Gente que trabalha… no carnaval

A festa é linda, emocionante. Vamos agradecer e lembrar algumas categorias de profissionais fundamentais para que todos sejamos felizes:

O pessoal que chega primeiro, limpando, pintando, iluminando. Há o pessoal da segurança, técnicos, câmeras, que fazem tudo direitinho para que tenhamos uma festa legal.

Os integrantes de cada escola que somam forças, em verde, branco, preto, amarelo, azul, em todas as cores, com um despojamento invejável e com a alegria de levar a beleza da própria escola para que todos vejam.

Muita força física, muita atenção, muito esforço mental, de pessoas apaixonadas pelo samba, pela escola…

…como esse cidadão, que não mede esforço físico ao longo de toda a passarela do samba. Um esforço extraordinário, uma entrega sem limites. Como será o nome desse incrível integrante da Vai-Vai

sambódromo, carnaval, 2012

Há os cinegrafistas, os excelentes fotógrafos que levam seus equipamentos complexos . Sobretudo, esses profissionais nos propiciam ótimas imagens. A moça aí parecia menor que a máquina, e subia em tudo quanto é grade buscando o melhor momento, o melhor ângulo. As fotos deste post foram feitas por mim, que não sou fotógrafo e que não tenho uma “maquinona desse tamanhão”!

Finalmente, pedindo desculpas aos cozinheiros, garçons, recepcionistas, porteiros, todo um monte de profissionais que não consegui fotografar, concluo lembrando o pessoal que será esquecido pelas melhores notas (O júri, acima em momento relax, com o cantor e ator Tiago Abravanel) e lembrados pelos décimos que impedirão uma agremiação de ganhar um campeonato…

e deixo registrado aqui meu agradecimento carinhoso para Priscila Cirino, que me possibilitou este trabalho delicioso.

Até!

“E se de repente” a gente fosse brincar?

O melhor carnaval é a festa do “e se de repente”.  Sim, em algum momento, num “repente”, o indivíduo resolve ser rei, ou sapo, banana, ou sabe-se lá até onde vai a piração humana. Lá em Uberaba, como em tantas outras cidades do Brasil, um monte de marmanjos resolvem brincar de ser mulher. A fantasia é a mais barata já que basta emprestar roupas de mães, namoradas, irmãs ou amigas e, vestindo toda a composição, exagerar na dose, caricaturar. A diversão é garantida, desde que o mundo é mundo. Todo mundo gosta.

São Luiz do Paraitinga, marchinhas em ambiente aconchegante.

“E se de repente” a gente acordasse a cidade, fizesse com que ela voltasse aos tempos de sempre, alegre e vibrante? E é assim que vejo o carnaval de Olinda, com suas orquestras de frevo, ou as tardes de São Luiz do Paraitinga com suas marchinhas eternizando as ruas da velha cidade. Aliás, as velhas cidades são propícias para o carnaval, pois suas ruelas estreitas convidam ao aconchego. Até os discretos mineiros tornam Ouro Preto barulhenta. É carnaval!

Toda brincadeira, por mais simples, supõe regras. Em Veneza, a regra é usar máscaras.  Em Santos, São Paulo, há décadas passadas, uma regra era a fantasia de papel, para fazê-la desmanchar-se no mar, destino de todos os foliões daquela festa. Há regras licenciosas, tipo “ninguém é de ninguém”, com muitos beijos e, hoje em dia, pouco arrependimento. Há regras comerciais, tipo “só brinca dentro da corda quem tem abada”. Todavia, é carnaval, e o brasileiro inventou a pipoca, para burlar o dono da grana e brincar ao som das baianas maravilhosas e seus caminhões sonoros iluminados.

“E se de repente” a gente levasse o carnaval a sério. Foi assim, penso eu, que surgiram as escolas de samba. Não há brincadeira mais séria do que brincar de ser sambista. Carnavalesco pode fazer as loucuras que quiser desde que mantenha a Comissão de frente, a ala das baianas, o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e outras coisas mais. Para que tudo ficasse o mais certinho possível, criaram os tais sambódromos, onde tudo foi projetado e pensado para brincar seriamente o carnaval.

As máscaras: mistério e romance em Veneza

Tem gente que não gosta. Respeito, mas confesso que tenho dificuldade em entender. Fico pensando: como é que esse sujeito brinca de “faz de conta”? Será que ele não se encanta com a elegância e leveza da porta-bandeira? Não se apaixona pela malemolência da passista? Pelo menos não marca o ritmo com a bateria? E quando Ivete pede “tira o pé no chão”, o cara fica plantado, tipo “to esperando  a condução”? Confesso, tenho dificuldade em entender.

Já quis ser pierrô, mestre-sala, cantor de marchinhas. Gostei, uma vez, de vestir-me de frade franciscano. Fiz das tripas coração para equilibrar um imenso papagaio no ombro, brincando de ser o Santo de Assis. De todos os carnavais, nada supera uma ação pós-baile, na minha juventude: dia seguinte, voltamos ao salão, sujo de tudo quanto é coisa mais montanhas de confetes e serpentinas, para procurar… Uma lente de contato! Tenho testemunhas! ENCONTRAMOS.

“E se de repente” eu me tornasse um mega-star? Aprendi essa com Mafalda Pequenino, uma atriz adorável e querida amiga. Foi ela quem me disse: – “O sambódromo é a minha maior platéia! Todos vão ali pra me ver. E é assim que entro na passarela! Olhem-me, estou aqui, cantando e dançando pra vocês!” Já experimentei a brincadeira. É bom demais. Faço de conta que sou o máximo e entro na onda. Parece que todo mundo me aplaude. Sou o maior destaque da escola.

Finalmente, há também aquela situação: “E se de repente” os planos fossem outros? O carnaval é legal porque preparamos o inesperado para surpreender o outro. A vida é legal porque nos coloca o inesperado. Senhores, não mais serei abacaxi neste carnaval; de repente, os planos mudaram e  parafraseando Chico Buarque,  vou “na galeria” assistindo tudo “na mais fina companhia”.  Com muita honra estarei entre os jurados do jornal Diário de São Paulo, para escolher os melhores do carnaval paulistano que receberão o Troféu Nota 10.

E se de repente… Boa diversão para todos!

Jorge Amado ou Luiz Gonzaga?

Imaginem Jorge Amado e Luiz Gonzaga no sambódromo carioca. Junto com eles um imenso show de morenas vindas das praias de Salvador, ou dos belos recantos de Ilhéus, embaladas na avenida pela lembrança do baião pernambucano, misturando forró e samba. Eita! Pernambuco e Bahia, romance e forró! Grandes demais para virem juntos, Jorge Amado e Luiz Gonzaga serão homenageados pelos sambistas cariocas, em escolas distintas.

Luiz Gonzaga nasceu em Exu, Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912. Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 10 de agosto de 1912. Este será um ano de grandes festas e homenagens no centenário desses dois homens, que são motivo de orgulho para todos nós. A escola de samba Unidos da Tijuca virá com “O dia em que toda a realeza desembarcou na avenida para coroar o rei Luiz do Sertão”. Já a Imperatriz Leopoldinense apresentará o enredo “Jorge, Amado Jorge”. Páreo duro para qualquer coração. Como escolher?

Quando criança, muito criança, mamãe cantava enquanto cuidava de mim:

Tava na peneira, eu tava peneirando

Eu tava no namoro, eu tava namorando… 

Lá nos rincões de Minas fui embalado com canções de Luiz Gonzaga. Depois, já adolescente, a literatura entrou definitivamente em minha vida com “Os Capitães da Areia”. Fiquei, desde então, apaixonado pela Bahia, com seus orixás poderosos e sua gente morena. Através da literatura de Jorge Amado sonhei ser escritor.

No próximo desfile das escolas de samba teremos a história desses dois ídolos contadas pelo carnaval do Rio de Janeiro.  Os compositores do samba da Unidos da Tijuca são: Vadinho, Josemar Manfredine, Jorge Callado e Silas Augusto. Certamente terão o samba de enredo comparado com as inesquecíveis criações de Luiz Gonzaga. Já os compositores da Imperatriz Leopoldinense, Jeferson Lima, Ribamar, Alexandre D’Mendes, Cristovão Luiz e Tuninho Professor serão julgados pela capacidade em sintetizar a magia de Jorge Amado nos versos do samba da escola. Um páreo duro, difícil.

O pavilhão da Unidos da Tijuca

O samba, a bateria, as alegorias, as baianas, as passistas; muitos e variados elementos para narrar a trajetória vitoriosa de Jorge Amado e Luiz Gonzaga. Provavelmente serão décimos que decidirão a escola vencedora. E se a dificuldade fosse escolher apenas entre Jorge Amado e Luiz Gonzaga… O carnaval carioca ainda terá Portinari, pela Mocidade Independente de Padre Miguel, e Romero Brito será lembrado pelo G.R.E.S. Renascer de Jacarepaguá, só para ficar nas personalidades que serão homenageadas pelas escolas. Tem mais, muito mais… Vamos torcer para que este seja um grande e inesquecível carnaval.

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Até!

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Anita, na lembrança da “Semana de 1922”

Anita Malfatti, detalhe do autorretrato

Quero reverenciar Anita Malfatti pela Semana de Arte Moderna de 1922. Estamos comemorando os 90 anos desse evento que, definitivamente, mudou os rumos da arte brasileira. E é provável que sem Anita Malfatti, a Semana não teria acontecido.

No ano de 1922 seria a comemoração dos cem anos da independência política do Brasil. Parece não ter sido por acaso a escolha daquele momento para iniciar um grande movimento, destinado a inserir no país elementos da arte contemporânea. Pretendendo fugir à influência da Missão Francesa – que aparece aqui e ali ainda hoje – um grupo de artistas realizou, entre 13 e 17 de fevereiro, a Semana de Arte Moderna, que aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo. Portanto, ESTAMOS EM PLENO ANIVERSÁRIO DA SEMANA DE 1922!

Segundo Duílio Battistoni Filho, “a Semana foi um festival dadaísta, no estilo dos organizados em Paris “(Então, eles não queriam fugir da influência francesa?). Com influência francesa ou não, com alguns artistas que estudaram na Europa e outros não, a idéia geral era dar uma identidade para a arte brasileira. Surtos nacionalistas sempre ocorrem por aqui.

Há muitos livros e textos sobre a Semana de 1922. Todos falam de Di Cavalcanti, Zina Aita, Victor Brecheret, Yan de Almeida Prado e entre outros, claro, Anita Malfatti. Além desses, escreve-se muito sobre os antecedentes, principalmente sobre uma exposição de Anita, duramente criticada por Monteiro Lobato e defendida com veemência similar por Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Di Cavalcanti. E é aqui que este texto deixa de ser lembrete histórico para homenagear Anita Malfatti.

Se até hoje encontramos mulheres submissas, em 1917 deve ter sido bem pior. Mas, Anita Malfatti parece ter sido diferente. Costumam dizer que era uma mulher feia e que tinha um defeito no braço. Todavia, essas questões não a impediram de aceitar realizar uma exposição, em 1917, com trabalhos inovadores, ousados, distantes do comum e do tradicional. Também costumam descrevê-la como tímida. Pode ser, mas que era determinada, isso era.

“Paranóia ou Mistificação” foi o que Monteiro Lobato sugeriu já no título de sua crítica a exposição de Anita Malfatti. Relatam que a pintora ficou profundamente abatida. É bom frisar que a atitude de Monteiro Lobato foi a de um crítico discordando com o que via. Ele nem foi original na sua agressividade, por assim dizer;  anos antes, em 1913, também o compositor Igor Stravinsky foi execrado em Paris. Ele na música, Anita na pintura, continuaram com a firme determinação de expressarem-se artisticamente.

Na Semana de 1992 Anita estava lá. No saguão do Teatro Municipal de São Paulo, em 1922, Anita Malfatti apresentou doze telas a óleo, além de outros trabalhos, entre gravuras e desenhos. Muitos desses já haviam sido expostos em 1917. Mais que uma repetição, essa atitude revela uma crença no próprio trabalho; o firme propósito em impor-se e nortear o público para um novo panorama artístico, que, por aqui, foi chamado Modernismo. Consta que as críticas continuaram e também na Semana a artista não foi poupada. Naqueles dias, a pintora já se sabia visada; eram papagaios repetindo Lobato.

Encerrada a Semana, muita coisa mudou. Anita Malfatti passou a dividir com Tarsila do Amaral as atenções de críticos e admiradores. E muito pode ser dito e escrito sobre o que aconteceu depois. Todavia, grandes momentos têm um começo. É difícil dizer no que resultaria a arte brasileira sem a exposição de Anita Malfatti, em 1917. Ela não só mudou, mas acelerou os processos de mudança em nosso país. Por isso, ela merece uma homenagem especial. Salve Anita! Salve Anita Malfatti!

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Boa semana!

Abacaxis e bananas! Porque é carnaval

Santo Deus! Vou me tornar um abacaxi! sexta-feira, cinco da manhã, entrarei no sambódromo paulistano, todinho de abacaxi!

Nas vésperas de me tornar um senhor abacaxi, vem à memória uns versos de música da Rita Lee:

Pois as pernas que um dia abalaram Paris

Hoje são dois abacaxis… 

Pois bem, minhas pernas não abalaram ninguém e sempre fui do grupo denominado “perna de pau”, aquele que não joga nada de futebol. E agora, não só as pernas, todo eu serei um abacaxi.

Vamos ao como tudo começou!

O lero-lero: To cansado, o ano mal começando e já estou querendo pendurar as chuteiras. Não agüento mais, a mega-sena não vem, blá, blá, blá…

O carnaval: to cansado; assim mesmo, gostaria de ir pro sambódromo, ninguém quer sair na escola comigo, preciso me enturmar com gente que curte; poxa, nem comprei ingressos ainda; deixa pro ano que vem, blá, blá, blá…

Quarta-feira chega a menina: – Professor, o senhor quer desfilar no carnaval? E eu que sou um cara ocupadíssimo, com mil compromissos, que precisa ponderar e pensar muito para tomar uma decisão, respondo: – Aceito! E, ainda ocupadíssimo, pedi desculpas: amanhã nos falamos! E fui para a sala de aula.

Tamborim batucando não sai da cabeça, vem a lembrança do bumbo marcando feito batida de coração, e o corpo começa a querer mexer, os pés já ameaçam sair no compasso do samba. Vou sair na Sociedade Rosas de Ouro!

O vento sopra magia

Vem viajar na imaginação

Era uma vez, um reino abençoado

Onde imperava a igualdade

Justiça e liberdade…

“Caraca – pensei – desse reino vou ser um nobre!” Nos meus delírios que começaram logo após ter nascido,  se é pra ser da nobreza, meu lance é ser duque. Nem rei, nem príncipe e, marquês só o nome da avenida onde está o meu outro local de trabalho. Meu lance é ser duque. E ser anunciado com pompa e circunstância: – Senhores, está presente no recinto, o ilustríssimo Valdo Resende, Duque de Uberaba!

A maionese acaba, o delírio passa e volto a ser “minerim, que tá bom demais, sô!”. Acontece, que a Rosas de Ouro “no ano do seu aniversário de 40 anos, se inspira na história da Hungria, uma lendária terra de reis, guerreiros e justos para contar a saga de bravos homens que acreditaram em seus sonhos…”

O autor de enredo, Darlan Carneiro e o carnavalesco Jorge Freitas, mandaram bem na sinopse: “Contaremos a saga de um fictício Rei húngaro (Janos ) que viu seu reino ser invadido pelas forças do mal, obrigando-o a partir e a deixar para trás o solo que por justiça era seu, o solo sagrado de seus ancestrais. Em busca de uma nova terra onde pudessem viver seu sonho de justiça e paz, chegam ao Brasil, esta pátria mãe gentil, que lhes acolhe e oferece um pedaço deste chão.”

Baixou aqui no “minerim” a personagem de Guimarães Rosa e repeti a famosa frase de Augusto Matraga; “- Todo homem tem sua hora e sua vez, a minha há de chegar.” E a minha vez de ser nobre chegou!

É mais que um caso de amor

Rosas de Ouro, razão do meu viver!

Trazendo a Hungria no coração

E o sonho de ser campeão! 

Voltei dia seguinte na faculdade para saber um pouco mais. Tentando abrir brechas na agenda para ensaios na quadra, ensaio no sambódromo, sonhando com a nobreza mineira defendendo a “Roseira”. Vi todos os detalhes do enredo, em homenagem ao povo húngaro na figura de seu representante mais famoso no Brasil, Roberto Justus. E com o pensamento elevado na mais alta aristocracia européia fui ao encontro de Lucielen, ansioso, perguntando de cara: – E então, em qual ala vamos desfilar? Qual é a minha fantasia?

– Abacaxi!

Tive uma idéia do que foi a guilhotina para a nobreza francesa.

– Abacaxi?

– Abacaxi, ela confirmou.

Comecei a rir e – lógico – que um ser delirante, olhando o site, não tinha prestado atenção na fantasia de abacaxi! Fiquei imaginando, lembrando de carnavais anteriores e antecipadamente, já estou muito feliz. Vou brincar na avenida; vou sambar e cantar com todo o povo da Rosas de Ouro:

…Vou coroar essa conquista

Honrando as cores do meu pavilhão 

É mais que um caso de amor

Rosas de Ouro, razão do meu viver!

Trazendo a Hungria no coração

E o sonho de ser campeão!

Acordo após mais uma noite de calor infernal, feliz em ser um abacaxi na avenida e, ao abrir o Facebook , dou de cara com uma foto do meu querido Fernando Brengel vestido de banana. O distinto sairá na Ala das Bananas da Pérola Negra. Outras risadas e uma primeira conclusão sobre o carnaval 2012. Neste ano, vai dar fruta na avenida!

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Bom final de semana!

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Fundamental: O enredo da escola é “O Reino de Justus”. Os compositores do samba de enredo, dos versos citados acima, são: Léo do Cavaco, Rogério Morgado, Leonardo Lima, Eric Lisboa, Luciano Godoi e Cleverson Japa. Fico feliz e honrado em poder defender as cores da Rosas de Ouro neste carnaval. Meu especial agradecimento para Lucielen, pelo convite.

Desenredo

A vida é o fio do tempo

No momento em que aguardamos a grande festa, quando enredos e mais enredos estão sendo sonhados, chega o inesperado, o incerto, o incômodo. O mundo ameaçado em desenredo. Edifícios caem, a polícia baiana em greve, o cantor está morto…

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso… 

Era pra ser volta às aulas, carnaval. Motivos para alegria, contentamento. E para ficar bem claro que o mundo não é aquele visto pelo “jogo do contente”, de Pollyana, que se somam outras mazelas como a greve dos bombeiros no Rio de Janeiro, a Argentina volta a reivindicar as Malvinas, que ingleses teimam em chamar Falklands e, para garantir a soberania, chamam a atenção da imprensa enviando para as ilhas geladas um príncipe desocupado.

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo… 

Quando bem criança, pensava nas soluções de tudo a partir do poder de meus pais. Lá, em Minas, um desenredo desceu pesado sobre minha adolescência e, praticamente, não tive escolha:

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe… 

Como matuto, creia no que escrevo: – To triste não! To ensimesmado. Triste pela morte e pelo enterro para mais tarde. Apreensivo com o carnaval dos baianos, dos cariocas e, empoleirado neste apartamento, sem vocação para ave, teimo em recear – mesmo que de bobeira – que essa coisa caia sobre minha cabeça. Já pensou? Eu, perdido em escombros feito a enfermeira lá em São Bernardo do Campo?

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo… 

Agora que não tem Minas pra voltar – Tenho Minas dentro de mim! – resta outro desenredo para o enredo turvo desses dias. E é com os versos de desenredo da canção de Dory Caymmi e Paulo César Pinheiro que me defendo de tanta coisa ruim. Sim, tem muita coisa incomodando, muita coisa ruim…

Mas quando eu chego
Eu me enredo
Nas tranças do teu desejo 

Sei que não consigo solucionar o mundo; tramas e tramóias estão muito além de minha parca compreensão. Sou só um simples mineiro perplexo nesse mundão de labirintos de interesses, de motivos turvos.

Mas quando eu chego
Eu me perco 
Nas tramas do teu segredo 

Se a sorte desanda com calor acima, frio abaixo, com greves, mortes, desabamentos impensáveis, resta a vontade de amar o mundo, de solucionar a vida. Tudo fica simples, tudo é fácil, e penso sempre que a humanidade seria outra se todos os  indivíduos pudessem cantarolar assim:

Mas quando eu chego
Eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo 

Se você chegou até aqui, ouça a canção. O nome é esse mesmo, Desenredo. O Edu Lobo canta; o Boca Livre também. Preferi o registro feito pela Nana Caymmi. Ouçam! Essa canção sempre me lembra que os problemas passam e se verdadeiramente amo – algo ou alguém – a vida está garantida. É um amor, ou uma vida assim, que sonho pra todo mundo.

Ê, Minas

Ê, Minas
É hora de partir 
Eu vou
Vou-me embora…

Para Wando

Com uma notícia  assim, posso afirmar que o dia não começou bem: “O cantor Wando morreu nesta quarta-feira, aos 66 anos, em decorrência de infarto seguido de uma parada cardíaca, confirmou a assessoria do hospital Biocor. Ele estava internado desde o dia 27 de janeiro no hospital Biocor, em Nova Lima (MG)”.

Escrevi uma história, publicada originalmente no Papolog. Uma ficção para justificar o hábito de fãs em jogar calcinhas para o cantor e compositor. Republico abaixo a história. Uma sincera homenagem ao mineiro Wando. 

CALCINHAS PARA WANDO 

Quem já deu uma olhada nos comentários desses posts conhece Meri Aparecida, irmã da Maria Aparecida, a moça dos croquetes. É, a família é assim: Maria, Meri e o irmão, Mário Aparecido. Os pais, mineiros devotos, atendem por Marta e Mauro e continuaram a sina dos “Ms”; hoje vivem amuados, pois reservaram Márcia Aparecida, Mauro Aparecido e outros “Ms Aparecidos” para os netos, mas os filhos continuam sem dar-lhes a sonhada continuidade familiar.

Meri vive sob tranqüilizantes, trabalhando em Uberaba, de onde sai apenas para assistir aos shows do WANDO. Trabalha continuamente, nos horários de folga, realizando uma tarefa que considera sagrada. –“É tudo para o meu grande amor” revela, entre uma peça e outra.

“Um amor quando se vai, deixa a marca da paixão feito cio de uma loba

Feito uivo de um cão, é feitiço que não sai, dilacera o coração

É um nó que não desmancha, é viver sem ter razão

Chora, coração, chora coração, passarinho na gaiola, feito gente na prisão.”

Vanilda sempre diz: – “A Meri não tinha estrutura pra nos acompanhar, “tadinha”; surtou! Fica lá, no meio de todas aquelas calcinhas.” Então; Meri cria calcinhas constantemente. Calcinhas de lantejoulas, de seda, de tricô, de jeans; calcinhas minúsculas como biquíni, grandes, calçolas que mais parecem ceroulas. Termina de fazer e já corre pro tanque. Lava, seca, perfuma e guarda, em uma arca que mandou fazer, com o formato de um grande coração.

Moça, eu sei que já não é pura,

teu passado é tão forte

pode até machucar

Moça, dobre as mangas do tempo

Jogue o teu sentimento

Todo em minhas mãos

Meri, Vanilda e Maria costumavam sair juntas, em São Paulo; iam a shows, teatro, festas juvenis. Separaram-se para fazer Universidade. Vanilda e Maria Aparecida foram para Assis, no interior do estado e Meri foi fazer corte e costura, em famosa escola de freiras, aqui de Sampa. Foi durante esse curso que Meri tomou-se de amores por WANDO, o mineiro de Cajuri.

Em férias ou feriados prolongados as três voltavam a sair e Vanilda, já começara a curtir uma vodka, enquanto Maria Aparecida passou a consumir rabo de galo e Meri, água pura. É bom frisar que as duas primeiras nunca foram alcoólatras. Chegadas em um copo! Ser bêbado é outra coisa. Mas as duas contam que notaram, desde uma primeira vez: quando Meri, por delicadeza, tomava um gole de qualquer bebida alcoólica, entrava em delírios, imaginando-se com WANDO.

Eu te quero assim,

fazendo uma cama

Na nossa banheira

Fazendo por cima

De lado, ou de beira

Pedindo me espere

Que eu quero mais…

Quando nesse estado, Meri agarrava o rapaz mais próximo; WANDO foi… vários: um alemão parrudo e gay, que fugiu assustado com as investidas de Meri; um cearense que perseguiu-a por semanas, peixeira às vistas, inconformado por ter sido deixado de lado quando o delírio de Meri passou e mais; um japonês, um garçom gago, que imitava FRANK SINATRA, e, é claro, o barman, entre muitos outros.

Não tinha jeito. A noite começava serena e calma, até que Meri, longe da vigilância das amigas, aceitava o gole de muitos que, interessados nos belos seios da moça, ofereciam bebida na esperança que, no surto, ela caísse nos braços do dono do copo. Era Meri beber e o WANDO baixar. Pra acelerar, muitas vezes, o próprio interessado em Meri cantarolava:

Deixa eu te amar

Faz de conta que sou o primeiro

Na beleza desse teu olhar

Eu quero estar o tempo inteiro…

Até que um dia Meri foi assistir seu ídolo, em uma grande casa de shows de São Paulo. Foram dias intensos de preparativos. Meri sonhava o tempo todo em ver seu ídolo de perto. As outras duas, Vanilda e Maria Aparecida, foram juntas, mais para impedir Meri de beber o primeiro gole que, propriamente, interessadas no show.

Chegado o grande dia, as três, produzidas e entusiasmadas, felizes por terem conseguido lugares bem em frente ao palco. O show corria tranqüilo, com o romantismo de WANDO derramando-se pela platéia. Maria Aparecida tinha conseguido entrar no recinto com uma bandeja de croquetes para presentear o cantor e compositor. Meri, só permitiu tal ato após Maria prometer que diria ter sido Meri a fazer o mimo para o ídolo. Em um dado momento, WANDO cantou:

Vem cá gostosa, sensual e saborosa

Delicada, carinhosa, vem que eu sei o que fazer

Não me provoque com seu jeito de fogosa

Que eu me encaixo nessas coxas, faço tudo com você

Levante a saia e me guarde bem de baixo

Vem por cima, vem por baixo, que eu te dou o meu querer

Maria Aparecida, que passara todo o tempo enxugando os copos próximos de Meri, para evitar que esta surtasse, estava pra lá de bêbada. Não pensou duas vezes ao ouvir WANDO chamando ( – Era a mim que ele chamava! Juro, Vavá!); levantou a saia, tirou a calcinha e jogou sobre o palco. Ato contínuo, dezenas de outras calcinhas foram atiradas sobre o cantor.

Foi Vanilda quem notou o desespero de Meri. Esta tinha ido ao show de “fusô” justíssimo, de malha vermelha e, para evitar marcas, estava sem calcinha. Todo o final da música e depois, durante o resto do show, ocorreu uma luta entre Vanilda e Meri, a primeira impedindo que a outra tirasse e jogasse o “fuso” sobre o palco. WANDO continuou:

Senhorita, senhorita

Meu amor, minha razão

Minha honra, meu orgulho

Tens agora em tuas mãos…

Maria Aparecida debruçada sobre o palco, Meri insistindo em tirar o “fuso” e Vanilda tentando impedí-la. As duas acabaram se atracando, puxões de cabelo, beliscões, chutes, gritos, muitos gritos e Vanilda, todo mundo sabe, liberou seu vocabulário de palavrões, palavrões, palavrões… Não deu outra; as duas foram tiradas do recinto, pelos seguranças, enquanto Meri gritava: – “Me larga! Eu quero dar pra ele! Eu quero dar pra ele!”

Final do show. Vanilda, segurando Meri na porta do local, querendo dar umas bifas em Maria Aparecida, que fingiu não conhecer as duas, quando essas se atracaram e ainda foi, ao final do show, tentar entregar seus croquetes para WANDO. Meri, chorando desesperada, só fazia cantar a música de seu ídolo.

Vê, coração bandido

O que fez comigo

Você maltratou

Acreditei, eu ouvi promessas…

Meri nunca mais foi a mesma. Ficou meses sem falar com as outras duas. Com Maria Aparecida, por sentir-se traída, quando a irmã jogou a peça íntima para o “seu amor”; com Vanilda, pelas razões óbvias. Voltando para casa pegou uma tesoura e cortou o “fuso” em pedaços e, desses, fez suas primeiras calcinhas para WANDO. Jurou, sob lágrimas, que jamais ficaria sem calcinhas para jogar sobre seu ídolo. Costurava e cantarolava…

Você é luz

É raio estrela e luar

Manhã de sol

Meu iaiá, meu ioiô…

É assim, desde então. Refugiada em Uberaba, onde trabalha como fotógrafa especializada em imagens de gado zebu. Em todas as horas de folga tece, corta, monta e guarda as calcinhas na arca em forma de coração. Quando acontece show de WANDO, em qualquer parte do Brasil, de carro, ônibus ou avião, Meri parte, calcinhas na bagagem, para serem jogadas sobre seu ídolo. Terminado o show, ela volta para fazer outras, sempre com a esperança de um dia WANDO tirar a que estiver usando.

Ela só liberou a história, na esperança de que o artista, conhecendo o caso, atenda seus desejos. O que é que eu não faço pelas minhas amigas?

Até!

Notas musicais:

Chora coração (1985), Moça (1975), Safada (1996), Deixa eu te amar (1997), Gostosa (1997), Senhorita, Senhorita (1977), Vê, Coração bandido (1976) Fogo e Paixão (1985), todas do repertório de WANDO.

Publicado originalmente em blog, no Papolog.