Penso que a cidade ideal seja um local onde os sonhos sejam possíveis. E se as cidades estão cheias de barulho, de congestionamentos, de violência, é muito bom ter artistas que transformam o espaço urbano, levando-nos a sonhar, a brincar. Em Müller, sobretudo, a arte é diversão. E é com um pouco do trabalho desse artista alemão, nascido no mágico ano de 1968, que vou começar nossa semana.
Foi Flavio Monteiro, parceiro aí nos blogs amigos que, ao enviar-me algumas imagens de Edgar Müller, proporcionou-me a possibilidade de compartilhá-las com outros amigos, aqui do blog. Nascido em Mülheim, oeste alemão, Müller estudou em Geldern, onde ocorre um concurso de pintores de rua. O artista participou do primeiro com 16 anos e três anos depois obtinha o primeiro prêmio.
Müller, além de criar suas próprias imagens, recria imagens de grandes pintores. Seu trabalho é conhecido por toda a Europa e, via internet, já percorre todo o mundo. Ruas são o suporte para o trabalho desse mestre.
As imagens oníricas de Edgar Müller são fascinantes; presentes em nossos sonhos e transformadas em realidade visível por grandes pintores e desenhistas, ganham nossa simpatia e despertam nossa imaginação.
Uma arte figurativa e onírica também pode ser lúdica, fazendo-nos brincar com a realidade. É esse o aspecto que mais curto neste artista. A capacidade de fazer com que as ruas voltem a ser lugares de sonhos, de brincadeiras; que seus habitantes tornem-se crianças alegres, brincando inocentemente sobre a paisagem pintada.
O artista não trabalha sozinho, mas em equipe para completar as obras com rapidez e eficiência. Com frequência são os próprios moradores os primeiros que entram na brincadeira, transformando-se em personagens reais com a irrealidade materializada por Müller.
Uma visão maior sobre Edgar Müller pode ser obtida no próprio site do artista: http://www.metanamorph.com a visita é diversão garantida.
Final de tarde, a sensação de que a vida é correção de trabalhos escolares (sim, os montes do post anterior foram substituídos por outros!). Antes de ir para a universidade para avaliar alguns grupos e buscar mais trabalhos para corrigir, uma pausa para manter o equilíbrio; com a amiga Marta Olivieri passei na exposição “O espírito vivo de Will Eisner”.
No Centro Cultural São Paulo, o norte-americano Will Eisner recebeu uma homenagem do tamanho do afeto que os brasileiros tem por esse artista. É uma exposição grandiosa, que merece mais que uma visita, não só dos apreciadores de HQ, as histórias em quadrinhos.
São 106 desenhos originais, uma estátua de bronze do personagem Spirit e três histórias completas em que constam os últimos desenhos do artista.
Estive lá para uma primeira abordagem, já que outro amigo, Octavio Cariello, já havia me dito que é passeio para um tempo maior, se queremos realmente aproveitar para observar o imenso talento de Will Eisner. Fui com a idéia de relaxar, deixar correr uma horinha ao lado de uma amiga, brincando de ser normal. Tão normal quanto um mineiro apaixonado por bondes.
Há mais de 60 anos que Will Eisner vem sendo publicado em todo o mundo. Influenciou gerações de desenhistas e é admirado por milhões de fãs. A exposição, que permanece até dia 18 de dezembro, priorizou as Graphic Novels, e o principal personagem de Eisner, Spirit.
Fica aqui um convite para um passeio rápido ou demorado, entre as mulheres sensuais e misteriosas, os incríveis desenhos e as aventuras de Spirit. A exposição encerra as comemorações dos 20 anos da Gibiteca Henfil do Centro Cultural São Paulo, que fica bem ao lado da Estação Vergueiro do Metrô.
Eu até que ando jogando na loteria. Vai que… Mas, por enquanto, fico no desejo, esperando que os investidores que sempre trazem os mesmos músicos, as mesmas bandas, os mesmíssimos shows, tragam algo diferente e tão interessante quanto. Ver uma exposição desta por aqui seria muito bom.
O investimento da “National Gallery” é grandioso. A notícia da abertura da exposição dedicada a Leonardo da Vinci já garantiu o interesse mundial sobre o tema, o acontecimento e, é claro, os interessados em pintura tocam a pensar na possibilidade de uma visita à Londres, para presenciar o conjunto da obra do mestre renascentista.
Leonardo da Vinci (1452-1519) pintou pouco. São conhecidas cerca de 20 telas e, destas, 15 estão conservadas. Essa produção reduzida deu-se pelo fato de que o pintor também foi arquiteto, botânico, cientista, escritor, escultor, engenheiro, músico, ou seja, o típico homem do Renascimento. Indivíduo que recebeu uma educação incomum, distante das especializações contemporâneas. Este aspecto já vale um estudo sobre Leonardo, mas o assunto de hoje é a exposição da “National Gallery”.
Os quadros reunidos na exposição em Londres originam-se de 20 cidades de 10 países. As negociações com diferentes museus ocorreram nos últimos cinco anos. O evento, que foi aberto no dia 09 de novembro, terminará no dia 5 de fevereiro de 2012 e, maravilha do mundo moderno, os ingressos são vendidos para visitas com hora marcada.
Destaques:
A tela Salvator Mundi (O Salvador do Mundo), autenticada recentemente. É propriedade de um consórcio nova-iorquino, avaliada em cerca de 200 milhões de dólares.
As duas versões de A Madona das Rochas ou a Virgem dos Rochedos. O Museu do Louvre concordou em emprestar a mais antiga pintada entre 1483 e 1486, para ser exibida ao lado da existente na National Gallery (1491-1508); o mesmo museu não emprestou a obra mais famosa de Leonardo, a Mona Lisa, que já foi motivo de intensas discussões entre França e Itália.
Os três retratos criados em Milão (A Dama com Arminho (1488/90), Le Musicien, O Músico (1485/87), o único retrato de homem realizado pelo pintor e La Belle Ferronnière (1492-1494).
A “National Gallery” espera superar o recorde de público, de 300.000 espectadores, que obteve com a exposição “Velázquez”, em 2007. As pinturas seriam suficientes para despertar o interesse público, mas não são as únicas expostas. Cinquenta desenhos relacionados às pinturas completam a mostra.
Outro destaque é o mural “A Última Ceia”. Pintado em uma parede de um mosteiro de Milão, estará representado por uma cópia feita por Giampietrino, um dos discípulos do mestre renascentista.
O mural, na cidade de Milão.
Li que quase não há mais ingressos. Esse lance da hora marcada dificulta para quem não dispõe de tempo (e dinheiro) para ir a qualquer momento. Enquanto a possibilidade não chega, vamos curtindo as reproduções virtuais; e vamos sonhando com uma viagem a Londres. É sonhando que batalhamos para que as coisas tornem-se realidade.
Tempos de escola, nada foi tão perturbador quanto conhecer a “Série Trágica”, de Flávio de Carvalho. São nove desenhos representando a agonia e morte da mãe do artista; esses trabalhos estão na coleção do Museu de Arte Contemporânea da USP. Talvez pelas fortes sensações, ante o que o professor Percival Tirapelli nos mostrava, guardei a impressão de que os desenhos haviam sido feitos ao lado do leito de morte de D. Ophélia Crissiuma de Carvalho.
SÉRIE TRÁGICA - I - Minha mãe morrendo, 1947, MAC - USP
Os nove desenhos a carvão, exemplos de um expressionismo intenso, vigoroso, são composições derivadas de um conjunto realizado a caneta que, sim, foram compostos ao lado do leito de morte da mãe do autor. Esses trabalhos têm recebido merecidos estudos por críticos, historiadores, entre outros. Há, quase sempre, uma busca de relações com outras obras, com outros movimentos artísticos.
SÉRIE TRÁGICA - II - Carvão, 1947, MAC - USP
O dia de Finados chegando, o pensamento voltado para aqueles que se foram e foi inevitável lembrar-me da obra de Flávio de Carvalho. Em uma tarde já distante, enquanto estava ao lado do leito de meu pai, então doente, senti a necessidade de desenhá-lo, buscando fixar aquele semblante tão significativo em toda a minha vida. Também foi uma maneira de vencer o tédio, o tempo que teima em ser violentamente vagaroso quando estamos dentro de um hospital. Enquanto esboçava traços amadores, lembrei-me da “Série Trágica” e parei, imediatamente, com um terrível receio de que ocorresse um desfecho semelhante. Felizmente, meu pai saiu daquele hospital e ainda sobreviveu bastante tempo.
SÉRIE TRÁGICA - VII - Carvão, 1947, MAC - USP
Os desenhos de Flávio de Carvalho foram feitos em 1947. As bases para trabalhos desse tipo são exercícios de captação instantânea, feitos na maioria dos cursos de desenho. Gostava muito de sair pelas imediações do Instituto de Artes, então no bairro Ipiranga, para captar a paisagem, ou alguma situação observada. Não me exercitei tanto quanto gostaria e nunca me senti um desenhista. Era bom exercitar a forma expressiva, fixar o que meus olhos observavam.
SÉRIE TRÁGICA - IX - Carvão, 1947, MAC - USP
O autor da “Série Trágica”, que tem uma vasta obra na pintura, na arquitetura e em outras formas expressivas como o teatro e a literatura, fez de seus desenhos obra de arte. Quanto mais observo os trabalhos desta série mais vejo a vida indo embora, ou então, sinto-a desesperadamente preservada. O trabalho do artista não retém a vida, mas o instante em que a mãe ainda vive, o momento em que a vida se despede do corpo. Perturbador.
Flávio de Carvalho foi irreverente, transgressor. É sempre lembrado por pinturas onde a cor é, no mínimo, exuberante. A arquitetura é parte da história do engenheiro formado na Inglaterra. A originalidade de atitudes ficou definitivamente marcada pelo passeio do artista pelas ruas de São Paulo, propondo o saiote como vestimenta ideal para nosso clima tropical; e isso nos anos de 1950. Faleceu em 1973. Uma obra sobre a qual vale refletir.
Em aulas recentes, ocorreram acaloradas discussões sobre manifestações visuais – pichadores e grafiteiros – nas ruas de São Paulo. Arte urbana para uns, falta de respeito para outros. O debate é intenso. Ocorreu-me a necessidade de voltar ao assunto agora, tempos depois da lei municipal que proibiu a publicidade no espaço urbano.
Arte de rua e publicidade em São Paulo é passado
Como o assunto é longo, vamos por partes. Escolhi dois vídeos, pequenos documentários sobre essas manifestações. Serve para introduzir o assunto. Recebi de minha aluna, Sarah Granelli, a indicação do vídeo sobre os pichadores (é, a grafia correta é “ch” e não com “x”; a utilização deste certamente decorre do uso popular).
Manifestação que ignora a propriedade alheia
Vale à pena ver a ousadia, o underground exposto no documentário de João Weiner e Roberto Oliveira. As cenas dos garotos escalando o edifício são imperdíveis.
Outro documentário, este feito por alunos da Universidade Metodista, é bem didático, abrangendo os fatos históricos e fazendo a distinção entre as diferentes manifestações, dando ênfase aos grafiteiros.
Pretendo voltar ao assunto. A idéia é sair e registrar algumas imagens do que há pela cidade. Refletir sobre essas manifestações agora sem a “competição” com as placas publicitárias. Vê-las em relação com a arte pública instituída – os grandes e pequenos monumentos – e em convivência com a arquitetura urbana. Sobretudo ver o que aproxima, gratifica e une a população da cidade,
Mundo pequeno, “mundo veio e sem portera” como é dito lá em Minas. Sem porteiras, cercas, divisões. Culturalmente são tantas as barreiras! Há uma brutal divisão econômica, entre os poucos ricos e os muito pobres; há divisões religiosas, onde cada grupo reivindica para si a correta interpretação da verdade divina. E há barreiras geográficas, temporais, afetivas… O tal “mundo veio” tem mais “portera” que mundo; por isso me sensibilizou tanto um pronunciamento do Papa Bento XVI sobre “Deus, arte e beleza” (Sim, eu leio o que o Papa escreve! hehehehe).
Chagall - Judeu a Rezar (O Rabi de Vitebsk), 1914, óleo sobre tela, 104 x 84 cm Veneza, Museo d'Arte Moderna
Primeiro fiquei interessado no que o Papa diria sobre arte. E gostei! “A arte é capaz de expressar e tornar visível a necessidade do homem de ir além do que se vê, manifesta a sede e a busca pelo infinito. Na verdade, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão para além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, direcionando-os para o alto.”
Vivendo no Vaticano – e quem já esteve por lá sabe que a gente tropeça em obras de arte por todos os corredores, nas paredes, no chão, no teto – não é difícil entender a familiaridade de Sua Santidade com o tema. O próprio é pianista e manifesta preferência por Mozart e Bach. Obviamente, ao exemplificar suas posições estéticas, Bento XVI foi para a grande herança católica: as grandes catedrais góticas e as imensas igrejas românicas. Surpresa boa foi o grande líder religioso ir além das fileiras católicas, citando dois artistas judeus.
Um concerto do luterano Bach foi regido pelo maestro Leonard Bernstein. O Papa confessou uma experiência estética singular ao ouvir a música de Bach sob a regência do americano Bernstein, judeu ucraniano na origem. Até ai, tudo bem, já que tradicionalmente a música não respeita fronteiras ideológicas, religiosas ou políticas. A boa música atravessa gostos e preferências pessoais atingindo o âmago do individuo de qualquer idade ou raça. A surpresa maior veio com outra citação do Papa, lembrando o pintor Marc Chagall.
Chagall, A Crucificação Branca, 1938 óleo sobre tela, 155 x 140 cm Chicago, The Art Institute of Chicago
Textualmente, o Papa escreveu: “… quantas vezes quadros ou afrescos, fruto da fé do artista, nas suas formas, nas suas cores, na sua luz, nos levam a dirigir o pensamento a Deus e fazem crescer em nós o desejo de chegar à fonte de toda a beleza. Permanece profundamente verdadeiro o quanto escreveu um grande artista, Marc Chagall, que os pintores por séculos tingiram os seus pincéis naquele alfabeto colorido que é a Bíblia”.
Marc Chagall, judeu por excelência, tem o reconhecimento de um Papa alemão, que viveu de perto os horrores do nazismo. (O Papa foi obrigado a alistar-se, tendo desertado antes do final da guerra). Muitos afirmarão que Chagall não careceria de reconhecimentos específicos, uma vez que a comunidade artística inteira respeita seu legado, tendo reconhecido-o em vida. O que conta, aqui, é a quebra de barreiras, a união entre os povos.
Chagall, A Queda do Anjo, 1923-1947, óleo sobre tela, 148 x 189 cm Basileia, Kunstmuseum
Bento XVI, sendo alemão de origem, entende a importância de seus gestos perante o povo judeu. Certamente é por isso que foi o primeiro pontífice a visitar um museu judaico e, em seus textos, apareçam as agradáveis lembranças de um Bernstein ou de um Chagall. Gosto da idéia de um Papa quebrando barreiras, derrubando porteiras. Muito bom saber que uma das maiores barreiras mundiais – a língua – tenha sofrido um duro golpe através de ato atribuído a ele: quando ainda sacerdote, durante o Concílio Vaticano II, o futuro Papa apresentou a proposta da realização da missa em língua local em vez de latim.
Bravo, Santidade! Que a arte contribua para seres humanos assim, dispostos a quebrar obstáculos, a unir toda a gente.
Está um texto grandinho para uma segunda-feira. Todavia, vale a pena alardear todos os atos, mesmo que pequenos, que unem os povos desse planeta.
Paz para todos!
Nota: O texto original do Papa Bento XVI foi publicado no dia 31 de agosto, através de boletim da sala de imprensa da Santa Sé.
Este é um primeiro texto sobre Chagall que, sinto necessário, deve anteceder aquele que realmente quero escrever. Antes do tal que quero redigir, achei por bem apresentar a personagem. Marc Chagall (1887-1985) nasceu em Vitebsk, na Rússia. Um pintor facilmente identificável como poeta e sonhador.
À Russia, aos burros e aos outros. 1911/1912. Óleo sobre tela. 156 x 122 cm Paris, Musée National d´art Moderne, Centre Georges Pompidou.
Nas minhas referências pessoais, Chagall é o cara da vaca sobre o telhado, das pessoas voadoras, fragmentadas, dos instrumentistas que admiro e que nunca deixo de lembrar. Imagens de sonho, surreais.
Da Rússia o jovem pintor foi para a França, sem nunca deixar de pintar motivos e personagens de sua infância em meio à comunidade judia onde nasceu.
O violinista verde, 1923/1924. Óleo sobre tela, 198 x 108,6 cm New York, Solomon R. Guggenheim Museum.
Paris foi o destino dos pintores todos do início do século 20. Lá, Chagall conheceu os Impressionistas e toda uma gama de pintores ditos modernos. E é em Paris que o pintor realiza um de seus quadros mais famosos, onde valendo-se do Cubismo cria “Eu e a Aldeia”, cheio de fragmentos, visões, lembranças pessoais.
Eu e a aldeia, 1911, óleo sobre tela. 191 x 150,5 cm New York, The Museum of Modern Art
Sobretudo é o povo judeu, o povo da diáspora que vagueia pelo mundo, que Chagall elege como tema, como expressão. Ao longo de sua vida, sua obra será um elemento de união entre diferenças religiosas, um profeta da harmonia e da fraternidade.
Solidão, 1933. Óleo sobre tela, 102 x 169 cm, Telavive, Tel Aviv Museum
Essas imagens são um preâmbulo e uma sugestão de deleite, diversão para o final de semana. Logo volto a escrever mais sobre o motivo que trago Chagall para este blog.