deve lembrar a chegada da luz elétrica; com os volteios característicos da dança, joga a barra da saia em diferentes direções, iluminando os principais pontos do palco até à luz geral. A bailarina deve entronizar a próxima personagem, um MESTRE DE CERIMÔNIAS, e sair de cena.)

ATO ÚNICO

MESTRE C.- Saúde, paz e disposição para todos! A hora é esta e o dia é hoje. A festa vai começar! A maior festa do ano!

CASCUDINHO – (Entra cantando a música Junina) “Olha pro céu, meu amor! Veja como ele está lindo[v5] …”

(A personagem Cascudinho estará sempre portando um livro e um caderno de anotações; é o pesquisador, o homem apaixonado pela cultura brasileira, estudando e registrando as manifestações de sua gente.)

MESTRE C. – Espera aí, cidadão; hoje não é festa de São João!

CASCUDINHO – Não? E por que não?

MESTRE C. – Por que sim?

CASCUDINHO – Ou é por que sim, ou por que não!

MESTRE C – A festa é outra! E falando em festa, você foi convidado?

CASCUDINHO – Sabe como é, eu ouvi música da boa, vi a moça bonita…

MESTRE C – Se quer ficar, apresente-se!

CASCUDINHO – Você primeiro! Ninguém sabe quem sou mas também ninguém sabe quem você é!

MESTRE C – (orgulhoso) Sou o Mestre de Cerimônias, aquele que comanda a festa.

CASCUDINHO – (Desdenha) Sei… quem comanda festa é boa comida, boa música e mulher boa… pra gente dançar, namorar…

MESTRE C –E quem é que vai querer namorar o jovem…?

CASCUDINHO – (reverenciando) Cascudinho, excelência! estagiário da vida no mundo, que trancado em casa pouco se aprende! E como viajante que comemora e homenageia Luiz da Camara Cascudo[v6] , pergunto: vai ter comida?

MESTRE C – Comida boa tem de sobra: Arroz de cuxá com peixe frito!

CASCUDINHO – (Didático, olhando o livro) iguaria preparada à base de vinagreira, farinha seca, gergelim, camarão seco e pimenta de cheiro.

MESTRE C – Pato no tucupí e pra quem preferir, começa a festa com tacacá; depois tem pirarucu, tamuatá…

CASCUDINHO – Devagar, Mestre, ou engasgo na saliva!

MESTRE C – Peixadas, caranguejadas, tortas e caldeiradas!

CASCUDINHO – Vou engasgar, homem! Mais lentidão! O que é que tem pra beber?

MESTRE C – De aperitivo, tiquira; pra aliviar, vinho de cupuaçu!

CASCUDINHO – Então, o que estamos esperando? Vamos começar!

MESTRE C – Tu não sabe festa de que, seu penetra, bicão!

CASCUDINHO – Devagar aí, mestre! Cascudinho, seu grande amigo!

MESTRE C – Ainda bem que não disse velho amigo!

CASCUDINHO – Seremos, se a vida permitir. Mas, diga-me, por favor! Arroz de cuxá, pato no tucupí, que festa é essa?

MESTRE C – Um grandioso casamento; (à medida em que apresenta, as personagens entram em cena) a moça é do Pará, Nazaré! (a noiva entra ao som de um Lundu e encaminha-se para dançar com o noivo, que entrará do lado oposto) e o noivo é do Maranhão, o jovem Luiz.

CASCUDINHO – Que união mais perfeita! Viva o povo brasileiro que desconhece fronteiras para amar e bem viver! Mas de qual cidade paraense vem a noiva?

(O Mestre de Cerimônia deverá dizer uma das cidades do Pará, onde a peça NÃO estiver sendo apresentada – Abaetetuba, Breu Branco, Castanhal, Goianésia ou Tailândia)

MESTRE C – A noiva é filha de … (diz o nome de uma cidade).

CASCUDINHO – Então é o noivo que é filho desta abençoada terra chamada… (diz o nome da peça onde ocorre a apresentação).

MESTRE C – O noivo, digno representante do povo do Maranhão, é de… (Da mesma forma, outra cidade que não onde  ocorre a apresentação: Açailândia, Buriticupu, Lago da Pedra, Joselândia, Paulo Ramos, Presidente Dutra ou São Pedro da Água Branca).

CASCUDINHO – Se os noivos são de outras cidades, por que a festa vai ser aqui, em…. (cita a cidade onde acontece a apresentação).

MESTRE C. – Os padrinhos do noivo, que estão oferecendo o banquete,  moram aqui, em (cita o nome da cidade); cidade graciosa e acolhedora; melhor lugar pra festa não há.

SOGRA (mãe da noiva, entrando mal humorada) – Tudo bem que a festa é aqui, a cidade é presente de Deus, mas chegarão os convidados e os presentes? (para os noivos) E dá pra deixar essa dança para depois do casamento? (os jovens se separam, a contragosto. Cessa a música.)

MESTRE C. – Aqui está a prendada mãe da noiva.

CASCUDINHO – (desalentado) A sogra!

SOGRA (Para Cascudinho, com deboche) – Que raciocínio brilhante! Que garoto esperto! Mas, e os convidados, os presentes?

MESTRE C. – (apresentando o novo personagem) O pai do noivo (para Cascudinho), o sogro, é quem nos poderá melhor dizer.

SOGRO – (Entra com um pequeno carrinho, todo enfeitado para a ocasião; neste, os presentes e outros adereços que entrarão em cena) Chegarão em poucos minutos; gente de minha confiança está cuidando para que todos venham com conforto e segurança. E para vocês, meus queridos noivos, posso dizer meus filhos, entre os presentes que já chegaram, estou com alguns que considero do maior valor: (apresenta os objetos) Da sua terra, cara noiva, do Pará, veio um legítimo muiraquitã, oriundo dos guerreiros Guaracis, para garantir a boa sorte do casal; os seus vizinhos também enviaram Tajás, para todos os sortilégios. E para que a união seja abençoada, a gente da capital, Belém, enviou carinhosamente um pedaço da corda que puxou o carro da Virgem de Nazaré, na mais recente procissão do Círio! (Entrega os presentes aos noivos).

CASCUDINHO – ( que já bisbilhotou os outros objetos durante a fala do sogro) Meu senhor, me permita o privilégio de apresentar as prendas do Maranhão. Conheço cada uma delas!

MESTRE C – Não seria um grande atrevimento?

SOGRO – Deixe o rapaz…você… é?

CASCUDINHO – Seu criado, Cascudinho; amigo da família!

MESTRE C – (de lado) Qual família? Cabra safado; aqueles de um lado pensam que ele é amigo do outro e assim por diante; o vivaldino enche a barriga sem conhecer ninguém.

SOGRO – Pois mostre seus conhecimentos, diga o que sabe!

CASCUDINHO – O povo do Maranhão está mandando muita alegria para a nova família em formação; vejam (enquanto mostra, sobe o som da batida do boi), é um tambor-onça, utilizado pelo Bumba-meu-boi do vale do Pindaré; e essas matracas, é do Bumba-meu-boi de Maracanã; e já tive, caros amigos, o privilégio de brincar com esses pandeiritos lá em São Luís! E esse tambor grande, minha gente, é do tambor de crioula do mestre Felipe! (entrega os presentes aos noivos, que recebe-os, encantados).

SOGRA – São presentes maravilhosos, valiosos, pelos quais seremos eternamente gratos. A sorte do muiraquitã, do tajá, associada à fé, que tudo consegue. E, de que valeria a vida sem a alegria que a música propicia? É… (volta a ficar ranzinza) tem música de boi, mas boi, que é bom… Não sinto nenhum cheiro de carne assando.

SOGRO (Embaraçado) – Já disse à senhora que boi não tem; tem peixe, tem pato, tem camarão…

SOGRA – Boi não tem; (ironiza) não vá me dizer que a tal Catirina[v7]  comeu!

SOGRO – Nem vou dizer que o boi é de estimação; digo que não tem boi.

SOGRA – Como é que não tem boi? Alguém, tá querendo me enganar!!!!!!

NAZARÉ – Mãe, vamos comemorar com boi ou sem boi.

LUÍS – O que a gente quer é casar, não é mesmo!

(Um pio lancinante, como se um lamento, corta o diálogo. Repete-se o som, mais próximo. As personagens em cena ficam emudecidas e amontoam-se em um canto, assustadas, enquanto ao fundo passa a Juriti[v8] .)

SOGRA – Valha-me virgem de Nazareth! Esse canto é de desgraça!

CASCUDINHO – É a Juriti-Pepena! Esse anúncio de desgraça vem de longe!

SOGRO – Do que você está falando, Cascudinho!

MESTRE DE C. – Esse jovem está é querendo aparecer.

SOGRA – Quem dera fosse isso. Mas o lamento da Juriti é anúncio de coisa ruim!

NAZARÉ – Meu casamento está ameaçado?

LUÍS – Assim não dá; já esperei demais!

SOGRO – Deixem o homem falar!

CASCUDINHO – Tenho andado por todo lado (Cascudinho sempre sairá de um ponto extremo do roteiro das 12 cidades – Castanhal, no Pará, ou Presidente Dutra, no Maranhão), comecei minha viagem por… e fui seguindo o caminho dos cabos de luz até… Por onde passei, o canto da Juriti está triste, cheio de lamentos.

MESTRE DE C. – Caminho dos cabos de luz… que caminho é esse, dos cabos de luz!

CASCUDINHO – O caminho feito pelas torres de eletricidade; sou um pesquisador, como já disse. Nesta fase das minhas pesquisas senti a necessidade de buscar algumas respostas na arqueologia. Há alguns sítios por onde passam os cabos e, em nome da nossa história mais remota, verifico e cuido da preservação desses locais.

MESTRE C. – E está tudo bem conservado?

SOGRA – Era o que me faltava! Me fale do canto da Juriti; é o casamento da minha filha que me preocupa. Esse canto traz maus presságios.

CASCUDINHO – Por todo lado esse canto ecoa, triste, agourento. E é por isso que o boi tá doente.

SOGRO – Não é por causa do canto da Juriti que tem boi doente! Bem, não queria dizer, mas é isso mesmo. Não tem boi no casamento, porque o boi tá doente. Mas isso não irá estragar a festa.

LUÍS – Nem a noite de núpcias!

SOGRA – Abaixe esse fogo, homem; esse canto anuncia coisa ruim. Seu casamento pode ir por água abaixo.

LUÍS – Nem pensar! Já esperamos muito. Vamos nos casar e é hoje!

CASCUDINHO – É isso! Quem vai se deixar abater? (insinuante, para o noivo) A coisa vai ser boa.

MESTRE DE C. – Olha o respeito, Sr. Cascudo! (Ao sogro) Mas, diga-me, caro senhor, o que é que tem o boi?

SOGRO – Sei não; tem uns que, de magrinho, não dá pra comer; tem outros, doentes mesmo; sem se saber direito a razão, a origem e o remédio.

LUÍS – O importante é a gente se casar.

NAZARÉ – Quem precisa de boi, não é mesmo?

MESTRE DE C. – Além do mais, tem comida pra dez dias. Na tarde, antes da cerimônia, teremos o melhor tacacá que se pode provar; feito pela ajudante mais conceituada de D. Maria do Carmo[v9] , e depois da cerimônia, tudo o que há de melhor da nossa região: Arroz de cuxá, Pato no tucupí e pra quem preferir, pirarucu, tamuatá…

CASCUDINHO – Lá vem ele de novo. Querendo engasgar todo mundo, despertar lombrigas e solitárias! Já tive o privilégio de experimentar a famosa iguaria de D. Maria do Carmo, lá em Belém; mas, fale da música, homem! Vai ter dança do carimbó, a dança do Siriá?  Um bumba-meu-boi? Um xote bragantino dos bons? Eu queria mesmo era um lelê, um péla-porco![v10]  Mas não estou vendo os músicos; não vejo músico nenhum.

MESTRE DE C. – (Orgulhoso) Músico não tem; não precisa! (os pais e Cascudinho ficam estupefatos com a declaração).

SOGRO – Como não tem?

SOGRA – Como não precisa?

LUÍS – (tirando o aparelho de som do carrinho de presentes; Luis e Nazareth estão fascinados com o aparelho) Ganhamos um “som” de presente.

NAZARÉ – Nossos padrinhos que deram.

SOGRA – Quais padrinhos?

MESTRE DE C. – Mr. Sam e Mrs. Patty.

CASCUDINHO – Heim? Repete por partes, por gentileza; o homem:

MESTRE C – Mr. Sam; brancão, vermelho, enorme!!!

CASCUDINHO – A mulher…

MESTRE C – Mrs. Patty, (referindo-se aos atributos da mulher) por assim dizer, muito parabrisa e pouca garupa…

CASCUDINHO – Hum!

MESTRE C. – Então, são simpáticos. O presente é, como se diz, a verdadeira política de boa vizinhança.

SOGRA – (Com ares de importante) Ele é meu vizinho. Comprou terra que não acaba mais. Um desperdício de tanta terra. É chão que não acaba nunca.

SOGRO – Acaba sim, ao lado da minha fazenda. Ou será que essa é outra?

LUÍS – Pois mandaram um som.

NOIVA – E mandaram disco, cd, dvd, mp3.

SOGRA – Heim?

LUÍS  – Tudo com música de gringo! Vai ser uma festa diferente.

SOGRA – (ameaçadora, para o noivo) Quem quer festa diferente?

NOIVA – (apaziguando) Eu, minha mãe. Eu até pensava em pedir um, se a gente não recebesse o presente.

MESTRE C – Pois então, tudo resolvido. Comida da terra e música de gringo. Luis, ligue esse aparelho para ver se funciona. É com música que se começa a festa, é com música que iremos receber os convidados. Vamos, homem!

(Luis liga o aparelho. Um barulho ensurdecedor de rock pauleira, seguido de microfonia, guinchos, uivos faz com que todos levem as mãos aos ouvidos, e enquanto juntam-se ao redor do objeto, tentando desligar ou melhorar o som, não percebem a entrada da Mãe-d’água Boiúna, que puxa a noiva, enrolando-se nela e saindo de cena. A noiva grita, desesperada, mas o grupo não ouve direito e, quando percebem, o monstro já está saindo de cena, arrastando seu longo corpo; é da cauda que sairá a Juriti que, desta vez, além de piar, falará com o grupo. Ao perceberem, gritam, desesperados!).

LUÍS – Meu amor! Nazaré! Devolva minha noiva!

CASCUDINHO – Sai daqui, Juriti,  quem te chamou? Devolve o que não te pertence! Devolve a moça! Juriti, você foi se juntar à Boiúna para que?

LUÍS – Por quê?

SOGRA – Devolve minha filha!

JURITI – Minha filha! Que sua filha? Tudo aqui é meu; fui dona da água e continuo sendo. Alguém vive sem água? Pois quem bebe água a mim pertence.

MESTRE DE C. – Que exagero!

JURITI – Cale a boca, infeliz! Estou aqui para o bem de todos!

LUÍS – Estragando o meu casamento? Gente, que é isso? Juriti endoidou!

JURITI – Não estou estragando nada. Procurem um pajé; só ele lhes dirá o que fazer. (Começa a sair)

SOGRA  – Um pajé; qual, onde? Ah, meu Deus, a minha filha!

JURITI – Em Araribóia[v11] ! Procurem o pajé dos Guajá. Enquanto isso, Nazaré fica com Boiúna Mãe-d’água. Andem logo!

MESTRE DE C. – Araribóia?

CASCUDINHO – Passei por lá, em Buriticupu (Observando anotações). Das gentes do Maranhão. A reserva está lá. (ao noivo) Luiz, posso te acompanhar para falar com o Pajé.

MESTRE DE C. – Você não é da família, seu Cascudo de uma figa!

SOGRA – Nem você, mas creio que a filha é minha.

LUÍS – E a noiva, minha.

SOGRA – Pois então, nós decidimos quem vai.

(O Mestre se posiciona rapidamente, certo de ser escolhido; fica irado com a escolha do sogro e sairá, após ouvir quais serão suas tarefas.)

SOGRO – Os dois, Cascudinho e Luiz, irão. Vão com as burrinhas[v12] , mais rápidas que o vento, porque voltam a ser instrumento de salvação. Você (ao Mestre de C.), cuide de explicar aos convidados que o casamento, por hora, está adiado. Mas mantenha as coisas da festa, homem; guarde o que for possível pra quando a noiva voltar.

SOGRA – Vou me apegar com meus santos. Mais poder tem a Virgem! E vocês, o que esperam? Partam imediatamente! Minha filha corre perigo; eu sinto!

(O Mestre retira, do carrinho de presentes, as duas “burrinhas” que serão usadas para a viagem dos rapazes. Apenas estes permanecerão no palco, enquanto os demais saem de cena. Os dois “vestem a montaria e trotam pelo palco”.)

LUÍS – Que é que está acontecendo?

              Meu mundo virou, entornou, afundou

               O que querem com Nazareth, meu amor?

              E eu? Nisso tudo, me perdendo, me arriscando

              Seguindo mundo com esse estranho…

CASCUDINHO – Estranho, não. Cascudinho, seu irmão.

                        Seu caminho é meu rumo

                        Seu destino imediato é minha meta.

                        Me aprumo de todas as teias

                        E dessas veredas de descaminho

                        Resgataremos sua noiva, Nazaré.

LUÍS – Meu Divino Espírito Santo

              Entre o Pai e o santo Filho

              Proteja e guarde o que já te pertence

              A vida e a felicidade do meu amor!

CASCUDINHO – Veja, homem! É a entrada da reserva indígena Araribóia! (Um índio entra em cena e é saudado por Cascudinho). Em nome do grande espírito, pedimos licença. Permissão para entrar em suas terras e o favor de ser recebido pelo pajé dos Guajá!

ÍNDIO GUAJÁ – Há uma razão para essa visita. Quem mandou os dois brancos virem até aqui?

LUÍS – Foi Juriti; primeiro despejou mau agouro; depois, veio com Mãe-d’água Boiúna e esta, levou minha noiva, Nazaré. Juriti disse que o Pajé dos Guajá, na terra Araribóia, sabe a razão.

ÍNDIO G – Juriti é a dona da água. Floresta derrubada, água perdida; a mata vai embora, vem doença.

CASCUDINHO – A doença do boi?

INDIO G. – A doença do mundo. Sem água, homem não vive; o branco, o índio, ninguém vive.

LUÍS – Mas o que é que Nazaré, minha noiva, tem com isso? Por que ela foi sequestrada?

INDIO G. – Iria ter festa sem boi; festa sem música…

LUÍS – Com minhas desculpas, mas música teria e terá!

INDIO G. – Da terra? (o noivo cala-se, embaraçado; o índio continua) Água deixa boi doente; música de longe não faz boi dançar; alguém tem que buscar a cura.

CASCUDINHO – E o pajé Guajá sabe qual ou como dar-se-á tal cura?

INDIO GUAJÁ – Não sou pajé Guajá! Somos poucos, queremos paz. Procurem a mulher velha de Sirituba; (entrega aos dois uma muda de árvore) levem para ela um pouco do que resta da nossa mata e ouçam o que ela tem a dizer.

LUÍS  – Sirituba? Como acharemos essa mulher?

INDIO G. – Adeus! Que o grande espírito acompanhe os homens brancos(sai).

CASCUDINHO – Vamos, Luiz; vamos nos alimentar em Buriticupu, descansar e depois seguir para Sirituba; o lugar é uma ilha, em Abaetetuba. Terra de gente íntegra, que mesmo já tendo costume do mundo, preserva muito de suas verdades de sempre. Será fácil encontrar essa mulher, que o Indio Guajá nos indicou! Voltemos ao Pará, para Abaetetuba.

(os dois voltam a viajar)

LUÍS – Foi ao Pará,

              Parou;

              Bebeu açaí,

              Ficou![v13] 

              Nazaré! Não fique não

              Te levo pra Açailândia!

              Faço nossa casa na Praça dos Açaizais!

              Nazaré!

CASCUDINHO – Luiz, companheiro de viagem

                        Nazaré é menina, vestida de boneca[v14] 

                        Boneca, vestida de menina

                        Como só em Abaetetuba se vê.

                        Não está no Pará, nem no Maranhão

                        Caminha por todos os rios

                        (- Não se esqueça!)

                        Nessa estrada buscamos a cura            

                        Pra libertar sua noiva

                        Que da Boiúna é prisioneira

LUÍS – Veja! Um barco enfeitado de rendas e bordados!

CASCUDINHO – Abaetetuba! E suas ilhas todas, rodeadas de rios e igarapés. Chegamos! é o rio Tucumanduba. Vamos dar de beber às nossas montarias. Já estamos em Sirituba!

(Entra a velha! É negra; simpática, uma matrona insinuante.)

LUÍS – E como acharemos a tal mulher?

VELHA – E posso saber quem me procura?

(ambos assustam com a chegada brusca da mulher. Cascudinho julga conhecê-la; entregam a muda enviada pelo índio.).

CASCUDINHO – A senhora, por acaso, quer roupas?

VELHA – Não sou invisível! A velha do Aturiá [v15] é quem gosta de roupas, de objetos dados por quem por ela passa. Mas vocês estão me vendo. Estão com sorte, pois é manhã e sou negra!

(os dois a reverenciam)

CASCUDINHO – Queremos sua bênção!

LUÍS – E a sua ajuda, minha mãe!

VELHA – (maliciosa) O fogo que você tem, em mim ainda não se apagou!

CASCUDINHO – (faz o jogo) E como poderia? O  calor do peito fácil se propaga! E da lembrança volta-se à prática, brincando…

VELHA – “Brincar” é bom.

CASCUDINHO – Mas não é hora.

VELHA – Mas que é bom…

LUÍS – (interrompendo-os) Cascudinho! O noivo sou eu e a noiva outra! Desculpe, minha senhora; a Mãe-d’água Boiúna levou minha noiva, Nazaré; o boi de meu pai está doente; o pajé guajá disse que a água está doente e que você sabe a cura!

VELHA – Ah, valha-me Deus tanta impaciência! É o vigor dos anos! Juriti a dona da água envia dois belos rapazes! Bem, quando a água era só dela, não tinha doença não. A Juriti guardava a água em três tambores[v16] . Os filhos de Cinaã quebraram os tambores; os irmãos correram pelo mundo fazendo rios, cachoeiras, furos, igarapés. Assim veio o Xingu, o Amazonas, todos os rios e lagos. Era para ter água por toda a vida e para todo o mundo.

LUÍS – A senhora me perdoe, mas aqui na nossa terra, abençoada e bendita, água é o que não falta.

VELHA – Mas a doença chega; lenta, sorrateira. Vem no excesso de madeira derrubada; no excesso, porque o caboclo sabe usar o que o grande Pai lhe deu! O mal vem na dor daquele que se vê privado de sua terra, e daquele que nela planta, mas não tem a posse. Homem e terra. Há que ser puro e forte se o destino é ser pulmão do mundo. Procurem os pedaços dos tambores da Juriti. Alguns foram guardados na urna funerária de Rubiatá.

CASCUDINHO – Rubiatá, um dos filhos de Cinaã. Mas, onde encontraremos a urna?

VELHA – Dois santos guardam o segredo:

             O dono das chaves

             O senhor das aves!

              Segredo adivinhado

             E um beijo sem ser roubado…       

LUÍS – Vamos embora, Cascudinho. Perdoe, minha tia mas, beijo meu, você perdeu! Quero é saber de minha noiva. Vamos, Cascudinho! (Arrasta o outro para longe da mulher.)

VELHA – Voltem aqui! É só uma “brincadeirinha”! (sai, rindo da ansiedade do noivo).

LUÍS – Procure seu velho, minha tia. Já adivinhei o segredo! Cascudinho, o dono das chaves é São Pedro, o das aves, São Francisco!

CASCUDINHO – São Pedro e São Francisco juntos, no Maranhão?.. Uma cidade e, talvez, um sítio arqueológico…

LUÍS – Para que sítio arqueológico?

CASCUDINHO – Urna funerária de índio que só conhecemos de lenda não será encontrada nem em feira, nem em mercado. Espera um pouco Luis; aqui no Maranhão nós temos São Pedro dos Crentes e São Pedro da Água Branca!

LUÍS – Para qual cidade iremos, Cascudinho?

CASCUDINHO – (Sempre consultando o caderno) Para São Pedro da Água Branca; é lá que tem o sítio arqueológico São Francisco!

LUÍS – Pois então é lá que está o segredo! Os pedaços do tambor da Juriti!

CASCUDINHO – Mas não sei se encontraram cerâmica nesses sítios; sei de pequenas peças, ditas líticos, mas cerâmica? Urna funerária?

LUÍS – Só indo lá pra saber!

              Nazaré, me espere!

              Não esmoreça, nem desespere!

              Nada impede nosso amor

              Nosso fogo, esse ardor!

(É interrompido bruscamente pela Juriti, que volta, cantando raivosa.)

JURITI – Pare, homem tolo! Você não merece vencer essa jornada!

LUÍS – Que foi que eu fiz? Estou seguindo o que você pediu!

JURITI – A ansiedade atropela o viajante. Quem só pensa no destino se esquece de ver a paisagem, de acumular lembranças.

LUÍS – Mas essa viagem não é de recreio!

JURITI – Por isso mesmo carece de maior atenção! Me diga, namorado inquieto, o que é que você irá fazer com os pedaços do meu tambor?

LUÍS – A velha não disse!

CASCUDINHO – Você não esperou!

JURITI – Vocês não perguntaram. (Para Cascudinho:) O companheiro ideal é aquele que freia quando o animal dispara e solta as rédeas quando é preciso correr.

CASCUDINHO – Danou-se! Me perdoe!

JURITI – Lamente-se por você e por seu amigo.

LUÍS – Vamos voltar para Sirituba!

JURITI – A velha, lá não está. Ela os aguarda na terra que já foi dos Guajajaras.

CASCUDINHO – Joselândia! Lá era a terra dos Guajajaras. Nós iremos até lá!

JURITI – Não cheguem lá de mãos vazias. Levem de presente um pote de angelim-pedra, trabalhado com o talento e a criatividade da gente de Goianésia do Pará. E para que se lembrem de que a atenção é garantia de vida, ficarão sem sua montaria. Andem! E reflitam em cada passo. As burrinhas irão comigo. (vai saindo levando as burrinhas).

LUÍS – Juriti, por favor! Como faremos sem nossas montarias?

JURITI – Conheçam a terra onde vivem!! Até breve! (sai)

LUÍS – Ainda torço o pescoço desse pássaro. Quero arrancar pena por pena desse infeliz.

CASCUDINHO – Pare com isso! Ele pode estar ouvindo e, além disso, é um pássaro encantado; nada podemos fazer!

LUÍS – Uma gaiola, é o mínimo que isso merece.

CASCUDINHO – Cale a boca, por favor! Lugar de pássaro não é em gaiola! Prender o bicho para quê? E arrancar as penas? Para qual serventia?

LUÍS – Dá pra parar com essa de campanha de proteção aos pássaros? Minha noiva foi sequestrada!

CASCUDINHO – A Boiúna sequestrou.

LUÍS – Com ajuda e apoio da Juriti. Quero Nazaré de volta!

CASCUDINHO – Temos que fazer o que o bicho pede, ou não veremos mais sua noiva. Vamos para Goianésia do Pará.

LUÍS – Andando? Você tem noção da distância?

CASCUDINHO – Vamos pensar! Juriti deu uma pista; a solução está no conhecimento da terra. Vamos pensar! E rápido!

(os dois sentam-se e simulam conversar, arquitetar, buscar meios de solucionar. Enquanto isso, em outro ponto do palco, voltam os sogros; a sogra está tensa e raivosa.)

SOGRA – O senhor é um moleirão; não está fazendo nada para trazer minha filha de volta! Eu bem que achei que esse casamento não iria dar certo. Agora minha filha está para virar alimento de cobra.

SOGRO – (malicioso) Calma, minha senhora, há alimento de cobra e alimento de cobra…

SOGRA – E o senhor ainda tem espírito para brincar! Veja se isso é hora pra esse tipo de insinuação. É uma ousadia!

SOGRO – Ousadia, não! Minha parceira, tenho confiança em meu filho e fé no Divino Espírito Santo, que nunca abandonou o povo do Maranhão. Tudo terminará bem.

SOGRA – Se o senhor fizesse alguma coisa, pode ser que sim; mas o senhor não está fazendo nada.

SOGRO – Como não, mandei todos os meus empregados por rumos diferentes daquele tomado por Luiz e Cascudinho. Se virem algum sinal, se conseguirem alguma coisa, voltarão e encaminharemos uma solução. Agora, de qualquer forma, a senhora também não está fazendo nada!

SOGRA – Sou uma mulher; o senhor queria que eu fizesse o que.

SOGRO – Se a senhora não pode fazer nada de concreto, apele para a fé! Pelo menos reze!

SOGRA – Meu pensamento não abandona a Santa que protege meu povo; foi para homenagear a virgem de Nazaré que batizei minha filha com esse nome. A santa nunca me faltou. E já prometi; vou construir um novo carro dos milagres[v17]  para a próxima festa do Sírio. Será o mais lindo barco para levar o agradecimento de todos os agraciados com as bençãos da nossa padroeira. Com certeza, ela salvará minha filha; e, em agradecimento, aconteça o que acontecer, construirei, para minha Santa Mãe, um barco.

(black-out no casal e luz nos dois rapazes; a passagem é rápida)

CASCUDINHO – Um barco! É a solução; sem nossas burrinhas para atravessar a floresta, usaremos o caminho natural da nossa Amazônia. Onde não tem rio? Por todo lugar se chega; e aquelas cidades que não foram agraciadas com um rio, estão perto de um. Vamos de barco, Luiz!

LUÍS – É fácil perceber que o transporte fluvial, por aqui, é um meio mais que importante; mas com qual barco iremos?

CASCUDINHO – Você já ouviu dizer do veleiro que a Boiúna usa para fugir de quem a persegue? Um navio macabro feito de dor, de objetos fúnebres, mortalhas, ossos de suas vítimas?

LUÍS – Claro que já; quem a vê, fica cego; aquele que ouviu ficou mudo e quem a segue, espero que você não queira fazer isso, fica louco!

CASCUDINHO – As coisas da terra, disse a Juriti.  Vamos fazer uma piroga, uma donga; vamos encontrar um tronco de árvore, basta um único para nossa canoa, como a dos indígenas.

LUÍS – Nem piroga, nem donga, Cascudinho.

CASCUDINHO – Por que não?

LUÍS – Porque minha Nazaré é do Pará. Vamos fazer uma maracatim[v18] ! (Enquando dá-se a próxima fala, de Cascudinho, entra a barca com a qual os dois continuarão a viagem.)

CASCUDINHO – Perfeito! Uma maracatim feita de tudo o que não há no navio macabro da Boiúna. Feita com as flores e festas do Pará, com a alegria e o amor que você traz do Maranhão; feita da vontade que temos de salvar essa menina e, certamente, uma canoa construida com o coração terá a velocidade do vento, tal qual nossas burrinhas. ( Já no barco, os dois emitem assobios, a forma de chamar o vento) Vamos, Luiz! Temos que buscar o presente para a Velha, em Goianésia do Pará!

LUÍS – Minha canoa sem remo!

              Me leve pro meu amor,

              Ausência é doce veneno

              Quem aguenta tanta dor?

CASCUDINHO – Rudá!… forjador de lembranças,

                        A saudade nesse peito mora!

                         Mantenha por aqui a esperança     

                        Insufle o vento, nos leve embora.

LUÍS – Cascudinho, você que já andou por aí, toda cidade tem rio?

CASCUDINHO – Quando não banha a cidade, no municipio é certo; e aí, fica fácil chegar. E São Lourenço, soltando o vento, ninguém há de nos segurar, meu amigo.

LUÍS – Vamos pedir também para a Mãe-do-Mato, protetora dos animais fabulosos, das visagens todas desta viagem.

CASCUDINHO – Ela está do nosso lado; veja (apontando), lá na margem, são artesãos de Goianésia.

(entram artesãos, carregando objetos e pedras, para futuros trabalhos)

LUÍS – Como é que você tem certeza?

CASCUDINHO – Porque é para Goianésia que estamos indo, em busca de seus artesãos talentosos! (saudando) Como vão os amigos?

ARTESÃO – Trabalhando, com a graça do Pai. E vendendo o fruto do nosso trabalho. E vocês, de onde vem, para onde estão indo?

LUÍS – Viemos em busca de seu afamado produto. Me diga, o que agradaria a uma velha senhosa.

ARTESÃO – Vossa mãe?

CASCUDINHO – Amiga.

ARTESÃO – Um vaso, um pote, um belo prato; é tudo feito em pedra, dela tiramos nossos produtos. Mas, se o amigo preferir, tenho aqui um raro olho de boto, já preparado na pajelança. O amigo pode ver (entrega ao noivo); está seco. É o melhor amuleto para conseguir o amor de qualquer mulher.

LUÍS – (Ameaça devolver, mas Cascudinho interpela, pegando o objeto) Obrigado, mas já tenho noiva, apaixonada. Vou dispensar o amuleto.

CASCUDINHO – Mas talvez achemos bom uso para ele. (para o Artesão) Este é daqueles (e começa, lentamente, a levar o objeto até a altura dos olhos)?

ARTESÃO – É dos brabos! É só olhar por ele que a paixão aflora, devastadora, em quem está sendo observado.

(Cascudinho olho pelo objeto para o Noivo, que, repentinamente, assume trejeitos afeminados, caindo nos encantos do companheiro.)

LUÍS – Deixa disso, Cascudinho; olha que não me aguento, vamos embora meu nego, que tô querendo!

(Cascudinho ri, o artesão fica orgulhoso da comprovação da eficácia do objeto).

CASCUDINHO – Isso é que é talismã!

LUÍS – Guarde isso, Cascudinho, ou então venha me dar um beijo!

CASCUDINHO – Ah, se Nazaré te ouvisse! (ao artesão, entregando dinheiro) Vou levar esse e aquele pote. Agora, por favor, como faço para quebrar o efeito? Não quero me deitar com macho.

ARTESÃO – Coloque nos olhos do moço e chame pela namorada dele. Depois guarde-o em lugar seguro.

CASCUDINHO – (Fazendo o que o homem mandou) Nazaré! Nazaré! (guarda o objeto).

LUÍS – (voltando ao normal) Valha-me Deus, que é isso? Guarde essa coisa do demônio, onde já se viu uma coisa dessas?

CASCUDINHO – Você ainda quer beijar minha boca?

LUÍS – Eu vou é mijar na sua cova, safado de uma figa!

CASCUDINHO – Vamos embora, isso vai ser uma arma valiosa, você vai ver. Adeus companheiro! Boa saúde e bom trabalho (os artesãos saem, os dois continuam viagem). Agora, Luiz, vamos para Joselândia, é lá que encontraremos a velha.

LUÍS – O Maranhão tá longe, Joselândia muito mais, teremos que atravessar quase todo o estado!

CASCUDINHO – Confie na nossa canoa, nossa maracatim; é visagem! Portanto, é num piscar de olhos! Entra rio, passa córrego, igarapé, outro rio e… (Entra a velha) estamos em Joselândia, terra que já foi dos Guajajaras, terra das canas do Senhor José.

VELHA – (recebendo-os) O apressado come cru! Quem muito corre, perde a razão da partida. Na verdade, confessem, vocês saíram sem tudo o que precisavam para terem desculpas para um retorno, matarem as saudades…

LUÍS – (submisso) Trouxemos-lhe este presente. Esperamos que goste; agora, por favor, diga-nos, o que faremos com os pedaços do tambor da Juriti?

VELHA – Me dê uma boa razão para dizer isso?

LUÍS – Nosso presente não basta?

VELHA – Quanto vale a sua noiva?

LUÍS – Nenhum ouro, nada paga o verdadeiro amor.

VELHA – E eu devo me contentar com um pote? É ruim…

(Cascudinho arma-se do olho do boto)

LUÍS – Mas foi Juriti quem sugeriu tal presente.

VELHA – Bem se vê que ela não tem a menor idéia do que vai pela cabeça de uma mulher!

CASCUDINHO – (Chamando a atenção da mulher, olhando pelo olho do boto) Olhe-me bem nos olhos para que eu tente adivinhar!

VELHA – (já apaixonada, remexe-se, dançando ao som de música de um Tambor de Crioula). Quem precisa do boto para te amar, meu garotinho! Vem cá, vem! Vou dançar um tambor de crioula para sua chegada, meu amante!

(Ao dançar, a velha ressalta os quadris, o ventre, a cintura; os homens, acompanham com palmas; enquanto ela dança, Cascudinho puxa Luis para um canto)

CASCUDINHO – Não disse que esse olho de boto seria uma arma e tanto! Vou fazer essa galinha velha cantar feito maritacata; vai nos contar tudinho! (para a velha). Minha flor! Venha!

VELHA – Tudo o que você quiser, meu amor!

CASCUDINHO – Você vai falar tudo o que eu quero!

VELHA – Eu prefiro fazer (insinua-se, ainda dançando).

CASCUDINHO – Falar!

VELHA – Fazer; vem, vamos!

CASCUDINHO – Olhe que eu vou embora (ameaça sair)

VELHA – (entregando-se) Não! Eu falo! Tudo o que você quiser.

CASCUDINHO – Melhor assim; pare de dançar!

LUÍS – O que vamos fazer com os pedaços do tambor da juriti?

VELHA – (coquete) Só falo pro meu amor!

CASCUDINHO – Pois fale logo!

VELHA – Por favor, com carinho. É assim que eu gosto.

CASCUDINHO – Está bem; diga, minha querida, para que os pedaços do tambor?

VELHA – Foi Ci, a grande mãe, a origem de tudo, meu benzinho. Ela quer fazer a sua parte e é para ela que a Juriti vai levar os pedaços do tambor. Com os pedaços, Ci reconstruirá o tambor original e fará passar por ele as águas todas, de todos os rios. A água sairá purificada e o mundo terá mais uma chance.

CASCUDINHO – E a doença do boi?

LUÍS – E o boi de meu pai?

VELHA – É só dar água limpa, depois de entregar os pedaços do pote da Juriti, depois de lavados, e o boi volta a viver. Agora, menino, vem cá, vem me fazer um carinho!

CASCUDINHO – Ainda não!

VELHA – Você quer me ferir; isso quer dizer que já me ama.

CASCUDINHO – Eu quero é saber onde a Boiúna levou Nazaré!

VELHA – E eu lá sei dessa lambisgóia!

LUÍS – Veja como fala, sua megera!

VELHA – (para Cascudinho) Benzinho, você vai deixar ele me chamar de megera!

CASCUDINHO – Vou!

VELHA – Mas você me ama!

CASCUDINHO – Endoidou! Olha aqui, vou te propor uma adivinha; e só fico com você se você acertar de primeira.

VELHA – Pois você já é meu; mande!

(enquanto cascudinho propõe a adivinha, os dois embarcam, aprontando-se para a viagem).

CASCUDINHO – “A carne da mulher é dura

                         E mais duro é quem a fura

                         Metendo o duro no mole

                         Fica numa dependura”[v19] .

VELHA – (com muita malícia) Duro! Fura? Vem, meu Cascudinho!

CASCUDINHO – Pensou besteira, mulher!

VELHA – Pensei naquilo que você pode me dar, meu amor!

CASCUDINHO – E posso! (repete, tirando um brinco do bolso)

                         A carne da mulher é dura

                         E mais duro é quem a fura

                         Metendo o duro no mole

                         Fica numa dependura”… é o brinco, velha safada, divirta-se enfeitando a orelha, adeus! (os dois simulam a partida, a velha sai, contrariada).

LUÍS – Tu é bem esperto, meu amigo, mas não vai dar para usar o olho do boto na Juriti.

CASCUDINHO – Quem sabe! Mas vamos seguir viagem e ver se ainda usaremos essa nossa arma especial. Vamos para São Pedro da Água Branca, encontraremos os pedaços do tambor da Juriti, iremos lavá-los, como disse a Velha e os entregaremos em seguida, sinto que essa jornada está se aproximando do fim.

LUÍS – Como? E minha noiva, meu casamento?

CASCUDINHO – Calma, homem, é claro que vamos encontrar a moça. Boiúna não quer ficar com ela não!

LUÍS – Como você sabe?

(os dois param o barco, como se o atracasse, e começam a sair do mesmo).

CASCUDINHO – Do contrário, não teria deixado pista. E olha que a Boiúna deixou a própria Juriti pra nos ensinar como resgatar sua noiva.

LUÍS – Tomara que você esteja correto.

(enquanto os dois descem do barco, aproxima-se um arqueólogo).

ARQUEÓLOGO – Por favor, cuidado! Não pisem neste sítio.

LUÍS – Como? A gente tem que por os pés no chão, moço.

ARQUEÓLOGO – É claro, mas fora da área demarcada; por favor, contornem a marca (imaginária, sobre o palco) e evitem pisar onde estamos escavando; os senhores estão em uma área de trabalho do Sítio São Francisco! Estamos recolhendo material para pesquisa.

CASCUDINHO – Material?

ARQUEÓLOGO – Tudo o que indica manuseio humano; aquilo que hoje, para nós, é registro da presença humana pré-histórica na região.

LUÍS – E para que isso?

ARQUEÓLOGO – Só sabe o destino, quem conhece a própria origem. E olhando o passado, podemos planejar melhor o futuro.

CASCUDINHO – Vocês encontraram algum tipo de cerâmica?

ARQUEÓLOGO – De várias épocas; já enviamos todas as amostras para vários laboratórios, em diferentes partes do mundo, para serem datadas corretamente.

LUÍS – Todas as amostras para vários laboratórios? Em diferentes partes do mundo?

ARQUEÓLOGO – É a maneira de comprovar a origem e a data correta de cada objeto. Se bater o resultado de três laboratórios não há como desconfiar da autenticidade de cada peça. É norma internacional.

CASCUDINHO – E quando devolverão esse material?

ARQUEÓLOGO – Hoje, amanhã; está vindo de trem; chegou pelo porto de Itaquim, em São Luis. Posso saber o que querem?

LUÍS – Queremos saber se encontraram um determinado pote!

ARQUEÓLOGO – Nosso material não está à venda; é de propriedade pública, para pesquisa. Daqui os senhores não poderão levar nada!

LUÍS – Mas não dissemos que iremos levá-lo!

ARQUEÓLOGO – E vieram de longe apenas para saber se ele existe? Esqueçam; é material de pesquisa. Daqui não sairá.

CASCUDINHO – O moço tem razão; vamos embora, Luís, vamos encontrar outra solução.

ARQUEÓLOGO – Espero que não pensem em fazer algo na surdina; toda a área é vigiada, protegida. Façam boa viagem e esqueçam o pote.

(O noivo vai contestar; Cascudinho puxa-o, para que saiam do local. O arqueólogo se afasta.)

LUÍS – Mas, Cascudinho, e Nazaré?

CASCUDINHO – Tenha calma; vamos embora?

LUÍS – A velha disse que os pedaços estavam aqui.

CASCUDINHO – Pois estão vindo de trem. Vamos interceptá-los.

LUÍS – Onde, como?

CASCUDINHO – Açailândia. O trem, certamente fará uma parada em Açailândia. Vamos até lá!

LUÍS – Mas como saberemos qual é o trem?

CASCUDINHO – Não sei; olharemos em todos!

LUÍS – Você está louco? São composições enormes, com centenas de vagões; e se as peças vierem nos bagageiros dos trens de passageiros? Eu não vou sair daqui.

(A Juriti entra, sem que percebam)

CASCUDINHO – Aqui estamos visados. Qualquer tentativa e aquele homem vai nos impedir! E, além do mais, já deve ter alertado todo mundo da nossa presença, do que viemos fazer.

JURITI – (Interrompendo-os e assustando-os) Cavem! O material ainda está aqui. Não está em nenhum trem!

(A Boiúna atravessa o palco, levando Nazaré)

LUÍS – Porque você mesma não cava? O pote era seu!

JURITI – Não sou eu quem polui a terra. Eu não corto árvores e só mato outros bichos para meu próprio alimento. (Apontando) E a noiva não é minha!

NAZARÉ – Socorro! Luís! Me ajudem; Socorro!

LUÍS – (Avançando em direção à noiva) Boiúna! Largue a minha noiva!

CASCUDINHO – (Impedindo-o) Não deixe que a Boiúna te olhe que você fica cego.

JURITI – Cavem!

LUÍS – Nazaré!

CASCUDINHO – Ela ainda está viva, graças à Deus. Vamos fazer o que a Juriti manda. Vamos cavar homem.

JURITI – Aqui ( e sai do lugar onde esteve, deixando pedaços de pote de barro sobre o palco; os dois homens simulam cavar, até encontrar o material)!

CASCUDINHO – (com um caco nas mãos) É este?

JURITI – Não!

LUÍS – E este!

JURITI – Obrigado! Você o encontrou; agora, leve-o para Açailândia e lave-o no rio de mesmo nome. É para purificar a água! Andem; a Boiúna logo terá fome.(sai)

LUÍS – Ainda faço um cocar das penas dessa Juriti!

CASCUDINHO – Vamos, Luis, Açailândia está perto. Chegaremos à noite, descansaremos vendo a bela praça de açaizeiros e nos primeiros raios do dia iremos até o rio, fazer o que Juriti mandou.

LUÍS – E depois?

CASCUDINHO – Lá saberemos. Vamos, amigo!

(Sobe som de música indígena. Enquanto os dois saem por um lado, a Juriti entra por outro, com o mesmo carrinho já utilizado para os presentes, agora cheio de mudas de árvores. Junto, um recipiente indígena que será enchido de água, no palco, pela Juriti; é o rio, onde os rapazes lavarão os pedaço de tambor. Ao terminar de dispor os materiais, a Juriti espera e os dois rapazes chegam, iniciando a lavagem dos pedaços de cerâmica. Enquanto as peças são lavadas, a figura do boi atravessa o palco, dançando suavemente.)

LUÍS – Não vejo sinal da Boiúna, nem sinto a presença de Nazaré! Quando isso irá terminar?

CASCUDINHO – Tenha calma, vamos cumprir com o que nos é solicitado; assim, Juriti não deixará de cumprir sua palavra.

JURITI – Falta pouco! Vocês descansaram na cidade?

CASCUDINHO – Açailândia é cidade bonita. Suas praças harmoniosas, aconchegantes.

JURITI – O povo da cidade preservou os açaizeiros, na praça central.

LUIS – Isso todo mundo sabe!

JURITI – E você, construtor de maracatins, o que tem feito pela floresta? Nem me diga, porque já sei.

LUIS – Eu quero Nazaré de volta.

JURITI – Vocês atenderam aos desejos de Ci, os pedaços do meu tambor lavados, o boi já volta a viver; levarei esses pedaços e Ci reconstruirá o tambor. É dos pedaços do que fica que se reconstrói o novo. Farei passar toda a água pelo tambor e ela ficará pura outra vez.

LUIS – Pois então, está tudo resolvido. Onde está minha noiva?

JURITI – Com Mãe-d’água Boiúna!

LUIS – (Exasperado) Isso todo mundo sabe!

JURITI – Todo mundo sabe! Sabidão! Então me diga, que árvores são essas, cujas mudas te dou em paga pelo seu trabalho?

LUIS – Para que isso?

JURITI – Você quer Nazaré de volta. Que madeira você utilizou para fazer sua maracatim?

CASCUDINHO – (apontando uma muda) Dessa daqui, Pequiá. (para outra muda) Veja essa planta aqui, Luiz ! É muito bela quando em flor e sua madeira é boa para grandes construções!

LUIS – (Ansioso e nervoso) É Pau d’arco! E esta outra, é Acapu, dona das flores amarelas. E esta outra é maior entre as maiores, maçaranduba. Sou um homem da floresta, Juriti, conheço todas elas (apontando): copaiba, castanha-do-pará, cedro. (para Juriti) O que você quer com isso?

JURITI – Aqui falta uma: Breu Branco. Vocês devem buscar uma muda na cidade do mesmo nome.

CASCUDINHO – Breu Branco! Bálsamo perfumado!

JURITI – Depois irão plantá-las em Tailândia. É Mãe-d’água Boiúna quem quer! Floresta derrubada, floresta refeita. Assim se sobrevive; assim deve ser. Tomem de volta suas burrinhas. Busquem o Breu Branco e rumem para Tailândia. Estarei em Breu Branco, esperando-os no sítio esperança. (sai, levando o barco; os dois reiniciam a viagem.)

LUÍS – Minha burrinha encantada!

            Me leve pro meu amor,

            É longa essa caminhada

            Quem aguenta tanta dor?

CASCUDINHO – Amigo, próximo está o fim

                        Mantenha aceso o lume!

                        Lave a tristeza em perfume

                        De mate, jasmim, benjoim.

LUÍS – Quem brinca com meu destino?

           Cometi grandes pecados?

           Pra que tanto desatino

           Ao buscar o ser amado?

CASCUDINHO – Combata a tristeza com alegria, Luiz; sinta o ar agradável. Estamos em Breu Branco. E se viemos até o sítio, dito esperança, é para que esta de nós não se perca. (os dois recolhem mudas da árvore denominada Breu-Branco)

LUÍS – Sitio Esperança! Outro sítio arqueológico. Cadê o povo de Breu-Branco?

JURITI – Posso representá-lo! E deixe esse tom amargo, meu caro. Meu canto já pouco ecoa, as boas notícias voam, assim como as graças de Ci; a cura se espalha pelo Pará, Maranhão, por todo o Brasil através da purificação da água.

CASCUDINHO – Já temos a muda de Breu-Branco. Vamos para Tailândia?

JURITI – É um convite! Que bom que volta a delicadeza!

LUÍS – Delicadeza…

JURITI – Cuidado e carinho para com os bichos, as plantas, as cidades, os homens. Terei prazer em acompanhá-los. Vamos! (reiniciam a viagem)

CASCUDINHO – Juriti, não é bobagem replantar cinco, seis mudas? O que valerá tudo isso?

JURITI – Cada um que faça a sua parte. Muito já foi queimado, virou carvão. Pouco foi reposto. E replantar, te garanto, não dói nada.

LUÍS – Dor é perder a noiva no dia do casamento! Onde está Nazareth?

JURITI – Estamos chegando em Tailândia! Jovem e promissora cidade. Podem iniciar o plantio (Os dois colocam as mudas na boca de cena, como se plantando-as). Chamaremos este local de Jardim Pinheiro, em homenagem ao homem que tanto fez por Tailândia.

CASCUDINHO – (didático, olhando o livro) Tailândia é um país da Ásia, lá do outro lado do mundo…

LUÍS – (interrompendo-o) Cascudinho! Chega! Juriti, onde está Nazaré!

JURITI – Está com Mãe-d’água Boiúna!

LUÍS – Eu vou torcer teu pescoço, coisa ruim!

JURITI – Protegendo-a do boto, a Boiúna abandonou os rios, escondeu-se com a moça em um lago. No rio, a moça viraria presa fácil do Boto, no Lago, e ele não sabe qual, a moça está segura.

CASCUDINHO – (resignado) Lá vamos nós para Lago da Pedra!

JURITI – Chegando lá, arranje uma acangatara para levar pra Velha!

(Luís procura o significado em seu livro)

LUIS – Teremos que voltar para Joselândia? Foi onde a deixamos.

JURITI – Encontrem a acangatara e levem para a mulher. Não se abandona uma mulher seduzida. Você (para Cascudinho) fez com que ela o amasse. Vá lá e resolva esse afeto.

CASCUDINHO – Casando-me com ela? Nem pensar; aquela deixou a vergonha em Marapatá[v20] . Não é mulher para casamento.

JURITI – Nem para ser encantada e, em seguida abandonada. Desfaça o feitiço do olho do boto. É sua responsabilidade. Agora, tomem rumo!

LUÍS – Você não vem conosco?

JURITI – Pra você torcer meu pescoço? Meu nome é Juriti; cheguei por aqui antes dos homens, aviso perigos, não mato ninguém. Andem, voltem à estrada. (sai)

CASCUDINHO – Acangatara! Cocar, feito de penas coloridas, para festas, danças…

LUIS – Cascudinho! Pra onde iremos?

CASCUDINHO – Já disse! Lago da Pedra. Tudo está ligado às cidades. Se a Boiúna está no Lago, como disse a Juriti, só pode ser em Lago da Pedra. Temos de volta as burrinhas, vamos nessa, companheiro!

LUIS – Vou cometer um desatino, vou acabar com essa Juriti!

CASCUDINHO – É visagem, homem, perca essa idéia!

LUÍS – Nazaré não é visagem!

CASCUDINHO – Por isso vamos trazê-la de volta. Lago da Pedra é uma cidade grande. Fiquei um tempo morando na cidade, na Vila Mangueira; depois me mudei pra Macaúba e, antes de ir embora, morei num local chamado Currutela!

LUÍS – Pare de mostrar seus conhecimentos, Cascudinho! Assim, a gente não chega nunca.

CASCUDINHO – Pois vamos em frente; avante! (Cascudinho, soma palmas à palavra. As palmas seguirão, cadenciadas; volta o Tambor de Crioula e a velha entra dançando; junto com ela, uma outra mulher, também dançando, passa e deixa o cocar com Cascudinho.) Veio lavar-se em Lago da Pedra, minha velha?

VELHA – Sua ainda não fui. Mas posso e quero vir a ser, meu Cascudinho!

CASCUDINHO – Trouxe-lhe este presente!

VELHA – Se eu o aceito, nosso amor acaba.

CASCUDINHO – Nosso, não! Seu. Aceite mulher e deixe de passar vontade. Do meu lado, você nada terá. (entregando o presente). É seu, desejo que seja feliz.

LUÍS – Vamos para o Lago! Vamos tirar Nazaré do abraço da Boiúna.

VELHA – Ela não está aqui!

LUIS – Eu mato aquela Juriti!

VELHA – Mate Cascudinho, que aqui te trouxe. A Juriti disse lago, não Lago da Pedra.

LUÍS – Cascudinho!

CASCUDINHO – Ora essa! A gente não acerta todas. Diz minha velha, onde está a Boiúna.

VELHA – Há tantos lagos por aí…

CASCUDINHO – Diga qual!

VELHA – Pode ser o lago do Curador, o da Binga, lago da Panela, o Lago Grande… peça ajuda a São Sebastião!

LUÍS – Você fala da minha terra, e do Maranhão sei muita coisa. Esses lagos estão no município de Presidente Dutra, cidade cujo padroeiro é São Sebastião.

VELHA – Não sei se a Boiúna vai entregar a moça assim, fácil.

LUÍS – Já plantamos as árvores, como ela mandou.

VELHA – Vai que se afeiçoou à moça…

LUÍS – Pare de enrolar e diga logo! Não percebe um homem desesperado?

VELHA – Não.

LUIS – (ameaçador) Ainda tenho o olho do boto!

VELHA – Pois continue guardando-o. Não há nada pior que amor não correspondido. Estão no lago do Curador! (A velha intensifica os passos da dança e, enquanto sai, dá o último alerta!) Boiúna não entregará a moça! Vocês não terão êxito nessa jornada.

LUIS – Mais poder tem o Divino Espírito Santo! E a virgem de Nazaré, protetora da minha amada. E vamos logo, Cascudinho. Sem delongas para esse lago do Curador.

CASCUDINHO – (com o livro) Curador era o antigo nome de Presidente Dutra!

LUIS – Cascudinho! Vou rasgar esse livro, vou queimar seus cadernos!

CASCUDINHO – (sério) Isso não se diz! Nem pro pior inimigo. Tem tão poucas bibliotecas por aí! Um livro, meu amigo, vale tanto quanto um amigo! A fala se perde na mata; o grito vai-se embora no vento. A escrita fica; o conhecimento permanece. Somos a soma dos nossos antepassados e se corremos o risco do esquecimento, o livro é o fiel registro da mais terna lembrança.

LUIS – Pois jogue esse livro na cabeça da Boiúna e faça o monstro devolver minha noiva.

CASCUDINHO – A velha estava com a razão; o lago está aí. Lago do curador.

LUIS – Quem vai mergulhar? Quem vai fazer a Boiúna vir à tona?

CASCUDINHO – Vamos procurar um mergulhador corajoso na cidade? Mas não sei se ele enfrentaria a Boiúna! Se tivéssemos um boto tucuxi.

LUIS – Boto tucuxi?

CASCUDINHO – É aquele que empurra náufragos de volta à terra. Ele poderia buscar Nazaré nas profundezas do lago.

LUIS – Não acredito; não posso aceitar. Tantas idas e vindas. Pará, Maranhão, Maranhão, Pará… quantas vêzes passamos perto de …… (cita a cidade onde ocorre a apresentação), em suas imediações, cumprindo nosso destino para chegar aqui e… nada? Isto não está certo. (chama) Juriti! Juriti! Apareça pássaro maldito!

CASCUDINHO – Não é amaldiçoando que você irá conseguir!

LUÍS – Juriti! Ouça um homem desesperado! Apareça!

JURITI – (Entrando, e junto com ela, o som da dança do boi) Com calma e persistência se fez um Pará; com tenacidade e paciência se constrói um Maranhão. Com muita luta, com garra, pois só os fortes merecem a terra. As gentes do Maranhão e do Pará têm a força do boi, a agilidade, a decisão. O boi, barbatão invencível.

CASCUDINHO – Bumba-meu-boi, Maranhão! Boi-bumbá, meu Pará!

JURITI – Um boi valente, um boi gigante, poderoso. Um boi para enfrentar Boiúna no lago, resgatar Nazaré.

LUÍS – Por que ela quer ficar com minha noiva!

JURITI – É você que está em prova! Você, Luis, do Maranhão, faça por merecer Nazaré, do Pará.

CASCUDINHO – E onde encontraremos tal boi?

JURITI – Tenho notícias de um, em Paulo Ramos. Bravio, indomável para as ações corriqueiras dos homens. Um boi que desconhece cercas, que arrebenta todos os laços, que não suporta canga.

LUÍS – Mas há muito gado em Paulo Ramos. A cidade é rica, com seu gado valioso. Como iremos identificá-lo? E se é indomável, como o traremos até aqui?

JURITI – Quem, de todos os viventes, é o que mais quer o boi? Encontre-o em Paulo Ramos. Estarei aqui quando voltarem. Agora, tomem rumo! (sai)

(os dois reiniciam a viagem)

LUIS – Mais uma estrada, mais uma viagem!

CASCUDINHO – Paciência, Luis; perseverança!

LUIS – Mais uma tarefa, mais uma visagem!

CASCUDINHO – Persistência, Luis, e mais paciência.

LUIS – Diz, meu amigo, não poderia ser algo mais simples da cidade de Paulo Ramos? Um babaçu, um cadinho de canjica?

CASCUDINHO – Coco e canjica não trarão Nazaré de volta, homem. Melhor é pensar no que a Juriti disse: quem, de todos os viventes, é o que mais quer o boi? É esse ser que irá identificá-lo.

LUIS – Essa é fácil, Cascudinho! Quem quer o boi? Quem sonha com ele?

CASCUDINHO – Catirina? (Volta a música do boi; entra o Mané-Gostoso[v21] , um boneco  cujos movimentos das pernas e braços são realizados através de cordões) Não creio ser ela, o ser que se aproxima. Quem vem lá, diga o nome!

MANÉ-GOSTOSO – Quer coco? Sou Mané-coco.

LUIS – Não estamos procurando coco!

MANÉ-GOSTOSO – Atrás de besta? Sou Mané-besta; querendo um bestalhão, sou Mané-bestalhão!

LUIS – Meu Deus, nos aparece um tolo!

MANÉ-GOSTOSO – Sou Mané-tolo!

LUIS – Meu pai!

MANÉ-GOSTOSO – Pai-mané!

LUIS – Quantos nomes você tem?

MANÉ-GOSTOSO – Mané-coco, Mané-besta, Mané-bestalhão, Mané-tolo!

CASCUDINHO – Mané-gostoso!

MANÉ-GOSTOSO – Esse é o melhorzinho; Mané-gostoso!

CASCUDINHO – Luis, te apresento Mané-gostoso, antiga personagem do Bumba-meu-boi! O boi está perto.

MANÉ-GOSTOSO – Catirina quer o boi!

CASCUDINHO – Catirina está por aqui?

MANÉ-GOSTOSO – Catirina deseja o boi!

CASCUDINHO – Onde está o boi?

MANÉ-GOSTOSO – Nem Pai Francisco pegou… Esse boi! Ninguém pega esse boi. O sol vai embora, Boi não tem. Mané-gostoso vai embora. (sai)

LUIS – (para Cascudinho) Não o deixe sair!

CASCUDINHO – Deixe-o! Se Pai Francisco não pega, pegaremos nós.

LUIS – Como? Com qual artimanha? Com o olho do boto?

CASCUDINHO – Bobagem! Vamos começar pelo fim; o boi pensará que a caçada terminou e virá brincar.

LUIS – Começar pelo fim? Essa agora…

CASCUDINHO – Sim, a festa que encerra o auto! Começaremos pelo fim. Quando todo mundo dança! Vamos fazer um bumba contagiante, um boi de zabumba, autêntico do Maranhão. Vai ser fácil (entram alguns atores, tocando os instrumentos; Cascudinho começa a dançar.)! Temos a zabumba, o maracá, os tamborinhos! Dancemos Luiz! Zabumba, meu Boi! E olhe que o bicho vem!

(Luiz começa a dançar, timidamente, entusiasmando-se com os músicos e aumentando o ritmo. O grupo toma a boca de cena, dançando, enquanto entra o boi, em “puro pelo”, sem os enfeites que caracterizam a figura tradicional.)

CASCUDINHO – Não te disse, Luis? Deu certo! Aqui está o nosso boi!

(a música pára. Todos observam o animal, sem enfeites, sem beleza; os músicos saem de cena).

LUIS – É esse boi que vai lutar com a Boiúna? Sei não; parece que está faltando alguma coisa.

CASCUDINHO – É um boi forte, poderoso! Um animal assim mete medo!

LUIS – Mas a Boiúna… ah, minha Nazaré!

CASCUDINHO – Pare de lamentar-se, homem!

JURITI – (entrando) É necessário fazer aparecer a visagem. Vamos para Castanhal!

LUIS – No Pará! De novo!

CASCUDINHO (Puxando a viagem) La vamos nós; outra vez! Eu nem estou cansado!

JURITI – Vamos dar de beber da água do Igarapé Castanhal!

(Enquanto viajam, o boi sai de cena.)

CASCUDINHO – De lá, conheço bem o rio Apeú; estive na romaria fluvial; em honra à senhora de Nazaré!

JURITI – Do Apéu surgiu o Igarapé Castanhal. Pegaremos água nesse caminho da água e daremos de beber ao boi. A visagem aparecerá e o boi estará pronto para enfrentar a Boiúna.

LUIS – (desolado) O boi do Maranhão, a Boiúna do Pará. Não há de ter vencedor.

JURITI – O vencedor será aquele que receber sua noiva. Peguem a água!

(Sobe um som suave, de percussão, que remete à água em movimento; entra uma índia, o próprio igarapé, com um pote cheio da água. Entrega uma cuia, que estará atada à sua cintura, para Luis e, em seguida, despejará água no recipiente; sairá de cena, sendo seguida por Cascudinho, que será impedido de sair pela Juriti).

JURITI – Luis, dê de beber ao boi. Cascudinho, volte aqui que essa não nasceu para você.

(Enquanto Cascudinho volta, Luis se aproxima da coxia, simula dar de beber ao boi e, em seguida, trará o animal, já todo enfeitado, para o centro do palco)

CASCUDINHO – Uma água tão limpa! Dá vontade de beber!

JURITI – Há que se cuidar da água, tirar o lixo, mantê-la pura!

CASCUDINHO – Mas esse Igarapé…

JURITI – Deve ser preservado, berço de Castanhal que foi. Receba o boi!

(Cascudinho, encanta-se com a entrada do animal. Junto com Luís, brincam com o animal)

CASCUDINHO – Bate! Chifra, meu boi!

(após alguns instantes, são interrompidos pela Juriti)

JURITI – O boi está pronto. Parem! Não cansem o bicho. Vamos até o Lago do Curador, de volta a Presidente Dutra, no Maranhão! Eu conduzo o boi.

CASCUDINHO – Qual visagem irá vencer?

(durante os próximos versos, a luz diminui, acentuando a noite anunciada por Mané-gostoso; quando chegarem ao lago, já será noite alta).

LUÍS – Só indo lá pra saber!

              Nazaré, me espere!

              Não esmoreça, nem desespere!

              Nada impede nosso amor

              Nosso fogo, esse ardor!

CASCUDINHO – Amigo, próximo está o fim

                        Mantenha aceso o lume!

                        Lave a tristeza em perfume

                        De mate, jasmim, benjoim.

LUÍS – Nossa viagem foi longa, noite alta; ainda longe está a madrugada. Gostaria que meu casamento fosse pela manhã; para iniciar, junto a minha amada, o mais longo e glorioso dia, o dia da nossa união. Mas como faremos agora, nessa noite escura, sem estrelas?

CASCUDINHO – Isso é fácil meu amigo; lembre-se que eu percorri o caminho dos cabos de luz. Aprendi com meus amigos técnicos a iluminar qualquer lugar. Espere um instante e você verá.

(Volta o mesmo som do carimbó do prólogo – predominando-se o ritmo de atabaques sobre a melodia – e a mesma dançarina, toda vestida em amarelo, portando lanternas nas mãos, deve iluminar o palco; com os volteios característicos da dança, joga a barra da saia em diferentes direções, iluminando os principais pontos até à luz geral. Na medida em que o espaço ganha luz, sai a Juriti e entra em cena a Boiúna, dançando no rítmo da moça; quando esta sai, o palco já iluminado, desce o som do carimbó; os dois bichos realizam movimentos, como se estivessem estudando um ao outro, premeditando o ataque. Permanece o som da zabumba, cadenciado, criando suspense)

CASCUDINHO – Vai começar a peleja!

LUIS – Não vejo Nazaré, ela não está aqui!

(Os dois animais brincam; o boi avança, a boiúna se esquiva para, em seguida, tenrar enrodilhar-se no boi; é a vez deste se safar. Os atores devem bater palmas, acompanhando a brincadeira).

CASCUDINHO – Acabe com ela, meu boi!

LUÍS – Nunca! Não deixe que te machuque, Boiúna!

CASCUDINHO – Endoidou?

LUÍS – Tô preservando Nazaré!

(os dois animais intensificam a brincadeira. Devem tomar distância para avançar, como a provocar um choque, uma trombada, para permanecerem estáticos, um frente ao outro. Luís, percebendo o final, deve gritar, tentando impedir, entrando entre os dois bichos).

LUIS – Não! Parem!

CASCUDINHO – Luis, cuidado!

LUIS – Um, não pode acabar com o outro. Não pode, não deve!

CASCUDINHO – Por que não?

LUIS – Quantos rios tem o Pará, o Maranhão? Mãe-d’água Boiúna é dona das águas dos rios. Sem ela, os homens não serão impedidos de poluir, abusar, desperdiçar. Mãe-d’água Boiúna é a lembrança do poder da água, da pequenez do homem diante do menor igarapé. Não pode ser destruída. E o boi? Como viverá nossa gente sem o boi? O boi que dá força, vitalidade, alimento e, esse nosso boi, sobretudo, nos dá alegria. Uma alegria que renasce após cada desgraça. O boi, renascendo da morte para brincar, nos lembra da paz, após cada batalha, da vida, após cada morte cotidiana! Nenhum dos dois pode morrer.

CASCUDINHO – Bonito discurso! Mas, e Nazaré?

LUIS – (desesperado) Não sei! Não sei o que fazer?

JURITI – (Entrando) Nazaré está onde deveria, na cidade te aguardando para o casamento!

LUIS – (surpreso) Como? Quando foi libertada?

JURITI – Quando você impediu o fim do Boi e da Boiúna. Você compreendeu sua missão, meu amigo! (Boi e Boiúna deixam o palco)

LUIS – Compreendi?

CASCUDINHO – Vai dar uma de Mané-gostoso, meu amigo! Sua missão é preservar, avançar sem destruir, sem esquecer.

LUIS – Preservar; avançar sem destruir, sem esquecer…

(Durante o diálogo, abaixo, alguns adereços que apareceram durante a jornada, deverão voltar ao palco. Serão portados pelo Sogro, a Sogra e demais atores.)

JURITI – A vida segue seu curso; o novo vem e as coisas se transformam. Mas permanece a sabedoria dos Guajás; há que se descobrir muito sobre o passado e possa a arqueologia desvendá-lo. Um casamento é um pouco maior que a união de corpos, de duas famílias.

CASCUDINHO – Aqui é a união de dois estados!

JURITI – No início, você e Nazaré uniram-se pelo afeto e trouxeram, para o momento sagrado da união, a culinária das duas regiões.

SOGRO – Arroz de cuxá, do meu Maranhão!

SOGRA – Antecedido pelo Tacacá, a delíciosa iguaria do Pará! E muito mais, mas faltava o Boi…

JURITI – E a descoberta de algumas riquezas dos dois estados.

LUIS – A gente não vai repetir tudo o que, por aqui, já passou, não é? Basta lembrar! (referindo-se aos objetos no palco) Está tudo aqui e, o que não está fica na lembrança. Eu quero é me casar! Onde está Nazaré?

JURITI – Você não irá esquecer?

LUIS – Terei todas as histórias da viagem para contar para meus filhos, para meus netos, para meus bisnetos… Mas e a Nazaré!

SOGRA – Devagar, rapaz! O noivo só deve ver a noiva diante do altar.

JURITI – Tudo resolvido, devo dizer adeus!

CASCUDINHO – Jurití, que agourou, mas contribuiu para evitar qualquer mal, eu não sou daqui, sou do mundo, me leve para Axuí!

SOGRA – Axuí?

SOGRO – A cidade de ouro, perdida no interior do Maranhão. Você quer buscar o ouro, Cascudinho?

CASCUDINHO – Ouro, quando vem, é bom. Mas a aventura da viagem…

LUIS – Espere, e o meu casamento, caro amigo! Vai perder a festa? Olhe que o padre vem chegando!

(Entra o padre e se posiciona, assim como os demais, simulando o altar de uma igreja, esperando a entrada da noiva.)

CASCUDINHO – Convide também a Juriti, assim, partiremos após a festa!

SOGRO – Está convidada. Todos são bem-vindos quando a festa é de união. Mas, Luis, de todas as visagens, guarde esta, que é visão que o tempo transformará em lembrança  e, das lembranças todas da vida, esta será, com certeza, uma das mais belas. Receba sua noiva!

(Marcha nupcial para a entrada de Nazaré. Deve estar vestida com rendas e adereços artesanais. Permanecem no palco os noivos  e o padre. Os demais saem. Após a benção dos noivos, com o sinal da cruz, sobe a música do boi e este volta ao palco, junto com a Boiúna e os demais atores. A coreografia deve mesclar e alternar dois momentos distintos; o rítmo contagiante do boi e do carimbó. A luz cai em resistência. Os brincantes, quando oportuno, descerão para dançar com a platéia.)

São Paulo, julho de 2008

Valdo Resende


 [v1] Referência à construção da Belém-Brasília)

 [v2]Bernardo Sayão Carvalho Araújo, engenheiro responsável pela construção da estrada.

 [v3]O Kubitschek!

 [v4]Indíos que participaram da expedição.

 Também  encontrei como Cobranum!

 [v5] Luiz Gonzaga e José Fernandes

 [v6]Grande pesquisador do folclore brasileiro, aqui identificado e homenageado.

 [v7] Personagem que gera a trama do boi.

 [v8] A Juriti-Pepena, é lenda do Pará.

 [v9]Homenagem à D. Maria do Carmo Pompeu dos Santos, famosa vendedora de Tacacás de Belém.

 [v10]A mistura de pratos e rítmos é intencional. Não haverá distinção para acentuar a origem de cada hábito, costume ou objeto.

 [v11]Reserva Indígena em Buriticupu.

 [v12] Folguedo popular, convergiu parao Bumba-meu-boi.

 [v13]Domínio popular.

 [v14] Referência ao concurso de Meninas vestidas de boneca, que ocorre em Abaetetuba.

 [v15]Lenda do Pará.

 [v16]Lenda da formação dos rios.

 [v17]Veículo presente no Círio de Nazaré, levando ex-votos, promessas.

 [v18]Canoa dos indígenas do Pará.

 [v19]Citada por Luís da Câmara Cascudo.

 [v20]Limite da consciência do civilizado.

 [v21]Em meados do século passado, era figura comum do Boi, hoje, praticamente desaparecida.

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