O SUS não mata quem tem câncer

A distinção entre justiça e vingança é uma linha absolutamente tênue; principalmente quando aquele que pede justiça é alguém que sente-se diretamente afetado, quando na verdade, é indiretamente. No caso de uma morte, o principal afetado é o falecido e não aqueles que reclamam “justiça”, na base da Lei do Talião (Olho por olho, dente por dente).

Quem procura justiça costuma transformar anseios em ações concretas e há muitos exemplos por aí, de pais que criam instituições assistenciais, ou campanhas de conscientização, ou mesmo outras formas de, construtivamente, buscar sanar questões que culminaram com a perda dos filhos. Penso que é mais salutar e, prioritariamente, mais produtivo (poderia dizer cristão!) do que prosseguir no eterno jogo do rancor e do ódio.

Sem ser exclusivamente vingança, ações que pedem justiça através de atitudes pacíficas também interessam mais. Um exemplo, o recente protesto pela morte de uma mulher e sua filha; aqueles que exigiam uma punição para o causador dos atropelamentos utilizaram uma frase forte, porque verdadeira: “Não foi acidente”. E esta expressão, “acidente”, costuma ser usada pelos irresponsáveis que com ela buscam justificar atos criminosos, buscando condescendência. Batalhar para que esta expressão não seja aceita em mortes causadas por motoristas embriagados é uma ação inteligente .

As expressões verbais, faciais e gestuais de indivíduos que clamam vingança são apenas semelhantes aos que pedem justiça. A linguagem, até parece a mesma, mas… “A linguagem – escreveu Saint-Exupéry – é uma fonte de mal-entendidos”. E certas frases podem manifestar preconceitos, crenças errôneas, subentendidos absurdos.

Toda essa introdução para refletir sobre a “campanha” em algumas redes sociais, para que Lula, com câncer, não se trate em um hospital particular, mas no SUS. A princípio é uma campanha torpe. O pior é que há um subentendido tenebroso no discurso desses que insistem para que o ex=presidente procure o SUS: “Se Lula procura o SUS morrerá como todo e qualquer pobre que depende dessa instituição”.

Seria bom que essas pessoas que encaminham o ex-presidente para o SUS enfrentassem uma terrível realidade: se dinheiro e tratamento nos melhores centros hospitalares garantisse a cura contra o câncer, Steve Jobs – um dos homens mais ricos do planeta – estaria vivo. Uma outra realidade, e nesta, que a justiça seja feita, os hospitais especializados em câncer, e que atuam com recursos da União, não matam ninguém. Pelo contrário, tratam e alguns muito bem, os doentes afetados por essa terrível doença.

O que qualquer estudo sobre câncer revela é que há tipos com cura, com chances de sobrevida, e outros tipos que são fatais. O que qualquer pesquisa pode confirmar é que o preço dos remédios está associado ao poder dos grandes laboratórios mundiais, que comercializam com frieza todo e qualquer remédio, tratando-os como mero produto capitalista com objetivo de lucro.

A luta contra os grandes laboratórios está no histórico de Jose Serra (E sou grato ao político Serra por “peitar” os grandes laboratórios!) assim como outras lutas, não menos árduas, estão no histórico de Lula. Distante desses dois, no espaço e no tipo de ação, está a Dra. Elizabeth Mioko Morinaka, que atende no Hospital Dr. Hélio Angotti, em Uberaba, minha terra natal. A Doutora Elizabeth, assim como os demais funcionários desse hospital, são de competência ímpar e, muito mais que isso, dispensam tratamento atencioso e carinhoso para com os doentes lá atendidos. Acima de tudo, esses profissionais atendem ricos e pobres sem qualquer distinção e disso dou testemunho e, junto comigo, minha família, amigos e centenas de uberabenses.

Que bom que há alguém que possa buscar estabelecimentos da rede privada; isso diminui um pouco o trabalho de profissionais abnegados, honestos e íntegros de muitos hospitais da rede pública que tratam doentes com câncer. Que há problemas na rede pública, todos nós sabemos. Mas a solução não é enviar indivíduos para os hospitais públicos como se esses fossem cadafalsos; ou como se esses hospitais fossem a “mão vingadora” que vai ceifar a vida daqueles que odiamos.

Tenho a impressão que a Dra. Elizabeth Mioko Morinaka não é solitária no exemplo de bons profissionais da rede pública. Tento imaginar o que ela pensa, o que sente, ante a “vingança” da população, exigindo que Lula procure o SUS. Pelo que sei, se o ex-presidente cair nas mãos de um profissional da estirpe dessa doutora, será tratado com suavidade, respeito, carinho e, sobretudo, competência. Essa profissional luta cotidianamente buscando a vida, ou melhores condições de vida para seus pacientes. E ela atende pelo SUS.

Façam críticas ao Lula, é um direito. Sobretudo, busquem uma ação transformadora da atual situação brasileira; o que não é aceitável é confundir ação política com torpeza, ressentimento irracional. É preciso justiça para com os profissionais que salvam a vida de milhões de brasileiros, mesmo com todos os problemas que temos na administração da saúde pública. Esses profissionais merecem!

Alguém pode, nos comentários, por gentileza, citar outros bons médicos? Do SUS, de preferência. Esses profissionais também precisam de reconhecimento e gratidão. Obrigado.

Dedico este post aos profissionais e colaboradores do Hospital Dr. Hélio Angotti, de Uberaba, MG.

9 comentários sobre “O SUS não mata quem tem câncer

  1. bibi

    Exatamente isso… citou a pessoa q mais fez bem a quem precisou dentro daquele hospital… e este q precisou fez tratamento pelo SUS e nem por isso foi maltratado, ou deixou de receber o merecido… Graças a Deus tivemos o Sus… Perfeito o texto!!!

  2. LUÍS

    A questão não é desejar a morte do Lula mas sim demonstrar que quando estava no poder poderia (deveria) ter feito mais pela saúde pública do país e não ser omisso!! Como por exemplo o Hospital Hélio Angotti que jamais deveria estar passando por essa crise financeira e ter de se socorrer através de campanhas e doações!!! A final, é dever do Estado custear a saúde publica!!!

  3. Não sou “lulete” – aliás, longe disso – mas também acho de muito mal gosto esse lance todo. Primeiro, porque ele sobrevivendo ou não, não vai melhorar a qualidade da saúde pública. Segundo porque desejar morte a qualquer um é no mínimo mau-caratismo.

  4. Walcenis

    Sempre tentei buscar uma resposta para tanta dedicação dessa pequena “GRANDE MULHER” Dra. Elizabeth Mioko Morinaka, que atende no Hospital Dr. Hélio Angott.
    “DEDICAÇÃO, é muito pouco para conceituá-la. “MISSÃO” talvez. Dr ª. Elizabeth Abraçou a profissão de médica oncologista com o mesmo carinho com que trata todos os seus pacientes. Parece que ela não come, não dorme… Foram inúmeras as madrugadas que, sem menos esperar, lá estava ela entrando em todos os quartos. Sempre dando força e esperança a todos. Quando ela chega perto de um paciente tem-se a impressão que o impossível não existe. Que Deus lhe dê em dobro sempre.

  5. Walcenis

    Quanto ao nosso Ex-Presidente eu só acho que se ele tem condição de se tratar pela rede privada, isso significa que outro doente com necessidade de atendimento pelo “SUS” será atendido mais rápido Essa fila não pode parar na espera.

  6. Sirlene

    Também merece todo o nosso apreço a drª Ivone Elizabete Leboreiro. Cinco horas da manhã, é o horário que ela começa a trabalhar pelo SUS no referido hospital de Uberaba.

  7. Horácio Luis.

    Com certeza, quando Lula voltar a presidir nosso país, o que será em breve, ele terminará seu projeto de campanha fazendo do SUS uma competição com qualquer rede de saúde privada do mundo.

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