A arte evolui, Roberto canta “Emoções”

A pintura em Lascaux, França, atingiu níveis admiráveis de sofisticação.

Mudanças! A pedra foi um primeiro suporte para a expressão humana; as pinturas rupestres são registros desse momento. O homem insatisfeito, já que pintar ou grafar pedra não é coisa fácil, usou outros suportes: pele, papiro e o papel, até chegar à tela que recebe o que escrevo; em outra tela você, leitor, recebe minha mensagem.

Movimento! A arte começou lá nas esculturas pré-históricas e mais uma vez o ser humano, por mero deleite ou por resposta às próprias inquietações, esculpiu pedra, madeira, mármore, bronze e soube captar formas, criar outras. Justamente porque aprendemos a dominar formas e a inseri-las no espaço é que somos capazes de construir foguetes, transatlânticos.

Botticelli, a primavera. A técnica utilizada nesta é a têmpera sobre madeira.

Transformações! A pintura rudimentar surgida nos primeiros tempos evoluiu; no Paleolítico atingiu níveis admiráveis de sofisticação. Nela também ocorreu, e ainda ocorre, a busca pelo melhor material, pelo suporte mais adequado. A importância de um determinado material para a evolução da expressão humana pode ser exemplificada no Renascimento pelos avanços da pintura, tanto em técnica quanto em materiais.

Todo esse preâmbulo para sinalizar que o ano está acabando e que o grande barato de viver é seguir em frente.  Temos uma série de rituais para todos os dezembros. E rituais são fundamentais para sinalizar a passagem desses momentos. Mas, convenhamos, algumas mudanças são saudáveis, necessárias, bem-vindas. E pequenas alterações em “rituais eternos” vão transformando esses costumes, atualizando-os, colocando-os em sintonia com o que vivemos e sentimos. Agora, vamos matutar; como essas mudanças são difíceis!

Para algumas pessoas é impossível não rolar um peru (!); crianças ganharão presentes, adolescentes encherão a cara, namorados trocarão cartões melosos, uns perfumados, outros sonoros… Roberto Carlos, imutável, vai cantar “emoções” por aí. Teremos “Emoções em alto mar”, “Emoções em Jerusalém”, “Emoções sertanejas”, “Emoções na tv ou no aparelho de som”… A televisão reprisará filmes e alguns personagens, como Assis Valente, voltarão ao destaque.

Podemos disfarçar, mas certas "emoções" são sempre as mesmas.

Sem entrar em questões religiosas, apenas enfatizando o final de um ciclo iniciado em janeiro passado: o que há realmente para comemorar? Seja no natal ou no ano novo. E sem embarcar nas realizações alheias, tipo “fomos campeões no sambódromo”. Também que fique bem claro que não penso em grandes acontecimentos; bastam pequenas atitudes, tipo não ficar berrando na beira do palco para o Roberto Carlos cantar “Emoções”; ou plantar um pé de jabuticaba, rabiscar uma poesia ou, sei lá, tentar combinar o tal peru natalino com cuscuz e tapioca.

Listar ações e atitudes, fazer um balanço de final de ano pode parecer burocrático demais. Todavia, penso que é fundamental sentir que algo novo foi feito, criado, para que a palavra evolução tenha mais peso que a palavra velhice. Quando criamos alguma coisa e fazemos disso um hábito, basta terminar essa coisa para começarmos a pensar na próxima. E o tempo deixa de ser aquele que passa para ser aquele tornado sempre insuficiente para tudo o que almejamos.

Eu não canto “Emoções”. Nada contra o autor e sua canção. Penso é na necessidade de sempre se colocar um pouco de arte na vida. Estudando o que já foi feito, experimentando fazer alguma coisa, descobrindo outro tanto. Não cantar “Emoções” para poder vivê-las!  A arte evolui e podemos ir com ela; no mínimo tentar. O que não é válido é sentir o tempo como peso, como perda.  Não dá medo pensar em passar a vida prostrado frente à tv, vendo Roberto Carlos cantar “Emoções”? Lembrar o que “chorei”, “sorri”, “senti”, o que “eu vivi”… tudo passado!

Toca pra frente. Vamos viver!

Pátio do Colégio by Valdo Resende

O começo de tudo

Todo começo costuma ser simples. Como um olhar para grandes amores, uma palavra inadequada para guerras imensas; ou o nascimento de uma criança, como resultado de um feliz encontro entre um homem e uma mulher. Até mesmo uma cidade como São Paulo nasceu na maior simplicidade, “na humildade”, diriam os “manos”.

Foto by Valdo Resende
E mesmo nossa São Paulo nasceu na maior simplicidade

O Natal, sendo a lembrança de um começo – o menino Deus nasceu! – poderia ser um momento bem simplesinho. Nós, seres humanos, complicamos muitas coisas só pra dizer que tal fato, pessoa ou acontecimento nos são importantes. Por essa mania, tão humana, é que tornamos o período natalino um “problema”. Por exemplo, enchemos o mês de dezembro de contagens regressivas; para o final de aulas, para a vinda do Natal, para a chegada do Ano Novo… e listas de compras, de compromissos, etc..

São Paulo está carregada de luzes e de cores. Exagerada em alguns locais, elegante em outros, tudo para o Natal, o Ano Novo. Parece também que todos os automóveis dos paulistanos estão nas ruas transportando pacotes enfeitados, ingredientes para ceias, muitos presentes, caríssimos ou simples lembrancinhas.

Nossa grande e complexa cidade já foi um dia muito simples. Foi isto que pensei com meus botões sem resistir a fotografar o Pátio do Colégio. Tentei visualizar o pequeno lugarejo iniciado pelos Jesuítas.

Pátio do Colégio by Valdo Resende
Tentei visualizar o pequeno lugarejo iniciado pelos Jesuítas

Já me habituei ao fato de que muitos paulistanos não conheçam o Pátio do Colégio. É comum encontrar pessoas com receio de caminhar pelo Centro Velho da capital, como se a violência estivesse circunscrita ao local. Em todos esses anos na cidade e sempre caminhando pela região da Sé, a Rua Boa Vista,onde fica o Pátio, o Largo de São Bento e adjacências, nunca fui assaltado. E, como narrei anteriormente, só presenciei assalto à mão armada na Avenida Paulista. Portanto, tenho o hábito e gosto de passear na região do Centro Velho.

Resolvi começar a falar de Natal pelo começo de São Paulo, pelo Pátio do Colégio. A primeira casa dos Padres Manoel de Nóbrega e José de Anchieta não perdeu seu charme. Tentei hoje brincar de ser um índio qualquer perdido nas selvas de então e deparando-me com a construção singela do Colégio Jesuíta. A arquitetura colonial é tão impar que torna as construções desse período sofisticadas, elegantes, sobretudo são portadoras de uma simplicidade encantadora.

Monumento instalado no Pátio do Colégio, by Valdo Resende
Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo, obra Amadeo Zani

Nossos políticos adoram palácios. Muitos paulistanos deveriam cultuar a lembrança de que este simples local, o Pátio do Colégio, foi sede do governo paulista, por quase 150 anos. Obviamente que o local foi alterado várias vezes, cada político tentando deixar a própria marca. O atual conjunto lembra o primeiro, iniciado em 1556, não é reconstrução ou restauração. É bom salientar que mudanças de lugares simples não é privilégio de político brasileiro. Se os locais por onde o Cristo passou também sofreram intensas modificações, luxuosas modificações, imaginem o que não foi feito em todos os outros!

O Pátio do Colégio esta aí, assinalando que a simplicidade é bela, comovente, sincera. Em um momento em que a cidade está carregada de cores e luzes, e em que os cidadãos estão sobrecarregados de trabalho, de tarefas, é bom lembrar a simplicidade, nossa origem. Por mais que tomemos posse de toda a parafernália complexa desse mundo, são nas coisas simples que nos deliciamos e somos felizes: um olhar, um aperto de mão, uma palavra carinhosa e uma casinha branca com janelas azuis para nos abrigar.

Na “humildade”, que tal um Natal simples e verdadeiro?

Um só Pará!

O autor da proposta de divisão do Pará não conheceu o Estado e os paraenses que eu conheci.  Teria evitado uma derrota histórica. Os eleitores negaram em plebiscito neste domingo a criação dos Estados de Carajás e Tapajós. O Pará segue em frente, sem divisões territoriais.

Meu trabalho: teatro em Santa Maria, no Pará

Quem conhece o Pará sabe que esse resultado seria previsível. Estive algumas vezes em Belém, a capital, passei por Castanhal e visitei Santa Maria.  Naquele período pesquisei um pouco mais e levantei informações também sobre Breu Branco, Goianésia, Tailândia e Abaetetuba. Ficou evidente em todos esses lugares o amor e o orgulho dos paraenses pela própria terra.

A festa do Círio de Nazaré: O Pará é filho de uma única mãe

A festa do Círio de Nazaré impressiona e torna o Pará inesquecível. Todo o grande Estado é filho de uma única mãe (Os autores da divisão não consideraram isso?); todo o Paraense tem orgulho de ser nortista, de pertencer à Amazônia.  E dizer-se da Amazônia é mais um elemento de união, entre muitos outros.

Quando cheguei ao Pará pela primeira vez achei estranha a preocupação do Governo em buscar patos no vizinho Maranhão. Depois descobri que o verdadeiro paraense não deixa de comer pato no tucupi no dia da procissão do Círio. Iniciando-me nos deliciosos mistérios do Pará experimentei tacacá, vi a chuva chegar e ir embora rapidinho. Sobretudo gostei da gente morena, bonita, com um jeito impecável de falar nossa língua.

Experimentando Tacacá ao lado de D. Maria do Carmo e Emanoel Freitas

A língua une assim como também a amazônia, o amor pela Virgem de Nazaré, o prazer em apreciar o açaí, outra delícia paraense. O que pretendiam com a separação? Aumentar o número de políticos com seus salários astronômicos? Quem realmente se beneficiaria com isto? Há uma diferença brutal entre descentralização do poder e divisão desse mesmo poder,  assim como é diferente administração eficaz de aumento da máquina administrativa.

Já quiseram separar o Triangulo Mineiro de Minas Gerais. Tudo resolvido entre os donos do poder, sem qualquer consulta ao povo, como o louvável plebiscito que acaba de impedir a divisão do Pará. Até onde soube, o Triangulo manteve-se Mineiro por conta de certo prefeito que, para não ser processado por irregularidades, votou contra a separação. O que teria dito o povo, o meu povo?

Penso que devemos aprimorar os mecanismos de votação do país já que avançamos tanto em termos de eleições computadorizadas. Escrevo isso pensando em plebiscitos menos caros, feitos via internet. Se nós somos capazes de declarar impostos digitalmente, sem riscos de problemas, porque não podemos opinar sobre outras questões, tão importantes quanto a divisão de um Estado? Pode ser um pensamento utópico; espero que um dia torne-se realidade. O que importa, sobretudo, é que a voz do povo possa ser realmente a voz do povo.

Ouso sonhar que chegaremos a um momento em que, efetivamente, será a vontade da maioria que decidirá algumas questões nacionais. Assim, o “político esperto” pensará duas vezes antes de propor divisões ou soluções duvidosas.

Boa semana para os paraenses, boa semana pra todos nós!

Nota para quem chegou recentemente:

Convidado por Sonia Kavantan participei de uma produção que percorreu parte dos Estados do Pará e do Maranhão.

Para lembrar: o cartaz da nossa montagem

Um dos objetivos do trabalho era a valorização da cultura dos dois estados e, para que isso fosse possível sobre um palco, idealizei a peça “O Casamento do Pará com o Maranhão”. Sou o autor do texto e a produção foi feita com artistas paraenses, com direção de Emanoel Freitas. Tenho um orgulho danado de ter participado deste trabalho.  O início desta história está registrado aqui. As fotos que ilustram o post de hoje são desse  período.

Caminito Valdo Resende

A proibição aos artistas de rua

Uma manchete de jornal pode provocar alguns equívocos; por exemplo, no último dia 30 de novembro foi publicado que “SP TEM A MENOR TAXA DE DESEMPREGO EM 20 ANOS, SEGUNDO DIEESE”. Que ótimo, pensaria o ingênuo cidadão, até que lendo todo o texto, a informação seja numericamente esclarecida: na região metropolitana de São Paulo o contingente de desempregados foi estimado em 1,06 milhão de pessoas.

Outra notícia do ano passado, que continua repetindo e repercutindo nas redes sociais: “ARTISTAS DE RUA SÃO EXPULSOS DA PAULISTA”. São jovens músicos, instrumentistas e  “performers” variados. Nesta última categoria estão malabaristas, bailarinos e estátuas-vivas.

A proibição aos artistas de rua veio a partir de uma tal “Operação Delegada”. Nesta, policiais militares trabalham na folga para a prefeitura, coibindo o comércio ambulante irregular. As autoridades disseram ao Jornal da Tarde que “quando há qualquer tipo de exploração comercial, caracteriza-se um evento e há a necessidade de autorização da Prefeitura, que é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo”.

Se a Prefeitura “é competente para disciplinar o uso e a ocupação do solo”, porque não o faz?  Precisaríamos de um plebiscito para isso? Quanto tempo seria necessário para redigir um documento que permita a artistas trabalharem nas ruas, bastando para isso um cadastro na Secretaria de Cultura do município?

O prefeito desta cidade esteve muito ocupado criando um novo partido político e um artista de rua não garante milhares de votos; então, é mais fácil coibir do que regularizar e permitir que um desempregado possa garantir seu sustento. As proibições são mais ágeis que as soluções e assim temos conflitos imensos, como aqueles recentes ocorridos na região da Rua 25 de Março.

Caminito Valdo Resende
No Caminito quase dancei um tango!

O que falta a essas “autoridades” é uma visão mais ampla do que a arte pode fazer com um determinado local. Artistas caracterizam espaços urbanos e valorizam estes para além das fronteiras do próprio país. É de conhecimento mundial o quanto um artista valoriza uma região.

Na “Piazza Navona”, em Roma, músicos eruditos caminham pela antiga praça. Com um sinal gentil pedem licença e quando obtida, aproximam-se das mesas dos bares, colocadas no passeio público e tocam Vivaldi, Mozart ou outro grande autor.

O “Caminito” é atração imperdível em Buenos Aires com seus dançarinos e músicos de tango. Cantam, tocam e dançam para os turistas nas esquinas, convivendo harmoniosamente com os profissionais que exercem a mesma atividade nos bares e restaurantes locais.

Piazza Navona Valdo Resende
Walcenis, de boina preta, tomando sorvete na Piazza Navona

Tenho um amigo que vai anualmente para “Colônia”, na Alemanha, para trabalhar como estátua-viva. Ele fica em frente à famosa catedral da cidade e nesses últimos anos nunca foi coagido pelas autoridades alemãs. E é bom citar que ele tem visto apenas como turista.

Tratar artistas de rua como mero “comércio ambulante” é lamentável. É desconhecer uma tradição milenar que legou-nos poetas, menestréis, saltimbancos que enriqueceram a cultura humana com o fruto de um trabalho árduo.

Tenho um imenso respeito pelos artistas de rua. Pelos nossos cantadores nordestinos, nossos poetas de cordel; artistas que têm um extraordinário domínio de seu ofício, este quase sempre aprendido via tradição familiar. São improvisadores incríveis e, notável ainda, em um país ainda marcado pelo analfabetismo, improvisam em versos!

Outro dia, passando pela Praça da Sé, parei para ouvir por alguns minutos um rapaz com um violão, interpretando Raul Seixas. A música suavizando o caos de veículos motorizados, religiosos pregando aos borbotões. Em outro momento, na mesma região, um grupo típico nordestino  – zabumba, acordeom e triangulo – animava alguns transeuntes que dançavam, como se o calçadão fosse um belo salão de festas.

O que me conforta é saber que o atual prefeito irá passar, será esquecido da mesma forma que não nos lembramos dos artistas de rua. Só que estes permanecerão. É a história que nos permite afirmar isto. A tenebrosa Idade Média não acabou com os menestréis e a indústria do entretenimento não acabou com a arte de rua. Seria bom que as autoridades e os responsáveis pela “Operação Delegada” refletissem sobre essas questões.

Bom final de semana!

Na Paulista, uma pensão de fino trato

Avenida Paulista e a imagem concreta da mega cidade

Quem leu meu texto publicado ontem sabe da minha paixão pela Avenida Paulista. Quero registrar outros aspectos, não tão charmosos, mas que são bem humanos. Aqui vai minha segunda contribuição para a história da Paulista:

Imaginem um mineirinho de Uberaba chegando para morar em São Paulo. Poderia ser mais um pau-de-arara, mas (“-Sorry, Periferia”, diria Ibrahim Sued!), o cidadão tinha endereço certo e este era a principal avenida da cidade. Tudo bem que era uma pensão… Sim, caros leitores, uma pensão clandestina, já que a proprietária não era a dona do imóvel e não poderia sublocar o espaço. Todos os que dividiam aquele endereço diziam-se sobrinhos da simpática senhora; era uma regra da casa. O porteiro e o síndico recebiam propina para engolir toda aquela numerosa parentela.

Dona “Con” não gostava de ser chamada Conceição, muito menos “Concinha”. Era uma empreendedora, uma batalhadora que sustentava filhas e filhos bonitos. Segundo ela, assim que as crianças nasceram passou a massagear-lhes o nariz e afirmava convicta que tinha modelado à mão as belas narinas de toda a prole. O garoto dizia-se modelo e logo fiquei sabendo, por vias tortas, que prestava favores sexuais para quem aceitasse o preço. Aliás, vias tortas eram coisas comuns na tal pensão.

Durante a semana, na hora do almoço, a pensão da D. Con transformava-se em restaurante. Claro, também este era clandestino. Uma bela moça era tratada com a deferência de modelo internacional, com direito a garrafa de água mineral exclusiva e saladas, muitas saladas para manter o corpo nas medidas da moda.  Ela chegava antipática, sem olhar para ninguém, como se estivesse entrando em um dos sofisticados restaurantes da vizinha Alameda Santos. E por ser muito chata ninguém nunca contou à cidadã que D. Con abastecia a exclusiva garrafa de água com a torneira da pia da cozinha, sempre justificando: – Ela é muito metida!

Permanecia quieto, no meu canto, ainda descobrindo a cidade. Dividia o quarto com outros marmanjos; minha memória, seletiva ao extremo, não guardou o nome nem as feições de nenhum deles. Havia garantido meu lugar na parte superior de um beliche e, graças a isto, nunca fui atingido pelo vômito do cidadão da cama inferior. Ele chegava invariavelmente bêbado e quando despejava o excesso no próprio quarto a noite se alongava. Dona Con rogava todas as pragas possíveis para o cidadão.

Éramos vizinhos da casa noturna de Oswaldo Sargentelli, com suas mulatas estonteantes que faziam a alegria dos olhos de todos nós. Outro colega de quarto gabava-se de namorar uma morena de coxas descomunais e quadris malemolentes. Raramente ele ocupava a própria cama.  Lembro-me dele gargalhando quando, voltando da peregrinação à cata de emprego, cheguei assustado após presenciar um assalto na esquina que a Paulista faz com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. “- Mineirinho, você ainda não viu nada!”

Realmente eu nunca tinha visto assalto a mão armada. Também não sabia de rapazes que vendiam o corpo, nem de donas de pensão que enganavam hóspedes até com água! Ela, D. Con, sempre foi simpática comigo. Dessas coincidências que exotéricos adoram, a mulher havia sido dona de outra pensão, em Campinas, no interior de São Paulo, na Avenida Orozimbo Maia. Lá se hospedou meu irmão, então um jovem e comportado cidadão. Ele fez a fama da família e sendo boa gente, no conceito de Dona Con, eu também era. Mesmo tratado com deferência, ficava quieto no meu canto, tentando entender, tentando digerir a cidade.

Tive todos os contratempos, muitos estranhamentos; todavia nada se equiparou ao susto inicial. O mineirinho de Uberaba chegava para morar em uma pensão na Avenida Paulista, símbolo da renovação paulistana, da incrível capacidade da cidade em se reinventar. Havia descoberto a pensão através de meu primo Beto, que veio de Campinas para trabalhar aqui. Era uma sexta-feira de 1979. A idéia era chegar nesse dia, ter tranqüilidade no final de semana para conhecer a região, comprar o jornal de domingo, selecionar vagas e sair, já na segunda, procurando emprego.

Beto não estava na pensão. Estranhei o fato, mais ainda quando a dona da pensão me perguntou se eu tinha lugar para ficar, pelo menos até a segunda-feira seguinte: “ – Então, houve uma discussão entre dois hóspedes, colegas de quarto de vocês. Eles acharam que seu primo estivesse dormindo. Na discussão um acusou o outro de ladrão; este revidou, dizendo que pelo menos não estava sendo procurado por assassinato.”

Meu primo e eu teríamos um ladrão e um assassino como companheiros de quarto. Alertada, a dona da pensão sugeriu para que Beto fosse para Campinas, durante o final de semana. Eu, nem entraria na pensão, assim, nem conheceria os “moços de fino trato”. Deixei minha mala no local e tomei o rumo de Santo André, no ABC. A dona da pensão apelou para seus contatos e a polícia fez seu trabalho, livrando a simpática Dona Con dos hóspedes indesejáveis.

Foi assim, como em outras oportunidades que a vida me propiciou, que percebi a realidade além do que é aparente. A Avenida Paulista é bela e hoje, tanto tempo depois, ainda tem porte majestoso. Vai saber o que acontece por lá, em suas pensões clandestinas; quem são realmente seus moradores, o que escondem sob as roupas de grife, a maquiagem bem feita.  Logo depois saí da pensão e passado algum tempo, voltei a morar na Avenida Paulista. A história foi totalmente outra…

PAULISTA, DE UM MILHÃO DE ESTRELAS

Amanhã é o aniversário da Avenida Paulista. Optei por, neste primeiro momento, recordar um post que escrevi em outro aniversário, o da cidade de São Paulo.

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Foto: Nelson Kon

Tive o privilégio de, chegando a São Paulo, ter a Avenida Paulista como primeiro endereço. A capital era local de passagem, antes dessa mudança; um local de curtas estadias para curtir shows, peças de teatro ou para consumir objetos necessários e fúteis de vasto mercado. Vim tornar-me “paulistano” residindo na avenida mais charmosa da cidade.

Na Paulista os faróis já vão abrir

E um milhão de estrelas prontas pra invadir

Os jardins onde a gente aqueceu numa paixão

Manhãs frias de abril…

Tendo a Avenida Paulista como epicentro fui, lenta e perenemente conhecendo a cidade.  Meus primeiros dias por aqui, como qualquer migrante, tinha a busca de um emprego como atividade primeira; chegada a noite, um mar de possibilidades bem próximas de casa. No Teatro Popular do Sesi encenavam “A Falecida”, de Nelson Rodrigues. Namorei intensamente a exposição permanente do Masp – que viria a ser referência em todas as minhas futuras aulas de arte. Lembro da tristeza durante a primeira Corrida de São Silvestre, por estar longe da família, e da alegria em saber do resultado do vestibular no hall do prédio da Gazeta.

A Paulista sempre foi lugar de gente interessante, de todos os tipos. Em uma distante manhã percebi um certo alvoroço em torno de uma moça, entrando em uma livraria vizinha da minha casa. A moça era MARIA BETHÂNIA. Posteriormente vi o primeiro show de DANIELA MERCURY em São Paulo, dei um cigarro para BETH FARIA e dividi uma mesa de bar com CAZUZA. Tudo na Paulista! Logo tive que bater em retirada, morar próximo do emprego conseguido, economizar no aluguel, na condução…

Se a avenida exilou seus casarões

Quem reconstruiria nossas ilusões?

Me lembrei de contar pra você nessa canção que o amor conseguiu

Um dia cogitou-se de tombar os casarões da Paulista; esses se tornariam patrimônio histórico municipal. Antes que a lei tramitasse pelos canais competentes, os proprietários apressaram-se em destruir as fachadas dos casarões. Uma visão grotesca que tive, passando de ônibus pela avenida. Desci do veículo e fui ver de perto o resultado de uma idéia mal colocada, tornada desastre paisagístico pela ganância dos proprietários das mansões.

Você sabe quantas noites eu te procurei nessas ruas onde andei?

Contam onde passeia hoje, esse seu olhar

Quantas fronteiras ele já cruzou no mundo inteiro de uma só cidade

Zanzei por vários outros bairros e, um dia, voltei a morar na Avenida Paulista. Bem ao lado do Parque Trianon, em um edifício charmosamente decadente. ELKE MARAVILHA estava entre os condôminos; se RITA LEE era “a mais completa tradução” para a cidade, ELKE era o mesmo para o Edifício Baronesa de Arari. Eu me considerava ainda um estrangeiro, um mineiro fora de Minas. Prestes a entregar os pontos, definitivamente, para a Avenida, para a cidade.

Dividia um apartamento com três amigos. Uma cantora, um pintor e uma agente de turismo. A diversidade interna era imensa; entre as poucas unanimidades, a fotografia – chegamos a montar um laboratório doméstico –  e as vozes de GAL COSTA e JANIS JOPLIN. Foram tempos de grandes aprendizados e, quase prontos, tomamos destinos distintos.

Se os seus sonhos emigraram sem deixar

Nem pedra sobre pedra pra poder lembrar

Dou razão, é difícil hospedar

No coração sentimentos assim

Divido a posse de São Paulo com milhões de seres que estão aqui, alguns distantes, mas ainda proprietários apaixonados dessa “minha cidade”. Não moro mais na Paulista, mas estou nas imediações. Caminho por quatro quarteirões para chegar na local que ainda considero o mais bonito, o mais charmoso. Vejo a Paulista como NELSON KON, o dono da foto da avenida que ilustra esse post. Quando ouço VÂNIA BASTOS cantando “Paulista”, a música de EDUARDO GUDIN e J. C. COSTA NETTO dos versos que intercalam este texto, grafados em azul, mil e uma situações retornam, emergem de todos os anos, de toda uma vida nesta cidade de São Paulo.

Sou feliz em estar aqui. Muito feliz por usufruir da Paulista, uma paixão que ultrapassou o encantamento, a surpresa, algumas decepções e rompimentos. Vejo a Avenida Paulista como o coração de São Paulo, o meu coração em São Paulo. Por isso, nesse aniversário da cidade, minha total e dedicada reverência. Nesse feriado irei caminhar pela Paulista. Minha forma de desejar feliz aniversário para São Paulo.

Até!

(publicado originalmente em  22/01/2010, 10:42, no Papolog.com/valdoresende

– Oi, “Moça das Pedrinhas”!

Pedrinhas daqui para a moça do Piauí

Olhando-se no espelho, lá no distante Piauí, a “Moça das Pedrinhas” lembrou de algo que o amigo disse, sem saber precisamente quando. Transformou a lembrança em recado carinhoso. O cara recebeu a mensagem e tentou contabilizar o tempo em que estavam distantes; não conseguiu lembrar quando havia dito o que motivara a lembrança e a mensagem. E por não saber quanto tempo sentiu a melancolia aflorar, indo além do que dezembro permite.

Caminhando até a janela, a vidraça ainda quebrada, o rapaz constatou que o lado ruim de dezembro é quando a pessoa obriga-se a encarar o que não foi feito. Não consertou a janela; mais um ano e sentiu-se o mesmo. Observou a rua, um pedaço da avenida, e riu com a decoração da cidade, já comum e com jeito da mesmice que sentia em si próprio. Luzes, centenas de pequenas luzes de todas as cores, variados tamanhos. Arriscou uma filosofia barata: A cidade farta de luzes coloridas mascara tristezas.

A “Moça das Pedrinhas” transformou a recordação em mensagem carinhosa. Lembrando outros amigos, também distantes, o amigo evitou contabilizar acertos, desacertos, sem deixar de pensar que luzes coloridas ofuscam faltas. Teve receio de que essas mesmas faltas sejam camufladas com enfeites “Made in China”. Abandonou a janela e a madrugada estranhamente fria deste dezembro. Sem promessas de fim de ano, sem objetivos para o réveillon, sem planejar encontros antes do Natal.  Terminou a noite escrevendo para os amigos distantes. E concluiu que deveria sugerir aos leitores deste blog que façam o mesmo.

Escrever para amigos é muito bom. Escrevo para quem me honra com a visita e, nesta madrugada, para Janaina Santos, a “Moça das Pedrinhas”.

Até mais!