117 anos de Alfredo Volpi

VOLPI bandeirinhas

O Google homenageou, neste domingo, 14 de abril, os 117 anos de Alfredo Volpi. Membro do “Grupo Santa Helena”, Volpi é popularmente conhecido como o pintor das bandeirinhas e dos casarios do bairro do Cambuci, bem ao lado do bairro da Aclimação, aqui em São Paulo.

Um edifício já demolido que ficava na Praça da Sé, denominado Santa Helena abrigou entre 1933 e 1940 um grupo peculiar de artistas, todos de origem modesta. Se os Modernistas tinham origem entre jovens de abastadas famílias paulistanas, as gerações seguintes vêm das classes operárias e, frequentemente esses artistas prestavam serviços aos ricos senhores do café.

Volpi foi pintor de paredes; entre seus colegas no Grupo Santo Helena estão um ferroviário (Clóvis Graciano), um açougueiro (Fúlvio Pennacchi), um jogador de futebol (Francisco Rebollo) e outros pintores, como Aldo Bonadei e Mário Zanini, todos oriundos da classe operária. Descendentes de espanhóis e italianos, os pintores do Santa Helena faziam a pintura decorativa dos palacetes paulistanos e gostavam de pintar paisagens, praticando esse gosto nos finais de semana. Alugaram uma sala no Santa Helena, onde pintavam, faziam reuniões e, importante, tinham local para guardar a produção do grupo.

VOLPIESTA2

Certamente foram olhados com desdém pelos meninos ricos formados no exterior, preocupados com uma identidade brasileira na arte. Ao pintar a periferia paulistana – que na época, entenda-se, começava na várzea onde hoje há o Parque Dom Pedro, os pintores do Grupo Santa Helena fizeram um trabalho original, às vezes ingênuo, mas sobretudo sincero e autêntico.

Volpi chegou da Itália ainda criança, com menos de dois anos. Trabalhou como carpinteiro, encadernador, entalhador, pintor de paredes. Gente como ele, de famílias de artesãos desempregados na Europa, teve grandes chances na São Paulo onde o café enchia os cofres dos grandes fazendeiros. Eram donos de um conhecimento raro por aqui e foram responsáveis pelos belíssimos casarões da aristocracia paulistana.

O conhecimento de Volpi veio da prática, da freqüência aos ambientes artísticos da cidade. Seu trabalho decorre do gosto em pintar paisagens, primeiramente, para depois expressar outras formas, outras cores. A cor e a forma são componentes vitais para o artista que após pintar paisagens e marinhas, dedicou-se à simplificação dos elementos de sua pintura. Aqui entram os casarões do Cambuci, os temas religiosos e, principalmente as bandeirinhas juninas que ficaram como que marca registrada do artista.

Gosto de saber que Volpi fazia suas próprias telas e que utilizava a têmpera como técnica, misturando os pigmentos com clara de ovo, deixando-os ao sol para secar e para ter certeza que não iriam descorar.

A homenagem prestada pelo Google foi através desta imagem.
A homenagem prestada pelo Google foi através desta imagem.

A obra de Volpi esteve presente nos meus primeiros anos como professor e é ele um dos artistas mais citados na minha dissertação de mestrado. O trabalho de Volpi facilita a releitura de jovens estudantes; pela estrutura suave e simples, muitas de suas obras que estimulam a criança, o adolescente na busca de experiências similares, com outros materiais, através de outras formas. É gostoso trabalhar com Volpi como inspiração e muito bom terminar este domingo reverenciando o grande artista.

.

Boa semana para todos!

.

Alegoria para a Rosas de Ouro

O Diário de São Paulo desta terça-feira publicou a relação de premiados com o Troféu Nota 10 do carnaval de 2013. A Mocidade Alegre foi a escola a receber o maior número de prêmios. O prêmio de melhor Alegoria, quesito pelo qual fui responsável, foi para a Rosas de Ouro.

Detalhe do Diário de São Paulo
Vejam, no jornal, a matéria completa com todas os quesitos do Troféu Nota 10

No detalhe, a justificativa:

hoje2

Também foram agraciadas com o Troféu Nota 10, edição de 2013, as escolas Nenê de Vila Matilde, X-9 Paulistana, Vila Maria, Gaviões da Fiel  e Vai-Vai. Todos os detalhes da premiação estão na edição do jornal, nas bancas. A festa da entrega será quinta-feira, no Bar Brahma Aeroclube.

Ano passado o prêmio de melhor alegoria foi para a Mocidade Alegre. Aproveito este post para homenagear a escola, registrando aqui o material publicado pelo jornal, em 2012.

hoje5

Assim justifiquei, em 2012, o prêmio para a Mocidade Alegre.

Mocidade Alegre
Melhor Alegoria de 2012 foi para a Mocidade Alegre

Quero parabenizar todas as escolas premiadas neste ano e, através deste post, homenagear os componentes de todos os setores, de todas as alas, que propiciaram momentos inesquecíveis para todos nós. Também agradecer ao Diário de São Paulo, especialmente aos organizadores do Troféu Nota 10 pela carinhosa atenção durante todas as etapas deste trabalho.

.

Bom final de carnaval para todos.

.

“Na mais fina companhia”

"Diário de São" de domingo, dia 3 de fevereiro
Detalhe do “Diário de São”

O Troféu Nota 10 faz 15 anos. Pelo segundo ano tenho a honra de estar entre os jurados do premio oferecido pelo jornal Diário de São Paulo.  19 estatuetas serão destinadas aos melhores sambistas de São Paulo.

No Troféu Nota 10, julgarei alegoria. Na “minha mais fina companhia” estarão: Mauricio Lima (Bateria); Jose Alves de Oliveira Filho (Comissão de frente); Nanci Franggiotti (Enredo); Andre Toffani (Evolução); Thilda Ribeiro (Fantasia); Marcio Michalczuk (Harmonia); Neide Gomes (Interprete); Marizilda de Carvalho (Mestre-sala e porta-bandeira) e Luizinho SP (Samba-enredo).

Suplemento especial do Diário de São Paulo
Suplemento do Diário de São Paulo

Neste domingo, 3 de fevereiro, o Diário de São Paulo publicou o “Especial Carnaval 2013”. No suplemento todas as informações fundamentais para o carnaval de São Paulo. Além disso, em destaque, uma síntese de cada escola de samba, com fotos exclusivas das musas do carnaval; um primoroso trabalho produzido por Jussara Soares.

O Troféu Nota 10 já distribuiu 235 estatuetas para 20 escolas. Os 19 prêmios deste ano serão divulgados na edição do jornal do dia 12; a entrega será no dia 14, no Bar Brahma Aeroclube.

Estou feliz e agradecido aos produtores do Troféu Nota 10 pelo convite. Vamos fazer um lindo carnaval.

.

Boa semana para todos!

.

Obs. Quem gosta de samba sabe: “Na mais fina companhia” é parte de um verso de QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ  do mestre Chico Buarque.

.

Matizes Dumont: A reinvenção do bordado

Há muito que desejo escrever sobre o Matizes Dumont. Grupo formado por uma família da cidade mineira de Pirapora, o Matizes Dumont provocou uma revolução no universo do bordado. Para a família de criadores o bordado é uma linguagem; assim assumida a atividade artesanal tornou-se arte.  Ao alto domínio técnico somou-se pesquisa, muita sensibilidade e criatividade que, atingindo outras esferas de interesse, expressam um modo de ser que é de Minas Gerais e do Brasil.

Em destaque a capa do CD "Pirata".  As fotos originais são de Arnold Baumgartner e Rui Faquini.
Em destaque a capa do CD “Pirata”. As fotos originais são de Arnold Baumgartner e Rui Faquini.

Meu contato com o grupo Matizes Dumont deu-se através do CD Pirata, de Maria Bethânia. Na capa e encarte do CD, projeto gráfico de Gringo Cardia, destacam-se os bordados da matriarca da família, Antônia Zulma Dumont, das filhas Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont, sobre desenhos do filho Demóstenes Dumont Vargas Filho. O premiado CD da cantora é ímpar na qualidade gráfica pelas ilustrações dos delicados bordados do Matizes Dumont.

Um modo de ser que é de Minas Gerais e do Brasil.
Um modo de ser que é de Minas Gerais e do Brasil.

Descobri, posteriormente, que o grupo mineiro já acumulava prêmios muito antes do CD de Bethânia. Vários trabalhos do Matizes Dumont ilustram capas e livros inteiros; alguns foram premiados pelo Jabuti e pela União Brasileira de Escritores. Também descobri uma expressão muito própria dessa família, fazendo-nos conhecer, ou melhor, reconhecer Minas Gerais em motivos religiosos, poeticamente campesinos. A cidade de Pirapora, banhada pelo rio São Francisco, tem o rio, os peixes e os barcos, entre os motivos utilizados pela família de artistas.

Entre os motivos mineiros, o Rio São Francisco, o trem
Entre os motivos mineiros, o Rio São Francisco, que banha Pirapora.

É muito bom, em tempos de domínio do virtual, ver a valorização do bordado. Nas últimas décadas, com as mudanças de paradigmas no universo profissional feminino, algumas atividades artesanais foram quase esquecidas. Cresci vendo minha avó fazendo trabalhos incríveis em crochê e presenteei muitas amigas com peças de tricô feitas por minha mãe. Tive uma tia, Olinda, que bordava enxovais infantis e pintava tecidos de toda ordem.  Minha irmã, Walcenis mantém a tradição familiar, indo além do artesanato, pensando em arte. Uma amiga, Maria da Penha (veja aqui) segue na mesma trilha da herança ancestral, trabalhando e criando objetos para enfeitar casas e pessoas.

Tradição: acima, o trabalho de Walcenis. Abaixo, o de Maria da Penha.
Tradição familiar: foto acima, o trabalho de Walcenis. Abaixo, o de Maria da Penha.

Bordar, fazer tricô ou crochê, costurar… O Matizes Dumont é um notável exemplo de que atividades artesanais podem ir muito além da mera repetição, alcançando a criação de mais alto nível. O artesanato tornou-se raridade nesse mundo de trabalho árduo onde a falta de tempo conduz ao objeto fabricado em larga escala. Algumas pessoas dedicam tempo e investem na criação de objetos para consumo próprio ou de um círculo reduzido.

Criar é gratificante, compensador. O grupo mineiro oferece cursos e oficinas para interessados (visite o site ). Há outras escolas por aí. Há, principalmente, o conhecimento e a experiência de nossas mães, avós, tias, que deve ser praticado para não cair no esquecimento e, seguindo o exemplo do Matizes Dumont, ser reinventado. O mundo, feito com arte, fica muito melhor.

.

Até mais!

.

Nota:

As fotos dos bordados do Matizes Dumont que ilustram este post são de Arnold Baumgartner e Rui Faquini. Muitas outras estão no site www.matizesbordadosdumont.com e também na página do Facebook: Matizes Dumont

Quinhentos anos da Capela Sistina

Vale refletir sobre a visão do artista. Michelangelo sabia como veríamos o teto da capela papal.

A Igreja Católica comemora os quinhentos anos da Capela Sistina, que foi aberta ao público no dia 1 de Novembro de 1512. O trabalho de Michelangelo foi encomendado pelo Papa Júlio II. Entre as histórias que envolvem esse momento histórico, consta que Michelangelo não queria pintar a capela, pois preferia a escultura à pintura. Mas o Papa Júlio II não era do tipo de sujeito para ser contrariado. Dois indivíduos de gênio forte; com certeza foi um relacionamento tenso.

Seria fantástico visitar a Capela Sistina no meio da madrugada, ou nas primeiras horas da manhã, antes da entrada dos visitantes. É um local para ser contemplado, demoradamente contemplado, o que é muito difícil pela grande quantidade de turistas; afirma-se cerca de 10 mil diariamente, dobrando para 20 mil em dias de pico.

Estivemos lá, minha irmã e eu, e sinto-me bastante privilegiado por isso. Foi durante um curso de arte e chegamos à Capela Sistina após conhecer a escultura de Moisés, do próprio Michelangelo, que seria parte do conjunto escultórico para o túmulo do Papa Júlio II; também já havíamos passado pelo Capitólio e, na Basílica de São Pedro, havíamos parado para observar atentamente a Pietá. A Capela Sistina é um “golpe de misericórdia” em alguém que tente não sucumbir ao gênio de Michelangelo.

Pensada originalmente como capela papal privada, a Capela Sistina tem a função primordial de sediar os conclaves onde são eleitos os Papas.

No Museu do Vaticano recordo uma aula extensa, com uma professora que havia trabalhado na restauração do altar mor. Arte e história com uma riqueza de detalhes minuciosos, impressionantes. Tivemos como ilustração da aula dois imensos painéis reproduzindo o teto e o altar, e ainda outro, com as paredes laterais com cenas da vida de Moisés de um lado e, do outro, cenas da vida de Jesus Cristo. A aula foi concluída com a visita e ainda uma conclusão, para dúvidas finais.

Antes de entrar na Capela, passamos pelos quartos, pintados por Rafael Sanzio. Conta-se que os quartos papais foram destinados ao trabalho de Rafael, já que a Capela Sistina, originalmente criada para as orações privadas do Papa, havia sido destinada ao rival Michelangelo.  Não vimos parte desses quartos, pois estavam em restauração, assim como parte da parede esquerda da Capela Sistina, que também estava sendo restaurada. Todavia, foi possível admirar a Escola de Atenas, na Stanza della Segnatura.

Nada é muito calmo e tranquilo durante a visita, apesar do clima respeitoso dentro da Capela. Padres com suas batinas negras, pesadas, organizam o ambiente, apressando todo mundo para que mais pessoas possam ter o prazer de conhecer o local. Pedem silêncio e “tocam a boiada” com eficiência e é por isso que os milhares de turistas que passam por Roma têm a oportunidade de contemplar o local.  O tempo é escasso para observar os 1.100 metros quadrados do teto. Sem contar que ainda há as paredes laterais e o altar mor que merecem igual observação.

Neste momento o foco está no teto, com a comemoração dos quinhentos anos; logo será a vez de comemorar o aniversário do altar mor. Este foi pintado entre os anos de 1536 e 1541, duas décadas após a pintura do teto. O altar mor é estilisticamente muito diferente do teto e já anuncia as características iniciais do Barroco. Assim, o teto da Capela Sistina é o ápice do Renascimento e o altar mor, com a obra denominada “O Juízo Final”, com sua intensa expressividade, abre o espaço terreno tanto para o céu quanto para o inferno. Michelangelo é o grande mestre.

O Juízo Final, o imenso trabalho que recobre o altar mor, exemplo concreto da maturidade criativa de Michelangelo.

A Capela Sistina é apenas um detalhe do imenso complexo que é o Museu do Vaticano. Há roteiros diferenciados para visitar o local que, além das obras nos espaços internos, conta com um maravilhoso jardim também cheio de obras de arte. Todo esse imenso patrimônio foi amealhado durante dois milênios, contribuindo para as especulações e críticas sobre os tesouros da igreja católica.

Eu sou grato a quem soube preservar tão valioso patrimônio histórico e artístico. As obras de arte estão lá, para conhecimento e deleite de todos, independendo de religião. Por uma longa trajetória histórica estão sob a guarda da Igreja. Na França e Inglaterra, por exemplo, estão em instituições mantidas por governantes laicos. Tanto a Igreja quanto o Estado são eficientes na manutenção do patrimônio histórico e artístico universal. Ainda mais, souberam transformar esse patrimônio em fonte de divisas, atraindo turistas de todo do planeta.

Henrique VIII, ao romper com a Igreja Católica, favoreceu rumos muito diferentes para a arte na Inglaterra renascentista  (lá, tivemos Shakespeare!). Da mesma forma, a posterior ação de Napoleão III, na França, ao criar o “Salão dos Excluídos” contribuiu para que o público parisiense tivesse conhecimento da primeira geração do Impressionismo.  Religiosos ou leigos, os seres humanos garantem a sobrevivência de grandes trabalhos artísticos e essa é uma atitude para ser respeitada e imitada.

Creio ser esta a imagem mais popular da Capela. A “Criação de Adão” ocupa o espaço central do imenso teto. É um afresco de 280 cm x 570 cm.

Espero que, nos próximos dias, ocorram muitas reportagens sobre a Capela Sistina por todas as emissoras de televisão, em jornais, revistas, internet. Minha singela contribuição é esta que, espero, desperte um pouquinho da curiosidade das pessoas para essa maravilha da criação de Michelangelo.

.

Bom final de semana!

.

Monet é o Impressionismo

Claude Monet – Le Bassin aux nymphéas; harmonie verte, 1899

A exposição “Impressionismo, Paris e a Modernidade” está chegando ao fim. O Centro Cultural do Banco do Brasil – CCBB – promete uma virada nesse final de semana, procurando atender ao público que, lotando o local, deixou evidente a paixão geral pelos artistas impressionistas. Tenho grandes amigos e Sonia Kavantan tirou-me das tarefas cotidianas para ver a exposição. Um grande momento no início da semana.

A exposição ocupa todo o prédio do CCBB. A coleção veio do Musée d’Orsay e compreende um amplo painel do movimento Impressionista, um raro momento em que é a pintura a influenciar as demais formas artísticas. Paris, no final do século XIX, abriga centenas de pintores ávidos por um lugar de destaque no mundo da arte. Os Impressionistas serão, no início, duramente criticados para, só depois, tornarem-se disputados pelos colecionadores.  Todas as fases do movimento estão na exposição do CCBB, tornando-a imprescindível para aqueles que apreciam pintura.

Os organizadores criaram um circuito, certamente já prevendo a afluência de grande público, e a mostra começa com um audiovisual no térreo. Depois, o visitante é encaminhado para o quarto andar para, seguindo o roteiro indicado por eficiente sinalização, percorrer todo o prédio, até o final da mostra, no subsolo.  As intenções são louváveis e atingem os objetivos básicos. Todos conseguem passar os olhos por tudo.

Gosto de passear por uma exposição e deixar que o quadro “me ganhe”. Com isso quero dizer que não me preocupo em identificar todas as obras, ler todos os detalhes de tudo. Com mais de 80 quadros em exposição e minha memória de 57 anos bem vividos, fica complicado guardar tudo; nem pretendo guardar tudo. O bom é deixar a sensibilidade livre para que uma obra, ou várias, ganhem espaço e tomem conta do coração.

É bem verdade que o páreo, no CCBB, é duro. Tem Vincent Van Gogh (o meu preferido), tem Paul Cézanne, Paul Gauguin, Edouard Manet, Auguste Renoir e, entre outras feras como Camille Pissaro e Edgard Degas, há Monet, Claude Monet. É difícil estabelecer uma escala tipo quem é maior, quem é melhor. Assim, deixando a percepção livre, fui aprisionado por Claude Monet.

Antes de continuar é bom lembrar que, em sala de aula, falo sobre o impressionismo desde quando iniciei meu trabalho como professor… Décadas! Uma exposição como a do CCBB é algo como rever velhos amigos, conhecer “pessoalmente” outros e, graças a Deus não sei tudo, descobrir outros. Então, sinto-me “em casa”, com uma vontade imensa de usufruir mais, ficar mais, e já meio ranzinza, querendo que todos desapareçam para que eu possa ficar sozinho, namorando cada tela.

Claude Monet – La gare Saint-Lazare, 1877

Em uma exposição sobre Impressionismo pode ser lugar comum chamar a atenção para a supremacia de Monet; no entanto, é isso. A coleção do museu francês só faz deixar claro que, em se tratando de Impressionismo, Monet é o maior entre os mestres do movimento. Todos os outros são bons demais, evidenciando que Monet é ótimo.

Dentre os vários trabalhos de Monet que estão expostos, escolhi os que estão reproduzidos neste post. Todos sintetizam o movimento em sua complexidade. Nem é preciso estudar arte para compreender a beleza da tela; não carece saber de história, de estética, de técnica de pintura. Basta olhar; demoradamente observar e analisar a maestria do artista captando formas, sugerindo outras, induzindo-os a completar outras com o tal fenômeno da persistência da visão.

Que me perdoem todos os outros, até meu amado Van Gogh. Cada artista tem sua especificidade, a beleza peculiar, a técnica incomparável que determina uma identidade; todavia, nesta exposição, Monet estabelece o padrão para os demais. Diante de suas telas não há como ter equívocos: estamos diante do Impressionismo, o movimento na pintura que buscou captar um instante; formar a figura a partir de pinceladas fragmentadas; que ensinou-nos a olhar para o cotidiano através da visão privilegiada de grandes artistas, como Monet.

Apareçam por lá. Ainda há tempo. Pode ser outras as telas que farão emergir paixões. Eu fico por aqui, curtindo a lembrança do trabalho de Claude Monet e eternamente grato à Sonia Kavantan pelo belíssimo presente.

.

Até mais!

.

Os Impressionistas em São Paulo

Muito bom morar em uma cidade como São Paulo: a cidade que recebe Caravaggio no MASP também expõe 85 quadros impressionistas, vindos diretamente de Paris. A mostra, denominada Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay está no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade.

“Impression soleil levant” (1872) o quadro de Monet que dá nome ao movimento

O Impressionismo é apaixonante e pede aprofundamentos diferenciados conforme o artista, a obra. Monet é um artista peculiar, próximo e distante de Cezanne. Gauguin, presente na história de vida de Van Gogh tem particularidades próprias que o tornam totalmente diferente do amigo. Renoir deixou pinturas memoráveis, feitas ao ar livre, enquanto Degas pintou o interior de teatros, o palco visto de dentro.

A grande exposição em São Paulo pode ser vista pelo jovem estudioso de arte, sequioso de ver de perto aquilo que conhece por reproduções gráficas. Também pode ser apreciada por aquele cidadão que nunca estudou arte e nem sabe o motivo de um movimento ser dito impressionista. As obras falam por si, conquistam pela qualidade técnica, pelas diferentes acepções de beleza formando, no todo, um grande tratado estético.

O Impressionismo: Diferentes formas de olhar, de perceber e captar o objeto.

O Impressionismo encerra um momento peculiar da arte no final do século XIX, sendo antecedente fundamental de toda a pintura do século XX. Uma fase que implica em quebra de padrões tradicionais, abandono de convenções em favor da liberdade de expressão e de pesquisa formal. Muitos fatores contribuíram para as mudanças que explodem com o Impressionismo. A busca por captar um instante, uma impressão observada propiciará manifestações individuais e há, nesse curto período de tempo, grandes e profundas divisões.

A exposição no CCBB apresenta três gerações distintas do movimento francês; os impressionistas, como Manet, Monet, Renoir e Cézanne; os pós-impressionistas, como Van Gogh e Gauguin, e os Nabis (profetas), com obras de artistas como Pierre Bonnard e Edouard Vuillard. Estão dispostos em quatro andares do Centro Cultural e carecem, basicamente, de mais do que uma hora de apreciação, mais que uma única visita para contato eficaz. Duas justificativas básicas:

O trabalho de Paul Cézanne busca captar formas, de sintetizá-las, expressá-las por ângulos diversos. Ele é antecedente direto da grande arte que faria de Pablo Picasso um dos maiores gênios da pintura no século XX. Não é com um olhar “de quem passeia pelo shopping” que esse artista será percebido em sua totalidade. Cézanne merece um olhar reflexivo, um tempo que é investimento para que possamos entender melhor o Cubismo de Braque e Picasso.

Cézanne – ‘Rochers près des grottes audessus de Château-Noir’ 1904.

Claude Monet é o impressionista por excelência. Sua obra é síntese do movimento. Nela, percebemos que o artista impressionista realiza uma “operação primária”, justapondo pinceladas em complexa tarefa de misturas de cores “puras”. Essas misturas resultam em novas cores conforme a intenção e necessidade do artista em captar um local, uma situação, um personagem. A obra se completa com outra operação, esta a cargo do espectador.  Ao observar a mistura ótica, dos fragmentos elaborados pelo artista, o espectador completa o resultado visualizando a imagem proposta. Esse é o grande diferencial da arte impressionista: o receptor participa da obra finalizando-a através da observação.

Tal qual no filme famoso, gostaria de ser vigia do CCBB. Poderia ver sozinho e tranquilamente esses 85 trabalhos. E da distância que quisesse. Porque os quadros impressionistas têm essa característica: devem ser vistos de uma distância razoável; três vezes a medida maior do quadro, dizem os especialistas. Assim, se um quadro tiver 1m de largura, o ideal é observá-lo a 3m de distância. Com tanta gente nos corredores do CCBB, terá muita sorte quem conseguir ver as telas conforme ensinam os nossos mestres.

Fico empolgado com esse tema; também com a oportunidade de contar com um evento que é de grande estímulo para que conheçamos mais, pesquisemos mais. A riqueza impressionista é imensa; é o grande ponto de partida para outros momentos, fortes, intensos e encantadores. Deixei de citar alguns fatos históricos, alguns artistas. Outras oportunidades virão; por enquanto importa ver, rever, descobrir, conhecer através das telas o que nos emociona, o que provoca admiração.

.

Bom final de semana!

.

Anote: Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay; Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, Centro. De 4 de agosto a 7 de outubro. De terça-feira a domingo, das 10h às 22h. Entrada: Gratuita.

.