Desejo de Regresso

(Entre vidas e sonhos, a ilusão do renascer, o desejo de reviver. E a vida que penso e quero é a que expressa o verso alheio tomado emprestado nesse exercício para retornar).

eu aviao

Deixai-me nascer de novo,

nunca mais em terra estranha,

mas no meio do meu povo,

com meu céu, minha montanha,

meu mar e minha família.

E que na minha memória

fique esta vida bem viva,

para contar minha história…

Porque há doçura e beleza

na amargura atravessada,

e eu quero a memoria acesa

depois da angústia apagada.

Cecilia Meireles in ‘Melhores Poemas’

Poema

(Manhãs nubladas sob infinito céu azul. Irreversível,
inesquecível. Entre cimento e asfalto, mantenho a poesia
alheia nesse exercício para retornar).

ceu azul

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Mario Quintana in ‘Antologia Poética”.

Lusitânia no Bairro Latino

(Terra encantada… Sempre longe, nunca saí de lá.
Agora,novamente, navego na poesia alheia nesse
exercício para retornar).

igreja de santa rita

…Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
Ó campanário, ó Luas-cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que segas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando…
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de julho,poentes minerais,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?

Antônio Nobre in ‘Poesia Simbolista / Literatura Portuguesa’

Cantiga

(Comigo me desavim… e fiquei longe, aqui mesmo.
Agora,lentamente, utilizo a poesia alheia nesse
exercício para retornar)

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Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assim crescesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda, in ‘Poesia Clássica / literatura portuguesa’

Avigrama Para Vinícius

Vinícius-de-Moraes

“Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi: 
Não sei”.

Tive a ilusão de sermos um

A origem sendo não mais que geografia.

No entanto quem, quantos somos?

E quanta diferença há entre nós!

Reconhecendo lutas separatistas,

– São só interesses financeiros!

Não mensurava a própria ingenuidade.

“Tenho-te no entanto em mim como um gemido 
De flor”;

 Vejo-te árvore imensa que abastece,

Propicia sombra reflorescendo sempre.

Sinto-nos frutos similares,

Em todas as fases desses

Às vezes amargos, outras vezes doces,

E desprendidos de seus galhos

Voltamos à terra e renascemos

Filhos da mesma árvore,

Componentes da mesma floresta

Habitando serrado ou caatinga

Redivivos em restingas, pantanais.

 “Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta 
Lábaro não; a minha pátria é desolação “

Durmo pensando-te pátria amada,

A patriazinha do poeta

Que sabia não seres mãe gentil.

Receio ainda manter a ingenuidade…

Sobretudo, por ter aprendido a amar-te,

Insisto na esperança

Acredito no amanhecer límpido

Abrindo caminhos retos

Levando-nos a porto seguro.

Sonho, um dia, o país Brasil.

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Valdo Resende, 30/05/2018

No meio da rua

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Exilado na multidão

sou silêncio e segredo, e venho

quando os outros vão.

(Lêdo Ivo)

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Um haicai quando na rua de ferro da Água Branca.

Até mais!

O Pensamento

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O ar. A folha. A fuga.

No lago, um círculo vago.

No rosto, uma ruga.

(Guilherme de Almeida)

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Primeiro haicai de dezembro.

Até mais!