Música e shopping center

Black Eyed Peas, garantia de qualidade para grandes eventos.

Quando escrevi sobre o Rock in Rio, abordei alguns aspectos que valem basicamente para o próximo grande evento, o SWU. Este festival ocorre em Paulínia, no interior de São Paulo, nos dias 12, 13 e 14 próximos. Há dois textos sobre este evento, edição do ano passado, escritos pelo Flavio Monteiro. O primeiro – O que de bom reserva o SWU –  e o segundo – SWU ou Woodstock Fail – após a ida de Flávio ao evento. Seria importante relembrar as questões abordadas pelo blogueiro que, também, é músico. É clicar nos links para ir direto ao ponto.

Espero que os problemas abordados nos textos indicados acima tenham sido, no mínimo, parcialmente sanados. Comparações entre o que se promete agora e o que ocorreu no ano passado indicam que há muito por ser resolvido. Pretendo, neste post sugerido por Samuel Carvalho (Grato!), uma pequena contribuição para uma reflexão sobre esses grandes eventos, com múltiplas atrações, apelos distintos e simultâneos como os dois festivais citados e, um terceiro exemplo, a Virada Cultural que ocorre anualmente em São Paulo.

O pretexto para justificar socialmente o SWU é a tal da sustentabilidade. O Rock in Rio teve como projeto de responsabilidade social o tema “Por um mundo melhor”. Os dois eventos citam instituições filantrópicas beneficiadas. O objetivo primário da Virada Cultural seria revitalizar o centro da capital paulistana. E é assim, cheios de objetivos “saudáveis” que múltiplos eventos são oferecidos em poucos dias. É aqui que entra a “Música em shopping center”.

Sempre que vejo vários palcos e várias atrações simultâneas, sinto-me em um desnecessário shopping. Neste local de comércio costumamos ir por algum interesse específico. Chegando lá, as construções são labirínticas; as placas de sinalização indicam o caminho mais longo, para que possamos passar pelo maior número possível de corredores. Há as lanchonetes de sempre, as grandes lojas de todos os shoppings. Quando muito, o diferencial costuma ser o preço. É sempre tudo muito igual.

Nos grandes eventos musicais temos “marcas” famosas, também sempre presentes. Elas dão credibilidade, estabelecem um nível de consumo, determinam a “classe” do público. Há shows de abertura que lembram quiosques que vendem produtos acessíveis, ordinários, logo na entrada dos estabelecimentos. Há outro tipo de show, que lembra uma vitrine maravilhosa, com seus manequins ocos e fabricados em escala industrial. E se o shopping abre todas as suas lojas simultaneamente, o mesmo acontece em festivais com seus vários palcos e demais atrações. O interesse geral é seduzir.

Acostumados à cultura da grande e variada loja, o público gosta. Tanto é que esses eventos são freqüentados por milhares. Só que acabamos vendo o que não queremos, somos seduzidos por ofertas duvidosas e se há muita gente que compra por impulso, os festivais e similares levam-nos a acreditar que certos indivíduos são ídolos, ou artistas. Afinal, estão no importante evento e ocupam um palco destacado.

Sobre os festivais, iniciativa privada, resta refletir sobre a idoneidade de intenções e, quando pertinente, cobrar resultados compatíveis com as vendas de ingressos e demais fontes de renda. Já em um evento como a Virada Cultural, feito com dinheiro público, resta o dever de cobrar dos nossos dirigentes uma política de ação contínua. No caso, para a revitalização do centro antigo da cidade.

Neste ano, a organização informa que foram 952 atrações apresentadas em 93 locais e 121 espaços. Ou seja, centenas de shows durante as 24 horas da Virada só faz com que as pessoas caminhem pelas velhas ruas como se… Estivessem em um shopping. Com a diferença que neste shopping só voltarão no ano seguinte. E não é necessário ser economista pra deduzir que uma noite não levanta a economia de uma região. O sucesso da Virada agrada aos dirigentes políticos; tanto é que a levaram para toda a cidade (a revitalização do centro concorre com a revitalização dos bairros?) além de edições no interior e no litoral do estado.

Mais para frente, devidamente distanciados, veremos essa fase da história da música popular, e de suas variadas vertentes como a era dos grandes eventos. Começaram com idealismo nos anos de 1960, foram responsáveis por grandes campanhas altruísticas nas décadas seguintes e que, durante certo período – que é o que vivemos – foram transformados em poderosas máquinas de levantar dinheiro. O final desse período ainda está por acontecer.

Tueris, um romance em pedaços

Com essa expressão, “um romance em pedaços”, OCTAVIO CARIELLO começou a postar o romance “tueris” na íntegra, em seu blog. Abaixo,  os links para os primeiros capítulos, com algumas idéias que escolhi para que se tenha uma idéia do conteúdo. Os 10 primeiros já estão publicados. Fica aqui meu convite para que visitem o blog e leiam o romance.

I · balé de balas

A mancha de sangue em seu peito se espalhou com a ajuda do aguaceiro inclemente e um pequeno rio vermelho se juntou à enxurrada que não se decidia se incrustava na neve ou fluía morro abaixo.

II · le livre est sur la table

A história do edifício começa no Velho Mundo, em Paris, a cidade da torre Eiffel, do Arco do Triunfo, das tuilerias, da igreja de Notre Dame e seus Quasímodos bem vestidos, dos ricos museus e galerias de arte quilométricas, dos pães carregados sob os sovacos, dos bares e cafés ocupados por jovens e intelectuais enfastiados de Montmartre, e dos cinemas de arquitetura deslumbrante.

III · a distração do motorneiro

Não havia nada mais ridículo do que um país governado por um ditador entrar numa guerra para defender as causas democráticas. Mas Getúlio Vargas era um político de mão cheia, um demagogo populista com um clube de admiradores maior do que os do Corinthians e quase tão grande como o dos detratores do coitado do Lourival Pontes.

Octavio Cariello, o autor

O ideal seria indicar em um final de semana, mas não é leitura para pouco tempo. Então, escolha o melhor momento para conhecer o romance e iniciar a leitura do mesmo.

Leia todos os capítulos já publicados clicando aqui.

Boa semana para todos!

O SUS não mata quem tem câncer

A distinção entre justiça e vingança é uma linha absolutamente tênue; principalmente quando aquele que pede justiça é alguém que sente-se diretamente afetado, quando na verdade, é indiretamente. No caso de uma morte, o principal afetado é o falecido e não aqueles que reclamam “justiça”, na base da Lei do Talião (Olho por olho, dente por dente).

Quem procura justiça costuma transformar anseios em ações concretas e há muitos exemplos por aí, de pais que criam instituições assistenciais, ou campanhas de conscientização, ou mesmo outras formas de, construtivamente, buscar sanar questões que culminaram com a perda dos filhos. Penso que é mais salutar e, prioritariamente, mais produtivo (poderia dizer cristão!) do que prosseguir no eterno jogo do rancor e do ódio.

Sem ser exclusivamente vingança, ações que pedem justiça através de atitudes pacíficas também interessam mais. Um exemplo, o recente protesto pela morte de uma mulher e sua filha; aqueles que exigiam uma punição para o causador dos atropelamentos utilizaram uma frase forte, porque verdadeira: “Não foi acidente”. E esta expressão, “acidente”, costuma ser usada pelos irresponsáveis que com ela buscam justificar atos criminosos, buscando condescendência. Batalhar para que esta expressão não seja aceita em mortes causadas por motoristas embriagados é uma ação inteligente .

As expressões verbais, faciais e gestuais de indivíduos que clamam vingança são apenas semelhantes aos que pedem justiça. A linguagem, até parece a mesma, mas… “A linguagem – escreveu Saint-Exupéry – é uma fonte de mal-entendidos”. E certas frases podem manifestar preconceitos, crenças errôneas, subentendidos absurdos.

Toda essa introdução para refletir sobre a “campanha” em algumas redes sociais, para que Lula, com câncer, não se trate em um hospital particular, mas no SUS. A princípio é uma campanha torpe. O pior é que há um subentendido tenebroso no discurso desses que insistem para que o ex=presidente procure o SUS: “Se Lula procura o SUS morrerá como todo e qualquer pobre que depende dessa instituição”.

Seria bom que essas pessoas que encaminham o ex-presidente para o SUS enfrentassem uma terrível realidade: se dinheiro e tratamento nos melhores centros hospitalares garantisse a cura contra o câncer, Steve Jobs – um dos homens mais ricos do planeta – estaria vivo. Uma outra realidade, e nesta, que a justiça seja feita, os hospitais especializados em câncer, e que atuam com recursos da União, não matam ninguém. Pelo contrário, tratam e alguns muito bem, os doentes afetados por essa terrível doença.

O que qualquer estudo sobre câncer revela é que há tipos com cura, com chances de sobrevida, e outros tipos que são fatais. O que qualquer pesquisa pode confirmar é que o preço dos remédios está associado ao poder dos grandes laboratórios mundiais, que comercializam com frieza todo e qualquer remédio, tratando-os como mero produto capitalista com objetivo de lucro.

A luta contra os grandes laboratórios está no histórico de Jose Serra (E sou grato ao político Serra por “peitar” os grandes laboratórios!) assim como outras lutas, não menos árduas, estão no histórico de Lula. Distante desses dois, no espaço e no tipo de ação, está a Dra. Elizabeth Mioko Morinaka, que atende no Hospital Dr. Hélio Angotti, em Uberaba, minha terra natal. A Doutora Elizabeth, assim como os demais funcionários desse hospital, são de competência ímpar e, muito mais que isso, dispensam tratamento atencioso e carinhoso para com os doentes lá atendidos. Acima de tudo, esses profissionais atendem ricos e pobres sem qualquer distinção e disso dou testemunho e, junto comigo, minha família, amigos e centenas de uberabenses.

Que bom que há alguém que possa buscar estabelecimentos da rede privada; isso diminui um pouco o trabalho de profissionais abnegados, honestos e íntegros de muitos hospitais da rede pública que tratam doentes com câncer. Que há problemas na rede pública, todos nós sabemos. Mas a solução não é enviar indivíduos para os hospitais públicos como se esses fossem cadafalsos; ou como se esses hospitais fossem a “mão vingadora” que vai ceifar a vida daqueles que odiamos.

Tenho a impressão que a Dra. Elizabeth Mioko Morinaka não é solitária no exemplo de bons profissionais da rede pública. Tento imaginar o que ela pensa, o que sente, ante a “vingança” da população, exigindo que Lula procure o SUS. Pelo que sei, se o ex-presidente cair nas mãos de um profissional da estirpe dessa doutora, será tratado com suavidade, respeito, carinho e, sobretudo, competência. Essa profissional luta cotidianamente buscando a vida, ou melhores condições de vida para seus pacientes. E ela atende pelo SUS.

Façam críticas ao Lula, é um direito. Sobretudo, busquem uma ação transformadora da atual situação brasileira; o que não é aceitável é confundir ação política com torpeza, ressentimento irracional. É preciso justiça para com os profissionais que salvam a vida de milhões de brasileiros, mesmo com todos os problemas que temos na administração da saúde pública. Esses profissionais merecem!

Alguém pode, nos comentários, por gentileza, citar outros bons médicos? Do SUS, de preferência. Esses profissionais também precisam de reconhecimento e gratidão. Obrigado.

Dedico este post aos profissionais e colaboradores do Hospital Dr. Hélio Angotti, de Uberaba, MG.

Flávio de Carvalho e a “Série Trágica”

Tempos de escola, nada foi tão perturbador quanto conhecer a “Série Trágica”, de Flávio de Carvalho. São nove desenhos representando a agonia e morte da mãe do artista; esses trabalhos estão na coleção do Museu de Arte Contemporânea da USP. Talvez pelas fortes sensações, ante o que o professor Percival Tirapelli nos mostrava, guardei a impressão de que os desenhos haviam sido feitos ao lado do leito de morte de D. Ophélia Crissiuma de Carvalho.

SÉRIE TRÁGICA - I - Minha mãe morrendo, 1947, MAC - USP

Os nove desenhos a carvão, exemplos de um expressionismo intenso, vigoroso, são composições derivadas de um conjunto realizado a caneta que, sim, foram compostos ao lado do leito de morte da mãe do autor. Esses trabalhos têm recebido merecidos estudos por críticos, historiadores, entre outros. Há, quase sempre, uma busca de relações com outras obras, com outros movimentos artísticos.

SÉRIE TRÁGICA - II - Carvão, 1947, MAC - USP

O dia de Finados chegando, o pensamento voltado para aqueles que se foram e foi inevitável lembrar-me da obra de Flávio de Carvalho. Em uma tarde já distante, enquanto estava ao lado do leito de meu pai, então doente, senti a necessidade de desenhá-lo, buscando fixar aquele semblante tão significativo em toda a minha vida. Também foi uma maneira de vencer o tédio, o tempo que teima em ser violentamente vagaroso quando estamos dentro de um hospital. Enquanto esboçava traços amadores, lembrei-me da “Série Trágica” e parei, imediatamente, com um terrível receio de que ocorresse um desfecho semelhante. Felizmente, meu pai saiu daquele hospital e ainda sobreviveu bastante tempo.

SÉRIE TRÁGICA - VII - Carvão, 1947, MAC - USP

Os desenhos de Flávio de Carvalho foram feitos em 1947. As bases para trabalhos desse tipo são exercícios de captação instantânea, feitos na maioria dos cursos de desenho. Gostava muito de sair pelas imediações do Instituto de Artes, então no bairro Ipiranga, para captar a paisagem, ou alguma situação observada. Não me exercitei tanto quanto gostaria e nunca me senti um desenhista. Era bom exercitar a forma expressiva, fixar o que meus olhos observavam.

SÉRIE TRÁGICA - IX - Carvão, 1947, MAC - USP

O autor da “Série Trágica”, que tem uma vasta obra na pintura, na arquitetura e em outras formas expressivas como o teatro e a literatura, fez de seus desenhos obra de arte. Quanto mais observo os trabalhos desta série mais vejo a vida indo embora, ou então, sinto-a desesperadamente preservada. O trabalho do artista não retém a vida, mas o instante em que a mãe ainda vive, o momento em que a vida se despede do corpo. Perturbador.

Flávio de Carvalho foi irreverente, transgressor. É sempre lembrado por pinturas onde a cor é, no mínimo, exuberante. A arquitetura é parte da história do engenheiro formado na Inglaterra. A originalidade de atitudes ficou definitivamente marcada pelo passeio do artista pelas ruas de São Paulo, propondo o saiote como vestimenta ideal para nosso clima tropical; e isso nos anos de 1950. Faleceu em 1973. Uma obra sobre a qual vale refletir.

 

Bom feriado!

Shows para lembrar Nelson Cavaquinho

Nelson Cavaquinho

Fossem outras as circunstâncias e eu teria escrito sobre o centenário de Nelson Cavaquinho (1911/2011), comemorado neste sábado, 29 de outubro. Trabalhos, notas, provas e uma banca de quase doze horas na universidade… E a vida é bela porque há um trabalho que termina, como no sábado, com muitos e emocionados abraços daqueles que, agora, partem para as últimas atividades antes da formatura.

Nelson Cavaquinho é merecidamente homenageado. No Rio de Janeiro está sendo lançado o disco “Carlinhos Vergueiro Interpreta Nelson Cavaquinho”. Também ocorreram shows e palestras lembrando um dos grandes mestres do samba, compositor da Mangueira, a Escola de Samba que é Verde e Rosa.

Em Mangueira

Quando morre um poeta

Todos choram

Vivo tranqüilo em Mangueira porque

Sei que alguém há de chorar quando eu morrer…

E foi assim, em 1986, quando o compositor faleceu em 18 de fevereiro. Neste 2011, a Mangueira desfilou com o enredo “O filho fiel, sempre Mangueira”, abrindo as comemorações do centenário de Nelson Cavaquinho. Agora é a vez de São Paulo lembrar com uma série de shows as músicas sombrias, o samba bonito que fala de dor e de morte, dos desencontros, dos amores perdidos. Nelson é um dos autores das músicas mais tristes do nosso cancioneiro.

Tire o seu sorriso do caminho

Que eu quero passar com a minha dor

Hoje pra você eu sou espinho

Espinho não machuca a flor…

Os shows por aqui serão no Centro Cultural Vergueiro; a série de espetáculos musicais recebeu o nome “Uma Flor para Nelson”. O primeiro será no dia 3, quinta, com Benito de Paula e Marcos Sacramento; depois, dia 4, será a vez de Ângela Ro Ro e Cida Moreira; duas intérpretes de qualidade. No sábado tem o jovem Filipe Catto e a grande estrela Zezé Motta. A série de shows termina no domingo, com a presença de Graça Braga, Verônica Ferriani e Teresa Cristina.

Músicas que não faltarão nessas noites paulistanas: “Folhas Secas”, cujas interpretações de Beth Carvalho e Elis Regina, até hoje, disputam a preferência dos admiradores do compositor; “Juízo Final”, provavelmente o maior sucesso em vendas e execuções, na interpretação definitiva de Clara Nunes e, minha preferida, “Palhaço”, que curto ouvir na voz de Dalva de Oliveira.

Sei que é doloroso um palhaço

Se afastar do palco por alguém

Volta que a platéia te reclama

Sei que choras, palhaço,

Por alguém que não te ama…

Gosto das canções tristes de Nelson Cavaquinho, da suavidade com que criou sambas deliciosos. São músicas tão boas que até me esqueço que são tristes. Sobretudo, aprecio a capacidade de síntese de Nelson e seus parceiros. Poucos versos e muita, mas muita verdade mesmo. E beleza, de músicas que sobrevirão muito além deste primeiro centenário do criador.

Os interessados nos shows poderão obter entrada franca. O Centro Cultural São Paulo informa que a retirada de ingressos é na bilheteria (terça a domingo, das 10h às 22h), somente na semana da apresentação. Ou seja, termine de ler e reserve uma hora para amanhã, terça, ir buscar o seu ingresso na Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, bem ao lado da estação do Metrô.

Boa Semana!

As músicas citadas e seus autores:

Pranto de poeta – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

A Flor e o espinho – Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito

Folhas Secas – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Juízo Final – Nelson Cavaquinho e Elcio Soares

Palhaço – Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes

Os Herculanos são minas de ouro da ficção

Ter um Herculano na ficção brasileira é um ótimo negócio. O sucesso acompanha esse nome na televisão, no teatro e até na adaptação do teatro para o cinema. Vamos aos fatos, começando pelo Herculano da hora, o da novela “O Astro”.

Herculano Quintanilha já foi um grande êxito de Francisco Cuoco e na atual versão, com o velho ator em participação especial, o Herculano de Rodrigo Lombardi está com tudo. Fez par com as belas Carolina Ferraz e Juliana Paz, além de contracenar com feras como Rosamaria Murtinho e Regina Duarte (Coitada, essa virou a assassina do momento! Só porque os caras acreditam que mudar criminoso mantém audiência…).

Rodrigo e Cuoco, os Herculanos da tv

Na abertura do capítulo final o atual Herculano fugiu da polícia transformando-se em pássaro. Uma licença poética que só novelão permite. Não sei se rolou essa cena na primeira versão; parece-me mais uma referência ao “pavão misterioso” de Dias Gomes, da novela Saramandaia. Nesta, Juca de Oliveira transformava-se em pássaro e sobrevoava a cidade. No remake que terminou nesta sexta, Herculano fugiu da polícia com um truque de mágica. Um show de efeitos especiais. Um indicador da grana investida, já que o retorno está garantido.

Continuando: A Rede Globo faturou um monte com a novela original de Janete Clair e vai continuar faturando, já que o formato atual, com número reduzido de capítulos, tem maior aceitação no mercado internacional. Herculano, embora o nome lembre a força do lendário Hercules, ta mais pra mina de ouro mesmo.

Vamos ao outro Herculano, aquele que é anunciado por Geni, na primeira fala da personagem central da peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues: “- Herculano, quem te fala é uma morta!” Com meu amigo Octavio Cariello, brincando ante as adversidades irônicas, costumamos simular um corte de pulsos com a frase de Geni, a prostituta da peça de Nelson Rodrigues.

O Herculano de Nelson Rodrigues é, com o perdão da palavra, um bundão. Um viúvo de família conservadora que jura para o único filho que não se casará novamente. Personagem mais interessante é o Patrício, irmão de Herculano e que vive nas costas deste. Para continuar na mamata, resolve apresentar uma prostituta ao irmão. O lance é fazer o cara ficar de quatro pela mulher e amolecer o cidadão para conseguir mais grana. Dá certo para Patrício, mas errado para Herculano, que acaba perdendo a Geni para o filho, que por sua vez a abandona, apaixonado por um bandido boliviano e… Coisas de Nelson Rodrigues.

Nosso maior dramaturgo sempre teve sorte com grandes atrizes interpretando suas incríveis personagens. Geni, por exemplo, foi interpretada na estréia da peça, por Cleyde Yáconis, uma de nossas melhores atrizes. Pessoalmente conheci a segunda e genial Geni, interpretada por Marlene Fortuna, na montagem dirigida por Antunes Filho. Uma momento memorável do teatro do Centro de Pesquisa do Sesc!

Provavelmente, o maior sucesso desta peça foi no cinema. Em 1973, Darlene Glória criou uma inesquecível Geni, em filme dirigido por Arnaldo Jabor. O Herculano da vez foi Paulo Porto. O filme fez grande carreira comercial e ganhou prêmios em Berlim, o Urso de Prata e, no Festival de Gramado, foi melhor filme e melhor atriz para Darlene Glória.

O cartaz internacional de divulgação do filme de sucesso.

Dos dois Herculanos, creio que melhor sorte tem aquele criado por Nelson Rodrigues. Embora bundão, pelo menos não sofrerá alterações de ocasião, como é hábito da televisão visando obter audiência. O Herculano da televisão, misto de MacGyver com Mr. M (Val Valentino), ou com David Copperfield (David Cotki). Um angu de caroço que, é o que conta para a emissora do Jardim Botânico, rendeu e renderá muita grana. Eu estou escrevendo sobre Herculano, quem sabe, né! Vai que funcione e eu comece a ganhar um bom dinheiro!

Feliz final de semana para todos!

Ser santo é complicado

Hoje é dia de São Judas. O santo das causas desesperadas e perdidas tem muito trabalho por tudo quanto é lado. É só olhar alguns itens do noticiário que teremos noção do tamanho da tarefa. E estou pensando só no Brasil! Se for pensar em todo o mundo cristão então, é complicado!

Um primeiro exemplo das dificuldades do Santo é a política brasileira; seis ministros do atual governo caíram. O mais recente foi o Ministro do Esporte. Em tempos de preparação para os futuros grandes eventos, muita coisa vai rolar envolvendo essa área. Pobre São Judas, por ter tarefa tão árdua que é livrar-nos dos males todos provocados por quem elegemos para cuidar do nosso bem. Sem contar que, pelo menos em cerimônias públicas, os políticos também amolam o Santo, pedindo coisas.

Já um outro exemplo é a situação que abala São Paulo e vem do conflito envolvendo vendedores ambulantes. A situação no Brás é difícil, pois há que se conciliar interesses distintos; de donos de lojas e de grandes proprietários, com outros, menores, mas não menos justos, de trabalhadores informais regularizados e ainda outros indivíduos, sem autorização para trabalhar. (– É, Santinho, até para trabalhar há brigas.)

E há rusgas pessoais, como das ginastas com o treinador, de Zezé de Camargo com o irmão Luciano, do Valdivia com o fotógrafo e por ai vai…

Eu é que não vou aumentar a lista de problemas para o Santo resolver. Aliás, acho mesmo que o Santo precisa da ajuda de todos os colegas canonizados para melhorar as coisas nesse nosso difícil país. Afinal o que esperar de bom quando alguém rouba questões do ENEM para favorecer alunos (Que educação é essa, meu Santinho?).

Ironia ou não, o dia do santo das causas perdidas também é o dia do funcionário público, do servidor público! Ai, eu fico imaginando de um lado o povo conversando com o Santo, reclamando da demora na fila, do excesso de gente nas repartições todas, do aumento dos impostos. No entanto, do outro lado, deve haver um piedoso servidor justificando ao Apóstolo: Apenas cumpri ordens, faltou o carimbo, não há vontade política, tem que solicitar a petição…

Tanta gente pedindo! Tantos problemas... Pobre Santinho.

Enfim, só me resta rezar pelo Santo. E pedir que rezem por ele. Que pelo menos um dia, ninguém chegue de mãos estendidas, pedindo querendo, implorando, até mesmo agradecendo (Nosso Santinho, com certeza, não se esquece de um olhar carinhoso para todo aquele que agradece! Mais trabalho!). Olhando tudo o que há no nosso cotidiano para o Santo resolver, só nos resta mesmo é pedir por Ele, não é mesmo?