Domingo, dizem, é dia de descanso para repor energias. Além do repouso cabe um pouco de distração para relaxar, diminuir o estresse. Expectativa maior do dia era ver o desempenho de Juliana Gomes no programa “The Voice”. A jovem cantora, nascida em Uberaba, promete ir muito além desse primeiro passo nacional e o programa está com um excelente nível de candidatos.
Programa de televisão é aquela coisa, ninguém pode ter ilusões: quer audiência e a partir desta, faturar bastante. As coisas em televisão costumam ser rápidas, sem que se dê tempo para muita reflexão, ponderações adequadas e, quando a gente menos percebe, já acabou. E foi assim, com uma rápida apresentação da matemática do programa que o apresentador Tiago Leifert, informou que os “times” estavam completos e, dali para frente, seria “mata-mata”. Hein?
De acordo com as regras do programa cada artista – “Técnico” de um determinado grupo de concorrentes – tem um número máximo de jovens talentos para prosseguir em frente. Nove, se entendi bem. No início do programa de hoje valia a escolha de um concorrente, pelo “técnico”, e o outro poderia ser salvo pelos demais artistas-técnicos. Quando nenhum artista escolhe o candidato, este fica fora do programa. Perfeito. A questão é que esse critério valeu apenas para os primeiros concorrentes. Três outros ficaram de fora, pois com os times “cheios”, não puderam receber o voto que os manteria na competição.
Juliana Gomes formou a última dupla concorrente, ao lado de Thalita Pertuzatti. Não vi a primeira apresentação de Thalita, mas recordo que os quatro “técnicos” acionaram o dispositivo garantindo a presença de Juliana Gomes na segunda etapa. Ou seja, na primeira etapa, Lulu Santos, Daniel e Carlinhos Brown quiseram Juliana em seus times, quando a mineira escolheu Claudia Leitte. Na segunda etapa, por uma regra que valeu apenas para os últimos concorrentes, Juliana Gomes não pode ser escolhida, “salva” no jargão do programa, por um dos que votaram nela na primeira fase.
Não vou discutir os critérios de Claudia Leitte ao escolher Thalita Pertuzatti. Vou insistir na crítica, visível para quem viu e quiser ver o vídeo de apresentação das duas cantoras, de que a escolha da música, feita por Claudia Leitte, prejudicou Juliana Gomes. Vou insistir também na revolta dos fãs de todos os concorrentes que não foram beneficiados pelo “salvamento”, por uma regra que contempla quem participa no princípio do programa.
Acredito na voz e no carisma de Juliana Gomes. Gostei do fato de que esse programa deu visibilidade nacional para essa talentosa menina. Quando da primeira apresentação da garota, tendo escrito aqui sobre o fato, recebi mensagem de uma empresária, pedindo-me para que entrasse em contato com a cantora, já que era desejo da empresária contratar a menina. Um sinal do que pode ocorrer no futuro; portanto, de minha parte, vou continuar colaborando nessa ponte, pois desejo êxito para a cantora Juliana Gomes. Quanto ao programa… Lamentável! Que os concorrentes que lá permaneceram não sofram injustiças, nem sejam prejudicados por regras equivocadas.
Vale refletir sobre a visão do artista. Michelangelo sabia como veríamos o teto da capela papal.
A Igreja Católica comemora os quinhentos anos da Capela Sistina, que foi aberta ao público no dia 1 de Novembro de 1512. O trabalho de Michelangelo foi encomendado pelo Papa Júlio II. Entre as histórias que envolvem esse momento histórico, consta que Michelangelo não queria pintar a capela, pois preferia a escultura à pintura. Mas o Papa Júlio II não era do tipo de sujeito para ser contrariado. Dois indivíduos de gênio forte; com certeza foi um relacionamento tenso.
Seria fantástico visitar a Capela Sistina no meio da madrugada, ou nas primeiras horas da manhã, antes da entrada dos visitantes. É um local para ser contemplado, demoradamente contemplado, o que é muito difícil pela grande quantidade de turistas; afirma-se cerca de 10 mil diariamente, dobrando para 20 mil em dias de pico.
Estivemos lá, minha irmã e eu, e sinto-me bastante privilegiado por isso. Foi durante um curso de arte e chegamos à Capela Sistina após conhecer a escultura de Moisés, do próprio Michelangelo, que seria parte do conjunto escultórico para o túmulo do Papa Júlio II; também já havíamos passado pelo Capitólio e, na Basílica de São Pedro, havíamos parado para observar atentamente a Pietá. A Capela Sistina é um “golpe de misericórdia” em alguém que tente não sucumbir ao gênio de Michelangelo.
Pensada originalmente como capela papal privada, a Capela Sistina tem a função primordial de sediar os conclaves onde são eleitos os Papas.
No Museu do Vaticano recordo uma aula extensa, com uma professora que havia trabalhado na restauração do altar mor. Arte e história com uma riqueza de detalhes minuciosos, impressionantes. Tivemos como ilustração da aula dois imensos painéis reproduzindo o teto e o altar, e ainda outro, com as paredes laterais com cenas da vida de Moisés de um lado e, do outro, cenas da vida de Jesus Cristo. A aula foi concluída com a visita e ainda uma conclusão, para dúvidas finais.
Antes de entrar na Capela, passamos pelos quartos, pintados por Rafael Sanzio. Conta-se que os quartos papais foram destinados ao trabalho de Rafael, já que a Capela Sistina, originalmente criada para as orações privadas do Papa, havia sido destinada ao rival Michelangelo. Não vimos parte desses quartos, pois estavam em restauração, assim como parte da parede esquerda da Capela Sistina, que também estava sendo restaurada. Todavia, foi possível admirar a Escola de Atenas, na Stanza della Segnatura.
Nada é muito calmo e tranquilo durante a visita, apesar do clima respeitoso dentro da Capela. Padres com suas batinas negras, pesadas, organizam o ambiente, apressando todo mundo para que mais pessoas possam ter o prazer de conhecer o local. Pedem silêncio e “tocam a boiada” com eficiência e é por isso que os milhares de turistas que passam por Roma têm a oportunidade de contemplar o local. O tempo é escasso para observar os 1.100 metros quadrados do teto. Sem contar que ainda há as paredes laterais e o altar mor que merecem igual observação.
Neste momento o foco está no teto, com a comemoração dos quinhentos anos; logo será a vez de comemorar o aniversário do altar mor. Este foi pintado entre os anos de 1536 e 1541, duas décadas após a pintura do teto. O altar mor é estilisticamente muito diferente do teto e já anuncia as características iniciais do Barroco. Assim, o teto da Capela Sistina é o ápice do Renascimento e o altar mor, com a obra denominada “O Juízo Final”, com sua intensa expressividade, abre o espaço terreno tanto para o céu quanto para o inferno. Michelangelo é o grande mestre.
O Juízo Final, o imenso trabalho que recobre o altar mor, exemplo concreto da maturidade criativa de Michelangelo.
A Capela Sistina é apenas um detalhe do imenso complexo que é o Museu do Vaticano. Há roteiros diferenciados para visitar o local que, além das obras nos espaços internos, conta com um maravilhoso jardim também cheio de obras de arte. Todo esse imenso patrimônio foi amealhado durante dois milênios, contribuindo para as especulações e críticas sobre os tesouros da igreja católica.
Eu sou grato a quem soube preservar tão valioso patrimônio histórico e artístico. As obras de arte estão lá, para conhecimento e deleite de todos, independendo de religião. Por uma longa trajetória histórica estão sob a guarda da Igreja. Na França e Inglaterra, por exemplo, estão em instituições mantidas por governantes laicos. Tanto a Igreja quanto o Estado são eficientes na manutenção do patrimônio histórico e artístico universal. Ainda mais, souberam transformar esse patrimônio em fonte de divisas, atraindo turistas de todo do planeta.
Henrique VIII, ao romper com a Igreja Católica, favoreceu rumos muito diferentes para a arte na Inglaterra renascentista (lá, tivemos Shakespeare!). Da mesma forma, a posterior ação de Napoleão III, na França, ao criar o “Salão dos Excluídos” contribuiu para que o público parisiense tivesse conhecimento da primeira geração do Impressionismo. Religiosos ou leigos, os seres humanos garantem a sobrevivência de grandes trabalhos artísticos e essa é uma atitude para ser respeitada e imitada.
Creio ser esta a imagem mais popular da Capela. A “Criação de Adão” ocupa o espaço central do imenso teto. É um afresco de 280 cm x 570 cm.
Espero que, nos próximos dias, ocorram muitas reportagens sobre a Capela Sistina por todas as emissoras de televisão, em jornais, revistas, internet. Minha singela contribuição é esta que, espero, desperte um pouquinho da curiosidade das pessoas para essa maravilha da criação de Michelangelo.
Sexta-feira, indo para São Caetano do Sul, nas imediações da Avenida Delamare, eu e meu amigo Robinho presenciamos três assaltantes dando coronhadas em um carro. O assalto não foi concretizado, pois não quebraram os vidros e o motorista acelerou logo que possível. Antes de entrarmos na Avenida Goiás, em outro semáforo, conversamos com o motorista. Aí que descobrimos ser uma senhora e esta relatou-nos, apavorada, que era a terceira vez que ocorria aquilo com ela.
Fato corriqueiro, um assalto parece banal; três é coisa de gente azarada. Para quem concorda que isso é “fato corriqueiro” tem mais violência, muito mais: clique “UM” para saber de quatro pessoas mortas; clique “DOIS” para saber detalhes sobre onze assassinatos; clique “ TRÊS” para chacina com 20 pessoas mortas. Violência urbana: uma batata quentíssima para o prefeito eleito em São Paulo no dia de hoje.
Domingo, enquanto fechavam as urnas, e as pesquisas já apontavam o vencedor, uma tempestade colocava a cidade em atenção, o que oficialmente significa: “órgãos públicos municipais, como a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros, a CET e as subprefeituras direcionam as equipes para os pontos mais críticos da cidade. Essa ação é feita para evitar que motoristas entrem em vias alagadas…”.
A notícia acima é da Folha de São Paulo e está completinha aqui. O trecho foi destacado por mim, para lembrar que chuvas são sinônimos de alagamentos na capital paulista. Uma batata quente, encharcada, e cheia de barro para o novo prefeito.
Seria ótimo se fossem apenas duas batatas; mas há quantidade suficiente para muitos purês: As batatas da educação, da saúde, dos transportes, da habitação… Para cada secretaria municipal um batatal em altíssima temperatura. Com tanta batata indigesta vale refletir sobre quais os reais motivos para o sorriso do vencedor.
Poder é algo que atrai, seduz, deslumbra. Junto com poder vem o dinheiro que, entre outras coisas, paga plástica para o poderoso ficar atraente, ter maior facilidade de seduzir e, quem sabe, deslumbrar! Ainda há o fato de que o poder obtido em disputa vem com o sabor de possibilitar, “elegantemente”, que se tripudie sobre a derrota alheia…
A expressão “Ao vencedor as batatas” tem origem, é bom lembrar, em Machado de Assis, no romance “Quincas Borba”. Surge no exemplo do filósofo Quincas como conclusão da história de duas tribos, famintas ante um campo de batatas que entram em guerra, já que as batatas são suficientes apenas para uma delas. A tribo vencedora, renovando as energias com as tais batatas, poderá ir além, percorrer o caminho até chegar a um campo onde há grande quantidade de… Batatas. Simplificando: os vencedores podem desfrutar das batatas.
Uma cidade rica e poderosa justifica a ênfase com que tantos políticos lutem pelo direito de temporariamente conduzi-la; talvez por isso ignorem a grande e variada quantidade das doloridas batatas quentes. Atentem para o “temporariamente conduzi-la”! Quem quiser permanecer no poder há que saber esfriar batatas, e não mentir, dizendo que estão frias quando na realidade queimam vidas.
O calor da vitória traz sorrisos. E assim ocorre em todas as cidades onde, finalmente, termina o processo eleitoral de 2012. O momento é de aproveitar as saborosas batatas da vitória e, sem delongas, entrar no processo de transição para começarem a trabalhar. Fora dos comitês, em São Paulo, há pessoas sendo mortas aos montes; há tantos problemas na cidade que o mínimo que se pode dizer ao vencedor é: – Segure essa batata, senhor prefeito; do contrário, na próxima eleição, será o senhor a sair com as mãos abanando. Sem poder, sem dinheiro, sem batatas.
26 de outubro. Milton Nascimento completa 70 anos. Minas Gerais comemora, o Brasil reverencia o compositor e cantor. Ganhei de Maria Elza Sigrist, uma amiga encantadora que reside em Campinas, interior de São Paulo, o primeiro disco de Milton Nascimento.
No sertão da minha terra
Fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força
Parece até que tudo ali é seu…
Milton, carioca de nascimento, é de uma mineirice única, encontrando paralelo só em Ary Barroso, quando este compõe sobre a Bahia. Uma Minas Gerais nostálgica, religiosa, montanhosa, maneira, e outras tantas características da terrinha estão na obra do compositor que, criança, foi viver em Três Pontas, no interior mineiro.
Longe, longe ouço essa voz
Que o tempo não vai levar…
Com uma dose de culpa diante de outras, escolhi sete canções para lembrar neste momento festivo, do aniversário do Bituca (eu até que gostaria de chamá-lo assim!). Sete canções para comemorar os 70 anos de Milton Nascimento; músicas que, se ouvidas 70 x 7, ainda assim não cansam ninguém.
A partir dos anos de 1960 tornou-se comum a presença de compositores-cantores na música brasileira. Foi um meio de que esses artistas tivessem maior reconhecimento e, consequentemente, grana. Esse fato justifica um período de ascensão de grandes cantoras e a escassez de intérpretes masculinos. Os compositores não conseguem dizer não para as meninas, mas guardam para si as composições que poderiam acontecer na voz de um marmanjo.
Lá vinha o bonde no sobe-desce ladeira
E o motorneiro parava a orquestra um minuto
Para me contar casos da campanha da Itália
E de um tiro que ele…
“Saudade dos aviões da Panair”, a música dos versos acima, é uma rara exceção onde a interpretação de alguém é melhor que a de Milton. Esse alguém é Elis Regina; por outro lado, Milton Nascimento, apenas como intérprete e com sua belíssima e inconfundível voz, estabeleceu parcerias memoráveis com artistas como Mercedes Sosa, Gilberto Gil, e criou grandes clássicos ao cantar com, por exemplo, Chico Buarque.
O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e provas
Que andam combinando no…
No já lendário Clube da Esquina, Milton Nascimento capitaneou toda uma geração de compositores mineiros que lá, das terras de Minas, enviaram canções únicas para Lennon, McCartney, via trens azuis e outros mais. Com Lô Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Flávio Venturini, Márcio Borges, Toninho Horta e o genial Wagner Tiso, aprendemos a identificar uma música mineira distinta, com qualidades tão peculiares que tornaram essas canções universais.
Coração americano
Acordei de um sonho estranho
Um gosto vidro e corte
Um sabor de chocolate…
Gosto, sobretudo, daquelas gravações em que Milton Nascimento consegue trazer Minas Gerais para onde quer que estejamos. A melodia doce, os batuques que remetem às congadas, a suavidade das toadas e quase sempre as vozes em coro, que mineiro, todo mineiro, não gosta de cantar sozinho.
Adeus, adeus, toma adeus
Que eu já vou embora
Eu morava no fundo d´agua
Não sei quando eu voltarei
Eu sou canoeiro.
Milton Nascimento está longe de nos dizer adeus. Desejamos outros 70 anos ao compositor que já garantiu presença em nosso imaginário pelos séculos que virão. Milton é Minas, é Gerais, é Brasil.
Quero terminar lembrando uma canção que foi um marco na minha trajetória pessoal; quando o cantor Milton Nascimento, com interpretação única, ajudou-me a segurar a barra, a nortear minha vida.
…Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito à força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai…
Obrigado, Milton! Tantas canções cujos versos não estão aqui! “Travessia”, “Canção da América”, “Nos bailes da vida”, “Encontros e despedidas”… Ficaria aqui, escrevendo até esgotar, mas vamos embora; festejar os 70 anos de Milton Nascimento.
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Feliz aniversário!
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Notas musicais:
Na ordem em que aparecem no post, as canções e seus autores:
Morro Velho – Milton Nascimento
Sentinela – Milton Nascimento e Fernando Brant
Saudade dos aviões da Panair (Conversando no bar) – Milton Nascimento e Fernando Brant
O que será, que será (À Flor da Terra) – Chico Buarque
San Vicente – Milton Nascimento e Fernando Brant
Beira-mar – (Folclore do Vale do Jequitinhonha) Adaptação Frei Chico e Lira Marques
Penso não ser o único maluco a guardar na cachola trechos de canções, frases melódicas acompanhadas de letra ou não. Poderia elaborar uma bela lista caso soubesse o nome da canção, os autores, os intérpretes. Obviamente que algumas dessas canções caminham comigo desde a infância, ouvindo minha mãe ou minhas irmãs cantarolando enquanto trabalhavam, outras vieram das minhas andanças por aí.
A tarde reservou-me agradável surpresa quando comecei a ouvir e reconheci uma canção do tempo em que fui adolescente. Foi como algo de há muito perdido que, de repente voltou e, junto ao som, imagens com total nitidez.
Nesse momento
Nosso romance começou
Todo esse tempo
Eu quis falar do meu amor
E dizer quanto eu espero
Envolver-te em meus braços
Vendo o dia amanhecer
Fui adolescente típico. Daqueles que ficam trancados horas no banheiro, outro tanto frente ao espelho; também estive entre os que adoram a madrugada como refúgio seguro para viver “longe do olhar dos adultos”, que teimam em intrometer-se onde não são chamados.
Chacrinha com Wanderléa, na TV tanto quanto na rádio Globo.
Altas horas, todos recolhidos, meu irmão tendo ido para Brasília, reinava absoluto em meu quarto e, através do rádio, viajava todas as noites para o Rio de Janeiro. Ouvia o programa de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, via Rádio Globo AM. O famoso apresentador estava em casa, já que foi no rádio onde iniciou a carreira. Não posso precisar as horas, mas eram altas, muito altas horas. Papai acordava de madrugada e vendo a luz acesa no quarto dava-me broncas homéricas, obrigando-me a desligar o rádio e ir dormir. Habituei-me a colocar um pano para impedir a luz de atravessar pelas frestas da porta e ouvia baixinho, a música que voltou na tarde deste domingo para reavivar lembranças.
Eu te amo tanto
Que eu não sei como explicar
Todo esse encanto
Que vem fazer eu te adorar
Se eu perder os seus carinhos
Vou sofrer demais sozinho
E de saudade vou morrer
Desse período, ainda em Uberaba, algumas músicas permaneceram fortes na lembrança e poderia jurar que “Eu quis falar do meu amor” seria dessa época. Acontece que é uma gravação de Junho de 1973. Junho não é mês que esqueço, já que nasci no próprio e, em 1973 eu estava às voltas com o serviço militar, já distante de Uberaba, morando com meus avôs, em Campinas, no interior de São Paulo.
Se alguém me perguntasse uma música de 1973 eu diria “Goodbye, Yellow Brick Road”, de Elton John e todo o LP “Drama, 3º Ato”, gravado ao vivo por Maria Bethânia. Venho mantendo essas e muitas outras canções na memória e, de vez em quando, fico cantarolando algumas e outras; entre essas outras…
Nesse momento
Nosso romance começou
Todo esse tempo
Eu quis falar do meu amor…
Wanderléa, muito além da Jovem Guarda.
Hoje, ouvindo os primeiros acordes da canção fui mágica e rapidamente transportado no tempo, no espaço. Foi um agradabilíssimo encontro com a velha canção que não sabia mais de quem era, quem cantava, que nome tinha. “Eu quis falar do meu amor” é de Roberto Correa e Jon Lemos e foi gravada em 1973 por Wanderléa. Essa e outras canções estão na caixa “Wanderléa Anos 70”. São seis CDs e parei no primeiro, embevecido com a canção da qual guardava fragmentos na memória. Sobre os CDs, sobre as demais canções escrevo em outro momento. Agora, por enquanto, “Eu quis falar do meu amor”… E que amor, Wanderléa!
Eu te amo tanto
Que eu não sei como explicar
Todo esse encanto
Que vem fazer eu te adorar…
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Boa semana para todos!
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Nota: Encontrei uma reprodução no Youtube. Para conhecer a canção clique aqui.
Eco, Santiago, Dirceu, Nina/Rita, o Juiz, tudo com muito sexo em tons de cinza… Que história!
Volta e meia usamos a expressão “melhor ouvir besteira que ser surdo”. Por dentro guardamos um não revelado desejo de que o autor da besteira fique mudo. Ou uma indignação: porque ele não nasceu mudo? Problema maior é quando o autor da besteira está assentado na experiência cotidiana, contemporânea, também conhecida como realidade…
Escrever é tarefa difícil. Fazer um livro de sucesso parece fácil. A receita pede muita ação, o mesmo tanto de sexo. Esse, com variações apimentadas como adultério, sodomia, probabilidade de incesto. Homicídios e vinganças também estão na ordem do dia, com a novela global matando um por dia. A morte em si, não basta para o sucesso; há que se ter muita pancadaria. Parece que bofetões provocam orgasmos.
A “besteira” que ouvi, chamava a atenção para o interesse menor de determinados produtos (livros, filmes, documentários, programas de tv, shows) sobre outros. Aqueles de maior sucesso contam escândalos políticos, crimes, roubos, enfim as polêmicas todas que param a sociedade, atenta no desenrolar de tais fatos. Dramas familiares também provocam interesse. Um estranho deleite. Assim, para fazer sucesso, obter mais audiência, vender mais, o caminho parece claro.
O final do mundo, que está próximo, é um bom tema. Vende muito mais, provoca mais interesse que livro religioso. Escárnio também interessa, principalmente se um adversário informar ao torcedor do time rival a receita de sobrevivência na segunda divisão. Brincar de revelar grandes conspirações vale se o autor conseguir fazer com que acreditem na coisa; nesse aspecto, iria causar furor as revelações de como a televisão – agente de um poder ligado à Igreja medieval – atua no controle da massa, conspirando para o resultado das eleições através das lágrimas de Nina e dos ataques histéricos de Carminha.
Escrever é difícil, fazer sucesso é fácil. Desde que saibamos fazer a coisa, foi o que me disseram. Assim, fiquei pensando em Pirandello, na peça “Seis Personagens à procura de um autor”, sentindo-me não personagem, mas autor procurando um escândalo, uma história bem cabeluda, uma conspiração mais que perversa. Alguém pode me dar uma idéia? Uma sugestão de sacanagem não publicada, escândalo brasileiro não registrado?
O título acima foi manipulado (oh!). A frase, original de Umberto Eco, publicada pela Revista Época diz: “O que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós”. Por isso, diz Eco, que o “o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso”. Assim, parece que faz parte de nós todas aquelas tramóias de Santiago (Juca de Oliveira é magistral!); também há em nós os juízes e os ladrões no Mensalão, as verdades e as mentiras do jogo político. Ficamos indignados com um simples empurrão na mocinha e nos deleitamos com os tabefes dados na vilã.
Colocar sexo, bofetões, roubos, intrigas, conspirações… Isso em uma história razoavelmente bem escrita e – Bomba! – teremos muito mais que “Cinquenta tons de cinza”. Teremos um retrato estranho daquilo que socialmente repudiamos, mas que, reafirmando Eco, faz parte de nós.
Gosto muito de ver as pessoas em foto quando crianças. Essa brincadeira no Facebook tem um aspecto ótimo. Não importa quem seja o indivíduo; ele é o resultado de uma criança com olhos vívidos, ar inocente, alegria pura, semblante que é só esperança.
Wander Daniel, meu irmão caçula.
Há crianças que evidenciam surpresa perante a vida e, sobre esta, lançam uma fé inabalável, a crença em um futuro bom. São imagens que provocam alegria, despertam ternura e encantamento.
Em 2008 escrevi, no Papolog, sobre o dia das crianças e destaquei minhas irmãs. Resolvi resgatar e completar a família.
Tudo começou com duas crianças…
Mamãe Laura, Papai Bino. As histórias contadas revelam seriedade só em fotos!
Laura, que é paulista de Pioneiros, cresceu em diferentes casas, sempre próximas da linha da antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Em uma delas, em Araguari, a menina Laura encontrou o menino Bino (Para o registro, Felisbino), que havia nascido em Estrela do Sul, Minas Gerais.
Laura e Bino, já casados, tornaram-se os pais de seis crianças. E foi assim que escrevi sobre toda essa meninada:
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PRA NINAR TODA GENTE!
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Ando pensando nesse dia das crianças faz tempo! E, graças a Deus, crianças não faltam por aí. Lá em casa, por exemplo, tem três meninas. Cada uma com suas particularidades, com seu jeitinho, suas manias.
“Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal
Feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções…”
As meninas lá de casa sempre foram bem sapecas. Como todas meninas, brincam com suas bonecas: bonecas de pano, de papelão, de louça, de plástico. Meu pai do céu, quantas bonecas! Ensaios infindos para uma possível maternidade. Se a gente dá um cascudo nas bonecas (todas têm nome próprio!) elas choram como se tivesse sido nelas. Mas elas gostam mesmo é de brincar.
Waldenia, mãe de duas meninas, um menino e uma neta menina.
“Eu levo a vida cantando
Hi, Lili, hi, Lili, hi lo
Por isso sempre contente estou
O que passou, passou…”
Meninas são meio esquisitas. Gostam de mandar a gente guardar as coisas, arrumar o quarto, botar os livros no lugar. Parecem mães! Quando menos se espera, lá vem elas usando batom, salto alto, a maquiagem da mãe. Pintam a boca! Colocam fitas no cabelo, colares, pulseiras, brincos e ficam em frente ao espelho… Bobas!
“Menininha do meu coração
Eu só quero você a três palmos do chão
Menininha não cresça mais não
Fique pequinininha na minha canção
Senhoria levada, batendo palminhas
Fingindo assustada do Bicho-papão…”
Não demorei em descobrir que um tal de brincar de casinha, vestir roupa de mãe, fazer comidinha, era um ensaio pra vida. Quase num piscar de olho, as meninas lá de casa deixaram as matinês pelas sessões de cinema do começo da noite. Todas enfeitadinhas, eufóricas, ansiosas, pra encontrar sabe-se lá quem, pois elas sempre… Cochichando!
“Olha as minhas meninas
As minhas meninas
Pra onde é que elas vão
Se já saem sozinhas
As notas da minha canção…”
E quando eu comecei a perceber o mundo direito, as meninas lá de casa já tinham suas meninas e meninos. E eu virei tio, meus dois irmãos viraram pais. Não me lembro de ter brincado de ser pai! Muito menos meus irmãos. O mais velho foi o primeiro a ter sua menina, lá pros lados onde escolheu morar. E, como se fosse um sonho rápido, foi a vez dele de tomar conta da sua menina.
Waldonei, pai de um menino e uma menina.
“Eu te vejo sair por aí
Te avisei que acidade era um vão
– Dá tua mão
– Olha pra mim
– Não faz assim
– Não vai lá não…”
Caraca; meus irmãos encheram a casa de meninos e meninas. E a gente querendo agradar todo mundo, beijar todo mundo, abraçar, guardar do mal do mundo. É uma tensão total se uma menininha cai, se um menino se machuca, se um briga com outro. Os meninos, pra variar, têm que maneirar… – Cuidado, ela é menininha!
Walcenis, um pouco mãe de todos nós.
Foi com minha mãe que começou essa história de “meninas”; ela se refere assim às minhas tias, tios. Em casa temos três meninas. Vieram depois outras meninas, filhas das meninas lá de casa que, por sua vez, tiveram meninos e meninas, ufa!. Ainda tenho o meu irmão caçula, que nos deu menino e meninas; e tenho o outro, que não está mais por aqui, mas que nos deixou uma menina e um menino.
“Mas o tempo é como um rio
Que caminha para o mar
Passa, como passa o passarinho
Passa o vento e o desespero
Passa como passa a agonia
Passa a noite, passa o dia
Mesmo o dia derradeiro…”
Fica repetitiva essa meninada, mas é puro carinho! Sei que estou aí, pelo mundo. Aprendi lá na adolescência a distinguir menina de namorada. Das meninas a gente fica amigo! De algumas, a gente vira um quase irmão. As três meninas, cujas fotos estão aqui no post, são minhas irmãs de pai e mãe. Tenho muitas outras, irmãs na vida.
Este dia das crianças quero dedicar aos meninos e meninas que encontrei por todo o tempo. Acho que a vida seria bem melhor se a gente tratasse as meninas e os meninos como irmãos. E, recordando bem seriamente como é ser irmão, é fácil tratar os outros com maior delicadeza, sendo duro só quando necessário; muito necessário!
Walderez, mãe de um casal, avó de uma menina e de um menino.
O mundo está hiper cheio de meninos e meninas. De todas as idades, credos, cores. Pode-se resolver essa data facilmente, dando um brinquedo bobo, fazendo um passeio qualquer. Afinal, essa data, ao que parece, surgiu foi para incrementar o comércio. Fazer o que… ela está aí! O jeito é encarar.
Esse blog, tudo indica, não é frequentado por crianças. Mas as pessoas que passam por aqui tem irmãos, irmãs… Meninos e meninas. Por isso, para as próximas noites quero dizer pra meninada da minha vida, que vou imaginar essa canção, com todo o meu carinho, para toda a “criançada”!
“É tão tarde, amanhã já vem
Todos dormem, a noite também
Só eu velo por você meu bem
Dorme anjo, o boi pega neném…
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega essa menina
Que tem medo de careta!”
(quase fim)
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Essa foi a história que ainda é. Vamos por aí, ao lado de tantas outras crianças que foram netos, bisnetos das duas primeiras, Laura e Bino. Abaixo, concluo este com a imagem do menino que escreve este blog .