Um velório online para Zulmira

Cresci ouvindo a piada do mineiro, comprador de bonde. Depois aprendi, para rebater, que mineiro não compra bonde, já que inventou o avião. Nós, mineiros, definitivamente estamos muito além da imaginação. Em Minas Gerais já temos velórios online. E não é nada novo, já faz um tempinho. Eu é que, mal informado, só soube recentemente.

O “trem” veio de Governador Valadares, a tranquila cidade do Vale do Rio Doce. Para uma cidade que tem milhares de seus habitantes entre aqueles que saíram do país, visando melhores condições em terras estrangeiras, fica coerente a história do velório online. Aqueles que vivem como clandestinos nos EUA não conseguem visitar os vivos, muito menos voltam para uma última despedida. Então os mineiros, antenados, colocam seus defuntos na web.

Fernanda Montenegro, a Zulmira na adaptação da peça para o cinema

Tenho certeza que Zulmira sonharia com um velório assim, online. Tudo com transmissão de áudio e vídeo em tempo real. A sala bonita, a urna luxuosa, castiçais imensos de prata sustentando as velas ornamentadas, tudo envolvido com uma deliciosa mistura de incenso perfumando o ambiente. Dentro da urna, Zulmira não seria a tuberculosa suburbana; pelos artifícios da tanatopraxia, estaria bela, com a maquiagem criando a impressão de que ela, ao invés de morta, dormiria o sono dos justos.

Tanatopraxia? Essa não é invenção mineira, mas parece que tem forte influência americana! É lá na terra do Tio Sam que já vimos, em filmes, as pessoas maquiando defuntos. Bem verdade que os egípcios já faziam isso na antiguidade. Agora, que o nome é sofisticado, disso não há dúvidas. O que eu duvido é que no distante 1953 a tuberculosa Zulmira soubesse da existência da tal tanatoestética, que em Minas, inclui a reparação facial.

Sônia Oiticica, Sérgio Cardoso e Leonardo Villar, na estreia de A Falecida.

Zulmira é personagem de Nelson Rodrigues. Uma pobre mulher do subúrbio carioca que sonha com um enterro de luxo. Deseja um velório que provoque a inveja da vizinhança, pelo tamanho dos arranjos de flores, pela riqueza da urna, pela pompa do carro funerário. A peça de Nelson Rodrigues, cujo centenário celebramos em 2012, estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no dia 8 de Junho de 1953. O autor classificou a peça como “Tragédia Carioca”, mas um tom de comédia fica inevitável. Alguém que se realiza através de um enterro de luxo não pode ser levada a sério.

Fosse hoje e Zulmira pediria um velório online. Não importa onde, mas o cantor preferido poderia entoar um réquiem, assim como o padre superstar poderia enviar a benção de onde estivesse. Tudo “tuitado”, compartilhado em todas as redes sociais, para todo o planeta. Vídeos em tempo real mostrariam lágrimas reais e as “de crocodilo” e aquele interessado distante já poderia pedir uma geral do ambiente, garantindo a gravação dos bens do defunto que entrariam no inventário.

Minas Gerais sempre me surpreende. Na aparente imutabilidade dos hábitos dos mineiros, dentro dos casarios seculares onde, aparentemente, nada mudou, o futuro está presente e os mineiros de agora continuam não comprando bondes. Se fosse para comprar fariam via internet. Namoram, casam e até velório online já estão fazendo.  Tudo bem que ocorram velórios online em tudo quanto é lugar, mas em Minas? “Eita! Povo novidadeiro, sô! É pra se admirar.”

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Boa semana para todos!

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Notas:

– Os dados sobre a peça A Falecida foram extraídos do livro “O anjo pornográfico”, a biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro e publicada pela Companhia das Letras.

– Mineiros interessados em velórios online: http://www.funerariagonzaga.com.br

– A Falecida foi adaptada para o cinema em1965, com direção de Leon Hirszman

Chico Buarque, o terceiro

Tendo como medida minha amiga Fafá, devo afirmar que Chico Buarque é um caso sério. Não faz tanto tempo; estive com Fafá em uma entrevista coletiva com Chico (Só Chico; faz de conta que somos íntimos!), Edu Lobo e Lenine. Acho que ela não viu quase nada além dos olhos do Chico, a roupa, os movimentos, as palavras ditas pelo cantor e compositor. Lá pelas tantas, sem se agüentar, soltava pérolas do tipo: – Chico! Olha eu aqui! Chico!

Venha ouvir sem mais demora

A nossa música

Que estou roubando de outro compositor

E já retoco os versos com maior talento

Dou um polimento e exponho na televisão

O nosso amor…

(Rubato – Jorge Helder e Chico Buarque) 

Hoje, certamente, Fafá está choramingando pelos cantos. Não conseguiu ingressos para ver o Chico. Ela e milhões de outras mulheres. Mais fieis que Penélope. Passa o tempo, Chico longe, escrevendo livros ou jogando futebol, envolvido em múltiplas tarefas e relegando shows para planos secundários. Não importa. Ele anuncia a volta e os ingressos se esgotam com uma rapidez que deixa a colorida Restart em preto e branco de inveja.

O caso sério Chico faz poucos shows. Esse é o problema para a mulherada. Os empresários… Bom, como a casa fica lotada, vendem até uma cadeira com visão parcial por 120,00 reais! (Só se vê metade do Chico? O perfil direito ou o esquerdo? O cara vai ficar paradinho, como sempre, mas se resolver andar pelo palco, a visão é zero?). Desconheço qualquer reclamação quanto a esse tipo de venda de cadeira “torta”. As moças que conseguiram ingressos não reclamam; o cara abre a boca e, para elas, ele é sempre o “terceiro”:

…O terceiro me chegou

Como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada

Também nada perguntou

Mal sei como ele se chama

Mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama…

(Terezinha – Chico Buarque)

Se esse Chico conseguisse atingir metade das camas das moçoilas interessadas, teríamos mais “Buarques” que “Silvas” na lista telefônica. E o que sobraria para os outros? Para todos os outros caras, restaria e resta difamar o cidadão: ele está cheio de rugas, só joga futebol porque é dono do time e não escreve tão bem quanto compõe. Ah, e o Caetano é melhor cantor que ele. E enquanto ficamos com os cotovelos em carne viva, o carioca entra no palco ganhando paulistas, mineiras, baianas, paranaenses…

 Pensou que eu não vinha mais, pensou

Cansou de esperar por mim

Acenda o refletor

Apure o tamborim

Aqui é o meu lugar

Eu vim

(De volta ao samba – Chico Buarque)

O cidadão sabe das coisas de tal forma que, afirmam, conhece e traduz em versos a alma feminina. Melhor que discutir a relação, o cara fala por elas! Por isso coleciona namoradas; na praia, em bares, shows. Discreto, cavalheiro, faz pouco alarde e muito de vez em quando é flagrado; quando ocorre é com super gatas. Rival desse porte a gente chama para perto. Melhor aliar-se que lutar contra o dito cujo.

Quem tiver o ingresso, ou saco e tempo para ir ver a entrada do povo, verá quantos marmanjos presentes. Entre os vários motivos, a maioria vai porque Chico é mesmo bom. O melhor do Brasil. Chico Buarque faz cair por terra a história de música preferida. Só da lista divulgada para o show em cartaz, tenho pelo menos oito. E que ninguém venha me chamar de indeciso.  A única coisa que posso afirmar é que, entre minhas preferidas há “todo o sentimento”

Depois de te perder

Te encontro com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantado

Ao lado teu

(Todo o sentimento – Cristóvão Bastos e Chico Buarque)

Encantado é uma boa palavra para definir o compositor Chico Buarque. Comecei o texto na hora em que anunciaram a passagem de som. Agora, noite alta, vejo a primeira matéria e o Uol informa que a apresentação do cara rola sob gritos da platéia: “Lindo! Lindo! Lindo!”. E fica aquela sensação de que o cara leva todas!

Fazer o que! Minha geração cresceu e amadureceu sabendo que cada namorada, amiga, mãe, parente e conhecida, todas elas, estão ali, doidinhas e prontinhas para uma entrega total e irrestrita ao compositor. Depois de cada show, elas voltam parcialmente satisfeitas, se é que me entendem… E resta-nos utilizar versos do próprio Chico para receber nossas queridas:

Se você crê em Deus

Encaminhe pros céus

Uma prece

E agradeça ao Senhor

Você tem o amor

Que merece.

(Sob Medida – Chico Buarque)

 

Até!

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Nota: As canções citadas acima estão no repertório do show.

O retorno de Reynaldo Gianecchini

Voltando aos palcos com a peça “Cruel”, ao lado de Maria Manoella e Erik Marmo, o ator Reynaldo Gianecchini sinaliza as possibilidades da ciência sobre uma doença avassaladora. O câncer ainda faz milhares de vítimas e somos, com freqüência, levados a uma sensação de derrota já no diagnóstico. A cura do ator é um sinal de esperança.

Foi em uma terça-feira; iríamos, Sonia Kavantan e eu, ver a peça “Cruel”. Mudamos o rumo, já que a apresentação havia sido suspensa. Soubemos depois os motivos. Como já tive a infelicidade de conviver de perto com situação similar, esperei o pior. Quando li as primeiras notícias sobre o restabelecimento fui apurar as informações e fiquei feliz. Toda e qualquer vitória sobre o câncer deve ser comemorada, alardeada. Por isso este texto.

Li bastante sobre essa doença e sei, por exemplo, que as pesquisas são isoladas. Que é comum um cientista que pesquisa o câncer em um determinado órgão, pouco saiba sobre a mesma doença em outra parte do corpo. Assim, sem uma troca consistente de informações, há a dificuldade nos processos de cura e ainda continua como grande incógnita o surgimento da doença. O câncer, quando aparece, é porque já existe e sendo diagnosticado a tempo, pode ser curado. Todavia, não há trabalho preventivo.

Penso que quanto mais se noticiar sobre a doença melhor. E um indivíduo famoso facilita o interesse da população sobre si, logo sobre a doença. Com maiores e melhores informações podemos percorrer um caminho diferenciado. Se há tratamentos possíveis podemos lutar para que sejam acessíveis a toda a população.

Gianecchini está de volta. A imprensa noticia mudanças de comportamento, de atitudes. Ninguém sai o mesmo após experiência desse tipo. A gente vai continuar observando, seguindo os passos do ator, torcendo para que ele fique plena e definitivamente curado. Portanto, vejamos as informações básicas sobre o retorno ao trabalho:

REYNALDO GIANECCHINI, MARIA MANOELLA e ERIK MARMO

Elias Andreato dirigiu, traduziu e adaptou “Creditors”, de August Strindberg: “Preferi Cruel ao título original, porque ele combina mais com a peça, com os personagens e com o autor, em relação à observação do cotidiano da alma humana”, informou o diretor.

A peça gira em torno de um triangulo onde Gustavo (Reynaldo Gianecchini) é o vetor da história. Adolfo (Erik Marmo) é um pintor inseguro, facilmente manipulado, mas sutilmente forte. Casado com Tekla, (Maria Manoella), uma bonita, sedutora e sagaz escritora, cai na armadilha do egocêntrico e cruel Gustavo, ex-marido de Tekla. 

No palco, mais do que ações e gestos, as mentes se enfrentam. A mais ardilosa vence a batalha. A mais ingênua perde a guerra, pois é considerada frágil e destrutível.  Com isso, é deflagrada uma corrente de forças, em que os personagens tentam ser vencedores de seus próprios conflitos. Cruel é, também, um xeque-mate a instituição do casamento.

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Serviço:  CRUEL

Teatro FAAP (400 lugares)

Rua Alagoas, 903 – Higienópolis.

Informações e Vendas: 3662.7233 e 3662.7234.

Segundas e Terças, às 21h. Ingressos: R$ 60 

De 13 de março a 15 de maio de 2012

Era pra ser assim

Se o final de semana fosse exclusivamente meu, seria:

Comemorar o aniversário daquele que é (quase!) irmão

Fazer parte da surpresa arranjada pelas filhas em festa para a amiga

Encontrar o viajante argentino que, antes de voltar, passa pelo Brasil.

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Tudo acontecido e pensaria ser capaz de conduzir a minha vida

Seria o feliz gerenciador da existência

Dono de mim, senhor do que me rodeia.

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Vem aquilo que a ocasião obriga-nos a chamar destino

Transforma, muda, obriga-me a faltar em tudo

E o mais, pois sim, teria mais, deixar para depois.

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A vida veio reiterar meus limites

E fez do final de semana o que bem quis.

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É madrugada, tento escrever e tudo parece vão

Nada importa, nada serve, nada é suficientemente bom

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Resta escrever a velha lição que teimamos em esquecer

Sobra-me assumir o que insistentemente tento ignorar:

Senhora de si, a vida faz e nos conduz para onde bem quer

E quando alguém morre (Mesmo se esse alguém sou eu!)

Nada acontece, exceto o fato inútil que é perceber o sino que badala na noite silenciosa.

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Até!

Um Oscar para a música do Brasil

Vou torcer descaradamente para que Carlinhos Brown e Sergio Mendes tragam o primeiro Oscar para nosso país. Será neste domingo e espero sinceramente comemorar esse momento. Os dois compositores, mais a letrista americana Siedah Garret criaram “Real in Rio”, a música principal do filme “Rio”, animação de Carlos Saldanha, e terão como única concorrente, a canção “Man or Muppet”, de “Os Muppets”, música e letra de Bret McKenzie.

Um verdadeiro e grandioso embate entre a tradicional música das Américas. De um lado, a canção norte-americana, com refrão fácil, daqueles que grudam na mente da gente, com notas que permitem interpretações suaves, com momentos acalorados; embora tudo muito melancólico o final é feliz: tipo o amor vence! De quebra, há a força dos bonecos que conhecemos desde há muito; acompanharam a infância de algumas gerações e retornaram, conquistando as atuais. No prêmio deste ano, as imagens terão sua força, alavancando preferências para as canções.

O Brasil é a América que não usa o próprio nome. Somos do sul e quase sempre não nos denominamos americanos. Há gente por aqui descendente de europeu; há os afro-brasileiros; os asiáticos – esses criaram expressões próprias identificando as diferentes gerações – e, há os índios. Todos se dizem brasileiros e penso que, diante da supremacia econômica e bélica norte-americana, no máximo, assumimos algo tipo o primo pobre, quando nos dizemos sul-americanos.

Deste lado de baixo, o sul, temos o sol, as cores, a natureza inigualável e uma alegria ímpar. Essas características são facilmente detectadas no samba-exaltação, a expressão correta para definir a música de Carlinhos Brown, Sérgio Mendes e Siedah Garret. O ritmo é contagiante, a melodia é vibrante, arrebatadora. “Real in Rio” é para, literalmente, fazer todo mundo dançar. Se não consegue que todos “tirem o pé do chão” faz, no mínimo, com que mexam dedos marcando compassadamente a canção.

Outros trunfos para “Rio”: a música, enquanto linguagem universal está mais próxima de se fazer entender por Raimundo e todo mundo. A letra, da americana, amplia o entendimento para os que não dominam nosso idioma, nossos hábitos. Ainda tem a presença de Will.i.am, dando um toque de rap, evidenciando as possibilidades de sempre do nosso samba: somar passado e presente com total eficácia.

Os dois brasileiros – Brown e Mendes – somam talentos e sintetizam a vocação internacional da música brasileira. Sergio Mendes estourou nos EUA em 1964 com a música “Mais que nada” de Jorge Ben Jor e por lá ficou. Gravou dezenas de discos e recebeu o Grammy de 1993 na categoria World Music.

Sergio Mendes e Carlinhos Brown

O carioca Sergio Mendes faz dupla com o baiano Carlinhos Brown. Conhecemos nacionalmente o músico desde “Meia lua inteira”, composição marcante do disco “Estrangeiro”, de Caetano Veloso. Depois nos habituamos com o percussionista extraordinário conduzindo o “Timbalada”, tornando-se referência brasileira para o mundo. Outro tanto, não menos importante, é o trabalho de Brown com Marisa Monte e Arnaldo Antunes; os “Tribalistas” fizeram a cabeça de milhões. O compositor não é novidade lá fora, tem uma carreira consistente no exterior e, especificamente nos EUA, fez o melhor momento musical, ele próprio cantando, em “Velocidade Máxima 2”.

Se o Brasil e o samba começaram na Bahia, nada melhor que um samba e um baiano recebam o Oscar, prêmio ainda inédito para o país. Consagrando a célebre mistura brasileira, baiano e carioca unem-se à americana e – tomara – conquistem o prêmio. Será uma justa lembrança aos grandes sambas de Ary Barroso, Dorival Caymmi que avançaram sobre os norte-americanos em desenhos de Walt Disney e na voz de Carmen Miranda. Será um belo exemplo de união de raças e povos distintos, via música, essa expressão humana que desconhece fronteiras. Esse momento merecia uma campanha maior. Os de lá fazem um enorme estardalhaço, tentando emplacar cada concorrente, nas diferentes categorias. Aqui, humildemente, faço o marketing da nossa canção. Vamos lá, com o trio de compositores, buscar o Oscar para “Rio”.

Bom final de semana!

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Mocidade Alegre é a campeã

Salve Jorge Amado! Parabéns, Mocidade Alegre

É fundamental não esquecer que carnaval é uma brincadeira. Perdendo esse caráter o carnaval torna-se algo, no mínimo, chato. Gostaria de refletir, começando por esclarecer que o concurso do Diário de São Paulo não tem nenhuma relação com o outro, promovido pela Liga Independente das Escolas de Samba. Na manhã de terça, muito antes da apuração do concurso oficial, o prêmio dado pelo jornal já apontava como campeã a Mocidade Alegre.

Sobre os fatos ocorridos na tarde dessa terça-feira, no Sambódromo, desejo que os culpados pela baderna e pela desordem sejam processados e que a justiça determine o que fazer com eles. Mas, acima de tudo, desejo que a Liga Independente das Escolas de Samba reveja seus métodos e critérios. E que cada sambista faça uma profunda e honesta reflexão sobre a própria postura dentro do carnaval.

Um aspecto: O que significa nota mínima oito? Todo estudante passa anos estudando para prestar um vestibular e nem por isso chega ao concurso com a nota mínima oito. Não seria justo que todo abnegado trabalhador brasileiro chegasse aos concursos municipais, estaduais ou federais com esse mesmo patamar? Oitenta por cento! Que psicólogos e estudiosos do ser humano esclareçam o que me parece ser incapacidade de submeter-se a julgamento público.

Como professor, verifico com frequência aquele comportamento paternalista que não aceita a nota baixa do filho, espelho e reflexo do próprio umbigo. Normalmente, o sambista – “pai” da comunidade – vem com o discurso de que o povo sofre e dá um duro danado para fazer o carnaval, que o esforço merece ser recompensado, como se as comunidades não entrassem no carnaval por vontade própria. Reconhecer esforço é uma coisa, dar nota para resultado insatisfatório é outra.

Há sempre alguém pronto para discutir a nota baixa, e nenhuma escola – até onde eu saiba – questionou algum dez recebido. Seria interessante ver alguém de dedo em riste, com toda a raiva do mundo, indagando: – Dê-me um motivo para esta nota dez, seu filho da mãe? A razão passa distante desses emocionados questionadores.

Muitas pessoas ficam irritadas quando contrariadas. Outras ficam violentas. A maioria é levada por uma emoção irracional. Todos nós temos justificativas para os próprios erros, mas nem por isso deixamos de sofrer as consequências das nossas ações, das nossas escolhas. Com uma ação coletiva – o trabalho de uma escola de samba – não é diferente. Vi todas as escolas e lamentei tudo o que me levou a excluir uma por uma. Com uma escola foi diferente. Justifiquei minha escolha, assinei e assim está publicado no Diário de São Paulo:

“A Mocidade Alegre apresentou um conjunto de alegorias que ilustram, complementam, esclarecem e enriquecem o enredo. O acabamento foi impecável e a utilização de materiais diversos transformou os carros em pequenas obras de arte. A coerência com o afro e a Bahia é o principal trunfo da escola, fazendo-a merecer o prêmio”.

A Mocidade Alegre avança para levar o campeonato

Meu afeto daria prêmios para as escolas onde amigos desfilaram. Adoro a Bela Vista, mas, sobretudo adoro o samba, adoro o carnaval, e reafirmando meu respeito e admiração por todas as agremiações que desfilaram no sambódromo, neste ano, as melhores alegorias estiveram na Mocidade Alegre. Junto com essas, toda uma série de outros fatores que me deram a certeza de ter tido o prazer de presenciar o desfile da melhor escola deste ano.

Mocidade Alegre, a melhor do carnaval de 2012!

Até mais.

O carnaval paulistano é animal

De pinguim a pelicano, tem quase de tudo no sambódromo. Tem animais fofinhos, tipo os ursinhos e também os mitológicos dragões. Vi muitas andorinhas, que os “teóricos” me matarão ao escrever isso, que é imagem sacra que lembra as festas do Divino Pai Eterno. Cobra, pavão, cavalo, boi… Eu não acho, tenho certeza que não vi um gatinho; nem mesmo o cachorro, reconhecido melhor amigo do homem. Há ferozes tigres e pássaros, muitos pássaros, para contrabalancear a festa.

Impressionaram os tigres da escola Império da Casa Verde; tinham movimento, mas não foram além do que já tenha sido mostrado no sambódromo. Gostei mais dos peixes da Pérola Negra. Embora “fora d’água”, mostraram o trabalho primoroso do artesão da escola.

Há imagens completamente inusitadas. Isso é bom, surpreende. Quando os ratinhos de laboratório, engaiolados, passaram por nós, fiquei admirando a ousadia do carnavalesco e o incrível domínio técnico do artesão que esculpe com precisão todo tipo de pássaro, mamíferos e outros animais, tornados mitológicos, como o cavalo de São Jorge matando o dragão; esta foi uma das melhores esculturas que passaram no sambódromo neste ano; a casinha, no topo do carro, identifica o Império da Casa Verde.

Uma escola deu um show à parte: a Águia de Ouro surpreendeu e consegui, não com a qualidade que gostaria, montar uma “fotonovela” com o show que a escola nos proporcionou na avenida:

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O sambódromo é um local onde o público paga o ingresso inteiro e vê o show pela metade, já que as escolas fazem uma coisa em cada setor da avenida. Nós, que estávamos no começo, vimos quando a águia raptou o integrante da passarela. O que a ave fez com o cidadão, saberemos depois, em casa, rezando para que a televisão mostre alguma coisa; se é que irão reprisar as apresentações das escolas de samba paulistanas.

Finalmente, terminando o “mundo animal do carnaval 2012”, o carro alegórico sobre o dorso da tartaruga; ou seria cágado? Brincadeiras à parte, a Mocidade Alegre fez um grande carnaval neste ano. Uma apresentação digna da obra e do homenageado Jorge Amado e, por isso, minhas homenagens aos integrantes da escola.

É ou não é animal o nosso delicioso carnaval paulistano?

Boa terça para todos!

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