O SUS não mata quem tem câncer

A distinção entre justiça e vingança é uma linha absolutamente tênue; principalmente quando aquele que pede justiça é alguém que sente-se diretamente afetado, quando na verdade, é indiretamente. No caso de uma morte, o principal afetado é o falecido e não aqueles que reclamam “justiça”, na base da Lei do Talião (Olho por olho, dente por dente).

Quem procura justiça costuma transformar anseios em ações concretas e há muitos exemplos por aí, de pais que criam instituições assistenciais, ou campanhas de conscientização, ou mesmo outras formas de, construtivamente, buscar sanar questões que culminaram com a perda dos filhos. Penso que é mais salutar e, prioritariamente, mais produtivo (poderia dizer cristão!) do que prosseguir no eterno jogo do rancor e do ódio.

Sem ser exclusivamente vingança, ações que pedem justiça através de atitudes pacíficas também interessam mais. Um exemplo, o recente protesto pela morte de uma mulher e sua filha; aqueles que exigiam uma punição para o causador dos atropelamentos utilizaram uma frase forte, porque verdadeira: “Não foi acidente”. E esta expressão, “acidente”, costuma ser usada pelos irresponsáveis que com ela buscam justificar atos criminosos, buscando condescendência. Batalhar para que esta expressão não seja aceita em mortes causadas por motoristas embriagados é uma ação inteligente .

As expressões verbais, faciais e gestuais de indivíduos que clamam vingança são apenas semelhantes aos que pedem justiça. A linguagem, até parece a mesma, mas… “A linguagem – escreveu Saint-Exupéry – é uma fonte de mal-entendidos”. E certas frases podem manifestar preconceitos, crenças errôneas, subentendidos absurdos.

Toda essa introdução para refletir sobre a “campanha” em algumas redes sociais, para que Lula, com câncer, não se trate em um hospital particular, mas no SUS. A princípio é uma campanha torpe. O pior é que há um subentendido tenebroso no discurso desses que insistem para que o ex=presidente procure o SUS: “Se Lula procura o SUS morrerá como todo e qualquer pobre que depende dessa instituição”.

Seria bom que essas pessoas que encaminham o ex-presidente para o SUS enfrentassem uma terrível realidade: se dinheiro e tratamento nos melhores centros hospitalares garantisse a cura contra o câncer, Steve Jobs – um dos homens mais ricos do planeta – estaria vivo. Uma outra realidade, e nesta, que a justiça seja feita, os hospitais especializados em câncer, e que atuam com recursos da União, não matam ninguém. Pelo contrário, tratam e alguns muito bem, os doentes afetados por essa terrível doença.

O que qualquer estudo sobre câncer revela é que há tipos com cura, com chances de sobrevida, e outros tipos que são fatais. O que qualquer pesquisa pode confirmar é que o preço dos remédios está associado ao poder dos grandes laboratórios mundiais, que comercializam com frieza todo e qualquer remédio, tratando-os como mero produto capitalista com objetivo de lucro.

A luta contra os grandes laboratórios está no histórico de Jose Serra (E sou grato ao político Serra por “peitar” os grandes laboratórios!) assim como outras lutas, não menos árduas, estão no histórico de Lula. Distante desses dois, no espaço e no tipo de ação, está a Dra. Elizabeth Mioko Morinaka, que atende no Hospital Dr. Hélio Angotti, em Uberaba, minha terra natal. A Doutora Elizabeth, assim como os demais funcionários desse hospital, são de competência ímpar e, muito mais que isso, dispensam tratamento atencioso e carinhoso para com os doentes lá atendidos. Acima de tudo, esses profissionais atendem ricos e pobres sem qualquer distinção e disso dou testemunho e, junto comigo, minha família, amigos e centenas de uberabenses.

Que bom que há alguém que possa buscar estabelecimentos da rede privada; isso diminui um pouco o trabalho de profissionais abnegados, honestos e íntegros de muitos hospitais da rede pública que tratam doentes com câncer. Que há problemas na rede pública, todos nós sabemos. Mas a solução não é enviar indivíduos para os hospitais públicos como se esses fossem cadafalsos; ou como se esses hospitais fossem a “mão vingadora” que vai ceifar a vida daqueles que odiamos.

Tenho a impressão que a Dra. Elizabeth Mioko Morinaka não é solitária no exemplo de bons profissionais da rede pública. Tento imaginar o que ela pensa, o que sente, ante a “vingança” da população, exigindo que Lula procure o SUS. Pelo que sei, se o ex-presidente cair nas mãos de um profissional da estirpe dessa doutora, será tratado com suavidade, respeito, carinho e, sobretudo, competência. Essa profissional luta cotidianamente buscando a vida, ou melhores condições de vida para seus pacientes. E ela atende pelo SUS.

Façam críticas ao Lula, é um direito. Sobretudo, busquem uma ação transformadora da atual situação brasileira; o que não é aceitável é confundir ação política com torpeza, ressentimento irracional. É preciso justiça para com os profissionais que salvam a vida de milhões de brasileiros, mesmo com todos os problemas que temos na administração da saúde pública. Esses profissionais merecem!

Alguém pode, nos comentários, por gentileza, citar outros bons médicos? Do SUS, de preferência. Esses profissionais também precisam de reconhecimento e gratidão. Obrigado.

Dedico este post aos profissionais e colaboradores do Hospital Dr. Hélio Angotti, de Uberaba, MG.

Flávio de Carvalho e a “Série Trágica”

Tempos de escola, nada foi tão perturbador quanto conhecer a “Série Trágica”, de Flávio de Carvalho. São nove desenhos representando a agonia e morte da mãe do artista; esses trabalhos estão na coleção do Museu de Arte Contemporânea da USP. Talvez pelas fortes sensações, ante o que o professor Percival Tirapelli nos mostrava, guardei a impressão de que os desenhos haviam sido feitos ao lado do leito de morte de D. Ophélia Crissiuma de Carvalho.

SÉRIE TRÁGICA - I - Minha mãe morrendo, 1947, MAC - USP

Os nove desenhos a carvão, exemplos de um expressionismo intenso, vigoroso, são composições derivadas de um conjunto realizado a caneta que, sim, foram compostos ao lado do leito de morte da mãe do autor. Esses trabalhos têm recebido merecidos estudos por críticos, historiadores, entre outros. Há, quase sempre, uma busca de relações com outras obras, com outros movimentos artísticos.

SÉRIE TRÁGICA - II - Carvão, 1947, MAC - USP

O dia de Finados chegando, o pensamento voltado para aqueles que se foram e foi inevitável lembrar-me da obra de Flávio de Carvalho. Em uma tarde já distante, enquanto estava ao lado do leito de meu pai, então doente, senti a necessidade de desenhá-lo, buscando fixar aquele semblante tão significativo em toda a minha vida. Também foi uma maneira de vencer o tédio, o tempo que teima em ser violentamente vagaroso quando estamos dentro de um hospital. Enquanto esboçava traços amadores, lembrei-me da “Série Trágica” e parei, imediatamente, com um terrível receio de que ocorresse um desfecho semelhante. Felizmente, meu pai saiu daquele hospital e ainda sobreviveu bastante tempo.

SÉRIE TRÁGICA - VII - Carvão, 1947, MAC - USP

Os desenhos de Flávio de Carvalho foram feitos em 1947. As bases para trabalhos desse tipo são exercícios de captação instantânea, feitos na maioria dos cursos de desenho. Gostava muito de sair pelas imediações do Instituto de Artes, então no bairro Ipiranga, para captar a paisagem, ou alguma situação observada. Não me exercitei tanto quanto gostaria e nunca me senti um desenhista. Era bom exercitar a forma expressiva, fixar o que meus olhos observavam.

SÉRIE TRÁGICA - IX - Carvão, 1947, MAC - USP

O autor da “Série Trágica”, que tem uma vasta obra na pintura, na arquitetura e em outras formas expressivas como o teatro e a literatura, fez de seus desenhos obra de arte. Quanto mais observo os trabalhos desta série mais vejo a vida indo embora, ou então, sinto-a desesperadamente preservada. O trabalho do artista não retém a vida, mas o instante em que a mãe ainda vive, o momento em que a vida se despede do corpo. Perturbador.

Flávio de Carvalho foi irreverente, transgressor. É sempre lembrado por pinturas onde a cor é, no mínimo, exuberante. A arquitetura é parte da história do engenheiro formado na Inglaterra. A originalidade de atitudes ficou definitivamente marcada pelo passeio do artista pelas ruas de São Paulo, propondo o saiote como vestimenta ideal para nosso clima tropical; e isso nos anos de 1950. Faleceu em 1973. Uma obra sobre a qual vale refletir.

 

Bom feriado!

Shows para lembrar Nelson Cavaquinho

Nelson Cavaquinho

Fossem outras as circunstâncias e eu teria escrito sobre o centenário de Nelson Cavaquinho (1911/2011), comemorado neste sábado, 29 de outubro. Trabalhos, notas, provas e uma banca de quase doze horas na universidade… E a vida é bela porque há um trabalho que termina, como no sábado, com muitos e emocionados abraços daqueles que, agora, partem para as últimas atividades antes da formatura.

Nelson Cavaquinho é merecidamente homenageado. No Rio de Janeiro está sendo lançado o disco “Carlinhos Vergueiro Interpreta Nelson Cavaquinho”. Também ocorreram shows e palestras lembrando um dos grandes mestres do samba, compositor da Mangueira, a Escola de Samba que é Verde e Rosa.

Em Mangueira

Quando morre um poeta

Todos choram

Vivo tranqüilo em Mangueira porque

Sei que alguém há de chorar quando eu morrer…

E foi assim, em 1986, quando o compositor faleceu em 18 de fevereiro. Neste 2011, a Mangueira desfilou com o enredo “O filho fiel, sempre Mangueira”, abrindo as comemorações do centenário de Nelson Cavaquinho. Agora é a vez de São Paulo lembrar com uma série de shows as músicas sombrias, o samba bonito que fala de dor e de morte, dos desencontros, dos amores perdidos. Nelson é um dos autores das músicas mais tristes do nosso cancioneiro.

Tire o seu sorriso do caminho

Que eu quero passar com a minha dor

Hoje pra você eu sou espinho

Espinho não machuca a flor…

Os shows por aqui serão no Centro Cultural Vergueiro; a série de espetáculos musicais recebeu o nome “Uma Flor para Nelson”. O primeiro será no dia 3, quinta, com Benito de Paula e Marcos Sacramento; depois, dia 4, será a vez de Ângela Ro Ro e Cida Moreira; duas intérpretes de qualidade. No sábado tem o jovem Filipe Catto e a grande estrela Zezé Motta. A série de shows termina no domingo, com a presença de Graça Braga, Verônica Ferriani e Teresa Cristina.

Músicas que não faltarão nessas noites paulistanas: “Folhas Secas”, cujas interpretações de Beth Carvalho e Elis Regina, até hoje, disputam a preferência dos admiradores do compositor; “Juízo Final”, provavelmente o maior sucesso em vendas e execuções, na interpretação definitiva de Clara Nunes e, minha preferida, “Palhaço”, que curto ouvir na voz de Dalva de Oliveira.

Sei que é doloroso um palhaço

Se afastar do palco por alguém

Volta que a platéia te reclama

Sei que choras, palhaço,

Por alguém que não te ama…

Gosto das canções tristes de Nelson Cavaquinho, da suavidade com que criou sambas deliciosos. São músicas tão boas que até me esqueço que são tristes. Sobretudo, aprecio a capacidade de síntese de Nelson e seus parceiros. Poucos versos e muita, mas muita verdade mesmo. E beleza, de músicas que sobrevirão muito além deste primeiro centenário do criador.

Os interessados nos shows poderão obter entrada franca. O Centro Cultural São Paulo informa que a retirada de ingressos é na bilheteria (terça a domingo, das 10h às 22h), somente na semana da apresentação. Ou seja, termine de ler e reserve uma hora para amanhã, terça, ir buscar o seu ingresso na Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, bem ao lado da estação do Metrô.

Boa Semana!

As músicas citadas e seus autores:

Pranto de poeta – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

A Flor e o espinho – Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito

Folhas Secas – Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Juízo Final – Nelson Cavaquinho e Elcio Soares

Palhaço – Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes

Os Herculanos são minas de ouro da ficção

Ter um Herculano na ficção brasileira é um ótimo negócio. O sucesso acompanha esse nome na televisão, no teatro e até na adaptação do teatro para o cinema. Vamos aos fatos, começando pelo Herculano da hora, o da novela “O Astro”.

Herculano Quintanilha já foi um grande êxito de Francisco Cuoco e na atual versão, com o velho ator em participação especial, o Herculano de Rodrigo Lombardi está com tudo. Fez par com as belas Carolina Ferraz e Juliana Paz, além de contracenar com feras como Rosamaria Murtinho e Regina Duarte (Coitada, essa virou a assassina do momento! Só porque os caras acreditam que mudar criminoso mantém audiência…).

Rodrigo e Cuoco, os Herculanos da tv

Na abertura do capítulo final o atual Herculano fugiu da polícia transformando-se em pássaro. Uma licença poética que só novelão permite. Não sei se rolou essa cena na primeira versão; parece-me mais uma referência ao “pavão misterioso” de Dias Gomes, da novela Saramandaia. Nesta, Juca de Oliveira transformava-se em pássaro e sobrevoava a cidade. No remake que terminou nesta sexta, Herculano fugiu da polícia com um truque de mágica. Um show de efeitos especiais. Um indicador da grana investida, já que o retorno está garantido.

Continuando: A Rede Globo faturou um monte com a novela original de Janete Clair e vai continuar faturando, já que o formato atual, com número reduzido de capítulos, tem maior aceitação no mercado internacional. Herculano, embora o nome lembre a força do lendário Hercules, ta mais pra mina de ouro mesmo.

Vamos ao outro Herculano, aquele que é anunciado por Geni, na primeira fala da personagem central da peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues: “- Herculano, quem te fala é uma morta!” Com meu amigo Octavio Cariello, brincando ante as adversidades irônicas, costumamos simular um corte de pulsos com a frase de Geni, a prostituta da peça de Nelson Rodrigues.

O Herculano de Nelson Rodrigues é, com o perdão da palavra, um bundão. Um viúvo de família conservadora que jura para o único filho que não se casará novamente. Personagem mais interessante é o Patrício, irmão de Herculano e que vive nas costas deste. Para continuar na mamata, resolve apresentar uma prostituta ao irmão. O lance é fazer o cara ficar de quatro pela mulher e amolecer o cidadão para conseguir mais grana. Dá certo para Patrício, mas errado para Herculano, que acaba perdendo a Geni para o filho, que por sua vez a abandona, apaixonado por um bandido boliviano e… Coisas de Nelson Rodrigues.

Nosso maior dramaturgo sempre teve sorte com grandes atrizes interpretando suas incríveis personagens. Geni, por exemplo, foi interpretada na estréia da peça, por Cleyde Yáconis, uma de nossas melhores atrizes. Pessoalmente conheci a segunda e genial Geni, interpretada por Marlene Fortuna, na montagem dirigida por Antunes Filho. Uma momento memorável do teatro do Centro de Pesquisa do Sesc!

Provavelmente, o maior sucesso desta peça foi no cinema. Em 1973, Darlene Glória criou uma inesquecível Geni, em filme dirigido por Arnaldo Jabor. O Herculano da vez foi Paulo Porto. O filme fez grande carreira comercial e ganhou prêmios em Berlim, o Urso de Prata e, no Festival de Gramado, foi melhor filme e melhor atriz para Darlene Glória.

O cartaz internacional de divulgação do filme de sucesso.

Dos dois Herculanos, creio que melhor sorte tem aquele criado por Nelson Rodrigues. Embora bundão, pelo menos não sofrerá alterações de ocasião, como é hábito da televisão visando obter audiência. O Herculano da televisão, misto de MacGyver com Mr. M (Val Valentino), ou com David Copperfield (David Cotki). Um angu de caroço que, é o que conta para a emissora do Jardim Botânico, rendeu e renderá muita grana. Eu estou escrevendo sobre Herculano, quem sabe, né! Vai que funcione e eu comece a ganhar um bom dinheiro!

Feliz final de semana para todos!

Ser santo é complicado

Hoje é dia de São Judas. O santo das causas desesperadas e perdidas tem muito trabalho por tudo quanto é lado. É só olhar alguns itens do noticiário que teremos noção do tamanho da tarefa. E estou pensando só no Brasil! Se for pensar em todo o mundo cristão então, é complicado!

Um primeiro exemplo das dificuldades do Santo é a política brasileira; seis ministros do atual governo caíram. O mais recente foi o Ministro do Esporte. Em tempos de preparação para os futuros grandes eventos, muita coisa vai rolar envolvendo essa área. Pobre São Judas, por ter tarefa tão árdua que é livrar-nos dos males todos provocados por quem elegemos para cuidar do nosso bem. Sem contar que, pelo menos em cerimônias públicas, os políticos também amolam o Santo, pedindo coisas.

Já um outro exemplo é a situação que abala São Paulo e vem do conflito envolvendo vendedores ambulantes. A situação no Brás é difícil, pois há que se conciliar interesses distintos; de donos de lojas e de grandes proprietários, com outros, menores, mas não menos justos, de trabalhadores informais regularizados e ainda outros indivíduos, sem autorização para trabalhar. (– É, Santinho, até para trabalhar há brigas.)

E há rusgas pessoais, como das ginastas com o treinador, de Zezé de Camargo com o irmão Luciano, do Valdivia com o fotógrafo e por ai vai…

Eu é que não vou aumentar a lista de problemas para o Santo resolver. Aliás, acho mesmo que o Santo precisa da ajuda de todos os colegas canonizados para melhorar as coisas nesse nosso difícil país. Afinal o que esperar de bom quando alguém rouba questões do ENEM para favorecer alunos (Que educação é essa, meu Santinho?).

Ironia ou não, o dia do santo das causas perdidas também é o dia do funcionário público, do servidor público! Ai, eu fico imaginando de um lado o povo conversando com o Santo, reclamando da demora na fila, do excesso de gente nas repartições todas, do aumento dos impostos. No entanto, do outro lado, deve haver um piedoso servidor justificando ao Apóstolo: Apenas cumpri ordens, faltou o carimbo, não há vontade política, tem que solicitar a petição…

Tanta gente pedindo! Tantos problemas... Pobre Santinho.

Enfim, só me resta rezar pelo Santo. E pedir que rezem por ele. Que pelo menos um dia, ninguém chegue de mãos estendidas, pedindo querendo, implorando, até mesmo agradecendo (Nosso Santinho, com certeza, não se esquece de um olhar carinhoso para todo aquele que agradece! Mais trabalho!). Olhando tudo o que há no nosso cotidiano para o Santo resolver, só nos resta mesmo é pedir por Ele, não é mesmo?

 

 

Teatros do Bexiga em uma caminhada

O Bexiga tem tanta história! Um levantamento afetivo, resultado de uma caminhada com objetivos. Não sei ir por aí, feito alma penada. Resolvi caminhar pelos teatros próximos da minha casa (Tenho sorte, graças a Deus!) e quem quiser o roteiro real, posso até fornecer. O roteiro afetivo começa pelo TBC, o primeiro que fotografei.

Resultado da legislação que limpou a cidade, proibindo os grandes e exagerados cartazes, outro dia percebi o quanto é bonita a arquitetura do Teatro Brasileiro de Comédia. Fundado em 1948 por Franco Zampari, foi templo de Cacilda Becker e Fernanda Montenegro. O contraste entre diferentes épocas é próprio do bairro; por isso escolhi o Teatro Ruth Escobar para figurar ao lado do TBC. A atriz e empresária Ruth Escobar levantou grana com seus patrícios portugueses para construir o local, que é um verdadeiro Centro Cultural.

Quando cheguei por aqui… bem, são os teatros da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio que marcam o período em que passei a morar em São Paulo. Era o final dos anos 70. O atual Teatro Bibi Ferreira tinha um outro nome; no jardim, recordo bem, dois cartazes enormes com fotos de Arlete Montenegro e Carlos Arena. Não vi o espetáculo. Era mais um migrante procurando emprego e tentando sobreviver na megalópole.

No Teatro Brigadeiro, que já foi Teatro Jardel Filho, no mesmo período, Paulo Autran estava em cartaz ao lado de Eva Wilma. A peça era “Pato com Laranja”. Também foi depois que vim a conhecer esses dois grandes atores. No Ágora, que já foi o Teatro do Bexiga, fiz uma entrevista com Caíque Ferreira, quando o falecido ator encenou Giovanni, um clássico de James Baldwin.

O Teatro Abril, que com o nome Paramount foi um marco da nossa televisão, especialmente os históricos programas da TV Record, conheci como cinema. Hoje, no Teatro Abril, são apresentados grandes musicais internacionais e é por esses e outros que chamam o Bexiga de Broadway brasileira.

A Broadway, ao que tudo indica, tem muito dinheiro. Por aqui, ele não sobra. Vide o Teatro Imprensa! E é a mesma crise que levou à escassez de espetáculos no Teatro Mars, onde Ulisses Cruz fez uma montagem genial de “Pantaleão e as visitadoras”. Nem tudo é crise; pelo menos houve dinheiro para reformar o Teatro Sergio Cardoso onde, atualmente, Glória Menezes está em cartaz com a peça “Ensina-me a viver”. Todavia quero registrar que foi neste teatro que vi, pela primeira vez, o Stuttgart Ballet. Inesquecível o som das sapatilhas dos bailarinos, em inusitada percussão paralela ao som vindo da orquestra.

Há outros teatros no Bairro, nas adjacências, na vizinhança. Os que estão por aqui foram registrados em uma caminhada. Sobe morro, desce morro, caminha, caminha, caminha… quem sabe o corpo entra em forma! Outras tardes de exercício físico virão e, maquininha em punho, farei outros registros. Quero finalizar este com o Teatro Oficina.

O Teatro Oficina está completando 50 anos. O diretor José Celso Martinez Corrêa é a grande figura do local. Atualmente os artistas do Oficina realizam uma “Macumba antropófaga”, continuando a histórica trajetória de resistência do Teatro. O atual trabalho é  homenagem a Oswald de Andrade e  comemora o aniversário do grupo Uzyna Uzona, responsável pelos trabalhos do Oficina.

Só para esclarecer, pois a história é longa, minha participação no teatro foi com uma peça que escrevi e dirigi, chamada “Os Pintores”, encenada por um grupo de operários de Santo André, no ABC Paulista. Foi uma única apresentação. Para nós, naquele momento, uma grande vitória. Fazendo o caminho inverso, sentimo-nos Bandeirantes invadindo a cidade.

Até sexta!

Maria Bethânia Guerreira Guerrilha

Será neste mês o relançamento do livro de poesia de Reynaldo Jardim

A menina Maria Bethânia nasceu sob o signo da canção; inspirado na música “Maria Bethânia”, um grande sucesso  de Nelson Gonçalves,  o irmão Caetano Veloso, então menino, escolheu esse para nome da irmã caçula e fez dela a sempre “senhora do engenho”, mais tarde dita “Abelha Rainha”, e a única entre as cantoras brasileiras que Roberto Carlos, sempre Rei, denominou “Minha Rainha”.

A cantora Maria Bethânia surgiu para o Brasil em grande estilo, fazendo um mega sucesso e tornando-se musa de poetas, compositores e, entre variadas categorias de admiradores, intelectuais e ativistas políticos. Foi cantada em verso e prosa. É interessante ressaltar e relembrar esse passado, feito de muito talento, alguma sorte e pura garra, de uma intérprete que não dependeu de ações de marketing, do apoio de gravadora nenhuma. Maria Bethânia explodiu no cenário da música brasileira e nele brilha até hoje.

Neste nosso mundo de simulacros, de falsos ídolos – pois criados para consumo imediato por uma máquina que anseia sempre por novos produtos – é bom ter como comprovar o que se diz sobre uma artista do quilate de Maria Bethânia. Em 1965 ela surgiu no show “Opinião” substituindo Nara Leão, que se afastou por estar doente. Nara atuava ao lado de João do Vale e de Zé Keti, no show dirigido por Augusto Boal.

O show Opinião é um marco como oposição ao regime militar, imposto por um golpe em março de 1964. O espetáculo estreou em dezembro,  e no ano seguinte surgiu a figura juvenil de Maria Bethânia. Todos os grandes artistas do período reverenciam esse momento. Mas um documento é impar. O livro “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, do poeta Reynaldo Jardim, que finalmente está sendo relançado.

O livro sumiu do mapa, tornado raro após ser proibido. Melhor maneira de contar a história do livro é deixar falar o próprio autor. Veja o vídeo em que Reynaldo Jardim faz um emocionado relato do surgimento da obra e que acabou tornando-se a derradeira declaração pública de amor do poeta pela cantora. Reynaldo Jardim faleceu em fevereiro deste 2011. Vejam o vídeo sobre o livro:

E para finalizar, uma imagem, com um exemplo do que está no livro. Pura poesia.